terça-feira, 19 de junho de 2018

Chocados com as crianças mexicanas separadas dos pais na fronteira dos USA? Leiam este post!



Tenho a sorte de estar rodeada de pessoas inteligentes e informadas e, por isso, ter acesso privilegiado a informação fidedigna e credível sobre os mais variados temas. Assim, com a devida autorização, partilho tudo o que há para saber sobre este caso transcrevendo. textualmente, as palavras da minha amiga Inês Sampaio Melo Antunes, distinta advogada no Tribunal de Justiça Europeu e que percebe da poda, num texto único, conciso e absolutamente esclarecedor:

"Tribunal de Justiça Europeu explica: "KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO"
Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta.
O que concluí é absolutamente kafkiano. Ora atentem:
- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.
- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.
- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos final deste texto).
- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados.
Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.
Obrigada por me lerem até aqui!"

Ler aqui aqui 

sábado, 21 de abril de 2018

Inter-rail hospitalar- Ser optimista mas a culpa é da puta cadeira



Chegou Dezembro e as coisas não melhoravam. Médica de família diagnostica hérnia discal  (detectada numa TAC numa ida à urgência do hospital) e compressão do nervo ciático.

Nesta altura as idas às urgências com dores alucinantes eram tantas que as empregadas do Hospital já atribuiam desconto de funcionário do Hospital a mámen. 

Farta de injecções de voltarem e relmus e com uma overdose de mentol de Transact experimentei o quiropata, que não se revelou eficaz no meu caso. 

As compras de Natal foram feitas num só dia e, numa fase final, já usando a cadeira de rodas do Cascaishopping, o que- vendo o copo meio cheio- me deu prioridade numa série de filas das lojas. Noite de Natal a ganir baixinho (de dores até porque os presentes correram muito bem) e tirando o facto de mámen ter levado a minha Bimby para arranjar para vir a tempo de confecionar a ceia de Natal, que este ano era cá em casa, e de lhe terem assaltado o carro e roubado a bicha, pronto, tirando isto e as dores foi um Natal pois. 

O ano novo foi simpático, com amigos do coração cá em casa sem me deixarem mexer um dedo sequer para me pouparem- beijinhos Margarida, Luna, Paulo, Laura- queijo, enchidos,marisco e vinho (para os que não tomam medicação).

Com medo que a medicação me desse sono e eu me viesse a esquecer daquela noite entre 2017 e 2018 a minha filha e a sua melhor amiga lançaram aqueles canhões de confettis às doze badaladas. Resultou. Cada vez que faço limpezas à casa, e já passaram 4 meses, encontro cabrões de confettis nos sítios mais recondidos, tipo a boiar dentro do autoclismo casa de banho do meu quarto, que fica assim a 3 km da sala ou na gaiola do coelho que fica a 5 km da sala. 


E foi, de facto, uma meia noite inesquecível pois estava na casa de banho às doze badaladas, saí disparada para a sala (tão disparada quanto me permitiam as dores nas costas,  portanto, cheguei quase a tempo de 2019) e esquecida da miséria em que me encontro fiz ali uma tentativa para cumprir a superstição e subir para uma cadeira com uma nota, num momento trágico-cómico, pois para além de não conseguir movimentos que me permitiam subir para a dita, o meu marido tinha-se esquecido de levantar dinheiro e só tinha uma nota que- cretino!- orgulhosamente ostentava no pedestal das minhas cadeiras da AREA, que foram caras, se eu não subo ninguém sobre e... cagaram-se todos para mim. 

Ali estava eu, início de 2018, por pouco não passei a viradinha numa posição escatológica, sentada à mesa a segurar uma nota de Monopólio (que tínhamos jogado antes do Party) e mais marreca que o Bruno Carvalho naquele meme a sair do banco de suplentes.
Na verdade, acho que esse era o verdadeiro presságio para o ano de 2018: um ano quase de cagada, sem subir nem descer,na realidade sem me mexer, e com uma vida financeira tão promissora como a de um investidor do Monopólio. 

Que viesse Janeiro. Assim com'assim já tenho passe V.I.P nas urgências e mámen descontos na cafetaria do hospital.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Post meramente publicitário com o fim de (tentar) mostrar à minha família uma utilidade que seja deste blog



A minha prima é focada. Um bocadinho excessivamente até.Daquelas que quando está a trabalhar pode não dormir dias seguidos nem comer sushi se lhe puserem à frente enquanto não acaba uma tarefa. Igualzinha a mim que basta alguém me oferecer uma bica (vendida!) e lá tem três dedos de conversa (porque merda se diz três dedos de conversa? Podem ser dois dedos de conversa? Quatro dedos? Qual a lógica disto? Estão a ver? Eu sou mesmo igualzinha a ela, não disperso nada...). 

