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terça-feira, 3 de julho de 2018

E agora vamos lá falar de coisas sérias. Muito sérias.



"KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO

Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta. O que concluí é absolutamente kafkiano.
Ora atentem:

- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.


- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.

- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos comentários).

- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados. Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.

- No seu estilo tão típico, o Trump assinou uma executive order para pôr fim à separação de famílias. Ou seja, é um herói porque vem resolver o problema que ele mesmo criou. O mais provável, segundo as ONG no terreno, é que essa executive order permita a detenção conjunta de pais e filhos enquanto os pais aguardam julgamento. O que é bom porque, uma vez que essa prática é ilegal, isso dá a quem está no terreno um ato jurídico concreto para atacar. E continua a colocar-se o problema da reunião familiar: não há nenhum sistema no terreno para o fazer. É inacreditável mas é mesmo verdade: os EUA separaram estas famílias sem terem um plano sobre como as reunir novamente. As ONG no terreno relatam que às vezes conseguem localizar as crianças porque os processos de entrada no país têm números sequenciais aos dos pais. Mas nem sempre. As crianças estão já espalhadas pelos EUA e ninguém sabe muito bem onde. Ou seja, isto está longe de estar resolvido e a batalha jurídica destas famílias está longe de ter acabado! Além de tudo isto, têm ainda pela frente a batalha pelo estatuto de refugiados.


- Não, o decreto executivo do Trump não resolve absolutamente nada. Significa, "na melhor das hipóteses", que as famílias passam a poder ficar detidas em conjunto indefinidamente, enquanto os pais aguardam julgamento penal e enquanto não são ouvidos por um juiz de imigração sobre o seu pedido de asilo. Não sei bem em que mundo paralelo isto pode ser uma boa notícia...

- O motivo pelo qual as famílias estavam a ser separadas na fronteira é o chamado Flores Settlement, que determina que um menor não pode ser detido em instalações destinadas à detenção de adultos por mais de 20 dias. Este acordo contém toda uma série de proteções para os menores detidos pelas autoridades de imigração que a administração Trump quer assim fazer cair. Estamos a falar da proibição de estes partilharem quarto e casa de banho com adultos que não conhecem, da obrigação de terem acesso a cuidados médicos dignos, entre muitas outras normas de proteção. Revogar isto não é solução para nada! Não se deixem iludir pela propaganda do Trump! As ONG no terreno vão certamente litigar contra isto.

- Acresce que este decreto executivo só vale para o futuro, ou seja, impede novas separações familiares. Quanto àquelas que já aconteceram, nada se prevê quanto à reunião familiar. Aliás, nem se sabe bem como fazê-lo em termos práticos porque, muito simplesmente, está o caos instalado e ninguém sabe bem onde estão as crianças. A maior parte dos pais e das mães desconhece o seu paradeiro. Para aqueles que se apresentaram num posto fronteiriço e pediram asilo, sendo depois detidos por entrarem ilegalmente no território (sim, isso mesmo que leram!), geralmente os processos de asilo dos pais e dos filhos têm números sequenciais e por isso as ONGs no terreno conseguem localizar as crianças de forma mais ou menos simples. Para aqueles que foram detidos já em território americano e só depois separados, sabe Deus!

- Tudo isto para dizer que nada está resolvido, que a batalha jurídica destas famílias e das demais que venham a ser detidas em conjunto vai durar meses ou anos e que não podemos desmobilizar. Estar atento, estar informado, contribuir na medida das nossas possibilidades para ajudar quem está no terreno a lutar contra a barbárie -- é esta a nossa "to do list"!

- O nosso interesse e contributo continuam a fazer todo o sentido! Não desmobilizar até que TODAS as crianças estejam de volta aos braços dos pais!

Aqui fica o link para ajudarmos estas famílias: 

Da minha amiga Inês Melo Sampaio Antunes que trabalha no Tribunal de Justiça Europeu 

quarta-feira, 7 de março de 2018

LinkedOut? Eu explico

A luta contra as desigualdades será sempre a minha luta. 

