sexta-feira, 19 de março de 2021

Feliz dia do Rui

“Shiiiu, mamã! Acorda devagarinho para não o acordarmos.
 Mas são sete da manhã, Ana! Acordaste sozinha? 
Sim, pus o despertador a tocar porque tenho que lhe preparar o pequeno almoço de dia do pai: anda! Pronto, já cá estou na cozinha, orienta-me, Ana! 
Já tenho a água a aquecer na chaleira para o café, alcanças o cacau da prateleira de cima da despensa para fazermos um bolo de caneca? 
Ok, vou adiantando o bolo, estás a ir onde? 
Vou aili meu quarto buscar o postal que fiz com um poema e que escondi debaixo do colchão para ele não descobrir. 
Boa, vai! E traz o bloco de notas que fizeste na escola de prenda do dia do pai: ele vai adorar!
 Já está mãe. 
Ana, o bolo de caneca explodiu um bocadinho, desculpa! 
Não faz mal eu espeto um oito para disfarçar: ele é meu pai há oito anos. Puseste tudo no tabuleiro? Sim, mais alguma coisa, Ana? 
Traz o teu telemóvel para lhe tirarmos uma fotografia a acordar com a minha surpresa. 
Oh Ana, o pai está a dormir com uma t-shirt coçada, não vai ficar bonito. 
Oh mãe, cheira a café e bolo de chocolate e o pai é sempre bonito, está tudo per-fei-to. 
Ok, pronto. 
Bora lá! (Som de estores a subir e uma nesga de sol a dar a luz certa para esta manhã de amor). Feeeeelizz dia do pai! 
Oh, obrigado filha. Que surpresa tão boa! 
Gostaste? 
Gostei. 
Pai? 
Sim? (Segurando-lhe o rosto com as duas mãozinhas) 
Eu amo-te mesmo muito. 
Eu também, loirinha. (
Abraço em silêncio durante muito tempo) 
Bora comer?” 



Tenho o pai mais feliz do dia. Feliz dia, Rui!

segunda-feira, 15 de março de 2021

Até quando?




Sarah Everard estava de regresso a casa à noite em Clapham. Conheço bem a área, toda a minha família inglesa mora ali. Foi raptada e assassinada por um polícia. O único crime que cometeu: ser uma mulher que estava à noite, na rua, a caminho de casa. 
Sempre que ouço alguém que diz que o feminismo é uma doutrina extremista vomito. Sempre que alguém no dia da Mulher vem com whattaboutism sobre quando caralho é o dia do homem e que os homens também são vítimas da sociedade tenho pequenos AIC. Nós nem estamos habituadas a questionarmo-nos sobre algumas das anormalidades que assumimos pelo facto de sermos mulheres. Normalizamo-las mas- caramba!- elas não são normais! 

Não andarmos à rua à noite sozinhas. Não respondermos à letra quando passamos no meio de um grupo de homens que nos vomitam piropos. Não ponderarmos viajar sozinhas para sítios perigosos para mulheres, não apenas sítios perigosos, sítios perigosos para mulheres. Enviarmos SMS com matrículas de táxis quando entramos num, conduzido por um homem, à noite. Mexermos no telemóvel e fingirmos uma chamada quando estamos numa paragem sozinhas e aparece um homem ou quando sentimos passos de um homem atrás de nós numa rua deserta. 

Não devia ser assim. 

Não devíamos ter que enviar mensagens aos nossos pais quando chegamos a algum sítio para dizermos que chegámos em segurança. Nem educarmos as nossas filhas a fazermos o mesmo. Só porque nasceram com um pipi. Só porque os rapazes e os homens não são educados a não intimidarem uma mulher quando estão sozinhos na presença de uma. Só porque os rapazes e os homens não são educados a guardarem as suas opiniões sobre os corpos de uma mulher quando estão na presença de um grupo de amigos. Só porque os rapazes e os homens não são educados a controlar os seus impulsos animalescos sexuais quando estão na presença de uma mulher. Só porque os rapazes e os homens não são educados a controlar a sua força e a questionar o poder que o patriarcado lhes conferiu durante séculos. Só porque os rapazes e os homens não são educados a respeitar de igual para igual qualquer ser humano, independentemente do seu gênero. 

Eles dizem uns aos outros: podia ser a tua mãe, a tua filha, a tua mulher. Muitos deles empatizam. Só que nunca conseguirão estar neste lugar, neste sentir condicionado, neste medo colectivo. 

 A verdade é que nunca poderia ser com eles. 

 Quando é que esta merda acaba? Até quando?
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