sábado, 29 de fevereiro de 2020

A blogosfera é um lugar estranho

Volto aqui e encontro as ruas vazias.

 Eu nunca fui muito gaiteira, sempre meio individualista e metida cá com os meus botões (sempre adorei esta expressão) e lembro-me de ter sido eu a meter conversa com alguns transeuntes não mais que meia dúzia de vezes, quase nunca por iniciativa própria. Abri, no entanto e quase sempre, o sorriso a quem me abordava e cumprimentava e sempre acolhi, com agrado, quem me batia à porta e quisesse entrar. Quase que me recordo de um tapete imaginário de "bem-vindo quem vier por bem". 

Eram tempos engraçados onde não me importava de encabeçar festas bacocas de troca de postais e eleições do bilf mais sexy do bairro ou de lançar campanhas de "neste verão, não abandone o seu blog!" e a gente era fresca e inconsciente e, passava por aqui à socapa durante o horário de expediente e às vezes voltava mais cedo da hora de almoço para passar aquele restinho de tempo em frente do computador, que os telemóveis não eram o que são. 

Havia casas mais imponentes no bairro, quase que condomínios fechados aos comuns mortais, habitados por pessoas que admirávamos e que escreviam magistralmente e tinham ideias incríveis e escreviam livros, na altura em que a Chiado editora não vendia sonhos a escrivãos de botequins e escrever livros ainda era uma coisa séria: era a Rititi, a Sofia, a Luna, a Mad, a Helena, a Jonas . Quando queríamos ouvir música como que deve de ser aproximávamo-nos da janela da Teresa e fechávamos os olhos, tentando não escrever disparates com receio que nos corrigisse no seu intocável Português. Também não resistíamos a espreitar pela janela da Concha e tirar ideias de decoração e a invejar as suas mãos de fada, as sugestões da Mónica sobre moda e a Joana ainda não tinha escrito livros e cozinhava como nós, numa cozinha que não era de revista e comida que toda a gente conseguia fazer, de tacho, e sem ingredientes esquisitos. Cheirava sempre bem quando lhe passávamos à porta. Ainda cheira. 

Havia as populares- eram duas- e eram engraçadas e despretensiosas, mas depois cat-fights. E coiso. 

Por falar em gajos, havia gajos e os que escreviam bem quase ninguém nunca os conheceu: o Pedro, o Prezado, o Capitão Microondas, o Jibóia, o Ricardo, Francis, o Pedro M., o Pulha Garcia, o Mak, o mau o Tolan, o Robene, o Troll of the North e o Piston. E depois chegou o Alfaiate Lisboeta mas isso já foi no tempo em que as fotografias começavam a ganhar pontos às letras. Agora assim escritos parecem muitos, mas não eram. 

E depois houve uma altura muito gira em que vieram para cá morar pessoas fora da caixa, sem medo de dizer asneiras, com ideias novas e frescas, como aquela fase em que pessoas fixes povoaram ali a zona do Intendente e tornaram-no só o bairro mais cool: a SJ, a Leididi, a Rita Maria, a Alexandra, a Raquel, a Mariana e, claro, a Xuxi.

Ninguém sabia o nome de ninguém e isso era o que menos interessava, eram as ideias que nos fascinavam e a possibilidade do bairro ser suficientemente grande, para que todas pudéssemos coexistir sem nos pegarmos uns com os outros e cada qual ter, com largueza, o seu próprio speaker's corner, e, simultaneamente, suficientemente pequeno para nos cruzarmos e cumprimentarmos e trocarmos ideias em mesas de café virtuais. Era prazenteiro e divertido.

Mas isso foi noutro tempo, em que havia tempo para nos sentarmos à frente de um computador e escrevermos textos com a alma e as ganas ao invés de sermos produtores de conteúdos digitais. Sabíamos lá o que era isso. Mas ríamos, e tínhamos amores e desamores e às vezes, muito de vez em quando, conhecíamo-nos ao vivo, mas só quando era mesmo inevitável, porque queríamos preservar a magia do outro desconhecido ser quem projectávamos e isso era sempre muito mais mágico de quem ele era na realidade. 

Volto aqui e encontro as ruas vazias. 

Sobraram os esforçados como acontece muitas vezes na escola tradicional: os alunos esforçados, que geralmente não são sequer os mais espertos ou inteligentes mas sim os que trabalham muito, chegam à universidade, tiram cursos medíocres mas alcançam o estatuto de doutores. Sobram os que venderam as casas às sothebys desta vida que transformaram os blogs em coisas que não são blogs e tudo bem, só não vivem nesta blogosfera, mudaram-se para uma espécie de Hysteria Lane, onde não vão às compras ao mesmo mini-mercado de bairro que nós. Os poucos. 

Faltam-nos os geniais, os verdadeiramente inteligentes, como os alunos que não estão para mamar com a estucha de um sistema educativo obsoleto e desmotivam, procuram outros interesses, emigram, mudam de áreas, vão ser geniais e felizes, na medida das suas felicidades pessoais, para outra freguesia. 

