terça-feira, 3 de junho de 2014

A minha maravilhosa pulseira de elásticos cor-de-rosa choque

A mãe dera o alerta para uma situação de bullying na escola. O T. tem oito anos e uma deficiência motora que, embora pouco visível, obriga a determinadas ausências da sala de aula, que encanitam os outros meninos. Os outros meninos não percebem porque se ausenta a professora também nesses momentos, não percebem porque o T. não consegue fazer os mesmos exercícios de ginástica e não percebem uma série de (pequenas) diferenças. 
A mãe contactou com as enfermeiras para fazerem uma pequena acção de sensibilização na sala de aula, explicando a deficiência à turma. Entretanto, depois de desmarcar outros compromissos para priorizar este, juntei-me às minhas colegas, aparecendo de surpresa na sala de aula. 
Comecei por fazer o jogo das diferenças, lançando características que iam fragmentando o grande grupo, isolando cada menino na sua especificidade, até que todos ficaram isolados, um a um, todos diferentes, únicos e, por isso, (sempre a reforçar) especiais.  Fiz a desconstrução sobre o que é a deficiência e como a maioria de nós tem partes do corpo menos eficientes: "tu usas óculos, tu tens asma, há ali uma menina com herpes e aquele lá assumiu que tem alergia ao sol."
Depois convidei o T. a juntar-se à conversa, explicando a sua diferença, que o torna único e, por isso, especial. E todos o ouviram, atentos. Havia perguntas, dúvidas, curiosidades e foi a vez de despirmos a deficiência do estigma, pô-la a descoberto, de uma forma desempoeirada e natural, porque ser diferente, afinal de contas, não é uma coisa má, é só algo que nos traz unicidade, que nos torna especiais. 
No fim, os meninos ficaram sem dúvidas, sem macaquinhos na cabeça, sem curiosidades, sem preconceitos, devidamente esclarecidos. E um a um, abraçaram o T. (e eu juro que tive que me controlar para não chorar). A seguir, agarraram-no pela mão e foram brincar para o recreio. 
Nós despedimo-nos e antes de partirmos o T. entregou dois desenhos que tinha feito em casa, especialmente para as enfermeiras que sabia que hoje viriam. Ficou atrapalhado quando percebeu que não tinha preparado nada para mim, não contava que eu aparecesse. Serenei-o e disse-lhe que não fazia mal, assim tínhamos uma boa desculpa para nos voltarmos a encontrar. Abraçámo-nos. 
À saída do portão verde ouvi uma corrida de passos pequenos. O T. pediu-me que estendesse o braço: "Ontem fiz esta pulseira para a minha mãe mas ela não se importa e quero dar-ta a ti. É uma pulseira diferente das que eu costumo fazer. E por isso, é especial."
Cheguei a casa e olho para o pulso. Hoje foi um dia diferente. E, sim, por isso especial. 

Obrigada, T. 

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que no fim da refeição não têm pudor em molhar o pão no azeite que sobra e as outras.

Está tudo variado....



segunda-feira, 2 de junho de 2014

Coisas que me encanitam


Visto deste lado do écran, o senhor ali ao lado do António Variações não tem placa no lado direito do maxilar inferior?

Tudo uma questão de afinar o ouvido

No fim-de-semana, um dos rapazes a meter-se com uma miúda, gracejou um "Oh baby, that's what I like". 

Não percebi o que ele tinha dito entre dentes e questionei outro formando, que não fala um boi de inglês, o que tinha dito o primeiro. 

Resposta imediata: "Oh baby, é cerelac!"


(Ri-me até me doer a barriga)

Sobre a apresentação do livro da Joana Roque apenas uma frase

O bolo de limão estava bem bom.