Cerca de 10% da população, isto é, cerca de 650 milhões de pessoas, vivem com uma deficiência, constituindo a maior minoria do mundo. Na maioria dos países da OCDE a incidência da deficiência é mais elevada entre as mulheres do que entre os homens, constituindo uma dupla vulnerabilidade desta população, logo, alvo de múltipla discriminação.
Cerca de 386 milhões de pessoas em idade activa são deficientes, segundo a OIT, sendo que, o desemprego atinge, em média, 80% desta população, devido à crença dos empregadores de que uma deficiência implica uma incapacidade para o trabalho. Por esta razão, as pessoas com deficiência continuam a estar sub-representadas no mercado de trabalho.

A falta de recursos económicos é um dos problemas que mais afecta esta população, sendo que o ciclo de pobreza dificilmente é interrompido, devido à grande inexistência de rendimentos de trabalho, da dependência de subsídios estatais e da solidariedade das suas famílias. Aempregabilidade é o pilar base deste problema.

Trabalhei mais de 10 anos em gestão de recursos humanos, a maioria dos quais a gerir departamentos de grandes empresas e multinacionais. 

Quando regressei às origens e vim psicologizar para a ASBIHP tinha a certeza de que, um dia, este know how acumulado em desenvolvimento de pessoas e em gestão de carreiras iria servir para alguma coisa positiva no âmbito da associação. 


A ideia tem mais ou menos um ano. 

Surgiu de um brainstorming entre mim e a minha amiga Joana num almoço regado a sangria numa esplanada virada para o mar. Da ideia à concepção passou muito tempo: o preciso para fazermos o levantamento de pessoas que se enquadrassem, tirarmos os retratos, firmarmos protocolos, batermos à porta de empresas, conseguirmos financiamento para a construção do site e construirmo-lo, fazer o mapeamento de competências, de interesses e de motivações, carregar informação. 

O Linkedout é a primeira plataforma online que funciona como portfolio digital de candidatos com deficiência mas em que a abordagem está centrada na competência técnica e nos skills das pessoas enquanto pessoas e não na deficiência e na sempre associada "disability" que não retira um grama de mérito e de direito à igualdade de oportunidades no acesso ao emprego como um direito e,simultaneamente, um dever mas, sobretudo, enquanto uma forma de vivenciar uma cidadania plena. 

LinkedOut porque o que une o conjunto de participantes nesta plataforma é o facto de, à partida, o acesso a estarem LinkedIn estar condicionado pelo facto de terem uma deficiência. Foi por isso que os fotografámos sem cadeiras de rodas, canadianas, talas ou ajudas técnicas: não porque as queiramos esconder mas porque queremos que as pessoas sejam vistas como mais do que as suas deficiências. Como cidadãos plenos de direitos e deveres que são. 
Linkedout aqui: https://linkedout.pt/

[Se quiserem saber mais, participarem das mais diferentes formas, seja como candidatos, empresas a recrutar, voluntários de competências ou mecenas just call my name!]

[Um special thanks à Joana Freitas que esteve na concepção deste projecto e à Ana De São João que acompanhou toda gestação e parto.

À Mónica Lice que deu um twist fashion ao projecto: o sempre comovido obrigada.

À Patrícia Freixo do BNP Paribas e ao Miguel Ferreira da Fujitsu que chegaram até mim por serem leitores deste blog, o agradecimento quadripolar: sem sentir que vocês acreditam e sem o vosso incentivo nada disto teria sido possível: fico a dever-vos mil! ]


domingo, 21 de janeiro de 2018

#nannyboicote ou a sociedade civil somos todos nós



Apesar de uma semana de trabalho ímpar o assunto não me saiu da cabeça por um minuto: ora porque pessoas me abordavam na rua a falar sobre o post que escrevi sobre o assunto e que teve um alcance único na história deste blog, ou porque outras técnicos com quem trabalho quiseram trazer à luz a discussão à volta de mesas de trabalho, de refeição e de café, ou porque inúmeros leitores me enviaram os seus comentários, mensagens, e-mails, troca de argumentos nos comentários das minhas redes sociais, enfim.

