segunda-feira, 6 de maio de 2013
Dia da mãe. Dia da filha.
Pela primeira vez fui mãe neste dia. Filha já o sou há muitos dias destes repetidos, anos seguidos. Tínhamos programado ir a Palmela, lanchar na cafetaria nova que por lá abriu, dar um pulo à Lançada e acabar num fim de tarde no Portinho da Arrábida.
De manhã liguei para a minha mãe (o almoço era com ela). Estava doente e a sentir-se mal. A minha mãe nunca se queixa e, quando me disse que nem vontade de fumar tinha, fiquei verdadeiramente preocupada.
Passei a tarde de sol em casa a fazer-lhe companhia e a esperar que ficasse melhor. A Ana não apanhou sol de maresia mas andou de triciclo no quintal da avó. A noite não teve vista para o Portinho mas estávamos todos nas urgências naquele que é o espírito de uma família: unidade e união.
A minha mãe está com uma piolenefrite- coitadinha!- e eu agradeço-lhe ter-me educado de forma a saber lidar bem com os imprevistos, os planos furados, o replanificação. A saber gerir bem a frustração e a pensar de forma macro.
Se foi o dia que eu tinha planeado? Não, de todo. Mas hoje, com a minha mãe doente, ainda que de nenhuma doença grave (só chata e dolorosa!) tive certeza que, onde quer que seja, este dia só deverá ter como única premissa ser passado com a minha mãe e a minha filha.
Porque o amor e a doença não escolhem dias especiais. Estivemos juntas e, ainda assim, sobretudo assim, o dia foi das três. Nosso.
domingo, 5 de maio de 2013
sábado, 4 de maio de 2013
Ser mãe é fácil
Durante aqueles primeiros meses depois da Ana ter nascido estava completamente anestesiada de amor. Só queria velar pela minha bebé, tratar dela, pegar-lhe ao colo, fotografá-la, contemplá-la a dormir, descobri-la acordada, decorar cada milímetro do seu rosto.
Quem não tem filhos perceberá se eu explicar da seguinte forma: fixem-se no dia em que se apaixonaram por alguém e nos dias que se seguiram. Sonhavam com a pessoa acordada, o coração batia arritmicamente de cada vez que estavam juntos, construiam guiões sobre como seria o primeiro beijo, a primeira vez, arrepiavam-se quando se sentavam mais perto e sentiam o calor do corpo do outro ali ao lado. É mais ou menos assim. Mas elevado a um expoente máximo.
A paixão não nos dá tréguas porque aquele ser minúsculo é nosso, nosso sem medo de o perdermos porque nunca deixará de ser nosso mas, ao mesmo tempo, com um medo inqualificável de o perdemos e que algo de mal lhe aconteça. Aquele bebé é nosso para sempre, noite e dia, e o pensamento passa a ser dele num estado de alerta e de vigia permanente. Aqui não se sonha, não se projecta do maravilhoso que vai ser: aqui vive-se e assiste-se, dia-a-dia, numa sucessão de descobertas e momentos únicos em catadupa. Aqui as peles não se arrepiam, reconhecem-se. E os olhos não se fecham quando os beijamos, porque os beijamos mais do que com os lábios, com o corpo, o instinto, a alma, o amor que não se consegue medir. Aqui não se imagina como irá ser, aqui age-se para que tudo o que lhes desejamos possa vir a acontecer.
Ser mãe da Ana é o papel mais fácil que eu já desempenhei. E é o mais fácil porque vem de dentro, é intrínseco, como se no meu adn viesse essa habilidade: a competência inata de ser mãe, mãe não de um bebé qualquer, mas da Ana. E ser mãe é fácil porque não intelectualizo muito, limito-me a ser. Não se trata de fazer, de pensar, de calcular, de meter mãos à obra, de executar. Trata-se de ser. Só isso, existir.
E depois dos primeiros meses a certeza de que não é um sonho, é a realidade, a vida e é para sempre. O respirar fundo, o tomar consciência de que serei mais feliz para sempre. Com mais responsabilidades (não obrigações) e receios (não medos) mas, desmesuradamente mais completa, mais feliz.
