sábado, 31 de outubro de 2020

Covidias

 A semana foi lenta e pesada.

O covid é um incêndio de proporções infindáveis: tu sabes que ele existe, ficas em estado de alerta, ligas as notícias e ouves números e vês como ele avança e quão mais perto está de ti, dos teus, pensas que podes regar o teu quintal, molhares as mãos de álcool gel como quem molha telhados e árvores, tapar a boca e o nariz com máscaras como quem atira cobertores para cima de pequenos focos de incêndio, para abafar o fogo, para acabar com o oxigénio que alimenta as labaredas.
Tu podes fazer tudo isto na tua casa como na tua vida até ao dia em que percebes que não controlas o vento e que uma pequena fogalha voou e incendiou um canto do teu quintal e tu não tens culpa nenhuma, tu usaste os cobertores, tu regaste o telhado e arde, arde o teu quintal, o teu telhado, as tuas paredes, talvez ardas tu porque não controlas o vento e o incêndio chegou.
Esta semana o incêndio aproximou-se do meu trabalho, andámos as duas, esbaforidas, a entregar cobertores, a encher jerricans, a distribuir regadores e mangueiras para onde outrora havia todas as condições para nascerem flores, agora só desejamos que ali o fogo não pegue. Porque se pegar talvez a combustão seja mais rápida, talvez as cinzas sejam inevitáveis.
Trabalhar assim é um acto, sobretudo, de fé, porque há os outros lá fora e o vento sopra contra todo o nosso cuidado, trabalho e vontade.
“Precisamos de oxigénio”- disse-me a Ana, pela manhã. E viemos beber um café aqui à serra porque temos que viver neste equilíbrio difícil entre temer o oxigénio que alimenta o fogo e desejar o mesmo oxigénio que nos permite respirar.
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