Desde para aí os dez anos que diz que quer ser arquitecta. A culpa é minha, nove anos e meio mais velha,que lhe apresentei os SIMS (já ninguém joga SIMS?) e enquanto me entretia a afogar os bonecos enviando-os para a piscina e depois suprimindo as escadas até que eles morressem de cansaço e eu pudesse ganhar uns trocos para continuar o jogo (pensando bem, é melhor nunca referir este facto à minha psicanalista...) a miúda prodígio construía cidades inimagináveis no SIMS city. É isto, eu já fiquei com a genética da beleza da parte da família,também não podia querer a parte da inteligência, né?! 

A modos que sim, a miúda tornou-se arquitecta e há uns quatro anos que se tem vindo a especializar numa área específica que tem que ver com modelagem 3D, renders, imagens 3D e assim coisas que eu queria muito explicar mas eu era a que suprimia as necessidades de comida e de fazer xixi dis SIMS, não me exijam muito,ok?

Assim, acabou de lançar a sua nova empresa - a Into Studio-  que produz imagens digitais estáticas e "in motion", muito virada para projectos de arquitectura 3D de suporte a outros gabinetes de arquitectura, imobiliárias e real state, remodelações de casas e edifícios, trabalho com fábricas de mobiliário e design, etc. 

A modos que eu avisei lá em cima, ninguém veio ao engano, que este era um post publicitário para provar à minha mãe que o blog serve para a alguma coisa e tentar compensar o meu tio, pai da minha prima, que não me perdoa a entrada em casa dos SIMS, que o pessoal está para velho e eu já tinha dado o desgosto de ir para psicologia, todas as esperanças de uma médica na família se dissiparam com esta história da arquitectura. 

Visitam o site? Likam na página de facebook? Vá, é a minha caçula, mexam esses dedos!

(e se não likarem aqui vai a praga de sete anos de azar, um furúnculo no nariz, uma verruga na virilha, pé de atleta e não há alho que vos valha. Lembrem-se que sou pessoa que sacava as escadas de acesso aos SIMS para eles morrerem cansados a nadar, tá.?! Não percam isso de vista!)

quinta-feira, 8 de março de 2018

Ainda sobre equidade e vindo da Suécia

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"Swedish dads".
Créditos fotográficos: Johan Bävman.

Do Luxemburgo a minha melhor amiga diz de sua justiça


Ainda sobre o dia das mulheres: a reflexão vinda de Espanha

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Levantava-me e não havia Ana. Não havendo Ana, não daria pela falta da educadora e da auxiliar, peões essenciais no meu dia-a-dia.
A padaria fecharia por não ter nem um empregado homem. No café a Fátima não me serviria a bica em chávena escaldada. Ninguém me venderia o jornal da manhã porque a Luzia já não estaria na papelaria. Na farmácia a Isabel não saberia exactamente o meu avio mensal.
Na gasolineira do Jumbo não poderia passar as cancelas para fazer o pagamento, nem ninguém me receberia o valor das portagens na A5.
Haveria menos trânsito. E à minha volta um cenário muito mais homogéneo de homens a tirarem cocotas do nariz enquanto conduzem.
Trabalharia sozinha com o Filipe. Não haveria enfermeira, nem assistente social, nem terapeuta ocupacional nem a Susana, a pessoa que nos organiza o trabalho. Mais de metade das pessoas para quem trabalho desapareceria e isso seria a maior seca da minha vida.
Não haveria telefonemas da minha mãe, nem a minha mãe- caraças!- e como o meu pai zarpou, seria orfã. Não haveria a minha tia nem a minha prima que são só as pessoas mais importantes da minha família alargada.
No café do bairro a Dona Alda não me faria as melhores sandes de presunto cortado a canivete a 1,80€ nem ninguém para me fazer brushings à pressa no mítico salão "A princesa do Condado".
Não existiria a minha amiga Catarina (nem a Lara) nem a Xana (logo, nem a Catarininha e a Mariana), nem a Rosa nem a Cláudia, redes de suporte emocional do meu coração. A minha amiga-advogada MEP não me safaria de mil cambalachos e a ausência da minha amiga-TOC Vanda já me faria ter sido presa pelas Finanças há que séculos.
A minha amiga Ana Margarida não existiria nem a Laura e embora goste muito do Paulo, a minha vida seria muito mais secante. As histórias da Ana Luisa não existiriam para me entusiasmarem, a Ana de São João não me aguentaria em tardes de sangria à desgarrada e o que faria eu sem a Paula, a Marta Guerra e a Nonô?
Não seria a mesma pessoa sem conhecer a Eileen, minha alma gémea, soul sister que me abre, todos os dias, novas perspectivas para o Mundo.
Não teria lido todos os livros da Alice Vieira na infância, nem os da Isabel Allende na adolescência, nunca me teria emocionado perante quadros da Paula Rego e não teria como hino de vida o "Gracias a la Vida" da Violeta Parra.
Não ouviria Jacinta no youtube, não poderia ser fã da Merryl Streep e da Rita Blanco e o "This is Us" sem a Rebecca e a Kate não teria a menor graça. Não leria blogs, absolutamente, nenhuns.
Sem as minhas mulheres o meu, definitivamente, que sim. Sendo eu uma delas, nem haveria mundo para mim.
Gracias, El Pais.
[Ok, não haveria a minha sogra mas não havendo a minha sogra a minha vida seria muito mais sensaborona. E, não digam a ninguém, mas eu até gosto dela...]