Não sei onde estava esta parte de mim antes da minha filha nascer, escondida de certo- a velhaca!- ter-me-ia poupado tantas agruras se me tivesse batido à porta da vida mais cedo. Não sei onde estava o meu eu-mãe antes da Ana nascer mas quero acreditar que estava a amadurecer, a fermentar, a crescer até estar pronto para preencher a minha vida desta forma, tão natural e única, tão corriqueira e especial.
Por isso, quando me perguntam se ser mãe é difícil, não tenho outra resposta que não esta: ser mãe é extraordinariamente fácil, difícil é ser tudo o resto.
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Mãegyver
Crónicas do baptizado: o braço da avó, o ar verde do tio e o mau tempo no canal
A minha mãe, respectivo namorado e filho deste bem como a minha amiga Rosa voaram para o Faial. No Verão, a travessia Faial-São Jorge demora 45 minutos. Vêem-se golfinhos no canal, na maioria das vezes. É um regalo para os olhos.
Desta feita a minha mãe sabia que enfrentaria uma viagem de duas horas no canal, com duas paragens no Pico, antes de chegar a Las Velas. Tudo o que vos vou contar de seguida é da responsabilidade da minha amiga Rosa, que estava incumbida de me contar os pormenores mais macabros da viagem para aqui os registar. Nunca imaginámos é que fossem tantos pormenores. E tão macabros.
A minha mãe iniciou a viagem cheia de moral. Como era véspera do baptizado ia já penteadinha do Faial, linda e fresca. Começou a viagem a dizer que não costumava enjoar e que a viagem ia passar num instante, a tentar animar o resto da trupe.
Relembro que os voos das minhas amigas tinham sido, nesse dia, todos cancelados. Devido ao mau tempo.
A minha trupe achou que o mau tempo era só no ar, só pode. Quando a minha mãe encheu o primeiro saco de vómito, olhou para a minha amiga Rosa e, sem querer dar parte fraca, afirmou: "epá, já enchi um", com gargalhadas. O bom humor passou-lhe, depois do quarto saco cheio.
As ondas estavam bravas e perceberam, finalmente, porque é que o Nemésio deu o título "Mau tempo no canal" à porra do livro. De repente, com os nervos, começou a doer a barriga à minha mãe e urgia ir à casa de banho. Estavam na parte de trás do barco e o homenzinho anão que andava por lá a dar assistência (isto é, a distribuir sacos de vómito como quem parte cartas de um baralho e as dá numa mesa de jogo do casino) alertou-a para evitar sair de onde estava. Todavia, entre acontecer uma tragédia escatológica e vomitar pela 24242 vez, a minha mãe arriscou. Erro crasso, a meio do caminho em direcção à casa de banho caiu. E andou aos solavancos no barco. O filho do namorado dela- que a adora!- correu a ajudá-la. Caiu com ela e juntou-se aos trambolhões. Nisto, o homenzinho anão também quis ajudar. Também ficou a focinhar no chão. A minha amiga Rosa, narradora desta história, conta que ela e o namorado da minha mãe permaneceram imóveis. Primeiro divertidos com a cena a que assistiam, depois assustados mas conscientes que se se levantassem eram mais dois elementos para o malhanço colectivo a bordo.
Quando mámen foi buscar a trupe do Faial ao cais, permaneceu 5 minutos à espera. Os suficientes para se chegar à minha beira que nem um pintainho ensopado. Trazia a reboque o meu mano pálido, verde, a coxear. O namorada da minha mãe com um ar de quem tudo lhe passou ao lado, como se nada fosse. A minha amiga Rosa com uma praia na cabeça, fruta da visita ao vulcão dos Capelinhos no Faial e da água das ondas que salpicaram o barco. A minha mãe, coitadinha, vinha pálida. De asa ao peito.
Imaginam como estava o cabelo, meticulosamente penteado para o baptizado da neta, no dia seguinte?