Foi criada uma petição por pessoas que percebem da poda, foi emitido parecer pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), foi feita denúncia à ERC pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC), a Unicef pronunciou-se , o Ministério Público está a analisar todas as possibilidades legais de intervenção, a Entidade Reguladora para a Comunicação Socia-  ERC confirma (mas não tomou, até agora, nenhuma posição) a entrada de participações/preocupações subscritas por diferentes cidadãos visando o programa “Supernanny” emitido na SIC,  a CPCJ da área de actuação da família participante no primeiro episódio, em articulação com o Ministério Público, ordenou à SIC que retirasse do ar as imagens do primeiro episódio nacional, alguns especialistas reconhecidos da praça deram o seu parecer público e, ainda assim, parece que nada travará a emissora de emitir na noite de hoje o segundo episódio do programa. 

Quanto a mim, fiz - também- tudo o que estava ao meu alcance: assinei petições, fiz denúncias à ERC, ao Ministério Público, exposição à CNPDPCJ, usei a visibilidade que este blog tem para expôr argumentos. Aparentemente, tudo o que está ao meu alcance. 

Ontem, falava com o meu marido sobre esta frustração de veres que uma coisa está tão errada, activares todos os meios legais, racionais e objectivos para travar a perpetuação do erro e daí não sair nenhuma pérola. "Se houver um acidente de auto-estrada grave, não podes fazer muito para impedir que haja o acidente, que o sangue esteja exposto aos olhos de quem passa, podes não conseguir que se cortem as duas vias da auto-estrada porque isso maça a vida das pessoas e tal e a maioria até se está a borrifar para quem está ali de entranhas expostas, mas podes escolher não ver, podes escolher fazer marcha-atrás e ir por uma estrada nacional, desimpedindo o trânsito, fazendo a tua parte, protegendo a tua filha de olhar pela janela do banco traseiro, avisar os teus amigos que seguem nos carros atrás para fazerem, também, eles inversão de marcha: podes fazer a tua micro-parte!"

Assim farei. E assim apelo a que todos os que acreditam veementemente o façam. Avanço com duas propostas

1- Enviar um email ou comentário de protesto à patrocinadora: a marca Corine de Farme. Não consigo encontrar no site a missão da marca mas acredito que terá, certamente, que ver com proteger crianças, cuidar delas e das suas necessidades, priorizá-las e fazê-las felizes. Mas consigo encontrar a equipa que pode ter alguma palavra na estratégia de marketing da marca, que pode ser decisora, que pode recuar no apoio financeiro à transmissão dos próximos episódios e, por isso, pôr cobro a isto. 
O contacto de email da Corine de Farme é corinedefarme.geral@sarbec.pt  e o facebook da marca  é este. Just do it!

2- Hoje, à hora do programa, todos os que se quiserem juntar a um boicote colectivo publicarem nas suas redes sociais uma fotografia da sua televisão sintonizada noutro canal, de si mesmos a fazerem programas alternativos (ler um livro, fazer um bolo, contar uma história aos filhos antes de dormir, ver um filme noutro canal), ou seja,  vale tudo menos assistir ao programa, vale tudo para mostrar que nós não, nós não quereemos ver acidentes de auto-estrada na televisão generalista usando o hashtag #nannyboicote. 

Percebo que haja uma certa atracção para a desgraça, uma coisa meio irracional e sádica, por outro lado uma necessidade de pertença para amanhã podermos participar nas conversas de café, dar o nosso bitaite. Mas- infelizmente e à custa da Margarida- já sabemos ao que vamos e já sabemos que não queremos ir. 

É que sem audiências, a sociedade civil é capaz de ser mais soberana que todas as outras entidades. 

E- caramba!- a sociedade civil somos todos nós.



sábado, 20 de janeiro de 2018

Imagine que está de férias no Cazaquistão...

Sente-se mal, muito mal.
No hotel chamam um táxi que o leva até ao hospital.
No hospital você quer explicar porque se sente tão mal.
 Explica em português e respondem-lhe em cazaque.