Sobraram alguns dos bons mas bato-lhes às portas e encontro terrenos baldios em vez dos blogs ("sorry, esta página já não existe"), algumas moradas estão cheias de pó com últimos posts de há muitos anos ou só com despedidas como campas abandonadas sem sequer flores murchas a enfeitá-las, espreito-lhes as janelas e não os encontro, provavelmente a passar temporadas em casas de férias de instagrams ou em clubes reservados onde se divertem a jogar golf com as suas bolhas fantásticas nos facebooks desta vida. Visito alguns, de vez em quando, para aprender coisas com quem sabe. 

Resistem, aqui, os que tenho na linha lista de blogs, aqui do lado direito, e que o Deus do blogspot os conserve, que uma pessoa aprecia a companhia valiosa. 

Volto aqui e encontro ruas vazias. 

Tenho esperança que, tal como eu, sintam o apelo do regresso às origens. Há muito que fazer por cá, folhas no chão por apanhar mas o céu das palavras continua azul e há espaço livre para continuarmos a escrever. 

Voltem. 


8 comentários:

S.o.l. disse...

Penso tantas vezes em voltar, mas a casa está vazia, e voltar sim... Mas para quem? Para a solidão das paredes vazias? Seremos nós mesmos suficientes quando vivemos em comunidade? Escrever torna-nos menos supérfluos, analisamos momentos, sentimentos, olhares, um toque. Um milésimo de segundo que se sentiu transcrito num post... Tantas saudades e tanto silêncio no peito.

Carla disse...

É mais fácil colocar uma fotografia e uma pequena legenda, numa outra rede social qq (contra mim falo). Fazer boas reflexões, acaba por dar trabalho e não dá tantas views. Adaptamo-nos.

Maria M. Ramos disse...

Sabes... Quero muito voltar. Entrei na blogosfera em 2006 e deixei-a um pouco ao abandono há cerca de 3/4 anos, com idas e voltas muito espaçadas. Mas faz agora (pelo menos) 1 ano que não escrevo, seja em digital, seja em caderno. E tenho muita saudade de dar vida às letras que moram em mim, pois a verdade é que em termos de ocupação a escrita é o que mais me preenche... Não só isso, mas é a ponte para mim própria. Talvez por isso me sinta um pouco perdida por vezes.

Ainda não desisti da ideia de voltar - não posso. Vou continuar a tentar, porque, mesmo não sendo conhecida (nem o queria!) é o que tu dizes: "havia tempo para nos sentarmos à frente de um computador e escrevermos textos com a alma e as ganas". E isso faz tanta, tanta falta.

Sinto o mesmo que tu relativamente a todos os bloggers que acompanhava e que desapareceram do mapa. Não só fazia bem escrever, como lê-los. E, oh, se não eram das horas mais bem passadas: lê-los.

Neste momento, tenho os meus dois blogs em privado. O que me acompanhou de 2006 a 2013 e o que se seguiu depois disso, após uma necessidade de "mudar de ares"/"de casa". Talvez nasça um novo blog depois destes. Talvez à terceira seja de vez.

Sofia disse...

Não escrevo tanto como queria, mas não consegui fechar o meu.
Www.giraaosquarenta.com

Ah... E agora quase com 50.

Beijinhos e obrigada por este post. Foi tão
bom ler!

vera agostinho disse...

voltei😊 bjss

Leonor disse...

Não me esqueço que foi através dos "episódios de rádio" que cheguei a ti. Tenho saudades dela, sem nunca a ter conhecido.

marianósky disse...

penso muitas vezes em voltar a escrever mas as minhas dores de crescimento imobilizam-me. não escrevo. não escrevo em papel. pouco escrevo em digital. e tudo o que escrevo são updates pouco pessoais que carecem de um cunho que os eleve para além de meras entradas de diário. penso mais hoje do que quando era adolescente, mas pouco reflicto por escrito. também estou destreinada de me pôr ao caminho de meia dúzia de parágrafos sem saber onde parar. socorri-me muitas vezes de humor para lidar com as minhas dores maiores, mas hoje sou (pouco mais) crescida e as dores são outras. são mais vulgares, no fundo. não consigo dar uma voz cómica à minha síndrome de impostora, aos medos que encontro na carreira e nas relações. nem consigo falar de amor na primeira vez que vivo uma relação saudável e isso entristece-me muito. é muito estranho. sei que aquilo que atravesso corresponde a muito do que é comum a todos nós, os problemas da humanidade de hoje, mas não sei até que ponto vale a pena falar disso à exaustão e sinto que já fui mais talentosa do que hoje, que já tive mais para contribuir.

volto sempre para ler, no entanto <3

Analog Girl disse...

Ufff... ainda ontem pensava nos tempos dourados da blogosfera, e até pensava em alguns internacionais que não se tinham vendido e eram quase uns heróis intocáveis (Chiara dos tempos áureos, onde anda?). Reconheço a boa maioria desses nomes que citaste e relembro como era bom acenar-lhes de vez em quando. O meu blog está parado há quase um ano e eu perdida de saudades mas sem saber muito bem como o recuperar. Quem diria que isto deixaria tantas saudades? Vamos resistindo o que pudermos, eu sei que vou voltar e continuo a passar à tua porta e a sorrir-te mesmo quando não me vês. ;)

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