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Crónicas de um baptizado
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Pólo Norte loves Miguel
"Ninguém tem pena das pessoas felizes.
Os Portugueses adoram ter angústias, inseguranças, dúvidas existenciais dilacerantes, porque é isso que funciona na nossa sociedade.
As pessoas com problemas são sempre mais interessantes. Nós, os tontos, não temos interesse nenhum porque somos felizes. Somos felizes, somos tontaços, não podemos ter graça nem salvação. Muitos felizardos (a própria palavra tem um soar repelente, rimador de «javardo») vêem-se obrigados a fingir a dor que deveras não sentem, só para poderem «brincar» com os outros meninos.
É assim. Chega um infeliz ao pé de nós e diz que não sabe se há-de ir beber uma cerveja ou matar-se. E pergunta, depois de ter feito o inventário das tristezas das últimas 24 horas: «E tu? Sempre bem disposto, não?». O que é que se pode responder? Apetece mentir e dizer que nos morreu uma avó, que nos atraiçoou uma namorada, que nos atropelaram a cadelinha ali na estrada de Sines.
E, no entanto, as pessoas felizes também sofrem muito. Sofrem, sobretudo, de «culpa». Se elas estão felizes, rodeadas de pessoas tristes, é lógico que pensem que há ali qualquer coisa que não bate certo. As infelizes acusam sempre os felizes de terem a culpa. É como a polícia que vai à procura de quem roubou as jóias e chega à taberna e prende o meliante com ar mais bem disposto.
Em Portugal, se alguém se mostra feliz é logo suspeito de tudo e mais alguma coisa. «Julgas que é por acaso que aquele marmanjo anda tão bem disposto?», diz o espertalhão para outro macambúzio. É normal andar muito em baixo, mas há gato se alguém andar nem que seja só um bocadinho «em cima». Pensam logo que é «em cima» de alguém.
Ser feliz no meio de muita gente infeliz é como ser muito rico no meio de um bairro-de-lata. Só sabe bem a quem for perverso.
Infelizmente, a felicidade não é contagiosa. A alegria, sim, e a boa disposição, talvez, mas a felicidade, jamais.
Porque a felicidade não pode ser partilhada, não pode ser explicada, não tem propriamente razão.
Não se pode rir em Portugal sem que pensem que se está a rir de alguém ou de qualquer coisa. Um sorriso que se sorria a uma pessoa desconhecida, só para desabafar, é imediatamente mal interpretado. Em Portugal, as pessoas felizes sofrem de ser confundidas com as pessoas contentes."
Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas
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The Polo's next top blogger
Crónicas do baptizado: as madrinhas, as malas perdidas e o adiamento da coisa
Quarta-feira. Liga-me a minha amiga Catarina. A greve na SATA continuava e a TAP, sem qualquer pré-aviso, juntava-se solidariamente à greve da companhia açoriana. Esclarecimento para quem não sabe: só estas duas companhias voam para os Açores, sendo que a SATA detém o monopólio dos voos inter-ilhas, pelo que, é a única a voar para São Jorge. Mantive-me calma, a acreditar que a TAP recuaria até que a minha amiga Rosa me confirmou o mesmo e me informou, também, do seu atraso e chegada apenas na sexta-feira, véspera do baptizado.
Respirei fundo, contei até mil e passei o telemóvel a mámen para que fosse ele a ouvir o que já esperávamos: a minha amiga Catarina, uma das madrinhas da Ana, tinha vindo de Bissau para o baptizado mas tinha usado milhas acumuladas da TAP para adquirir o seu bilhete para os Açores a um preço mais simpático. Ora, a cancelar voos por onde começou a TAP a desmarcar? Precisamente pelas pessoas que compraram bilhetes com milhas.
A alternativa que apresentavam à Catarina era para a segunda seguinte ou, na melhor das hipóteses, para sábado de manhã, destino Faial. Ora, o problema é que no sábado de manhã- dia do baptizado- não havia ligação de barco entre o Faial e São Jorge a tempo útil da madrinha chegar ao baptizado.