Da Noruega: quando as crianças vêem mais longe que os adultos

"Quero ser claro: isto não é um favor às mulheres. A igualdade de género é uma questão de direitos humanos"*


Num dia em que se assinala o Dia da Mulher, ligo de manhã o rádio do carro a caminho de uma reunião e oiço que a Rádio Comercial convidou homens cantores para interpretar canções habitualmente interpretadas por mulheres. 

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher tentaram oferecer-me flores à saída do comboio, no Colombo, no stand de automóveis a que fui à hora de almoço (e onde o vendedor sugeriu que comprasse um carro mais "feminino" porque, enfim, pelos vistos os carros também têm género e tumbas, não te vou comprarcarro só por causa das tosses) e ainda são só duas da tarde.

Num dia em que se assinala o Dia da Mulher um amigo manda-me uma mensagem de "parabéns" (wtf? parabéns por ter dois cromossomas x?), a Companhia dos Perfumes manda-me uma sms a oferecer-me desconto na compra de uma água de colónia e no meu facebook vejo movimentações de mulheres a combinarem jantares temáticos em que "menino não entra":

Sou só eu que acho que seria muito melhor para a sensibilização das questões do empoderamento feminino que a Rádio Comercial pedisse a mulheres que mostrassem que sabem interpretar igualmente músicas tradicionalmente cantadas por intérpretes masculinos?

Sou só eu que estou uma beca farta que desvirtuem o dia homenageando as mulheres, apelidando-as de "especiais", "maravilhosas", dignas de receberem flores e descontos e saldos (ah, as mulheres e os saldos: viva o cliché!), pedindo a homens que empatizem, a marcas que sejam simpáticas, a um tratamento diferencial com discriminação positiva uma vez por ano?

Eu não quero ouvir homens cantarem músicas de mulheres (na verdade, nem quero ouvir mulheres cantarem músicas de homens) porque a música não deve ter género, a música é universal, é para todas as vozes, não tem pipi nem pilinha e, Rádio Comercial, a sério, homenagens faz a FunAlcoitão, façam-nos é rir com New Yorks New Yorks da Bobadela, tá?

Eu não quero mensagens de parabéns no dia de hoje, quero discursos e relações de respeito e igualdade todos os dias.

Eu não quero descontos na Sephora, nem de depilação para ficar sexy para "o meu homem", nem "jantares só de meninas" no dia de hoje.

Quero que todos os dias o meu salário seja igual ao de um homem que desempenhe a mesma função, a mesma categoria e que possa ter um poder de compra igual ao dele sempre, todos os dias do meu ano para comprar sem descontos que têm como critério a posse de um pipi. Quero que a sociedade não me pressione a depilar-me para quem quer que seja, nem para mim mesma quanto mais "para o meu homem". Quero que não seja expectável que eu adapte o meu corpo, a minha roupa, os meus modos, a minha postura e o meu dia-a-dia aos padrões que se atribuem como tradicionalmente femininos. Quero jantar com as minhas amigas só mulheres quando me der na real gana, ou jantar como os amigos só homens sem ser olhada de ladex, ou jantar com casais ou com quem me apetecer sem que isso seja assunto.

Quero que não me perguntem porque não gosto de me maquilhar, que não me olhem de lado quando não uso saltos altos quando vou a festas, que não achem que podem dar palpites sobre o meu peso, que não achem que o meu corpo é assunto.

Quero que "feminista" não seja uma ofensa, que "feminista" não seja a nova "bruxa" para se caçar.

