sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Estou entregue aos bichos

Mamen a divagar:

". Se a Ana quer substituir as PASSAS da PASSAgem de ano por MARSHMALLOWS, logo, teremos uma MARSHMALLOWAgem de ano?!"

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sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Era mesmo isto que eu queria



Depois de três dias intensivos, acabámos de ensinar um procedimento clínico a uma menina de 6 anos. No fim, a mãe sem jeito convidou-nos para uma cachupa de dia de Reis e despediu-se: “Deus vos abençoe!” 

Comprei vernizes pirosos para a C., institucionalizada desde sempre e que passa o Natal com os colegas no lar de acolhimento. Quando lá fomos entregar abraçou-me com muita força, abraçou a enfermeira com muita força e disse-me: “no dia 26 é o dia de todos aqui ligarem para as famílias: posso ligar para ti e para o Rui?!” Nó na garganta.

Seguimos para outra instituição onde tínhamos como missão entregar o mp3 e os phones dados pela minha amiga Mafalda ao Z, e o tablet oferecido pela minha amiga Teresa ao X,. Quando nos viram sorrisos grandes do mais desconfiado, abraços abruptos do mais dócil. O X. andava com um tablet velho que entretanto lhe tinham dado. Quando viu o nosso entrou numa espiral. “Queres dar o velho a outro menino aqui do lar?” Que não. Que queria dar ao irmão biológico, a viver noutro lar, que eu intercedesse por ele junto da tutora, que deixasse essa certeza garantida: “ele não tem e ele é O meu irmão.” Fechámos. Grande sorriso, grande abraço. 

Z. rasgou os três embrulhos e gritou “era mesmo isto que eu queria!” Colocou os phones nos ouvidos e desatou a dançar, com o seu andar claudicante, alegria em êxtase. O X.. volta; “podes voltar a embrulhar o presente que me trouxeste? Vou passar o Natal a casa e lá não tenho nada para abrir, assim abria-o outra vez!”. 

Saímos, exaustas, cansadas, ainda tristes com vidas tão diferentes das que gostaríamos que cada um tivesse, tão frustradas com um papel tão pequeno que é o nosso. 

Em casa recordo o abraço e a promessa do telefonema da C., a generosidade do X. com o irmão quando sou interrompida por uma mensagem da mãe de uma família que acompanhamos e que vive num abrigo: “boas festas para si. Que Deus a abençoe”. 

De volta, a memória da mãe da menina a quem ensinámos o procedimento clínico e a quem soaram as mesmas palavras.

 Deus já nos abençoou.  “Era mesmo isto que eu queria”- o Z.. é quem tem razão. 

 Era mesmo isto que eu queria.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Maria (36)



 A Maria foi a pessoa mais importante do meu dia e eu tive um dia de merda. Não há cá eufemismos. Mais relevante ainda: a Maria tem sido importante muitos dias seguidos e interpolados, numa amizade que não tenho com mais ninguém, de missão, de entrega, de colo aberto. De expressões rígidas e palavras brutas porque a vulnerabilidade é uma parva e não podemos chorar. 

Todos os anos a Maria oferece uma semana de voluntariado, em regime residencial, para acompanhar o campo de treino da Associação onde trabalho. Fá-lo há alguns anos, ainda antes de eu lá trabalhar, numa partilha de dias, experiências e vivências que nos tornou muito cúmplices e próximas. A Maria empurra cadeiras de rodas, dá banhos, ajuda com comidas, dinamiza actividades, arruma camas e quartos e faz tudo sempre com este ar plácido e sereno.No resto do ano dá-nos consultoria jurídica pro-bono, ajuda a resolver berbicachos, prepara contestações, alertas, estatutos, queixas formais e emails informais de defesa dos direitos das famílias de pessoas com deficiência adoptando como filha legítima uma causa que dificilmente seria a sua. Sempre com cara de gratidão quando quem deveria ser-lhe gratos éramos nós. 

 Ao colo da Maria estava, hoje, um bebé. Um bebé que, esta tarde, ficou sem tecto. Que há muitos dias tem ficado sem comida. Que só muda a fralda quando tem cocó porque as fraldas têm sido rastreadas e o xixi releva-se. Que não tinha água quente em casa. E dormia numa espuma no chão. Tem 18 meses e sorria ao colo da Maria, completamente inocente de tudo o que lhe estava a acontecer. 

Hoje a Maria estava em Vila Franca de Xira e parou tudo o que estava a fazer para correr ao meu grito de socorro, nos confins de Sintra. 