Comecei a perceber porque é que mámen é assim tão calmo e usa expressões como "O mar é já ali" e "O que não tem remédio, remediado está!"
Eu, que não sou uma pessoa de remoer problemas mas sim de procurar soluções, pensei logo numa alternativa: a minha amiga Xana vinha do Luxemburgo e podia ser madrinha da Ana. Ufa, problema resolvido e sem grandes consequências pois ser a Catarina ou a Xana era mais ou menos a mesma coisa, pois são ambas as minhas melhores amigas.
Ligo para o padre e aviso-o para alterar o nome de uma das madrinhas no papel que tínhamos preenchido nessa manhã.
Nisto começa a chover torrencialmente. E a fazer um vento dos diabos. E chega um primo de mámen a dizer que, ainda com a greve na SATA, estavam previstos voos de serviços mínimos e que, nesse dia, até esses estavam cancelados devidos ao mau tempo. Optimista que sou acreditei que era uma coisa circunstancial e que, sexta-feira, dia em que chegaria a maior parte dos nossos amigos e já sem greve, não seria o tempo a estragar a festa. Como estava enganada.
Sexta-feira estive a manhã toda ao telemóvel e no facebook a receber actualizações dos meus amigos. Xana (madrinha de reserva) e Prezado em São Miguel. Minha prima (a outra madrinha oficial) e minha amiga Cláudia na Terceira. Mãe, namorado da mãe, mano e amiga Rosa no Faial. Basicamente, as minhas pessoas estavam espalhadas por todas as ilhas dos Açores, excepto na ilha onde deviam estar, em São Jorge.
Começou a dar-se a tragédia. Primeiro a minha prima e a Cláudia viram o voo de ligação entre Terceira e São Jorge ser cancelado. Uma absolutamente histérica, a chorar, a praguejar e a agarrar nos colarinhos (literalmente) do senhor da SATA que, calmamente, as avisava que não havia previsão de reposição dos voos. A outra cheia de dores nas costas e apática, a levar com a histeria da minha prima, a recalcar o stress. Estava montado o circo.
Mámen liga para um contacto na SATA da Terceira. resposta: "Ah, tu é que és o xpto contra quem as duas meninas alteradas praguejam no balcão das reclamações da SATA? Já ninguém as pode aturar, já ponderámos enviá-las num foguete, pá!"
Ligo para a trupe em São Miguel. Xana e Prezado também com voos cancelados. Nesta altura só pensava na Xana, grávida do mesmo número de semanas com que eu pari a Ana, e na incapacidade do Prezado a ajudar a parir, caso se desse um parto prematuro, que eu já estava por tudo e era só mesmo o que faltava acontecer.
À tarde as malas dos meus tios ainda não tinham chegado (por conseguinte, nem o vestido da Ana) e o comércio local em Las Velas é de bradar aos céus. Fomos aos Chineses e eu e a minha tia começámos a rir que nem maluquinhas: não havia uma porra que se aproveitasse, nem para a miúda nem para a minha tia ou o meu tio, que também precisavam de um plano B para as suas próprias indumentarias.
Pensei no espírito da coisa: eu não queria um baptizado campestre? Vestiria a Ana com um vestidinho que trazia na mala com florinhas e pronto, ficaríamos as duas em modo primaveril, lindas e fofas. Mais uma vez caí na realidade: ainda era precoce levar a miúda para concursos de vestidos molhados, tendo em conta o temporal que se estava a vivenciar. Nisto toca o telefone: a SATA tinha trazido as malas dos meus tios de barco do Faial. Yes!
Malas todas molhadas assim que chegámos a casa e eu deixei de intelectualizar. Na sala ao lado mámen confirmava, agarrado ao telemóvel, que os nossos amigos da Terceira e de São Miguel não chegariam sábado atempadamente. Restava-nos adiar o baptizado.
E agora, o que faria eu com as 83 medalhinhas de ouro que os convidados já tinham mandado entregar lá a casa como prenda de baptizado da Ana?
