sexta-feira, 22 de junho de 2018

Carta à auxiliar da sala do Jardim de Infância da minha filha



Querida Fernanda,

No fim do ano lectivo, o último da Ana antes de ingressar no primeiro ciclo e, por isso, o último em que acompanha a minha Ana queria agradecer-lhe.

Sabe, é que muitas vezes as pessoas- os pais incluídos- se esquecem do papel das auxiliares. Eu- às vezes- também mas hoje não.


Queria agradecer-lhe o papel que teve durante este ano na vida da minha filha. Não foi um papel auxiliar nem secundário, foi um papel insubstituível e principal.


Foi a Fernanda que acolheu. todas as manhãs, a minha Ana na sala. Que lhe deu bons dias risonhos. Colo nos dias em que estava mal disposta. Que a conduziu à reunião de tapete. Que lhe ajeitou ganchos a escorregar no cabelo liso e escorrido.

Foi a Fernanda a primeira a alertar-nos para o impacto que a minha doença estava a ter no comportamento da Ana. A dizer-nos que a sentia triste, preocupada, meia deprimida.  Foi a Fernanda que resolveu muitas birras da Ana não querer ficar na escola de manhã, sabendo-me doente e de cama em casa e querendo ficar comigo, a tomar conta de mim, numa parentalizacao precoce que nunca lhe permitimos. Foi a Fernanda que lhe deu colos, que a abraçou, que limpou uma diarreia somática, que lhe fez companhia quando a tristeza da Ana não lhe apetecia brincar com os outros meninos, que nos atendeu todos os telefonemas - sem se mostrar enfadada ou aborrecida - depois do pai a deixar na escola para nos certificarmos que tinha, enfim, serenado. Foi a Fernanda que introduziu a Ana nas brincadeiras das colegas sem a forçar, que a juntou e foi facilitadora na sua relação com as meninas com um perfil comportamental semelhante ao dela, que a incentivou a escalar e a saltar à corda, que lhe desinfectou esfoladelas nos joelhos, arranjou penteados porque o pai não tem lá muito jeito e foi a Fernanda que se mostrou sempre de coração partido face à reação da Ana à minha incapacidade de ter uma vida normal, de regressar à nossa vida normal, de termos a vida virada do avesso.

No tempo lectivo foi a Fernanda que a virava sempre do lado certo, que conversou com a Ana na hora do recreio, que a escutou e ouviu, que a serenou e lhe prometeu que isto tudo ia passar. A Ana contava-nos isso e garantia-nos o quanto acredita em si.

E a Fernanda nem sabia que ia passar (nem nós ) mas passou. 
Também graças a si.


À Fernanda que anteontem, depois de dois períodos lectivos difíceis, de um 2018 particularmente duro para toda a nossa família e perante a falta de talento desportivo da Ana, crashou a prova de corta-mato a meio para a resgatar do último lugar.

Obrigada por tudo e por tanto, Fernanda. Nenhuma palavra consegue transmitir a gratidão que o meu coração de mãe lhe dedicará para sempre. Obrigada por amparar a Ana num ano em que lhe doeu tanto na alma crescer.


Cresceu mais forte e segura, muito graças a si. Não é o seu trabalho que aqui enalteço: foi a sua capacidade e generosidade de cuidar e amar a Ana quando e onde ela tanto precisou. Obrigada por lhe ter limpado as lágrimas, feito sorrir e lhe ter dado, todas as vezes sem nunca o negar, o colo que a minha ausência não me permitia e nem em casa, muitas vezes, tinha força anímica para compensar. 

Nem sempre foi fácil mas nunca a vi de má cara e sabemos que a Ana não é uma miúda simples e fácil de compreender. Oh como a admiro! Ensinou-a pelo exemplo de amor, generosidade, humanidade e afecto e deu continuidade ao trabalho que tentamos fazer em casa. É tão boa nesse papel, sabe?!



Foi uma excelente companheira de equipa juntamente com a educadora mas- principalmente- connosco. Aceitou o compromisso de fazer da minha Ana uma menina melhor, todos os dias, sem ter expectativas do que era ser melhor, apenas respeitando a direcção, os gostos, interesses e personalidade que ela foi demonstrando. Respeitando e apoiando a Ana na sua essência, sem a querer mudar. 



A Ana é a nossa semente, minha e do pai. Todos os dias a regamos para que cresça saudável e feliz. Mas foram ambas- a Fernanda e a Helena também- que todos os dias úteis, das nove às quatro da tarde, na nossa ausência, lhe abriram a janela da infância e lhe mostraram o sol. Porque o vosso amor foi fotossíntese para esta Ana, a minha Ana, agora mais forte e em flor.


Obrigada por tudo. Por ser exactamente a pessoa em quem a minha filha procurou o colo que a minha ausência não permitia ser eu a dar. Que a minha doença não estava a ser capaz de providenciar nas doses necessárias. O seu colo não é auxiliar, foi educador, de amor e afecto e teve um papel principal.

Um papel que nunca esqueceremos.

Um beijinho nosso. Um beijinho com sabor a colo de mel. A um colo principal.
Liliana- mãe da Ana“

terça-feira, 19 de junho de 2018

Chocados com as crianças mexicanas separadas dos pais na fronteira dos USA? Leiam este post!



Tenho a sorte de estar rodeada de pessoas inteligentes e informadas e, por isso, ter acesso privilegiado a informação fidedigna e credível sobre os mais variados temas. Assim, com a devida autorização, partilho tudo o que há para saber sobre este caso transcrevendo. textualmente, as palavras da minha amiga Inês Sampaio Melo Antunes, distinta advogada no Tribunal de Justiça Europeu e que percebe da poda, num texto único, conciso e absolutamente esclarecedor:

"Tribunal de Justiça Europeu explica: "KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO"
Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta.
O que concluí é absolutamente kafkiano. Ora atentem:
- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.
- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.
- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos final deste texto).
- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados.
Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.
Obrigada por me lerem até aqui!"

Ler aqui aqui 
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