Quero que não digam à minha filha que "esgrima" não é um desporto para meninas (ela adora: ide-vos foder!), que não me critiquem por ser uma mãe demasiado flexível que não obriga a miúda a dar beijinhos aos crescidos porque educar é obrigar a que ela corresponda ao que a sociedade espera dela, do corpo dela e do espaço pessoal dela, quero que não lhe estejam sempre a dizer como ela é bonita em vez de lhe elogiarem a personalidade firme, a valentia e a capacidade de concentração, que não digam ao pai dela que "daqui a uns anos tens que andar de caçadeira" como se ela fosse objecto deste sistema patriarcal e que não se riam quando ela diz,convicta, que quando for grande quer ser cientista ou empregada de limpezas.

Quero que os brinquedos, os livros, as roupas, as brincadeiras, os desportos, as profissões, não sejam categorizados como "de menino e de menina".

Quero que, daqui a uns anos, ninguém se atreva a oferecer-lhe geribérias ranhosas por ela ter nascido menina. Quero que não lhe prestem- na verdade, nem a a ela nem a mim- dizia eu, quero que não nos prestem homenagens: queremos igualdade de oportunidades, igualdade de tratamento, igualdade.
Eu não quero que me comprem flores hoje. Quero que me deem respeito.

Todos os dias da minha vida.

[* Título da crónica de António Guterres: aqui].

Adivinha: "Qual a relação entre os impostos que pagamos e o Dia da Mulher?"

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Resposta: Não deveriam servir para financiar eventos destes.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Feliz ano novo, mámen!

Rui aos 39 anos: será sempre loiro mas está cada vez mais grisalho, gosta de vinho tinto às refeições, não perde um livro ou uma série histórica, sabe tudo sobre Reis e rainhas e arte, gosta de viver em Cascais mas será açoriano com orgulho até morrer, adora crianças em geral e é louco pela Ana em particular, se pudesse tinha mais dez filhas, acorda todos os dias antes de todos para ir à padaria comprar pão fresco para nós, se fosse uma cor seria azul, já não fuma e às vezes não sabe o que há-de fazer com os dedos enquanto bebe uma bica, acredita muito no seu Deus, lê sempre antes de dormir, adora passar a ferro e diz mesa de passar, chócolate e caixinha de leite, tem uma gargalhada alta mas é discreto e low profile, despreza dinheiro e bens materiais, pinta bem, canta bem, adora séries de detectives, é desconfiado e não é facilmente conquistado, conduz mal, é refém da Electra e quando se refere a mim diz sempre “a minha loira”, chama-me Lilica e grunguinha, ressona mas dorme em conchinha como ninguém, tem o melhor abraço do Mundo e é o farol desta casa. 

Celebra hoje o seu aniversário e nunca saberá o quanto o amamos a ele por tudo o que ele é. 

Feliz ano novo, grunguinho!

terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Supercoach ou vamos lá agora fazer a transposição

               


Imaginem que a vossa entidade patronal- figura de autoridade- acha que vocês precisavam de orientação/coaching para melhorarem o vosso desempenho profissional.

Que até são bons tecnicamente mas que são- na visão soberana da vossa chefia directa- uma nódoa na gestão das vossas emoções, nas vossas competências sociais.

Imaginem que quando entraram na empresa, até assinaram uma cedência de direito de imagem.

Imaginem que entra um "Super-coach", completamente desconhecido, pela vossa empresa que tem como briefing único sobre vocês a opinião e os relatos da vossa cheia directa. 

Imaginem que ele fica ali, de cão de guarda, de braços cruzados, a observar-vos, a abanar com a cabeça, a arquear as sobrancelhas.

Imaginem que ele começa a falar com a vossa chefia e a dar palpites sobre o vosso comportamento. Que dá instruções sobre si à sua chefia à sua frente. Que continua a dar instruções sobre si à sua chefia depois da sua hora de saída, à porta fechada no gabinete dele. 

Imaginem que ele primeiro até leva um arsenal de câmaras e técnicos de som e aparato para filmar isto tudo, sempre com o objectivo pedagógico e o enquadramento da preocupação pela melhoria do seu comportamento.  Mas como vocês são adulto e tal e conhecem as normas de desejabilidade social e têm um super ego um bocadinho mais trabalhado comportam-se de acordo com o que é espectável. Mas imaginem que para terem acesso aos vossos comportamentos mais "crus" se instalam cãmaras ocultas ali, no vossos trabalho, onde é suposto estarem todos os dias sem fazer cerimónias e vos filmam nos vossos momentos de tensão, stress e melt down, muitas vezes provocados pela mesma chefia directa que precisa de mostrar ao supercoach a vossa essência para que eleo consiga ajudar a geri-lo a si. 