E porque raios se lembraram eles de gravar a data do baptizado nas putas das medalhas?
E desta forma a Ana, de agora em diante chamada de Ana Zé das Medalhas, ficou de uma assentada só sem madrinha Catarina, com um vestido outrora encharcado a secar no varão da banheira, com medalhas de outro gravadas com uma data que nunca o chegou a ser e, claro, com o anúncio do adiamento do seu baptizado a ser anunciado de uma vez só na Rádio Lumena-"A Voz de São Jorge".
Porque se fosse eu a anunciar por telefone, chamada a chamada, às quase 70 pessoas, com os palavrões que diria, não haveria padre católico que me baptizasse a miúda.
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Crónicas de um baptizado
Depois do "Todos por um" em Lisboa, as gentes do Norte vão faltar à chamada ao Porto?
«O
Rodrigo é um menino de 3 anos que tem leucemia mieloide aguda.
Depois de muitos tratamentos, encontra-se em casa à espera de uma
solução em qualquer parte do mundo...»
Foi assim que
terminou a possibilidade do IPO dar resposta ao caso do Rodrigo. O
seu corpo resistiu à quimioterapia e não existe nada que os
protocolos possam fazer mais. Nem existe um dador compatível. Quando
a notícia foi tornada pública, um grupo de bloggers em Lisboa
acionou um movimento de solidariedade: Todos por Um. Ocorreu no
passado dia 20 de Abril e, em tempo record, foi conseguida ajuda
monetária para o Rodrigo poder partir em busca da sua cura, bem como
a inscrição de mais 301 possíveis dadores de medula. Mas esta onda
não se ficou pela capital e também o Porto se quis juntar ao que se
tornou uma festa de generosidade e altruísmo.
Rapidamente
se uniram esforços – o tempo é o maior inimigo do Rodrigo – e
teremos, portanto, o Todos por Um – Porto. Decorrerá dia 5
de Maio,
aproveitando o simbolismo do Dia da Mãe, essa que para o Rodrigo é
um pilar, uma guerreira. Na Casa
do Vizinho (na
Rua Costa Cabral, 929, 4200-225 Porto) irá acontecer algo ímpar,
contando com a participação de imensas pessoas com os seus talentos
e disponibilidade. Haverá workshops
de artesanato e decoração de bolos, de culinária, uma tertúlia,
venda de artigos diversos e muita animação para
que o Rodrigo tenha a possibilidade de encontrar a sua vida onde ela
estiver.
Estará
igualmente presente o CEDACE, para que todos os que tenham essa
possibilidade, doem
sangue e se tornem potenciais dadores de medula óssea. O
evento vai decorrer durante todo o dia, no entanto, o CEDACE so
estará presente entre as 9 e as 13h.
Todo o
apoio é importante, inclusive a divulgação.
Obrigada
por toda a ajuda que puderem dar!
Haverá
melhor dia que o Dia da Mãe para salvarmos um filho?
Todos
por Um - Porto . Aqui.
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Causas quadripolares
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Crónicas de um baptizado: os tios
Segunda-feira chegariam os meus tios. Sim, o uso do verbo no condicional diz tudo: chegariam. Greve da SATA obrigou-os a ficar retidos em São Miguel um dia. Mas um dia muito especial: o dia em que o nevoeiro estava de tal forma que estiveram sempre à coca para ver se avistavam o D. Sebastião. Montado num carro de rallye, claro está.
No dia seguinte, lá chegaram ao Aeroporto Internacional de São Jorge. Primeiro dia, de três, de greve anunciada na SATA e, ainda assim, os meus tios chegaram, Uau! Estava tudo a correr lindamente!
No entanto, chegaram sem bagagem, que ainda tinha ficado em São Miguel. Ou em Lisboa.Ou no meio do oceano Atlântico. Ninguém sabia bem ao certo. E também não havia forma de saber que a adesão à greve foi de tal forma que ninguém respondia às chamadas telefónicas da assistente de terra de São Jorge. A mesma que, naquela altura, já ouvia o meu tio gritar "quero uma indemnização de cinco mil euros" e que, sem nunca perder a compostura, adiantava: "Os senhores agora vão para casa, lá para sexta- se tudo correr bem- depois da greve acabar, entregamos as malas na morada que indicaram, ok?".
