Sempre usei cabelo comprido. I mean: sempre. Nunca me lembro de ter usado cabelo curto, aliás, houve dois momentos: um no fim da faculdade e outro quando me separei, estava o meu avô doente e achou que estava pavorosa. E quando digo "cabelo curto" refiro-me ao comprimento da melena sempre abaixo da linha dos ombros. Também houve um episódio triste em que, antes de engravidar, fui com a minha melhor amiga ao cabeleireiro fazer franja e, à custa de um remoínho que quis desprezar e que tenho desde que nasci, fiquei com uma espécie de palmeira plantada na mona até a miúda nascer.
Tirando isto sou muito conservadora no que toca ao meu cabelo: já experimentei ser ruiva e não gostei e acho que com cabelo castanho fico mortiça e sem salero, de forma que acabo sempre loira. E, obviamente, com o cabelo comprido. Um tédio, bem sei.
Em 2018 ano tive aquele ano do caraças que já aqui falei e com as prioridades todas alinhadas com a questão clínica caguei um bocado nas coisas mundanas, entre as quais as idas ao cabeleireiro. Ora, o meu cabelo cresce a uma velocidade vertiginosa a modos que, nas fotografias de Roma, agora em Janeiro, constatei que parecia uma sócia da Sandália Moreira de forma a que, na última sexta, arranquei cheia de coragem e fui ter como meu cabeleireiro.
Mal entrei no atelier o estupor Bruno estava a atender uma outra cliente de tesoura na mão. Disse boa tarde, alegremente, ainda de casaco vestido e mala na mão e queixei-me do comprimento do cabelo dizendo à toa qualquer coisa como "desta vez podes cortar o que quiseres, que isto está uma miséria!". Depois aconteceu tudo muito rápido: ele disse-me qualquer coisa como "vira-te lá para ver quanto é preciso cortar!", eu virei-me na posição de pé em que estava desde que chegara há 50 segundos e ele avança um "olha, tens que cortar mais ou menos isto!" e quando me virei para ver o gesto da medida que era necessário cortar, o que vi foi o carrasco da Maria Antonieta, com quase 60 cm de cabelo nas mãos que não percebi, de imediato, que eram os meus.
A seguir ia desfalecendo. Literalmente.
A Ana, mámen e a minha mãe que estavam a estacionar quando me deixaram à porta do atelier há 2 minutos entraram no dito cujo e eu estava de cabelo curto. Curtinho. Um bob ou lá que porra vem a ser esta. A minha mãe nunca me tinha visto de cabelo curto e a Ana ficou com os olhos muito, muito arregalados. Mámen começou a rir-se mas acho que era dos nervos.
O resto já se sabe. Têm sido dias difíceis: ora porque vislumbro o meu reflexo nas montras e não identifico de imediato que sou eu,ou porque ponho um litro de shampoo para lavar o cabelo e fico com dois terços de litro por usar, ou porque não tenho pontas onde pôr o amaciador porque as pontas são o que me resta de cabelo ou porque sinto, pela primeira vez na vida, frio no pescoço e é estranho ou porque não me sinto mesmo eu.
O meu cabelo nunca alinhou em modas: é mesmo uma questão de identidade. E sinto-me diferente-menos eu- com o cabelo curto. Apesar da maioria das pessoas achar que pareço mais miúda, sinto-me mais adulta (faz sentido, uma vez que uso cabelo comprido desde pequena e prolonga de forma contínua essa sensação de infantilidade). E,apesar de não precisar porque isto penteia-se em três escovadelas e está sempre com bom ar, uso muito mais o secador e a escova alisadora porque é tudo muito rápido e fácil. E uso mais brincos para ver se encho um bocadinho este espaço que ficou por preencher sobre os ombros. E maquilho-me mais, não sei porquê, ou porque me sinto mais adulta ou porque a cara está menos escondida e precisa de um toque de cor.
Os dias passam e ainda estou numa capilar-nostalgia, um hair blues, uma coisa parva. Tenham paciência e partilhem comigo que também se sentem assim para não me sentir tão solitária e drama queen.
A modos que é isto: sansona.
É assim que- por enquanto- estou.




