Imagine que, neste processo, até vos apontam algumas estratégias, jogos pedagógicos e dinâmicas de grupo para trabalharem as vossas competências sociais mas que nunca o super coach teve um momento para vos ouvir sozinhos a vocês , em privado, para conhecer, através da vossa voz, a vossa história , necessidades, receios e ansiedades. 

Imaginem que estas imagens todas são seleccionadas criteriosamente por produtores para serem emitidos na intranet do grupo todo ao qual pertencem as vossas pequenas empresas, tendo como foco a eficácia do supercoach, a preocupação e a capacidade de pedir ajuda da vossa chefia directa e o sucesso do método que vos tornou, aos olhos de todos, menos insuportáveis. 

Imaginem que publicam estas imagens na intranet à noite e ainda enviam para todos os vossos colegas, clientes, fornecedores, contactos profissionais diversos e stakeholders vários. Ah, mas vocês até assinaram autorização de cedência de imagem. Portanto até é legal. Agora e moral: é?

Amanhã, apetece-vos ir trabalhar? Mais importante: como se sentem?

A filha que fui e a mãe que sou.



A minha mãe adora fotografias. Tenho centenas (milhares?) delas que testemunham toda a minha infância: fotografias de festas de aniversário, de dias de Carnaval, de férias de Verão, de brincadeiras no quintal com a minha prima, das colónias de férias, da primeira comunhão, do lançamento dos livros, de Natais. Tenho também fotografias de internamentos no hospital (passava por lá temporadas de meses) a brincar com barbies em tabuleiros sentada na cama articulada, a apanhar sol à porta do Alcoitão deitada de barriga para baixo na maca à espera que me cicatrizassem os calcanhares e a passear de cadeira de rodas com os dois pés engessados no regresso a casa. Esta última empunhando um raminho de flores amarelas, as chamadas azedas. Em todas elas estou feliz. A sorrir e feliz, independentemente das circunstâncias.

Nunca se lembrou a minha mãe de me retratar a berrar ( e eu também fazia birras), triste, com dores de corpo ou de alma, zangada ou frustrada, em "melt downs" ou em situação de descontrolo de emoções. E acredito que tal decisão não se deveu, propriamente, ao preço dos rolos porque também não consta nos meus álbuns a fotografia típica dos anos 80 onde jaz o bebé gordo e nu numa banheira de plástico, a fotografia mais temida por todos os meus amigos quando as respectivas mães faziam questão de exibir os seus álbuns de fotos. A minha mãe sempre me retratou feliz, mesmo que a ocasião não o fosse.

Agradeço-lhe hoje por isso.

A minha mãe também me fazia outras mil coisas para me proteger: tapava-me à noite antes de eu dormir, caminhava sempre comigo de mão dada do lado de dentro do passeio, garantia que eu ia limpa, penteada e bem vestida para a escola,  tentava que eu não me expusesse gratuitamente e, já crescida, quando eu comecei a tentar negociar utilizava o argumento final, quando todas as argumentações já tinham falhado: "eu sou a tua mãe e eu sei o que é melhor para ti, portanto, é assim e acabou. Um dia vais-me agradecer!"

Lembro-me de ser criança. Nunca me esqueço. Consigo fechar os olhos e quase sentir na língua o sabor do gelado pézinho, cor-de-rosa e cremoso. Sinto o coração a bater sempre que me recordo dos momentos que antecediam a visita do pai Natal a minha casa. Lembro-me do abraço que me deu quando chegou a correr ao hospital e me viu, sozinha, na sala de espera, depois de ser transportada de ambulância após um desmaio na escola. Lembro-me de todos usarem tanga para ir para a praia, que era mais prático, que dava mais jeito e dela perceber que eu não queria e nunca, mas nunca, discutir comigo o uso de fato de banho, mesmo que eu tivesse três anos. Lembro-me das pessoas lhe perguntarem porque não me obrigava a usar saias, que estupidez estar a alimentar as minhas manias e complexos e dela sempre defender a minha voz sobre o meu corpo. Lembro-me de tudo, especialmente das emoções. E lembro-me que ela me protegia sempre e de- ainda hoje- sempre que estou em aflição ser por ela que chamo.

