Ontem foi um dia mau. O início de Junho é sempre mau para mim, sou má de Junho, já um dia escrevi aqui.
Junho traz o ar fresco do fim da Primavera, as andorinhas nos beirais, as ervas azedas que povoam as memórias da minha infância no caminho para a escola, os breves dias dos jacarandás em flor.
Junho traz os dias a espreguiçarem-de, lentos e demorados, as noites mais estreladas e o chilrear dos pássaros nas árvores, Junho traz a reboque o Verão do sol, da praia, do mar salgado, dos lábios enrugados por não se querer sair do mar.
Junho não devia ser um mês em que se morre. Ninguém deveria morrer na Primavera.
Talvez não faça sentido o que aqui escrevo mas ontem, como desde que soube do caso do Rodrigo, eu confundi-me com a Vanessa, de repente, eu sou a mãe da Ana, do Rodrigo, mãe de todas as crianças que precisam de ajuda, eu sou humana, pessoa, igual a todos os que sofrem, responsável por estender a mão ao próximo que, afinal, também sou eu.
Eu fui, muitas noites em silêncio, a Vanessa em pensamento, a imaginar a sua dor, o seu medo, o pânico da iminência de se perder o ganho que era suposto a vida nos dar para sempre. Um filho não é para morrer. "Parto" é substantivo, nestas coisas da maternidade. "Parto" não pode ser uma forma verbal no que diz respeito a um filho, sujeito que nunca deveria ser neste verbo.
Eu fui, muitas noites, em silêncio, a Vanessa, sem mámen, sozinha com dois filhos, vinte e poucos anos, mãe coragem, mãe real, a quem nada mais resta senão lutar pelos filhos sob todas as circunstâncias. Mãe que é mãe.
Eu fui a Vanessa, e antes de ser mãe nunca o conseguiria ter sido, a dor nunca poderia ser imaginada sob este prisma tão próximo e tão real. E perguntam-me, muitas vezes, se me morreu alguém de cancro, de leucemia, porque raios me envolvo nestas causas que têem que ver com esta doença e respondo que não. E relembro que sou mãe e que o que mais temo é a aleatoriedade desta doença, o "pimponeta pitapita pitucha" com que escolhe as vítimas e que, uma vez a Ana cá fora, preciso de sentir que todos juntos podemos não dar tréguas a este cancro, idiota e nojento, podemos tentar combatê-lo, lutar contra ele, para os filhos dos outros que, nestes casos, passam a ser tão proximamente nossos, afinal.
E uns dizem-me egoísta porque só despertei para a causa agora que sou mãe. Que antes já havia cancro e que, só depois da Ana, é que acordei para a vida. Que "preciso" de ajudar porque agora sou mãe, como se quisesse meter na conta de Deus as coisas boas que tento fazer, moeda de troca para ajustar contas com Ele, caso um dia a tragédia me bata à porta. Eles não sabem nada.
Parir a Ana trouxe-me, apenas, a consciência de um amor imensurável, maior, para sempre. Um amor que não se explica, que sufoca o peito, que o faz transbordar, que se expande de dia para dia. Ser mãe trouxe-me esta capacidade de empatizar, tanto e tão só, de ser mãe da Ana, da mesma forma aleatória com que poderia ter sido a mãe de qualquer criança. Do Rodrigo.
Ontem, ao entrar na casa mortuária e deparar-me com a cabeça do Rodrigo deitado num pequeno caixão, o coração estrangulou-se de dor. Da dor da Vanessa, que poderia ser eu. Da dor de uma mãe que fica apática, inerte e vazia perante a morte de um filho a quem se deu a vida, que agora a puta da doença roubou.
Ontem, ao entrar na casa mortuária o coração parou-me, um segundo. Projectei a minha filha ali, o seu remoínho naquela cabeça inerte. Os seus peluches em vez da girafinha do Rodrigo. A minha mãe, naquela avó, a aconchegar o neto sem vida, como o faz sempre que deita a Ana no seu bercinho. Momento dilacerante para se perceber, de forma mais cruel, o significado da palavra empatizar.
E sei que o Rodrigo morreu, que já nada posso fazer por ele. Mas farei a causa perdurar, no que de mim depender, a causa de inspirar-te a ti que não és mãe, a ti que já o és, a ti que tens um sobrinho da idade do Rodrigo; a causa de te alertar para levantares o rabo do sofá, de adiares o primeiro dia de praia, de fazeres um desvio no trajecto de casa para te inscreveres como possível dador de medula óssea.
Eu sei que o Rodrigo morreu, que já nada posso fazer por ele mas, no que de mim depender, tentarei que menos mães sejam a Vanessa, amanhã e depois, que menos mães passem por esta dor, esta amputação da alma. Porque a vida não é uma merda, como ouvi dizer ontem. Merda? Merda é a morte caramba! E eu não lhe vou dar tréguas.
Porque a única maneira de honrar a memória do Rodrigo é não deixarmos a sua esperança morrer.
(Um beijo de amizade- sim, agora é amizade, não se livram!- à Sónia, à Sandra, à Sofia, à Selma, à Erica e à Filipa por terem permitido que a vida nos aproximasse, por terem colaborado neste encontro projectado por esta espécie de destino. Sou grata, mas tão grata, pelo Rodrigo nos ter juntado, pá! Vocês são das pessoas mais inspiradoras que tenho conhecido na vida, caraças! Grande xi-coração.)