A esta altura o meu tio já se tinha calado porque a minha tia entrara em histeria: era ela que trazia o vestido de baptizado da Ana e demais apetrechos. Na mala perdida. E o baptizado seria sábado, pelo que, na pior das hipóteses a miúda podia não ter vestido de baptizado. Oh, fuck SATA!
Eu e mámen- sempre calmos, juro!- decidimos cravar o carro velho do meu cunhado para dar uma volta a uma ponta da ilha com os meus tios, naquela de desanuviamos. Claro que o meu sogro se colou, usando argumentos racionais para com o filho como "as placas tectónicas mudaram a orientação da ilha e tu já não conheces nada!", ao que o filho cedeu para não ter que o ouvir.
Não satisfeito, decidiu ser ele a tomar o comando do carro e conduzir. Já disse como o meu sogro é uma pessoa concentrada e focada, não já?
O destino era o Farol de Rosais
e o caminho, depois de muita chuva, não está propriamente como se vê nesta fotografia. Chegados à parte Nordeste da ilha, o meu tio que ia no lugar do pendura, usualmente muito falador e extrovertido, começa a ficar muito calado. A minha tia agarra-se à pega com força e o meu sogro continua a sua condução maravilhosa ignorando indirectas como "Nós não roubámos nada para irmos a esta velocidade" ou "90 Km/hora é uma velocidade boazinha na auto-estrada mas não no meio de estradas cheias de calhaus". Deixem-me rectificar: o meu sogro não só ignorava as nossas súplicas como acrescentava dados importantes da ilha como "estão a ver estes coelhos que se atravessam à nossa frente aqui na estrada? É uma epidemia aqui na ilha, Eu quando quero fazer um coelhinho à caçador não os caço com chumbo mas sim com umas panadas com o carro que assim ficam mais saborosos e não sabem a chumbo!".
Et voilá, nesta fase estávamos já todos no mais profundo silêncio, apenas interrompido quando o carro começou a fumegar mais ou menos entre lado nenhum e fim do Mundo. O meu sogro começa a praguejar, mámen a gritar com ele para o impedir de abrir o reservatório de água de dentro do capot e não levar com uma rajada de água a ferver na tromba, o meu tio ainda não tinha apagado um cigarro e já estava a acender outro, a minha tia em apoplexia por verificar que não tínhamos rede de telemóvel naquele lado da ilha e eu aos gritos a gritar "SOCOOOOORRRROOO!" feita maluquinha, pois não se avistava vivalma num raio de 2535387 pastos no horizonte.
Uma hora depois o carro arrefeceu e voltámos à carga de volta às Velas, terra de mámen, e de agora em diante designada por "Las Velas". O meu tio estava pálido e sugeriu que fossemos atestar o depósito, para evitar mais incidentes. Assim o fizemos.
Já mais aliviados, estamos a dar uma voltinha final à vila quando o carro pára. Desta vez sem fumo, sem nada. Pára, simplesmente. Os meus tios estavam desfigurados. Não era suposto esta voltinha ser para desanuviar? Pois então.
Capot aberto pela trigésima vez, mámen e tio já sem cigarros no maço, tia com olhar vago meio esquizóide e ninguém sabia o que tinha o carro desta vez. Olho para trás e vejo um rasto de líquido azul pelas ruas de Las Velas. Tanto solavanco e calhaus a baterem na parte de baixo do bólide tinham feito um tubo qualquer rebentar e era gasolina por toda a parte. 40 euros de gasolina, para ser mais precisa.
Eu e minha tia fomos para casa ver Las Velas quase a arder. Quase, porque antes os homens acabaram o dia a empurrar o machibombo ruas acima, chuvinha na tola, enquanto os bombeiros, de mangueira em riste, impediam a catástrofe primeira do baptizado da Ana.
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