quarta-feira, 26 de abril de 2017

Post para que eu nunca me esqueça

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"Sr. as e Srs.  Deputados,
Sr. as e Srs.  Convidados,
Minhas Senhoras e Meus Senhores:
Nasci no Serviço Nacional de Saúde, estudei na Escola Pública e não pertenço a uma geração ingrata. A Grândola também nos corre no peito à desfilada, e por isso obrigada capitães, obrigada a quem não se calou, a quem resistiu até ao último sopro do seu corpo, a quem desertou para não ser cúmplice, a quem viveu nos subterrâneos do medo. Obrigada a todas e todos os combatentes desse amor inventado chamado liberdade.
Todas as gerações têm os seus monstros. As gerações que viveram antes de mim nasceram e cresceram no longo inverno do fascismo e da guerra. Num regime que lhes marcava o destino do berço até à morte, sem educação, nem saúde nem a sorte das elites para quem estavam reservados os privilégios a que hoje chamamos direitos. Para a maioria o trabalho era outro tipo de prisão, o analfabetismo era a maior algema e o patrão a pior polícia. Não foi só em Caxias que se ergueram grades.
Vergílio Ferreira escreveria sobre as fronteiras da opressão: «Que a fronteira da tua liberdade te não seja a porta da casa para que tu sejas livre dentro e fora dela. Que a tua liberdade comece no pão que te espera à mesa e persista no desconhecido que te espera na rua. Que a distância de ti a ti seja por ti preenchida e nunca pela polícia ou um diretor de consciência. Tu és livre. É portanto do teu dever libertares-te».
 Sim, tenho orgulho de pertencer a uma geração que luta em liberdade. Tivesse isso chegado para não nos mandarem emigrar, para não nos sacrificarem o futuro no altar da austeridade, para não nos falharem a promessa de solidariedade numa Europa que afinal nos quer submissos.  
 Tentaram embalar a força transformadora da minha geração num conto sobre o fim da História. Deram-nos um cravo para carregar ao peito uma vez por ano e tentaram dizer-nos que lutar pela liberdade era celebrar essa História. Arrumaram os problemas do mundo na virtuosa aliança entre a democracia e os mercados, mas eles repelem-se. O muro também lhes caiu em cima e a História, longe de estar acabada, rebenta-nos nas mãos.
 Em Alepo, onde decapitaram até a esperança, no cemitério em que se transformou o mediterrâneo, nos muros de arame farpado à volta dos campos que nos prometeram que não voltariam a existir, no crescimento cada vez menos surdo da extrema-direita e da guerra.  
 Cada geração tem os seus monstros e os nossos aparecem todos os dias na televisão. Quando chamam mãe a uma bomba feita para matar os filhos de alguém porque já não interessa lembrar a rosa de Hiroshima; quando a União a Europeia determina que a deportação de refugiados é apenas uma questão de pagar o preço certo à Turquia. Quando movimentos reacionários e ultranacionalistas avançam na Europa alimentando-se dos destroços da austeridade imposta aos povos.
 Há 20 anos, Eric Hobsbawm receava que a xenofobia viesse a transformar-se na grande ideologia de massas dos nossos tempos. Que a rejeição do outro, a negação daquilo que a humanidade tem em comum seria o bode expiatório para os falhanços da sociedade. Olhando hoje para a Europa, quem pode não reconhecer – não querer ver - que houve um projeto que falhou? Falhou porque submeteu a democracia aos mercados financeiros, falhou porque perdeu contacto com os direitos sociais e económicos dos povos, porque espalhou pobreza e desemprego, porque quis rasgar a Constituição. Falhou-nos porque entregou ou privatizou o que era da nossa soberania e, portanto, da nossa liberdade.
O medo converteu-se no maior aliado de um projeto político conservador que domina a Europa. Demasiado distante das aspirações dos povos para mobilizar as suas vontades, o poder centrista procura ocupar cada espaço da nossa livre decisão com os seus burocratas, sanções e imposições.  Perigo é a austeridade que renasce quando baixamos a guarda, as troikas que espreitam atrás de cada Programa de Estabilidade. Servem apenas para nos lembrar que ainda não vencemos, que ainda temos quem se ache nosso dono, que não somos livres.
 A espera é a derrota, e confronto com as imposições europeias, que é o mais difícil, ainda é o que está por fazer.
 A propaganda de que todos os protestos são populistas, acabará por servir o branqueamento de forças odiosas. A alternativa aos projetos reacionários não é a moderação do situacionismo, com a sua defesa empenhada do sistema que salva bancos mas que condena gerações a pagar as dívidas e os défices de uma velha elite, demasiado poderosa e não raramente corrupta.
O maior erro é continuar a sacrificar a democracia aos lucros dos mercados financeiros e negar a direitos e liberdades em nome de uma segurança que nunca se cumpre, só oprime.
A alternativa é a audácia de quem não se resigna, de quem questiona, de quem não tem medo de existir.
O medo e a esperança não só não se confundem, como se combatem. E não há destino para quem fica a meio do caminho, a atrapalhar o futuro, na estreita escolha do mal menor, imagem desbotada de democracia.
É por isso que não podemos baixar a guarda na defesa de uma democracia completa, económica e social, soberana, que reclame para si a livre decisão sobre o que é de todos, do trabalho aos bens comuns. Abril, para não ser vazio, precisa de conteúdo, tem de ser esperança.
No Bloco de Esquerda batemo-nos por este projeto de esperança.
Por escolhermos a solidariedade em vez da exclusão, por escolhermos a humanidade em vez da guerra, por defendermos investir no que é nosso em vez de cumprir as regras do absurdo monetário, por defendermos que tem de haver um futuro aqui tão luminoso como foi abril, dirão que sonhamos. A melhor resposta foi dada por um homem que sabia exatamente o que existe entre a guerra e a paz e que hoje também homenageamos. Nas palavras de Miguel Portas: “sonhamos? Não sonhamos nada, somos mesmo os únicos realistas deste filme”.
Abril foi a melhor promessa que, ao libertar-se do passado, Portugal fez ao seu futuro. O futuro é hoje e nós não pusemos o barco ao mar para ficar pelo caminho. Lutemos por ele, como disse Natália Correia, “o cais é a urgência, o embarque é agora”.
 Viva o 25 de Abril!"

