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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Uma 'ssoa escreve um post de japoneses...

... e logo um leitor deste blog consegue provar que as coisas podem sempre piorar:




[Obrigada, Marco, sim?]

Ana, a colocadora de dedos nas feridas

Ana: "Mãe, o que quer dizer "maluquinha de Arroios?"

Eu: "Quer dizer que a pessoa é doidinha de todo, muito maluca mesmo."

Ana: "Ah. Onde é que é Arroios, mamã?"

Eu (engolindo em seco): "É o bairro de Lisboa onde a mãe nasceu!"

Ana (com ar esclarecido): "Ahhhhhhh!"

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quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Mas no dia seguinte ao meu 37º aniversário escrevi assim..



[37 anos e um dia. 
Já penso na minha própria morte (durante mais de duas décadas não pensei nela), na minha mortalidade e finitude. 
O futuro está sempre na sombra e no encalço do presente. Li um dia que somos velhos quando temos mais memórias que sonhos, mais recordações do que projectos e planos, mais lá atrás, caminhos e estradas velhos conhecidos que atalhos desconhecidos por explorar. Estou cheia de sonhos simples e concretizáveis e guardo com alfazema num canto do meu coração todas as memórias de afectos e amor. Tudo o resto não tem espaço em mim, nem o rancor nem o ódio, nem coisas tóxicas nem nada que não me tenha acrescentado. O meu coração tem apenas memória RAM para o passado bom e o futuro de paz e leveza, que é isso que espero enquanto for envelhecendo. Dizem aos mortos "que a terra te seja leve" mas eu acho que deviam dizer aos vivos que o ar lhes seja leve para que o pensamento, os sonhos e os planos voem livres como o vento. Um céu leve. 
Deixei de saber só o que não quero e passei a ter uma clara e nítida noção do que quero. Quero a saúde minha e dos que amo, quero quem me quer bem por perto, a intimidade reservada para as gargalhadas de quem me ama na mesma proporção do que eu os amo. Quero reciprocidade e merecimento. Quero relações fáceis e simples, sem cobranças nem julgamentos, sem truques na manga nem agendas secretas, sem cerimônias nem formalidades. Quero ser eu, sem pensar no que dizem os outros. E quero só quem me quer assim, quem goste de mim como sou e não me queira, projecte ou fantasie diferente ou à sua medida. O meu molde é torto e único e nunca me conseguirei encaixar. 
 Quero sentar-me com as pernas à chinês no passeio se estiver cansada, não me importar com maneiras socialmente impostas, dizer vernáculos e rir alto, usar decotes e não fazer fretes e quando me disserem que já não tenho idade para isto, poder fazer um pirete e cagar-me para o facto da idade não me perdoar. 
A vida não é um juiz do certo ou do errado, não traz reguada incorporada e no fim morremos todos. Quero fazer o que sempre fiz: o que me dá na real telha, o que me faz sentir-me fiel aos meus valores e leal às minhas crenças. 
Quero morrer livre. Sempre livre.]

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Entretanto fiz 37 anos




E não gosto grande coisa disto dos 30, se vos disserem que, sim senhora, a maturidade e o auto-conhecimento e que nos sentimos mais seguras e confiantes pois que pr'ó caralhinho. 
Tenho saudades- muitas!- da frescura dos vinte, da impulsividade e de me borrifar para as consequências, de não ter medo de arriscar e avançar, de não ter a sombra do dever e da obrigação de ter juizinho que tenho filhos para criar- não gosto de ter juizinho nem de ser crescida nem de ser adulta nem do papel social da mãe de família. 
Já vi(vi) demasiadas coisas na vida, já conheço de cor alguns guiões e como acabam uma data de histórias, sinto enfado mais vezes do que gostaria e só não reviro mais vezes os olhos porque já não sou adolescente e tenho auto-percepção e  auto-consciência e um super ego de 37 anos que me manda sorrir e acenar, desligar o cérebro enquanto os outros beca beca e blá blá. Às vezes pareço exausta e cansada e distraída e esquecida mas, na maioria das vezes, desligo porque estou fartinha de clichés em geral e de muitas pessoas em particular. Já consigo adivinhar o perfil das pessoas com que me cruzo, compará-las a outras, saber o que vem a seguir. Poucas coisas me surpreendem, até a mim própria já conheço de cor e salteado e há dias em que mal me aturo e não me consigo desatarrachar. 
A vida é muitas vezes a mesma coisa e uma pessoa habitua-se mas fica sempre na expectativa de que um dia se surpreenderá mas já ninguém se casa com 37 anos, já não há bodas nem copos d'água, o romantismo está pela hora da morte, as crianças não se batizam, os festivais de Verão afiguram-se a muitas máquina de roupa a lavar peças com pó e a conta da electricidade a bombar, praia só nas horas kids friendly, saídas nocturnas ahahahahah e bom bom, mas mesmo bom, é dormir a sesta a seguir às refeições e comer uma refeição quente seguida sem interrupções, sem ajeitar ganchos, sem "come de boca fechada", "vá, a fruta tem mesmo que ser!" e tudo e tudo. 
Estou uma beca esmagada com tantos estímulos visuais e sonoros, e redes sociais por todo o lado e gente a tentar comunicar ao telefone, ao telemóvel, ao whatsapp, por email, sms, mensagens de facebook e directs no instagram e eu bloqueio e não respondo a ninguém, não porque seja antipática- que sou muitas vezes- nem snob nem com a mania mas apenas desorganizada e bloqueada com tantos estímulos vindos de tantos canais e tendo como único alvo receptora eu.
E chamam-me cidadã, filha, mulher, mãe, doutora, psicóloga, contribuinte, eleitora, utente, participante, cliente, artista da cassete pirata e tenho bué saudades de ser só a Liliana e de poder escrever poesia sem me sentir tontinha e pueril e poder dizer bué em voz alta sem parecer ridícula como os trintões da idade da minha mãe que insistiam em dizer muita nice, és um borrachinho e vais à boite.
Não me apetece ir para o Lux de saltos altos e sair à noite com frio é um convite infame- ai que quentinha e feliz que estou no recato do lar, pés confortáveis em meias de lã no Inverno, amigos em casa e conversas noite dentro ao invés de discotecas ruidosas e roles plays de diversão porque é suposto, porque tem que ser, porque é sábado à noite- mas que alegre e eufórica que eu era quando sair à noite com os dedos dos pés num farrapo e música em decibéis ofensivos me parecia o melhor programa de sempre. 
Não me apetecem novos amigos nem relações em que tenha que me esforçar, para me esforçar e forçar já basta a vida, anseio por coisas básicas, pessoas básicas, diálogos básicos, piadas básicas, já percebo as donas-de-casa  de meia idade que curtem o Goucha, os cotas que arranjam miúdas com metade da idade deles e os velhos que jogam dominó e curtem anedotas à Malucos do Riso que para pesada já é a vida, as pessoas a morrerem, a minha mãe que não deixa de fumar, a miúda que anda chateada com o regresso às aulas, a quantidade de trabalho que não vê despacho, o corpo que já não funciona como nos tempos áureos e as estrias na barriga.

Entretanto fiz 37 anos e os 30 não são os novos 20: são os novos 60.

[Sim, sou capaz de estar cansada. Ou de estar mesmo a precisar de enfardar sushi]


sábado, 2 de setembro de 2017

Ana, a filósofa

Ana a fazer ginástica em cima da prancha de bodyboard no chão da sala.

- "Que estás a fazer, Ana?"

- "Reflexões..."





[No instagram do blog podem ver a cena in loco]