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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Mãe nostálgica

[Estamos a conversar baixinho no sofá. A minha amiga e eu, com a Ana no colo, com uma birra de sono e eu a embalá-la para adormecer. "Eu vi a Amélia no arvoredo, tão pequenina cheia de medo". Ela, olha-me, e pergunta-me " Se tivesses que escolher apenas um adjectivo para te diferenciar como mãe, qual escolherias para definir o tipo de mãe que és? "Os olhos da Marianita são verdes como limão". Penso naquilo, aconchego a Ana mais para junto do calor do meu corpo, mais calma, a respiração a sintonizar com a minha, os olhos a semi-cerrarem-se. "Ó Rosinha, ó Rosinha do meio vem comigo malhar o centeio" Ela trauteia as músicas que mais nenhum miúdo dos que brinca com ela conhece, baixinho, está quase a cair no sono. De repente, a memória da minha avó, anos atrás, comigo ao colo, o calor do seu peito, o seu cheiro a Minho, a casa, a pronúncia nestas letras que lhe dedico, voz rouca. "Era meia noite cantava o cuquinho, era meia noite no seu buraquinho". 
Uma« das meus maiores propósitos como mãe é não deixar morrer o passado e trazê-lo até à Ana, fazê-lo perpetuar no futuro a que ela vai dar corpo e forma. Não deixar morrer as histórias da Quinta da Torre, em Poiares. O debulhar do milho, os fios de ouro nos dias de festa, o leite que saía da teta da vaca directamente para a mesa de pedra da cozinha, lá em baixo os animais a aquecerem a casa."Anda comigo, Amélia vem, que eu estou sozinho não tenho ninguém". Fazê-la sentir o aconchego da minha infância, a dolência do embalar da minha avó nas noites com dor de barriga, o cheiro do doce de tomate na panela, o colo a adormecer-me. A história da nossa família, da morte da tia Isaura, da vergonha da gravidez sem pai da tia Maria, a fé na santinha Balazar. "O centeio, o centeio, a cevada, ó Rosinha, minha namorada". Trazer-lhe para o presente o melhor do meu passado. 
"Sou uma mãe nostálgica"- respondo, enfim, de regresso dos meus pensamentos.
A Ana adormeceu.]

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