Nem sonhava eu que havia de estar grávida e irritava-me solenemente aquele ar de grávida sofrida que têm as grávidas. Mão no rim, mão na barriga, ar condoído e aquele semblante de desgraçada eram tudo coisas que me irritavam solenemente. Então se toda a gente dizia que gravidez não era doença para quê aquele ar de diva das mulheres prenhas? Para quê? Querem é atenção, é o que é.´
Depois eram as recém-mamãs tão histéricazinhas a ver se os bebés respiram enquanto dormem, com a ajuda de um espelho. E que, sofridas, nunca mais pregaram olho com sonos profundos, Marias Madalenas, sempre numa aflição, sempre em sobressalto, sempre numa ralação. Ai, os bebés vão tomar vacinas e as mães choram mais que eles, lágrimas a sério, really? São vacinas, senhoras, é para o bem deles, deixem-se de salamaleiques!
Depois fui mãe e engoli, letrinha a letrinha, palavra a palavra, frase a frase, pensamento crítico a pensamento crítico tudo o que formulei acerca desta matéria.
Já grávida, doíam-me os rins, acariciava a barriga, achava-me o centro do Universo, tinha um ar desgraçado que dava dó. Gravidez não é doença mas no meu caso até foi. Claro, eu era a excepção, todas as outras eram só parvas, maricas, pieguinhas e tontas.
Depois pari e passei a primeira noite a velar a Ana a dormir com medo que ela se engasgasse, desse um pum, sufocasse, morresse de morte súbita e todo um cenário de preocupações materno-histéricas, e culpei as hormonas. Eu não era aquela mãe que eu criticava desde sempre e escondi os espelhos de bolso cá de casa. As vacinas eram o suplício e para me conter e não ficar mais chorosa que ela afastava-me e respirava fundo, "eu não sou dessas mães", repetia vezes sem conta.
A verdade é que sou. Gosto da minha filha da mesma forma que "ninguém gosta mais dos filhos do que eu gosto da minha" que todas as outras mães. Sou aflita, histérica, coração nas mãos, e ralada como todas as outras tontas que eu criticava, minha mãe e avó incluídas.
Neste dia da grávida uma única certeza: somos sempre mães mais lúcidas com os filhos dos outros! E que o melhor é sempre o que(m) vem depois. E a lucidez que se foda.