Nos anos 80 nós não levantávamos muito a garimpa aos nossos pais. Eles eram crianças no tempo da ditadura e a disciplina vinha contextualizada, de raíz, de uma forma diferente mas com uma lufada de ar fresco trazida pelas novas correntes de pensamento e pela democracia. Eles eram pais diferentes dos pais dele, esforçavam-se para isso, tentavam mudar o que não tinham, como filhos, compreendido, aceite, incorporado. Nos pais da minha geração havia gritos, havia "deixa o teu pai chegar do trabalho que logo conversamos" e muitas ameaças do "em casa conversamos" e havia chineladas, palmadas e estalos e estaladas (oh yeah, são coisas diferentes). Já não havia vergastadas com cintos nem as "tareias de meia noite" que nos contavam que tinha sido sopa no tempo em que eles próprios eram crianças. Eles estavam a tentar dar o seu melhor, a imprimir nos seus eus de pais as mudanças que urgiam os seus eus de filhos. Agarrados a dogmas do passado, demasiado normalizados e perpetuados como a "palmada" e a confusão entre medo/respeito e poder/autoridade eles, contudo, já não queriam usar o cinto, já recusavam métodos pedagógicos.
Dizia eu que, nos anos 80, nós não levantávamos muito a garimpa aos nossos pais mas não deixávamos de fazer birras, de gritar, de tentar negociar, de espernear, bater com portas na adolescência, revirar os olhos, de chorar e de manifestar todas as emoções.
Não éramos, por isso- lamento desiludir-vos- mais bem educados, menos birrentos, mais "maduros" e fáceis de educar: éramos crianças com emoções e que manifestávamos essas emoções com os recursos emocionais que tínhamos ao nosso dispor. Eu também. 

A minha mãe era disciplinadora, não pensem. Rigorosa e rígida, pouco complacente e sem grande margem para mimimis. Gritou-me muito, perdeu amiúde a paciência e bateu-me algumas vezes. Dirá ela, ainda hoje que "foram todas merecidas e que não me fizeram mal nenhum" que até sou uma miúda decente. Mudou muita coisa em relação aos pais dela, não me obrigava a trata-la por "você", teve comigo as conversas todas sem tabus "como se fazem os bebés", a menstruação, a prevenção da gravidez adolescente, levava-me à discoteca, abriu-me o jogo de que se eu quisesse fumar poderia fazê-lo mas teria que lhe pedir dinheiro a ela e nunca aceitar cigarros de estranhos, nunca me deu nenhuma "tareia", era afectuosa e não se coibia de o mostrar. Fez diferente, fez melhor com os recursos que tinha de vantagem face aos que tinham os meus avós.

Estou certa que terá tido, ao longo dos 25 anos em que coabitámos, inúmeros momentos de insegurança e ansiedade (ainda mais somos uma família monoparental). Nunca agarrou na máquina fotográfica ou, mais tarde, na velha câmara de filmar, para registar os meus momentos de descontrolo. Mesmo sob o pretexto de os querer usar para mostrar à minha médica, para lhe pedir aconselhamento, partilha de estratégias ou apoio na gestão de momentos de crise. Não havia internet mas lia livros da área (avé Clube dos Leitores!), partilhava com as amigas as suas ansiedades e com a minha médica sempre par a par, recorreu à psicóloga da Junta de Freguesia quando achou que era altura de uma intervenção mais séria e protegeu-me. Sempre.

A maioria das vezes, agora que sou crescida, empatizo com a minha mãe. Reproduzo muitas das suas estratégias, oiço as suas sugestões. Mas também faço muitas coisas diferentes, não sei se melhores, mas diferentes. Não percebo as pessoas do "no meu tempo levava nos cornos e não me fez mal nenhum". No meu tempo a minha mãe lavava roupa e loiça à mão e as fraldas eram de pano, senhores! Vamos começar a dar aos nós dos dedos que não nos faz mal nenhum, boa?
Os tempos e os contextos são diferentes, as circunstâncias são diferentes e os recursos que tenho ao meu dispor são diferentes. A minha mãe fez o melhor que sabia com os recursos que tinha. Eu faço o melhor que sei com os recursos que tenho. A minha mãe aboliu o "você", o "cinto" e o "medo pela autoridade". Por exemplo, eu, e contrariamente ao que sempre acreditei antes de ser mãe, nunca bati à Ana. Nem conto, alguma vez na vida, fazê-lo.

Dizia eu, a maioria de nós, depois de parir, empatiza com as próprias mães. É uma tendência que nós todas temos e acho que até há uma frase feita daquelas populares que diz isso mesmo, que uma pessoa cresce e dá valor à mãe. Eu dou. A maternidade aproximou-me em muitas coisas da minha mãe mas, curiosamente, a minha infância foi tão estruturante e significativa que tem um peso muito mais importante de aproximação à infância da minha filha.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

