segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Segundo ano


Recomeços sem mimimis


Perguntam-me como corre a primeira semana de trabalho.

 Chamam-me valente, corajosa, que começar tudo de novo aos quase 40 é só para os bravos, que audácia arriscar num desafio desconhecido agora que sou mãe e que não devo correr riscos. ´

As pessoas sobrevalorizam os inícios e começos, desprezando que os primeiros passos de uma corrida são sempre os mais fáceis. Recomeçar não é complicado: é estimulante, causa borboletas na barriga e tem a magia de uma lua-de-mel, onde tudo o que vem ainda não está materializado e pode hipoteticamente tudo vir a acontecer. Mesmo os sonhos, os desejos e as expectativas que à frente constatemos que não passaram disso.

 Mudar é bom, especialmente quando é por escolha e não por inevitabidade.

 Mudo aos quase 40 e mãe de uma filha porque sei que o legado mais importante que lhe posso deixar é a certeza de que só nos farão sentir velhos se nos conformarmos, que a experiência só traz mais segurança e serenidade bem como certeza do que queremos.

 E eu queria tempo (não dinheiro porque o dinheiro recupera-se e o tempo não) e novas aprendizagens (não um cargo de poder porque o ego é uma armadilha letal) com pessoas que me pudessem ensinar coisas novas e desafiantes. Queria um ambiente flexível e ter novidades para contar ao jantar.

 E queria mudar porque o mais difícil é permanecer, resistir aos meses e anos em velocidade de cruzeiro quando se tem alma de pirata. O mais difícil é fazer maratonas e ter endurance e não iniciar sprints.

 Desta vez escolhi o mais fácil: seguir o meu instinto, sair de um terreno que dominava de olhos vendados e pôr-me à prova, sentir borboletas nos ossos, nas entranhas, para além de na barriga.

 A primeira semana foi boa, foi fácil: é sempre fácil quando nós cedemos a ser exactamente quem somos.

 Serei sempre uma pessoa que adora mudanças e que abraça recomeços. Recomecemos. Aprendamos.

 Sejamos quem estamos destinados a ser.

domingo, 15 de setembro de 2019

A LER | As coisas que a mãe diz

Um livro simples de partilha, amor e laços. Estamos fãs do #ascoisasqueamãediz porque da @veragostinho já somos desde o dia 1.

Comprem-no e deliciem-se.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Sobre mantras e positividade tóxica

Sempre que alguém vem com aquela conversa da treta de que basta se querer muito para se ser o que se quiser dou o exemplo daquela vez em que eu queria muito ter franja e à conta de um remoinho no cocuruto acabei por ser uma mulher com uma palmeira plantada no alto da testa...

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O nosso regresso às aulas



À Ana nunca lhe apetece o regresso às aulas. Gosta da escola mas ainda está num processo contínuo de autonomização face à figura interna da mãe.

 Eu era diferente: sempre ansiosa pelo regresso às aulas, dizia adeus à minha mãe alegremente e seguia sem hesitação. Dizem que eu era “corajosa”. O que me faz depreender que a Ana, tão oposta, não seja valente. 

 A primeira vez que me separei dos meus pais tinha 15 dias para ficar internada a 200 km de casa. No hospital de Coimbra ficava internada durante a semana. Aos fins-de-semana os meus pais não tinham dinheiro para hotéis e dormiam no carro porque faziam questão de me ir ver. Mas fiquei sozinha no início da minha vida como fiquei aos 4 anos na primeira cirurgia, em que a minha mãe só me podia ver à hora de almoço e saia antes das oito. Eram muitos meses de internamento. 

Quando regressava à rotina de casa o caminhar mesmo com botas ortopédicas até à escola era uma sorte e o poder brincar tocando nas outras crianças era um sonho tornado realidade. Regressar à escola sem medos ou angústias não era valentia (valentia era não chorar quando a minha mãe se ia embora no fim da visita para não a deixar triste). 

