Em 2021 senti-me profundamente triste. E aflita. E impotente E devastada. Tive terror em perder a minha tia e perdi o meu tio num momento de terror. Confortei a minha prima. Alimentei o meu outro tio. Percebi definitivamente que nunca mais retomarei relações com a minha outra prima Tomei conta de muita gente e pouca de mim. Fui promovida na pior altura para o ser. Trabalhei horrores. Tive muitas mudanças no trabalho até que apareceu a Ana Lúcia para me serenar. Serenou. Ajudei a organizar uma manifestação pela vida independente. Gritei num megafone. Fiz uma vigília e dormi à porta da Assembleia da República. Reforcei a certeza de que o meu casamento é para sempre e que há amores para a vida toda (até podem não haver casamentos, mas amor há!). Perdi a Joana. Dei centenas de horas de formação. Vi a Monalisa. Tive o melhor jantar do ano aos pés da Torre Eiffel. Vi, finalmente, toda a Casa de Papel. Tive pouco com amigos. Voltei a organizar campos de férias. Diverti-me tanto na Isla Mágica. Fui vacinada. Falhei nos exames de rotina da mama mas compenso em breve. Passei o dia da mãe com a minha mãe sem máscara e viseira. E com a Ana. As três na Lx Factory. Vi um espectáculo de flamenco ao vivo. E comemos tantas tapas, os três felizes em Sevilha. Comovi-me na Eurodisney. Namorei muito no Verão com tinto de Verano e Manchego. No meu aniversário um conjunto de bandalhos bons juntou-se no mato para me cantar os parabens. Foi tão importante para mim. Comi marisco em São Martinho do Porto. Fui feliz em Elvas com a Inês e o Bruno. Recebi os meus sogros em tranquilidade. Li pouco. Fui a Itália em trabalho e conheci gente incrível A Ana fez a sua primeira comunhão. A minha mãe esteve sempre por perto e isso é tudo para mim. Fui feliz com a Eillen a cantar a banda sonora da Tieta. Fiz yoga no Moinho de Maneio. A Ana cresceu, cada vez mais pessoa inteira e boa. Aprendi a jogar Rummy. Permiti-me a falhar e abracei a vulnerabilidade com auto-compaixão. Em 2021 fui uma andorinha sempre em vôo numa constante tentativa de regresso a casa.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2021
quinta-feira, 30 de dezembro de 2021
quarta-feira, 29 de dezembro de 2021
Foi um ano tão mau
Foi um ano tão mau. Não me apetece fazer redução da minha dissonância cognitiva e dizer que não foi mau, que afinal foi apenas duro, desafiante, de crescimento, difícil. Não foi. Aliás, até pode ter sido isso tudo mas foi, sobretudo e sobre tudo, mau.
Perder pessoas, mas perder a sério, não o deixar ir, não o decidir cortar relações, perder sem escolha e definitivamente, nunca pode fazer de qualquer ano que seja algo menos do que terrível.Tudo o que possa ter sido bom e que muitas vezes damos por adquirido- estou com saúde e a minha mãe e filha também, tenho emprego e salário, tenho casa e não tenho contas por pagar, tenho uma relação amorosa saudável e um marido com saúde e emprego- é um alívio mas não apaga o terror que foi este ano.
Sinto-me em catarse, como no fim de uma tragédia onde tens que lutar cheia de adrenalina, sem dispersar, sem tempo para merdas, e no fim, campo de batalha vazio, podes finalmente sentar-te e chorar.
Comecei o ano a perder a minha tia e eu não sei perder gente e acho que nunca irei aprender. Quando ela voltou, do lado de lá do covid nos cuidados intensivos, lembrei-me do dia em que ela emigrou. Eu tinha 5 anos e fui levá-la ao aeroporto. Ela despediu-se com lágrimas nos olhos e começou a subir as escadas rolantes. Eu, cá em baixo, segurada por um adulto que não me lembro quem era, a gritar: " não vás, tia, não me deixes, tia!". E ela foi. Foi talvez o primeiro trauma da minha vida, esse dia, embora tivesse tido tantos motivos para trauma, as hospitalizações, as noites sozinha internada, as saudades da minha mãe, o meu pai que nunca mais voltou, esse por opção. É a falta de escolha que me mata por dentro. A inevitabilidade da vida. Quando a minha tia voltou do covid senti que estávamos, finalmente, de contas saldadas: ela tinha fintado o sentido das escadas rolantes e voltava finalmente para trás, para não me deixar sozinha.
Em Julho, o meu tio subiu nessas escadas para sempre. E eu nem consegui gritar "não vás, tio, não me deixes, tio!" nem ninguém me segurou.