It's just another manic Monday, I wish it was Sunday

Fim de semana do caraças: sábado lá bati com os costados outra vez nas urgências, ao que parece os rins não estão a gostar muito de tantos anti-inflamatórios, uma pessoa não morre do mal, morre da cura e puta que pariu isto tudo. A miúda teve três festas de aniversário num só dia e uma pessoa fica a pensar que a vida social da pequena de 5 anos dá 10 a zero à sua, para este ano nem um casamento, logo nós, que gostamos de casamentos. Mámen diz que sabemos que ficamos velhos quando passamos Verões sem ir a nenhum casamento, já está tudo casado, divorciado, amantizado ou só cansado, agora festas é que pastel.
Mámen perdeu o cartão multibanco, finalmente a EDP se decidiu a arranjar a minha máquina de lavar loiça, pus em dia a cozinha, a semana passado foi tão intensa que nem vi o episódio do "This is us" e só dei conta disso agora de manhã. Nos últimos dias- ontem especialmente- estive rodeada das minhas amigas, nem sempre consigo estar com elas mas sempre que preciso delas- e preciso muitas vezes- elas vêm sem que as chame, cheias de vontade e risos, ferramentas e mangas arregaçadas, gargalhadas e colos não físicos que elas sabem que não sou uma pessoa de  colos apertados. Sou uma gaja de sorte.
Às vezes páro e impressiono-me com a capacidade que meia dúzia de pessoas que conheço têm de mudar o Mundo, uma espécie de esquadrão do bem e sinto-me afortunada, não fosse esta dor constante e fininha, parece que já não é da hérnia extrusa, parece que não é da ciática, tenho uma ressonância magnética para fazer e a lista de espera do SNS é de um ano e meto mais um comprimido para o bucho. Penso em alternativas: vou mudar a alimentação, cortar de vez os lacticínios, pensar antes de comer sem pensar, vou arranjar um exercício de que goste- e eu acho que não gosto de nenhum. Suspiro e colo um transact na perna.
O boicote à "Super nanny" soube-me pela vida e, às tantas, nem teve efeito nenhum nas audiências, nos sharings e nessas coisas que medem o sucesso dos programas. Teve em mim que gosto de saber que não compactuo, que não me importo de remar contra a maré, que não sou de largar os remos. Teve em muitas pessoas à minha volta e isso é o melhor de tudo: saberes que não podes limpar o oceano mas não desistires de limpar a tua praia, a praia onde se banham os teus filhos e os teus amigos e os filhos dos teus amigos, as pessoas com quem convives e com quem partilhas o areal, estares certa que contribuíste para a mudança daquele bocadinho de mar, aquele pedacinho de areia. A Corine de Farme retirou o patrocínio ao programa e a ´minha amiga Patrícia, companheira de luta e de inconformismo, diz que retirar valor ao programa é um indicador de que os protestos de quem não compactua surtem efeito.  Fazer a tua parte é sempre uma forma de mudares o Mundo.
Saio de casa de táxi e são sete da manhã. O taxista queixa-se do PS, que é tudo à larga, dão tudo a toda a gente, repuseram tudo, só não contrariaram o PSD naquilo de agora se pedir factura para tudo, queixa-se do Professor Beijinhos e do que ele já gastou em viagens, conta-me que no sábado foi a Loures fazer aquela coisa do furinho na orelha para deixar de fumar e que no domingo foi ao Pingo Doce com a  mulher e ainda não eram nove da manhã e já não se podiam ver um ao outro e vai daí, fumaram 5 cigarros, "ó doutora" - e eu nem tenho cara de doutora- "um gajo sabe que era para não fumar mais nenhum, que larguei 80 biscas naquilo mas no primeiro dia fumei cinco em vez de quarenta, até nem é mau, pois não?" e conta-me que também lhe mandaram cortar no café e álccol e "ó doutora"- e onde é que terá ele ido buscar esta coisa do doutora?- "eu e a minha mulher não dispensamos um copinho de vinho ao almoço, vá e uma amêndoa amarga para digestivo, até a minha mais pequena, a que tem 14 anos que a outra já abalou para o Porto para estudar, mas dizia eu, a que tem 14 anos também dá um golinho, a minha irmã fica danada da vida quando vê mas olhe, eu cá sou sincero, antes ela provar amêndoa amarga comigo que com os amigos e também um golinho por dia não é a morte do artista, nós nem temos genética para vícios".
Deixei o meu cartão multibanco com mámen e enquanto me vestia de manhã ele foi ao ATM levantar-me dinheiro. Chego à Estação do Oriente e percebo que tenho uma nota de cem euros, o taxista não tem troco, saio para tentar destrocar a puta da nota e não me safo em lado nenhum, a fila na bilheteira é imensa. Entro num café e peço uns 20 euros em comida, só há coisas desgraçadas à venda, trago pães de Deus mistos, coxinhas de frango, pão de queijo e ice-teas e- foda-se- hoje é segunda feira e tinha prometido começar a comer diferente. Volto ao táxi, pago a corrida e peço factura,noto uma "amarguinha " de boca e a esta hora o senhor pode passar a distribuir o ódio entre o PS e o Passos Coelho, assim com'assim distribui-se o mal pelas aldeias.
Corro para o comboio e percebo que fico sem dados nem saldo no telemóvel. O bilhete é electrónico e não consigo sacá-lo. Não tenho multibanco para carregar que deixei o cartão com o estupor do meu marido e respiro fundo. A cinco minutos de chegar ao comboio estou no apoio ao cliente e explico a situação que, sim senhor, me imprimem ali o bilhete, basta eu apresentar o meu cartão de cidadão.
Que ficou esquecido nas urgências do hospital anteontem.