 Imagine, agora, que você é surdo(a).
Vive em Portugal.
Sente-se mal, muito mal.
Consegue chegar ao hospital e é como se estivesse no Cazaquistão.
Explica porque se sente tão mal.
Ninguém percebe.




quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

#metoo



Não vamos cá de modas:  eu também já estive do outro lado da barricada, defendendo e argumentando que não havia pachorra para a histeriazinha colectiva do politicamente correcto do feminismo.

Depois, deixei de comer gelados com a testa, que é como quem diz provi-me de algum bom senso, pesquisei, fui ler quem percebe da poda, pesquisei artigos sociológicos, assisti a tedTalks, li livros e colunas de opinião, perguntei,  contrapus e rodeei-me de pessoas mais informadas e esclarecidas que eu na matéria, quis conhecer de perto os seus argumentos e motivações e aprendi.

Aprendi que a minha filha não tem que viver numa cultura paternalista em que perguntam ao pai dela (nunca à mãe), assim que anunciámos o seu sexo, ainda na barriga, um "então, já compraste a caçadeira? " como se à Ana estivesse a aguardar um destino de fragilidade e indefesa, de dependência da figura paternal masculina para a defender; em que perpetuam essa ideia quando a "elogiam" com um "ui, com esses olhos e essa carinha vais dar muitas dores de cabeça ao teu pai" como se a beleza fosse uma sentença, como se a beleza fosse um karma de  "ai meus Deus, coitado do teu pai que vai ter que lidar com os impulsos descontrolados e não refreados dos homens que não vão resistir a mandar-te piropos, a tentarem apalpar-te no recreio da escola, a tentarem engatar-te, a mandar-te bocas parvas e piadas sofríveis, que triste sina a tua, a de seres objecto de desejo passivo e indefeso, ainda bem que tens pai, mas coitado, que triste sina a de ser pai de uma rapariga, o trabalho que vai ter contigo...".

Aprendi que a minha filha não tem que levar com os comentários do "esgrima? Mas tu és tão feminina e não praticas um desporto de meninas?";  que não tem que receber diariamente como principal elogio um "és tão bonita, Ana!" invés de "és tão esperta! és tão valente! és tão generosa! és tão corajosa! és tão divertida! és tão rápida a correr""; que "as meninas não se sentam de pernas abertas", que "as meninas não dizem asneiras", que "as meninas não", "as meninas não", repetidamente, "as meninas não" ( e "as meninas não" o caralhinho, tá?); que não tem que ouvir "mulher no volante, perigo constante" quando tirar a carta de condução e achar isso normal; que não tem que mamar com a puta de "a conversa já chegou à cozinha?" sempre que decidir opinar sobre um assunto no meios dos homens, mesmo que a brincar, mesmo que por piada histórica, "mesmo que" (metam estas brincadeiras no olho do cu a fazer caretas!); que não tem que crescer a aceitar que lhe ponham a mão à volta da cintura enquanto lhe abrem a porta tocando-lhe no corpo sem autorização sob o pretexto do cavalheirismo; que não tem que pensar no que deve vestir quando sair à rua sozinha: que não tem que se sentir lisonjeada quando desperta as "atenções masculinas" pelas formas do seu corpo; que não tem que ouvir piropos nojentos e ordinários e calar-se porque "mulher séria não tem ouvidos";  que não tem que ouvir "deve ter subido na horizontal" quando conseguir uma promoção no posto de trabalho; que não tem que ganhar um salário mais baixo que os homens que desempenham a sua categoria profissional só porque nasceu com um pipi; que não deveria ter acesso a cargos de liderança em empresas públicas "por favor" e via cotas ao invés de apenas por competência provada; que não tem que ler nas notícias que uma mulher foi violada porque saiu de mini-saia à noite e embebedou-se e que por isso "estava mesmo a  pedi-las"; que se lhe apetecer viver a sua sexualidade como bem lhe entender não tem que ser chamada de puta;  que não tem que abrir o jornal e todos os dias ler notícias de violência doméstica contra as mulheres; que não tem que se achar com "sorte" porque o homem que escolher para compartilhar a vida a "ajuda" nas tarefas domésticas, como se a agente principal das tarefas domésticas fosse ela por inerência e ele apenas "coadjuvante"; que se se insurgir face a qualquer coisa não tem que ser apelidada de "mal fodida".