Big Brother Def*

Três casas. Doze pessoas portadoras de deficiência. Uma enfermeira, uma terapeuta ocupacional e dois psicólogos. Nós. Uma ideia: capacitar os jovens e adultos com deficiência para uma vida autónoma. Uma vida real. Sem powerpoints, sem apresentações, sem manuais. 
Três casas. Doze pessoas portadoras de deficiência. Ensinar a planear uma refeição. Dividir grupos de quatro por cada cozinha. Ensinar a fazer coisas básicas: descascar uma batata, fazer um refogado, cozinhar arroz, cortar frutas para a salada de fruta, mais à frente, um esparguete à bolonhesa. Arrumar a cozinha a muitas pernas, tachos e canadianas empilhadas, bancadas que servem para preparar as refeições e ajudar no equilíbrio, almofadas que têm que se pôr debaixo dos rabos sentados nas cadeiras de rodas para se poder chegar aos fogões, canadianas que servem de pinças para se apanhar cascas que caiem ao chão. 
Ir às compras no supermercado. Contrariam a tendência de substituir cada um deles, porque assim os ajudamos, porque é mais fácil, porque é mais rápido. Ajudar só com ideias e estratégias verbais. Vê-los a tentarem encaixar cestos com rodas nas canadianas, não conseguem, vê-los a agarrarem em carrinhos de compras, colocarem as canadianas lá dentro e a usá-los como andarilhos, para além do transporte dos alimentos para o jantar. Os de cadeira de rodas a desistirem de empurrar carrinhos de compras altos e a trocarem-nos pelos cestos pequeninos ao colo. Vê-los, ao início, envergonhados a deambular pelo Pingo Doce, aborrecidos com os olhares curiosos de quem passa, perceber que vão ganhando confiança, que pedem ajuda, que levantam os olhos do chão, primeiro na direcção das prateleiras altas, inacessíveis a quem se desloca sentado, depois em direcção aos olhos de quem passa, sem medo, sem timidez, com a confiança de quem sente que consegue. De quem não acredita apenas que consegue, mas sim, de quem, comprova que é capaz.
Acabar o fim-de-semana como anfitriões, a receber a equipa do Mãos na Massa. Workshop culinário seguido de um último almoço. Desta feita, gourmet. Em breve o regresso, para o descanso dos guerreiros. 
De deficientes a eficientes: porque uma deficiência não tem que ser limitativa de uma vida normal. Ainda que com estratégias adaptadas. 
Este fim-de-semana, foram eles que me formaram, que me ensinaram, que me capacitaram. Foram eles que me lembraram de nunca mais dizer, em que circustância for, que não sou capaz. 
Obrigada, marmanjos! Por tudo, especialmente, pelo "sentido de humor*"!

Diz que o João Carlos abdicou e que o Filipe vai subir ao trono

Filipe, filho, ainda vais a tempo de reconsiderar, cariño.
Letícia não é nome de raínha, pá!




(Já Raínha Dona Pólo Norte, upa, upa! Just saying...)

Programa para hoje

Dia de férias em família.
Visita à feira do livro.
Lançamento do novo ivro da fixolas Joana Roque, às 18h30 no Chiado:



Actually, I really don't hate Mondays!

domingo, 1 de junho de 2014

Óbidos, sábado ao final da tarde

Saímos do local onde estamos hospedados a dar formação a pessoas portadoras de deficiência física em direcção ao supermercado, onde os formandos irão fazer compras para prepararem, de forma autónoma, o seu próprio jantar.
Bom astral, gente animada e mámen ao volante de uma carrinha com uns mil anos.
A carrinha avaria no alto de uma rua íngreme e mámen, aflito, com medo vira na primeira rua de terra batida, uma rua particular que... sendo de dois sentidos não cabe a carrinha e outros carros em circulação no sentido contrário.
Mámen sai a pé para pedir ajuda e deixa-me na carrinha com os formandos. Todos se deslocam de cadeira de rodas e canadianas.
5 minutos depois chega um taxista. Apita, apita, eu saio da carrinha e explico-lhe que a carrinha avariou. Manda-me tirar dali a carrinha,que não quer saber. Explico-lhe que não consigo, a carrinha está carregada com 12 marmanjos e nenhum deles pode sair para me ajudar a empurrar, pois são deficientes motores. Diz que não quer saber, que tem um serviço e que não o pode perder por minha culpa, pega no telemóvel, com ar ameaçador e chama a GNR.
Eu agradeço-lhe, mais umas mãos para ajudarem darão sempre jeito. A minha calma (e gozo) enfurece-o, concentrado que está no problema e não na procura de uma solução.
Chama uma vizinha para fazer coro com ele. A mulher vem barafustar comigo, de dedo em riste, diz que espera "sinceramente" (citando) que eu tire dali a carrinha em tempo útil, que dali a meia hora tem que ir à missa e que não o vai deixar de fazer por nossa culpa.
Abençoada noção de catolicismo...


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