quinta-feira, 18 de abril de 2019

Mimimi sobre ajudas a Notre Dame Vs ajudas para as vítima de Moçambique

Sobre as comparações entre os donativos dados para a reconstrução de Notre Dame e que não foram doados para as vítimas de Moçambique, algumas considerações: 

 1- Ninguém é obrigado a doar nada. Doar é uma escolha individual ou corporativa mas- lá está- é uma escolha, não uma obrigação. 

 2- A doar, cada um doa o que pode, consegue ou quer. Mais uma vez é uma escolha. Claro que podemos opinar que se deve doar aquilo que faz falta a quem se doa, mas cada um, no limite, doa o que lhe dá na telha Mas tem que se considerar que quem precisa de comida pode não querer aceitar roupa, e que a liberdade de escolha é bidireccional

 [ Por exemplo, vamos iniciar obras no nosso armazém para o transformar num apartamento de autonomia para jovens adultos com deficiência. Se agora nos quiserem doar sacos de roupa não podemos aceitar porque não há espaço livre e não é uma necessidade premente neste momento. Isso pode implicar que algumas pessoas que queiram doar roupas se sintam ofendidas e nos achem pobres e mal agradecidos mas é mais uma vez uma escolha: a de quem doa perceber a quem faz falta o que quer doar, a de quem recebe não ter medo de melindrar quem doa não aceitando o que não lhe faz falta e fazendo com que haja alguma lógica e bom senso nesta troca]. 

 3- Cada um doa às causas com que mais se identifica e ainda bem que todos não nos identificamos com as mesmas causas para que haja uma redistribuição justa e transversal de donativos às diferentes causas. Quem doa a Notre Dame identifica-se com a causa da cultura, da arte, da conservação do património e faz todo o sentido que use os seus recursos para garantir que Notre Dame se reerga. Ganhamos todos os que visitam Paris e têm uma memória colectiva associada aquele monumento. Quem doa à causa dos animais identifica-se com essa causa e faz a sua parte para garantir que há uma maior justiça a este nível. Quem doou às vítimas de Moçambique identifica-se com a empatia com um determinado povo que se viu a braços com uma tragedia. Não tem que haver uma taxonomia de causas, pese embora, a minha escolha pessoal privilegie as pessoas a animais ou a monumentos mas- mais uma vez- é a minha escolha pessoal e é a minha ação que eu devo redirecionar para essas causas das pessoas. Os outros, que se identificam com as causas que eu valorizo menos farão a parte deles e redirecionarão as ações deles nesse sentido. E tudo justo: se todos tomarmos um bocadinho conta de uma parte do Mundo, todos de forma global ganharemos (não gostava de viver num Mundo em que só as necessidades dos seres humanos estivessem asseguradas e ninguém cuidasse dos direitos dos animais, da natureza, da arte, da cultura e por aí fora). 

 4- Há causas que cheguem para todos. Não há é pessoas para lutarem por todas as causas. Muitos não se importam com nenhuma. Se todos se quiserem envolver e doarem dinheiro, tempo, voluntariado de competências, energia à sua escala às causas com que mais se identificam, o Mundo será um lugar mais justo.

 5- Antes de cobrarem o destino que o outro dá às suas doações olhem para dentro e pensem no que estão vocês a fazer, à vossa escala e mediante as vossas possibilidades, para equilibrar a realidade daquilo que criticam nos outros.

 6- Quem não quiser ajudar, dar, doar não tem que o fazer. É uma escolha. Mas também deveria ser uma escolha não opinarem sobre quem o faz da forma que entende mas, que ainda assim, age.

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