Aprendi que a minha filha não tem que viver num Mundo onde "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher", que ela não tem que ficar atrás de ninguém, lado a lado é que se fazem as grandes lutas, muitas vezes sozinha, à frente, em frente, na dianteira; que não tem que ouvir "estás histérica ou quê? estás com o período?" quando estiver irritada/indignada/farta; que não tem que assistir a alguém a dirigir-se ao seu parceiro com um "eh lá, a tua mulher é brava, já estou a ver que é ela quem veste as calças lá em casa"; que não tem que ser refém da cultura do corpo perfeito ou do que quer que seja perfeito; que não tem que adiar a maternidade se quiser ter sucesso profissional ou apenas manter o emprego; que não tem que achar normal aquilo que mulheres ao longo de séculos (eu também) fomos ensinadas a normalizar. 

Aprendi que "mulher séria" tem ouvidos. E mãos. E coração. E cabeça para pensar. E voz. 

Agora é a minha vez de ensinar isto à minha filha. Todos os dias da minha vida.

Até que não seja preciso ninguém defender publicamente o seu direito a ter voz. 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Estão a pensar engravidar? Este post é para vocês!




Assinala-se, durante esta semana e a nível Mundial, a semana de consciencialização para a importância do ácido fólico. 

Três em cada quatro malformações congénitas do tubo neural podem evitar-se com um suplemento farmacológico de folatos antes de engravidar (3 a 6 meses antes) e durante os primeiros 3 meses de gravidez (o tubo neural começa a formar-se cerca do 20º dia de gestação). O suplemento de ácido fólico está indicado para todas as mulheres que desejem engravidar e a maioria das mulheres que já engravidou tomando-o reconhece-o com as designações comercial de "Folicil" ou "Folifer", 

 O folato, também denominado como ácido fólico, é um tipo de vitamina B. O ácido fólico encontra-se nos vegetais de folha verde, citrinos, legumes e cereais em grão integral, no entanto, a maioria destes alimentos perde as suas propriedades assim que cozinhado, razão pela qual a introdução da sua forma farmacológica na dieta da futura mãe é a forma mais segura de garantir a sua eficácia.  



sábado, 23 de dezembro de 2017

Natal





No Verão disse-lhe para pensar em memórias bonitas quando tudo lhe parecesse confuso e triste no novo lar de acolhimento para onde a tinham acabado de transferir: "Pensa no Natal, por exemplo!" - atirei  para o ar, arrependendo-me logo de seguida. 

Falou-me dos Natais antes de ser retirada à família, do álcool e das facas, dos gritos e da violência.

Pediu-me que lhe falasse dos meus Natais. Falei-lhe dos meus avós vivos, dos espectáculos caseiros improvisados por mim e pela minha prima, da minha mãe com bandoletes natalícias e a quem cabe sempre a distribuição dos presentes, dos mexidos e da aletria, da Ana. Oh, da alegria da Ana. 

 Deu uma gargalhada: "quando estiver triste vou-me lembrar é dos teus Natais". 

Telefonei à coordenadora do lar a semana passada. Que ninguém a iria buscar, os pais não queriam, para as irmãs "não valia a pena" a viagem para a ir buscar à instituição . 

"Sabe, ela percebeu e disse " na verdade eu não sou de ninguém: ninguém me quer!" 

Que as memórias do meu Natal sejam agora as suas. Verdadeiramente as suas. 

Nós queremos-te

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Era mesmo isto que eu queria



Depois de três dias intensivos, acabámos de ensinar um procedimento clínico a uma menina de 6 anos. No fim, a mãe sem jeito convidou-nos para uma cachupa de dia de Reis e despediu-se: “Deus vos abençoe!” 

