Comecei a trabalhar na área organizacional há dez anos. A 65 quilómetros de casa. Na altura não tinha carro e apanhava 2 comboios e 3 autocarros para chegar ao escritório. Demorava 2,5 horas para lá chegar e não ganhava nada de jeito. Gostava muito do trabalho. Muito mesmo, o suficiente para aguentar este ritmo durante mais tempo do que julgaria ser capaz. Invejava as minhas amigas que trabalhavam perto de casa, sortudas, não sabiam a sorte que tinham.
Arranjei trabalho à porta de casa, a ganhar melhor, num trabalho igualmente desafiante. A proximidade de casa levava a que trabalhasse em média 14 horas seguidas. Não fazia mal, não precisava de apanhar transportes, num pulo punha-me em casa. Muito tempo depois andava exausta. Perdera tempo de qualidade com a minha família, desencontrei-me do meu marido, via de relance o meu avô, acabei por perder ambos. Fiquei, heróica, com o meu trabalho. Invejava as minhas amigas que tinham hora de saída, que picavam ponto e não tinham a traiçoeira isenção de horário de trabalho, que viviam longe e, por isso, tinham sempre um transporte de desculpa para saírem a horas.
Já trabalhei muito: 12 a 14 horas seguidas numa multinacional chique, todos os dias, meses seguidos, anos. Não percebia as mulheres que engravidavam e se desleixavam no trabalho. Que queriam gozar todos os meses da licença de maternidade, com tanto trabalho À espera delas na empresa. Não se fartariam de estar em casa? Não teriam saudades de ser activas? Mulheres para além de mães? Parecia que a maternidade as tinha tornado mais lentas, mais displicentes, menos boas profissionais. Invejava a sua descontracção, a forma distante e menos rigorosa com que olhavam para o trabalho, as respostas descontraídas "o trabalho não passa do prazo, Liliana!", "quando um dia te fores embora não levas nenhuma medalha, vai mas é para casa aproveitar os teus". Bem que queria, mas eu não era assim. Que inveja eu tinha das pessoas que não precisavam de trabalhar.
Engravidei e vim-me embora. Perdi o bebé e fiquei em casa uns dias que me pareceram meses, anos, décadas. Trouxe uma indemnização que não me obrigaria a trabalhar durante um bom tempo, podia ficar confortável em casa, a aproveitar o tempo que não tivera nos últimos anos. Na verdade, naquela altura, não precisava de trabalhar. Que inveja que tinha das mulheres que saiam todos os dias de manhã para o trabalho, que tinham ponto para picar, que traziam trabalho para casa depois do escritório, que eram úteis à sociedade. Quem me dera voltar a ser executiva, trabalhar, ter horários e salário, quem sabe, na loucura ser dona da minha empresa, isso é que era.
Veio a empresa. E com a empresa a responsabilidade de ser patroa de mim, chefe das minhas próprias tarefas, colega de uma sócia, não reportar a ninguém. Meses de deslumbramento. E depois a inveja de quem não tinha salários para pagar, quem sabia ao certo quanto ia levar para casa no final do mês, quem não tinha a responsabilidade de gerir tempo, clientes e pessoas. De quem não se tinha que preocupar com lucros, margens brutas, margens liquidas, pagamentos de IVAs e dores de cabeça sem fim.
Engravidei. Tive a Ana. Parei. Parei um ano inteirinho: o melhor da minha vida. Não trabalhei mas tive uma chefe de mim (ter um bebé em casa é uma tirania), isenção total de horários, jornada contínua non stop, pouco dinheiro, actividades várias, muitas das quais sempre julguei ser incapaz de fazer (experimentem tirar ranhoca a um bebé chupando num tubinho, sim?). Nunca, mas nunca antes, fui tão feliz. Não me apetecia trabalhar, não tinha saudades do mundo lá fora, estava-me a cagar para tudo extra meterno-cápsula.
Um dia voltei devagarinho. A um projecto onde já tinha estado antes, dona do meu tempo, dona da minha gestão de tarefas, numa área onde já não trabalhava há muitos, muitos anos. Estava feliz, nunca mais fiquei infeliz depois de ser mãe, parece magia. Um dia dei por mim a invejar as miúdas novas, as que tinham salários mais atraentes, as que eram apetecíveis ao mercado, as que tinham energia ilimitada, disponibilidade total, flexibilidade sem fim. Mas depois, acordava mais tarde que o despertador da maioria das pessoas, voltava mais cedo para ao pé dela, tinha tempo para brincar de dia com ela e tudo passava. Ser mãe muda-nos para sempre.
Agora estou longe. Primeiro pensei mudar-me para a cidade para onde fui trabalhar. Aluguei um quarto para as primeiras semanas. A família visitar-me-ia a meio da semana e pernoitava comigo, eu regressava aos fins-de-semana. Um par de dias. Aguentei um par de dias a ver a minha filha pelo skype, a contar-lhe a história antes de dormir através de um microfone de computador, a não poder dar-lhe um beijo de boa noite. Nunca pensei desistir. Adoro o novo trabalho e não consigo viver sem a miúda por perto.
Vou e venho todos os dias. Levanto-me às seis da manhã. Regresso às oito da noite. Estou cansada, exausta e sem tempo para nada do que é acessório. Aprendi a distinguir o que é prioritário daquilo que é apenas importante. Finalmente, aos quase 35 anos, não invejo ninguém, não trocava a minha vida pela de ninguém.
Tenho um trabalho que adoro. Uma filha que me faz infinitamente feliz. Um marido fabuloso que me apoia em todas as decisões. Uma mãe, tia e prima que são a melhor rede de suporte social e emocional do Mundo. Estou, finalmente, completa.
Pimenta no nosso cu nunca é refresco. Mas podemos deixar que apenas nos faça cócegas. E termos noção que quem corre por gosto cansa-se, sim senhora. Mas nada como fazermos rasteiras às dificuldades quando nos tocam a nós. E rirmos. E continuarmos em frente.
Para a frente é que é- sempre- o caminho.