Gosto de tradições.
Gosto de criar rituais com as minhas pessoas. As tradições ajudam-nos a criar um código comum, a acertarmos os relógios para um determinado tempo e espaço partilhados, a reforçar ligações emocionais, a criar memórias colectivas partilhadas, uma identidade comum.
Gosto que no Natal comamos sempre bacalhau com batatas cozidas e couves, mesmo que tenhamos que ter aberto a tradição a quem chega (e viva o polvo dos Açores!) como se cada elemento que entrasse reforçasse as memórias e as solidificasse, sem nunca deixar cair o que já existia (e às vezes a permeabilização a estímulos vindos do exterior é enorme). Gosto de bacalhau e aletria e mexidos no Natal, de saber que a árvore de Natal conta sempre com um enfeite novo todos os anos, gosto de saber que, o que quer que aconteça, no dia 08 de Fevereiro estarei sempre perto da minha mãe para juntas comemorarmos o seu aniversário, gosto de saber que todos os dias que jantamos em casa o fazemos à mesa da sala e sempre com a televisão desligada, gosto de incentivar a minha filha a ir ao "Pão por Deus" a cada primeiro de Novembro e beber um Mojito partilhado sempre que me consigo reunir com as minhas duas melhores que vivem fora de Portugal.
As tradições trazem-nos um sentir comum, um sentimento de unidade, de respeito e esforço para que as pessoas sintam todas que fazem parte da mesma história, que estão comprometidas em criar laços comuns, que são leais, sentindo-se imprescindíveis na sua presença em cada tradição, precisas e insubstituíveis, que o todo só é todo com o alinhamento de cada um.
As tradições transmitem estabilidade e segurança, a segurança de sabermos que, no matter wahat, naquele tempo e naquele espaço estaremos juntos, a unidade de que somos um todo, a exclusividade de pertença aquele núcleo, a sensação boa de pertencermos e de estarmos ligados uns aos outros, do passado ao presente, desde sempre e para sempre. A reforçar laços e a sentimo-nos comprometidos com os outros.
É por isso que, desde que a Catarina voltou ao seu país Natal e a Xana emigrou em 2007 deixámos de trocar presentes no Natal e de enviar lembranças umas para as outras nos respectivos aniversários. Porque sabemos que, a cada reunião das três, a cada altura in usitada em que os relógios, os calendários e os meredianos se conjugarem e nos fizerem estar juntas no mesmo espaço e fuso horário, no mesmo sítio... comemoraremos o Natal. Mesmo que em Agosto no Luxemburgo, em Abril em Paris, em Março no Porto ou, agora, em Maio... em Famões. E comemoraremos sempre com um bolo de aniversário porque é Natal partilhado, é aniversário colectivo, é festa em nós.
Ontem foi Natal para nós.
Feliz Natal e Feliz Ano novo, miúdas!
(Reclamação pública aos senhores de "O Baloiço": bem sei que vos causou estranheza escreverem Feliz Natal no bolo mas a Xana sentiu-se defraudada quando percebeu que a cobertura não era de massapão mas sim de pasta de açúcar. Não se pode mudar assim as memórias de infância de bolos de uma lisboeta emigrada, senhores! Não há direito!)

Sou a maior fã de massapão e ODEIO pasta de açúcar. Deixa os bolos lindos, mas sabe mal. Compreendo a desilusão da tua amiga.
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