Joana Mortágua no seu brilhante discurso a propósito das comemorações do 25 de Abril de 2017

Iso-quadripolaridades da doçaria nacional

Esqueçam os pastéis de Belém. Esqueçam os pampilhos da Bijou em Santarém. Esqueçam as bolas de Berlim do Natário. Esqueçam as bolas recheadas com doce de leite da Sacolinha. Esqueçam os éclairs da Leitaria da Quinta do Paço. Esqueçam os croissants açucarados do Careca.


Foquem-se nisto que vos asseguro: o melhor bolo de Portugal vende-se em Mangualde, no Patronato, e garanto-vos que os pastéis de feijão não tem concorrente à altura em nenhuma pastelaria do país.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Terramoto? Está tudo bem...

Ali estávamos os dois, na sala de espera do hospital, cansados e esfomeados à custa de horas de uma espera que teimava em acabar.
Ele- cadeirante-com um problema numa perna. Chato, doloroso, desanimador. No saco com os últimos exames um diagnóstico que deixava reservas de uma complicação na coluna. A tosse - suspeitava-se que alérgica- tinha voltado. Não havia ponta de optimismo por onde se pegasse. 

Eu dei-lhe um cascudo: 

- "Hey miúdo, isto já esteve mais famoso, hein?"

Resposta, com sorriso terno:

- "Ainda bem que é tudo de uma vez. Assim trata-se tudo ao mesmo tempo e quando passar, passa tudo de uma vez". 

Sorrio. Ele sorri comigo e acrescenta:

- "Sempre preferi um único terramoto de grande escala do que muitas réplicas pequeninas imprevisíveis. Quando o terramoto acaba, pelo menos, sabemos que temos a segurança de voltar a reerguer tudo, não é?"


E eu fiquei com lágrimas nos olhos. Todos os dias- todos!- a vida me dá lições. 

Elena de Avalor e o 25 de Abril

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A Ana ao pequeno almoço percebe que amanhã não há escola. Pergunta-nos porquê e explicamos-lhe que amanhã é feriado.

- "O que é um feriado, mamã?!"

- "É como um dia de férias. Ou como um fim-de-semana mas só um dia e não dois. E nesse dia não há escola nem trabalho porque devemos celebrar algo que aconteceu."

-"Humm... Tipo o Natal que é o dia de anos do Jesus?"

- "Sim, isso."

-"E amanhã é feriado porquê, mamã?"

- "Celebramos a liberdade."

- "O que é liberdade mamã?"

- "Liberdade é podermos dizer o que pensamos. É as meninas poderem usar calças e irem à escola. É podermos discutir ideias diferentes sobre o que pensamos, Amanhã celebramos que algumas pessoas se tenham juntado para pedir liberdade numa revolução, entendes?"

- "O que é uma revolução?"

"Sabes aquele episódio da Elena de Avalor em que todos do povo se juntam para acabar com o reinado da Shuriki? Isso é uma revolução. "

"Aquele episódio em que todas as pessoas do reino se juntam para lutar contra a Shuriki para poderem todas se ver livre dela e poder voltar a haver música em Avalor porque ela tinha proibido?"

"Sim, esse episódio mesmo. Isso é uma revolução!"


(Silêncio. Afasta-se e vai para o sofá. Um minuto em silêncio)

- "Mãe?"

- "Sim, Ana?"

- "Amanhã também quero celebrar: ainda bem que em Portugal já pode haver música e todos podemos tocar, cantar e dançar como em Avalor". 



(Ana incorpora a definição de liberdade aos 4 anos e 8 meses)

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Como é que as vacinas causam o autismo?

Aqui.











[Mas importante mesmo é ler o link logo abaixo. Sim, este]

Bye bye minimalismo hygge!

Amanhã mámen começa a frequentar o workshop de restauro de móveis da Oficina Monstros.

Portanto, temo que em breve lá se vá o meu minimalismo para o hygge que o parta!

O Mundo divide-se entre...

... quem perante alguém a espirrar diz "santinho" e entre quem diz "saúde".

Urbano-cristãos

Fomos passar as miniférias da Páscoa à zona de Viseu.
Perdidos numa aldeia vemos um conjunto de gente a vaguear pela rua.
À frente um senhor a segurar uma cruz, uma data de pessoas com ponchos de cetim vestidos, o padre no meio.
Ficámos a assistir, parados com ar de urbano-deslumbrados, a uma procissao pascal.
Quase que juro que detectei um directo para o instagram de um dos presentes de telemóvel em punho, que isto de celebrações pascais e tradições é digno de se partilhar com os fanzes.
Sorriso nos lábios, olhar de contemplação e ternura.








Era um funeral.



quinta-feira, 20 de abril de 2017

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