Comprei vernizes pirosos para a C., institucionalizada desde sempre e que passa o Natal com os colegas no lar de acolhimento. Quando lá fomos entregar abraçou-me com muita força, abraçou a enfermeira com muita força e disse-me: “no dia 26 é o dia de todos aqui ligarem para as famílias: posso ligar para ti e para o Rui?!” Nó na garganta.

Seguimos para outra instituição onde tínhamos como missão entregar o mp3 e os phones dados pela minha amiga Mafalda ao Z, e o tablet oferecido pela minha amiga Teresa ao X,. Quando nos viram sorrisos grandes do mais desconfiado, abraços abruptos do mais dócil. O X. andava com um tablet velho que entretanto lhe tinham dado. Quando viu o nosso entrou numa espiral. “Queres dar o velho a outro menino aqui do lar?” Que não. Que queria dar ao irmão biológico, a viver noutro lar, que eu intercedesse por ele junto da tutora, que deixasse essa certeza garantida: “ele não tem e ele é O meu irmão.” Fechámos. Grande sorriso, grande abraço. 

Z. rasgou os três embrulhos e gritou “era mesmo isto que eu queria!” Colocou os phones nos ouvidos e desatou a dançar, com o seu andar claudicante, alegria em êxtase. O X.. volta; “podes voltar a embrulhar o presente que me trouxeste? Vou passar o Natal a casa e lá não tenho nada para abrir, assim abria-o outra vez!”. 

Saímos, exaustas, cansadas, ainda tristes com vidas tão diferentes das que gostaríamos que cada um tivesse, tão frustradas com um papel tão pequeno que é o nosso. 

Em casa recordo o abraço e a promessa do telefonema da C., a generosidade do X. com o irmão quando sou interrompida por uma mensagem da mãe de uma família que acompanhamos e que vive num abrigo: “boas festas para si. Que Deus a abençoe”. 

De volta, a memória da mãe da menina a quem ensinámos o procedimento clínico e a quem soaram as mesmas palavras.

 Deus já nos abençoou.  “Era mesmo isto que eu queria”- o Z.. é quem tem razão. 

 Era mesmo isto que eu queria.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Entretanto, no Mundo real


Cerca de 10% da população, isto é, cerca de 650 milhões de pessoas, vive com uma deficiência, constituindo a maior minoria do mundo. 

Na maioria dos países da OCDE a incidência da deficiência é mais elevada entre as mulheres do que entre os homens, constituindo uma dupla vulnerabilidade desta população, logo, alvo de múltipla discriminação. 

Cerca de 386 milhões de pessoas em idade activa são deficientes, segundo a OIT, sendo que, o desemprego atinge, em média, 80% desta população, devido à crença dos empregadores de que uma deficiência implica uma incapacidade para o trabalho. 

Por esta razão, as pessoas com deficiência continuam a estar sub-representadas no mercado de trabalho. 

A falta de recursos económicos é um dos problemas que mais afecta esta população, sendo que o ciclo de pobreza dificilmente é interrompido, devido à grande inexistência de rendimentos de trabalho, da dependência de subsídios estatais e da solidariedade das suas famílias. A empregabilidade é o pilar base deste problema.

Estas questões fazem parte do meu trabalho de todos os dias, aquele que me faz levantar e fazer-me à vida. Todos os dias, envio emails e propostas, marco presença em reuniões e o diabo a quatro para  apresentar candidatos com deficiência a potenciais empregadores, na expectativa que tenham a oportunidade que lhes é negada todos os dias. Um dia, devagarinho, um dia, desejo, muito, será o dia de todos. 

O BNP Paribas fechou connosco um programa de formação em posto de trabalho que vai já no seu segundo ciclo e com uma taxa de sucesso de 100% até ao momento (os candidatos que participaram no primeiro ciclo do projecto encontram-se empregados). É pouco mas são baby steps. 

As duas candidatas para o segundo ciclo precisavam de um incentivo extra. Faltava a parte exterior, o embrulho, o que se vê do lado de fora.