 A Ana ainda está a fazer um trabalho interior no sentido de se autonomizar. Ainda não aprendeu a gerir a distância de mim, não tem os meios técnicos para o fazer e precisa da minha presença mais directa. Tentamos muitas estratégias para atenuar a angústia do regresso às aulas. Ela guarda uma fotografia nossa tipo passe, temos um colar igual que ambas usamos e eu deixo-lhe todos os dias bilhetes na lancheira, no fundo, dou-lhe algumas representações significativas da minha imagem. 

 Ela vai sempre, com maior ou menos angústia, todos os anos um bocadinho melhor nisto de nisto de aprender a organizar internamente a distância que a separa de mim, que sou o seu ponto de referência face ao mundo. E sei o quão doloroso é este processo e que, no fim de contas, ela é valente. 

Muito valente. 

Porque vai dando passos, cada vez mais seguros e menos angustiantes. Mesmo que amanhã escorram lágrimas dos seus olhos à porta da escola e eu seja a minha mãe, dentro de um carro em Coimbra, com fé que tudo vai correr bem. 

 Correrá.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O amor é uma caixa de velocidades

Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.


Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados. 


Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.


Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for. 


O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.

A EXPERIMENTAR | ERVA RESTAURANTE









 Assistimos a magia no prato no @ervarestaurante.

Ovação de pé do casal quadripolar nas comemorações dos seus treze anos de casamento.
Bravo chef @atgomes9

Bravo! 


[obrigada à minha mãe e à minha tia que ficaram a tomar conta da Ana para podermos namorar: sem vocês muito do que somos não seria possível]

domingo, 1 de setembro de 2019

Avante o caracinhas

Tinha planos para ir à festa do Avante. 

Íamos os três, tínhamos entradas compradas e planos de comida e música e procurar amigos na multidão, que o melhor do Avante é não combinar encontros e deliciarmo-nos com inesperados encontrões entre amigos. 

Entretanto a dor reapareceu. De mansinho, essa puta.

 Não lhes quis dizer nada (ficaram traumatizados com aqueles meses de sufoco) e continuei a fazer a minha vida como se nada fosse, enfiando comprimidos pelas goelas abaixo e desejando que fosse uma lesao, um trauma, que não fosse a mesma dor. 

Depois um dia sentei-me e ao levantar já não dava. Foi na véspera do aniversário do casamento e ele assistiu. Eu desvalorizei, que disparate, tenho o pé dormente. Estava mal sentada. 

Não dormi essa noite com dores mas de manhã levantei-me e a Ana não percebeu nada. Fomos ao hospital onde fui seguida: extinguiram aquela consulta e transferiram-na para outro hospital. Fomos a esse e a senhora da secretaria olhou-me de alto a baixo, pediu-me os dados com algum desprezo, as pessoas com dores não se devem comportar como eu que gozo e me rio da desgraça, e mandou-me esperar em casa por notícias. “Quanto tempo?” Sabe Deus. Assim, disse-me ela. “Mas esta dor é mesmo muito incapacitante e eu até vou começar um novo trabalho, dá para dar uma palavrinha ao médico?” Não. 

Googlei e fui dar à clínica privada onde ele também dá consultas. Está de férias, só se for o colega. Que seja, quero não ter dores. Disseram-me o preço da consulta e lembrei-me que noutro dia, num grupo de ciência do Facebook, um médico de família sobranceiro gozava com exames caros pedidos por um colega de uma especialidade que ele desprezava e dizia qualquer coisa como “não se passa nenhum destes exames porque se o doente pode pagar essa consulta, que pague os exames, ora essa!”. 

Nem toda a gente pode pagar a consulta que eu pagarei amanhã. Em muitas alturas da minha vida, eu própria, não a poderia pagar. Mas não dá para esperar por sabe Deus, nem por férias que acabem quando a dor é tão forte que não te deixa andar, dormir ou disfarçar convenientemente para apaziguar a preocupação da tua filha. 

“Altitude” da revista que tenho ao colo. Avante pode apenas ser uma metáfora.

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