domingo, 6 de dezembro de 2020

Sara Carreira

 Há uma altura na vida em que sentimos que crescemos para sempre: é a altura em que passamos a identificarmo-nos com os pais e não enquanto filhos.

E enquanto pais, crescidos e adultos, percebemos que crescer nos torna mais frágeis e vulneráveis. Humanos.

A minha vida, desde a altura em que deixei de ser auto-centrada e passei a identificar-me com todas as mães do mundo, ficou mais difícil. Sofro mais, choro mais, tenho mais medo, sou mais sensível e empática, menos forte. Mais humana.

A minha vida está para sempre refém da felicidade da minha filha. Para sempre.

Todos os filhos que morrem, não sendo os nossos, serão sempre uma projecção do horror de que poderiam ser os nossos.

A empatia pela dor absoluta e imensurável é imediata, dói de uma forma pessoal mesmo que aquelas pessoas nunca se tenham cruzado pessoalmente connosco. Não é a nossa dor, longe de nos querermos apropriar, mas a dor dos pais de um filho que morre será sempre uma dor percebida, abraçada e sentida de forma ínfima por cada um de nós, que temos filhos dependentes da sorte da vida, do acaso do Mundo, de tudo o que não controlamos e nos aterroriza.

Somos uma tribo -nós as mães - que sabemos que os nossos filhos são a nossa maior força e, simultaneamente, a nossa maior fragilidade.

Quando morre uma filha de uma mãe o coração de todas as outras fica despedaçado. Não apenas por empatia. Mas sempre por humanidade.

Um abraço colectivo naquela mãe. Naquele pai.

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