Hoje a Maria trazia um vestido para ir a uma exposição de pintura à qual não chegou a tempo porque foi advogada, tia de colo, irmã de abraço à mãe do bebé, deu a primeira refeição completa de há muitos dias a este bebé, ajudou no primeiro banho quente desde há muito e fez também a cama quentinha onde eles dormem neste momento. 

 Deu amor que é o que a Maria sabe fazer melhor. Ou quase. 

 Porque o melhor que a Maria sabe fazer é salvar o Mundo, ali taco a taco, empatadinha com o ser a pessoa importante que muitos dias é para mim. Irmã de tabanca. Liguei à mãe para saber como estava, Agradeceu-me e: acrescentou " E diga  muito obrigada à Maria. Muito obrigada”. 

Espero ter conseguido fazê-lo com este texto mas, de qualquer forma, aqui vai: obrigada, Maria, salvadora do (meu) Mundo. 

Muito obrigada.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 41


X



"Talvez seja isto o que significa, de facto, ficar velho. Quando aqueles que são as nossas referências começam a desaparecer, e damos por nós, que sempre insistimos em nos manter modernos e facilmente adaptáveis, a sentirmo-nos como uns velhos do Restelo, cada vez mais sozinhos no mundo. 
 Isto a propósito das mortes de Belmiro de Azevedo e de Zé Pedro. Figuras tão distantes, mas igualmente tão presentes na minha, e provavelmente, na história de alguns de vocês. (...)
O Zé Pedro. O Zé Pedro foi a minha adolescência. E juventude. E um bocado idade adulta. Esteve em todas as minhas Queima das Fitas enquanto estudante académico. E foi por ele que continuei a ir à Queima das Fitas enquanto adulto, mesmo tendo de pagar o preço de putos bêbados a vomitar-me nos pés. 
 Mas o Zé Pedro “conheci” em 1988, com 12 anos de idade e acabado de chegar ao ensino secundário. Eu era o menino que nunca tinha tirado um Bom, apenas Muito Bons. Aterrei na Escola Secundária Rainha Santa Isabel, nunca percebi porquê. Uma escola que servia maioritariamente a zona de Campanhã, São Vítor e Fontainhas. Perdi todos os contactos anteriores e dei por mim numa turma com dois miúdos de… 18 anos. O Paulo e o Jonas (que é feito de vocês?). Cedo fui adotado mascote. Não vos contar o que aconteceu às minhas notas a partir daí. Lembro-me das tardes em casa do Paulo, algures em S. Vítor. O pai do Paulo era polícia, lembro-me da foto na sala. E lembro-me dos cigarros esquisitos com cheiro a resina que eles fumavam e nunca me davam. E lembro-me de eles desaparecerem para os quartos com as namoradas e eu ficar sozinho na sala, a fumar SG Ventil e a ouvir o “Circo de Feras”. O Zé Pedro era o rock. Era o punk. Era o farol e o SG Ventil de um puto que se precisava integrar. Eram as letras dos Xutos que serviam as cartas para as namoradas. E agora? As figuras políticas são o que são, já não há (poupem-me as críticas) Álvaros Cunhais, Ramalhos Eanes (ok, ainda respira), Mários Soares ou Sás Carneiros. Agostinho da Silva já ninguém sabe quem é. Mário Cesariny, idem. Mais um Outono ou dois, e o Miguel Esteves Cardoso também vai com as folhas. O MEC, quem eu no final da década de 80 devorava a “Causa das Coisas”. Eu não sei se todos eles partem cedo. Sei que viveram a vida 10 vezes. No fim, talvez só isso importe. 
Claro, mas e agora? Quem fica? Todas estas referências vão sendo substituídas por outras, a quem não conseguimos reconhecer estofo ou talento. Um millenial saído de um websummit, ou um guru da psicologia positiva que por muita atenção e benefício da dúvida que dermos à mensagem, sempre nos soa a produto para atrasados mentais e/ou desequilibrados emocionais. Isto, pela consciência do seu potencial significado, assusta-nos e questiona a nossa atualidade e validade. 
Nesta tormenta, vamos ansiosa e desesperadamente buscando as exceções, como pão para a boca, e agradecendo os amigos antigos, que nos aliviam a sensação de estar perdidos num sítio onde não era suposto estar. 
 E damos por nós com a letra do Manel Cruz, em Pluto, a ecoar-nos na cabeça: «Estranho quando dou por mim num mundo bizarro. E mais ainda quando lá o mais bizarro do mundo sou eu.»"

Do meu amigo Raul Pereira na sua página de facebook retratando tudo o que sinto
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