2021 foi um ano de merda, desculpem o discurso depressivo. Para 2022 não quero nada. Só que mais nenhum dos meus parta sem poder regressar. Escadas rolantes paradas.
segunda-feira, 27 de dezembro de 2021
Dores (maternais) de crescimento
A gente anota o primeiro dia em que se sentam, em que lhes nasce o primeiro dente e depois em que lhes cai também, em que dão os primeiros passos, do primeiro dia de creche e depois, todos os anos, de escola. A gente anota a primeira palavra dita e a primeira escrita, o primeiro desenho de figura humana e o inaugurar de tantos estadios.
Há sempre o encanto desmesurado nos inícios, nos princípios, nos começos, nas primeiras vezes.
Mas são muitos os dias que são os últimos dias em que fecham ciclos.
Este foi, provavelmente, o último dia em que a Ana assomou à janela para esperar o Pai Natal.
Há uma beleza nostálgica no fim de ciclos. Foi incrivelmente bom viver a magia do velho de barbas nove anos com ela: ser o pai, acompanhá-la a escrever-lhe, ir de mãos dadas com ela aos CTT por as cartas, ano após ano, tocar o sino escondido da na cozinha, segui-la na correria de tentar vislumbrá-lo, ouvi-la a jurar que o viu no céu porque só os olhos das crianças vêem o invisível.
De janela aberta anoto aqui a luz do balão para sinalizar o spot, a caixa de take away com bolachas e cenouras porque há covid e ele tem que levar o repasto porque já não se come ao postigo e o sorriso de quem desconfia que não é real mas que escolhe em acreditar.
A magia não fechará a janela, mesmo que tenha sido esta a última vez.
domingo, 26 de dezembro de 2021
sexta-feira, 24 de dezembro de 2021
Tudo sobre controlo
É Natal, é Natal
Estou na cozinha
Tem tudo pra correr mal
Se correr, como sozinha
Falta-me ovos aqui
A receita de Azevias está acolá
Se tudo ficar uma bosta
Ainda sei fazer um chá
É Natal, é Natal
Quanto tempo levedam as filhós?
Dúvidas quem não as tem?
Ah! Não têm as avós!
É Natal, é Natal
Na cozinha não tenho um dom
Mas estão todos feitos ao bife
Se não comerem e disserem que está bom!
quarta-feira, 22 de dezembro de 2021
Crescemos sempre até ao fim
Quando nos morre alguém, como no dia de hoje há dez anos, sentimos que não vamos sobreviver. A garganta fica com um nó, o coração apertado, os olhos pequenos de tanto chorar: tudo em nós encolhe, minga, sufoca.
O grande desafio de se crescer (eu não acredito em envelhecer, acho que crescemos até ao fim) é este: crescer implica expandir, abrir, ocupar mais espaço, ficar maior e a morte dos que amamos faz precisamente o contrário, diminui-nos, fecha-nos, insignifica-nos face à grandeza do amor. Por isso, dizia eu, o grande desafio de crescer é fazermos o pino e, com o mundo de pernas para o ar, encontrarmos o equilíbrio novamente sem as referências do amor que nos guia na vida, voltarmos a endireitar os quadros nas paredes, a olhar sem lágrimas as fotografias nas molduras, a endireitar a vida com o peso estranho da ausência que levita.
Cada pessoa que parte esvazia-nos, entristece-nos para sempre, numa tristeza que aprendemos a convidar para comer connosco à mesa e dormir e acordar ao nosso lado na cama, porque negar, evitar não a vai fazer desaparecer, porque aceitar ajuda a crescer, ainda assim. Um dia, desgostos somados, crescemos tudo e fazemos contas ao amor, às memórias felizes, à saudade e, outra vez, aos desgostos somados.
Crescemos a acreditar em finais felizes mas só há tristeza em qualquer fim.
Eu achava que não se sobrevivia à morte, há treze anos, há dez no dia de hoje, há cinco, neste Julho que passou e como estava enganada.
As pessoas dizem que se envelhece porque crescer deixa de ser bom e em expansão e passa a ser duro, com perdas e a mingar mas, ainda assim, trata-se sempre de crescer.
Crescemos até ao fim porque sobrevivemos sempre à morte.
É a vida que acaba. É à vida que não se sobrevive e esse é, talvez, o grande paradigma da humanidade. Do amor.
sábado, 18 de dezembro de 2021
Electra
Os avós tinham chegado dos Açores, depois de uma distância de dois anos. A avó fala com ela muitas vezes por semana- num esforço que me enternece- para alimentar a relação, para acompanhar o crescimento da neta. Faço questão da Ana ligar de volta, contar sobre os seus dias, alegrias e inquietações. Sei a importância que os avós podem ter na vida dos netos, os meus continuam, depois de mortos, a orientar-me o caminho.