E embarquei num dia duríssimo em que fiquei a respeitar o trabalho de assessoria de imagem (é preciso paciência, resiliência, braços para carregar sacos e cabides e ouvidos para escutar emoções. É preciso disponibilidade física e mental e foi preciso a Mónica para me mostrar isto e deitar abaixo todos os meus preconceitos). Tenho sorte em ter a Mónica como amiga e dela ter disponibilidade para ouvir todas as minhas ideias- mesmo as que pareçam estapafúrdias- e de se juntar a mim com o seu know how e network.

Sou psicóloga: trato das imagens interiores, das questões do bem estar, das emoções. Com a Sofia e a Cláudia fiz um trabalho de delineação dos seus projectos de vida individuais, de escuta-activa, de envolvimento das suas redes de suporte e de um compromisso conjunto para concretizar os planos a médio-prazo para cada uma delas, tratámos das questões motivacionais e tive por detrás todo o apoio da equips espectacular com quem trabalho (uma equipa de assistente social, terapeuta ocupacional, enfermeira e fisioterapeuta porque it also takes a village to see people raise).

Mas foi a minha amiga que deu o twist que faltava. Obrigada Mónica Lice: sem ti nunca seria possível. Gosto muito, mas muito, de ti!


E a magia? A magia aconteceu assim.




[Obrigada C&A, O Boticário e Maria Lourenço Cabeleireiros: foram inexcedíveis e de uma generosidade ímpar! Sois os maiores!]

[Obrigada Kat V pelo registo fotográfico e Tiago Namorado Gil pelo vídeo mas, especialmente, pela paciência, pelo dia inteiro de trabalho que nos dedicaram e pela imensa generosidade: fico a dever-vos mil!]

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Bem sei que esta coisa da crise dos refugiados já não é assunto da ordem do dia

... mas este vídeo, feito em Portugal, por uma equipa que conheço e admiro, numa instituição* acabada de ser criada e em que aposto todas as minhas fichas, fez-me ficar com um nó na garganta durante todo o dia .

 

Obrigada nós pela lição, Mustafa. Obrigada nós!


[*Conheçam o The Lisbon Project em primeira mão aqui.]

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Tatuagens inclusivas ou quem feio não ama, bonito lhe aparece

Ao longo destes anos a trabalhar com pessoas com deficiência motora temo-nos deparado com algumas questões que, sendo secundárias, não deixam de ter uma importância tremenda na vida destas pessoas. 
As ajudas técnicas consistem em materiais que facilitam a reabilitação física e/ou social de pessoas com deficiência. No caso dos meus fregueses são botas ortopédicas, aparelhos, talas, canadianas e cadeiras de rodas manuais e eléctricas.
Sendo equipamento que tem uma função de funcionalidade, a maioria dos protésicos, profissionais e empresas que os cria não está sensibilizada para olhar para este material do ponto de vista estético, até porque essa visão nem sequer está nunca nos horizontes. 
No entanto, muitas pessoas com deficiência motora usam todos os dias, durante grande parte da sua vida, na sua rotina do dia-a-dia e de forma visível e pública, próteses, talas e este tipo de material que consideram tão feio quanto útil. que usam com conformismo e resignação e nunca com sentido estético e vaidade. Não é suposto. As pessoas com deficiência costumam resignar-se à descrição para não suscitarem mais atenção nem olhares, comentários nem burburinho. 
É triste mas é assim. 
No entanto, se a maioria de nós ostenta roupas bonitas que nos fazem sentir mais confiantes e felizes, que interferem com o nosso estado de humor, porque não proporcionar esta experiência a quem tem que usar todos os dias estes adereços? Porque não dar um sentido estético ao que, até agora, tinha que ser apenas funcional?
Da ideia à concretização foi um ápice porque tenho amigos tão destrambelhados e loucos quanto eu e quando eu digo "mata!", já eles estão alegremente a "esfolar" forte e feio. 
E assim que falei com a minha amiga Tânia Catclaw (para quem não conhece eu explico: a melhor e mais talentosa tatuadora de Portugal em geral e do Mundo em particular) ela disse na hora "arranca!" e trouxe com ela o pessoal da Big Boys Tattoo- Bex, Jota, Hugo e restantes cujo nome não consegui decorar- e num instante planeámos o regabofe (carregar nos links em cima dos nomes deles e likem tudo o que eles merecem, ok?!)
O melhor disto tudo? O convívio? Vê-los trabalhar? Apreciar a interacção entre tatuadores e participantes? Também. 
















