Ali estava elas, 20 anos, não mais. Bronzeadíssimas, coxas sem celulite, barrigas tonificadas e "bordas" sem estrias enfiadas em bikinis brasileiros, cabelos soltos e ar de anúncio de penso higiénico.
Nos ouvidos os phones dos telemóveis de última geração, percebia-se que a ouvir sons veronis, intercalados com gargalhadas histéricas e um arsenal de raquetes e cartas de Uno para matar o tempo. Falavam alto e chamavam sobre si todas as atenções, enquanto se esfregavam, lascivamente, em cremes de bronzear, as putas giras das pitas.
Cheguei à praia sozinha, fato de banho (que ainda não me atrevo ao bikini), tão branquela quanto é possível estar-se no princípio de Agosto (vir à praia até às 10h da manhâ e depois das 17h não contribui lá muito para o bronze), cabelo preso num carrapito no alto da pinha e ar da trintona que já sou. Sem phones mas munida com o livro que o Prezado me ofereceu no meu aniversário, óculos de sol de massa e ar de intelectual trintona de esquerda. Olhei-as de soslaio, com ar de superioridade, naquela de "deixem passar a veterana charmosa", quando me lembrei que "charmosa" é só o pior adjectivo-eufemismo ever para "velha". Deitei-me na toalha e durante umas duas horas fui transparente para elas.
Pensei: "raios das miúdas, giras, magras, as peles tão frescas, grandes cabras, já fui onde of them, mas há tanto tempo, caraças!" Tentei resolver o ressabiamento interno pensando que estou em vantagem, já fui assim, já estou noutro patamar da vida e tal, não tenho horas para chegar a casa nem uma mesada que me obrigue a dividir, como elas, um maço de tabaco para dez, não tenho trabalhos de casa para fazer, nem férias de frete com os meus pais, faço o que me apetece, eu é que mando em mim, tomem, embrulhem e levem para casa".
Mas depois chegou mámen e a miúda, mais o arsenal de cremes factor 100, "não lhe dispas a T-shirt", encher a pequena piscina com água do mar para ela brincar, balde, pá e ancinho da Imaginarium, pequena lancheira térmica com o iogurte para o lanche,iogurte no cabelo da miúda, no meu, bolacha maria na mão da criança, bolacha maria na água do mar na piscina, bolacha maria salgada, enfim, "não comas areia, Ana!", "não tires o chapéu, Ana!" e a miúda a gatinhar em direcção às raparigas que se desviaram, divertidas, e soltaram um "Deixem passar a mãe da bebé", perante o meu ar desgovernado e comecei a achar que, não vale mesmo a pena entrar em negação: quero o meu rabo rijo, barriga tonificada e os meus 20 anos de volta!
Buáááá!