A minha mãe é a maior: ninguém a bate, ninguém está à sua altura nesta tarefa. A Ana diz sempre que é a avó aventureira e isso diz tudo sobre a relação delas, cheias de aventuras e afectos, riscos e segurança.
O meu pai não conhece a Ana, por desamor, incapacidade de se vincular.
Mas estes avós vivem longe, o caminho não se faz por estrada nem cacilheiro nem comboio nem bicicleta.
A avó liga várias vezes por semana, dizia eu, mas o avô nem por isso. Talvez por essa razão, estávamos curiosos para perceber como iriam interagir, a Ana e este avô distante e menos presente.
A meio da semana a avó perguntou insegura: "Gostas mais de mim ou do avô?" A Ana, colocada injustamente naquela posição frágil, não hesitou: "Do avô." E rematou " tens que perceber que estou a descobrir como é ter um avô e é alegre e divertido!".
Depois, foram até à feira de Natal e a Ana agarrou as mãos de dois dos homens da sua vida e pediu que atirassem ao alvo para lhe conseguirem um peluche gigante. Vibrou, torceu e no fim não ganhou o peluche.
A pontaria era má mas eles não sonham como é certeiro o sentido de orientação que estão a deixar na Ana, amada, querida, importada. A vinculação, o sentido de pertença e até a cena freudiana são mais valiosos que qualquer peluche gigante. E nunca ganham pó, por mais tempo que passe.
Ganha-se sempre no jogo do amor.
sexta-feira, 17 de dezembro de 2021
Com força e baixinho
Quando o avô morreu eu entrei na sala e tu choravas baixinho. Quando me viste choraste mais, com mais força, mas simultaneamente mais baixinho, e tapaste o rosto com aos mãos como se tivesses vergonha da fragilidade, embaraço da vulnerabilidade. Tinhas sido sempre crescida, durante toda a minha vida, era a primeira vez que te via pequenina, com as mãos a tapar os olhos verde azeitona, verde louro, verde teus avó, como uma criança que esconde a cara com o bibe quando fica assustada e tem medo do Mundo.
Eu também tive medo, avó, desse Mundo que veio depois do avô e que nunca mais foi o mesmo e também chorei baixinho e com força, acho que foi contigo que aprendi a chorar sem histerias, baixinho e com força, como quando tinha muitas dores e, já adultas - as duas- tu vinhas para a minha cama e te deitavas ao meu lado a embalar-me para me adormeceres a dor.
Naquele dia o avô morreu e tu não quiseste ir ao velório, nem ao funeral e ninguém percebeu porquê. Ficaste em casa a fazer comida, e tu mal conseguias fazer comida, a mão que me embalava tinha sido silenciada pelo AVC, continuava porém a fazer comida e a embalar-me, no Minho as mulheres alimentam os vivos que choram os mortos.
E nunca mais abriste a porta do teu quarto e do avô, já não havia vocês os dois, só a porta fechada, como o Mundo fechado ficou e talvez, por isso mesmo, tu tapavas o rosto como uma criança com medo tapa a cara com a fralda do bibe. Três anos depois adormeceste na sala, olhos verde louro fechados, nunca mais tinhas entrado no quarto, fizeste comida até à última refeição, a mão com o AVC, e dessa vez não acordaste, assim com força e baixinho partiste, talvez para ires fazer comida para o avô que te esperava, botas de borracha e sorriso com dentes tortos.
E eu fiquei, e deixaste-me a Ana na barriga, segredo que só descobri dias depois, para poder ter quem embalar, para me abrir as portas do teu quarto e do Mundo, para usar bibes sem tapar o rosto, para poder continuar a chamar Ana como te chamava a ti, vó Ana, para me deitar ao seu lado hoje, ela já dorme, e embalá-la, com força e baixinho, para ver se adormeço a saudade que, agora crescida, trago em mim.
Amanha faço comida eu.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2021
É bacalhau espiritual
A melhor amiga da Ana agora mesmo, na primeira comunhão:
"Liliana, vamos comer bacalhau santificado?"
quinta-feira, 2 de dezembro de 2021
A melhor música de Natal
Começo eu: "Noite Branca" dos Anjos *
Agora vocês!
[* Não mete coca mas mete casacos de cabedal fake com cortes miseráveis dos anos 90 e se é para azeitices antes o bonzão do Sérgio que os trinados da Mariahzinha]