Mas o melhor de tudo- o melhor mesmo!-  foi ver a atitude com que os participantes passaram a ostentar as suas ortóteses, agora símbolos de poder e beleza, estética e auto-estima. De visibilidade com segurança e orgulho.










Obrigada Tânia & muchachos! Mil milhões de obrigadas!




Sigam o trabalho da Tânia aqui

Sigam o trabalho do Hugo aqui

Sigam o trabalho do Bex aqui

Sigam o trabalho do Jota aqui

Sigam o trabalho de tooooooda a equipa da Big Boys Tatoo aqui

sexta-feira, 14 de julho de 2017

"Tem cuidado com o que desejas", já dizia o outro senhor

Foto de Liliana (Pólo Norte) Caridade.
Créditos da imagem: Tânia Catclaw




Há dias escrevi num post os meus desejos de pré aniversario.

Entre eles um, em jeito de delirio:" Arranjar um tatuador que alinhe pro-bono naquela ideia maluca de tatuar próteses ortopédicas. "

Nao arranjei um. Arranjei cinco.

Melhor ainda? Todos comandados pela minha amiga Tânia Catclaw que é só a melhor tatuadora de Portugal em geral e do Mundo em particular.

Dia 23 de Agosto acontecerá um mega evento solidário maravilhoso e estes cinco violinos do estúdio Big Boys Tatoo encherão de beleza e cores a vida dos meus fregueses.

Mámen disse " tu és poderosa nos teus desejos: pede o Euromilhoes!"

Respondi que não preciso: tenho amigos.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Magia em 3 # A crise não chegou à solidariedade

                            


Todos os anos por esta altura temos que planear o campo de treino da associação onde trabalho. É sempre uma altura inglória na medida em que o nosso financiador não comparticipa a totalidade das vagas e nos deparamos, ano após ano, com o dilema de ou termos que priorizar inscrições e seleccionar participantes ou temos que angariar verbas para pagar as vagas remanescentes e que não são financiadas. 
Recuso-me- porque de facto tenho sido uma sortuda e as pessoas que me rodeiam permitem-me dar-me ao luxo de o fazer- a dizer que x merece mais ir que y, quando para 95% destas pessoas este é o ponto alto do seu ano, a altura pela qual sonho o resto dos meses, a oportunidade de estarem entre pares, de serem "normais" entre "iguais", de viverem como deveriam viver todos os dias da suas vidas: acompanhados, compreendidos, apoiados e- especialmente!- incentivados.
Este ano pensei abordar as organizões e as empresas, tentando poupar as pessoas singulares a quem massacro volta e não volta.
Assim fiz: pedi contactos, recuperei nomes e emails de directores de recursos humanos do tempo em que também o fui, saquei dicas dos meus amigos e leitores deste blogue e disparei email para todo o lado e mais um par de botas. Talvez por culpa da minha ansiedade as respostas tardavam a vir (na verdade ainda não chegaram mesmo!) e eu comações e empresas através das suas políticas de responsabilidade social, tentando poupar os meus amigos que, ano após anos, são chamados por mim a ajudar e que nunca me falham.
Comecei a desesperar. Os meus amigos começaram a ver-me hiperventilar e a pedir-me que me deixasse de merdas e que os cravasse à cara podre, como faço todos os anos. Dei o corpo às balas.

sábado, 1 de julho de 2017

Contra a discriminação marchar, marchar

           

Esta Campanha promovida pela EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza, em parceria com a Secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, tem como objetivo procurar influenciar positivamente a imagem social sobre as comunidades ciganas na sociedade maioritária, tendo como destinatários a sociedade em geral, as próprias comunidades ciganas e os profissionais de várias áreas de intervenção social.

Para que nenhuma criança veja condicionada à nascença a sua capacidade de sonhar e de um dia ser exactamente o que quiser vir a ser.
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