A mãe dera o alerta para uma situação de bullying na escola. O T. tem oito anos e uma deficiência motora que, embora pouco visível, obriga a determinadas ausências da sala de aula, que encanitam os outros meninos. Os outros meninos não percebem porque se ausenta a professora também nesses momentos, não percebem porque o T. não consegue fazer os mesmos exercícios de ginástica e não percebem uma série de (pequenas) diferenças.
A mãe contactou com as enfermeiras para fazerem uma pequena acção de sensibilização na sala de aula, explicando a deficiência à turma. Entretanto, depois de desmarcar outros compromissos para priorizar este, juntei-me às minhas colegas, aparecendo de surpresa na sala de aula.
Comecei por fazer o jogo das diferenças, lançando características que iam fragmentando o grande grupo, isolando cada menino na sua especificidade, até que todos ficaram isolados, um a um, todos diferentes, únicos e, por isso, (sempre a reforçar) especiais. Fiz a desconstrução sobre o que é a deficiência e como a maioria de nós tem partes do corpo menos eficientes: "tu usas óculos, tu tens asma, há ali uma menina com herpes e aquele lá assumiu que tem alergia ao sol."
Depois convidei o T. a juntar-se à conversa, explicando a sua diferença, que o torna único e, por isso, especial. E todos o ouviram, atentos. Havia perguntas, dúvidas, curiosidades e foi a vez de despirmos a deficiência do estigma, pô-la a descoberto, de uma forma desempoeirada e natural, porque ser diferente, afinal de contas, não é uma coisa má, é só algo que nos traz unicidade, que nos torna especiais.
No fim, os meninos ficaram sem dúvidas, sem macaquinhos na cabeça, sem curiosidades, sem preconceitos, devidamente esclarecidos. E um a um, abraçaram o T. (e eu juro que tive que me controlar para não chorar). A seguir, agarraram-no pela mão e foram brincar para o recreio.
Nós despedimo-nos e antes de partirmos o T. entregou dois desenhos que tinha feito em casa, especialmente para as enfermeiras que sabia que hoje viriam. Ficou atrapalhado quando percebeu que não tinha preparado nada para mim, não contava que eu aparecesse. Serenei-o e disse-lhe que não fazia mal, assim tínhamos uma boa desculpa para nos voltarmos a encontrar. Abraçámo-nos.
À saída do portão verde ouvi uma corrida de passos pequenos. O T. pediu-me que estendesse o braço: "Ontem fiz esta pulseira para a minha mãe mas ela não se importa e quero dar-ta a ti. É uma pulseira diferente das que eu costumo fazer. E por isso, é especial."
Cheguei a casa e olho para o pulso. Hoje foi um dia diferente. E, sim, por isso especial.
Obrigada, T.