Uma boa segunda para todos. Que a santa padroeira dos piretes me proteja.



domingo, 21 de janeiro de 2018

#nannyboicote ou a sociedade civil somos todos nós



Apesar de uma semana de trabalho ímpar o assunto não me saiu da cabeça por um minuto: ora porque pessoas me abordavam na rua a falar sobre o post que escrevi sobre o assunto e que teve um alcance único na história deste blog, ou porque outras técnicos com quem trabalho quiseram trazer à luz a discussão à volta de mesas de trabalho, de refeição e de café, ou porque inúmeros leitores me enviaram os seus comentários, mensagens, e-mails, troca de argumentos nos comentários das minhas redes sociais, enfim.

Foi criada uma petição por pessoas que percebem da poda, foi emitido parecer pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), foi feita denúncia à ERC pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC), a Unicef pronunciou-se , o Ministério Público está a analisar todas as possibilidades legais de intervenção, a Entidade Reguladora para a Comunicação Socia-  ERC confirma (mas não tomou, até agora, nenhuma posição) a entrada de participações/preocupações subscritas por diferentes cidadãos visando o programa “Supernanny” emitido na SIC,  a CPCJ da área de actuação da família participante no primeiro episódio, em articulação com o Ministério Público, ordenou à SIC que retirasse do ar as imagens do primeiro episódio nacional, alguns especialistas reconhecidos da praça deram o seu parecer público e, ainda assim, parece que nada travará a emissora de emitir na noite de hoje o segundo episódio do programa. 

Quanto a mim, fiz - também- tudo o que estava ao meu alcance: assinei petições, fiz denúncias à ERC, ao Ministério Público, exposição à CNPDPCJ, usei a visibilidade que este blog tem para expôr argumentos. Aparentemente, tudo o que está ao meu alcance. 

Ontem, falava com o meu marido sobre esta frustração de veres que uma coisa está tão errada, activares todos os meios legais, racionais e objectivos para travar a perpetuação do erro e daí não sair nenhuma pérola. "Se houver um acidente de auto-estrada grave, não podes fazer muito para impedir que haja o acidente, que o sangue esteja exposto aos olhos de quem passa, podes não conseguir que se cortem as duas vias da auto-estrada porque isso maça a vida das pessoas e tal e a maioria até se está a borrifar para quem está ali de entranhas expostas, mas podes escolher não ver, podes escolher fazer marcha-atrás e ir por uma estrada nacional, desimpedindo o trânsito, fazendo a tua parte, protegendo a tua filha de olhar pela janela do banco traseiro, avisar os teus amigos que seguem nos carros atrás para fazerem, também, eles inversão de marcha: podes fazer a tua micro-parte!"

Assim farei. E assim apelo a que todos os que acreditam veementemente o façam. Avanço com duas propostas

1- Enviar um email ou comentário de protesto à patrocinadora: a marca Corine de Farme. Não consigo encontrar no site a missão da marca mas acredito que terá, certamente, que ver com proteger crianças, cuidar delas e das suas necessidades, priorizá-las e fazê-las felizes. Mas consigo encontrar a equipa que pode ter alguma palavra na estratégia de marketing da marca, que pode ser decisora, que pode recuar no apoio financeiro à transmissão dos próximos episódios e, por isso, pôr cobro a isto. 
O contacto de email da Corine de Farme é corinedefarme.geral@sarbec.pt  e o facebook da marca  é este. Just do it!

2- Hoje, à hora do programa, todos os que se quiserem juntar a um boicote colectivo publicarem nas suas redes sociais uma fotografia da sua televisão sintonizada noutro canal, de si mesmos a fazerem programas alternativos (ler um livro, fazer um bolo, contar uma história aos filhos antes de dormir, ver um filme noutro canal), ou seja,  vale tudo menos assistir ao programa, vale tudo para mostrar que nós não, nós não quereemos ver acidentes de auto-estrada na televisão generalista usando o hashtag #nannyboicote. 

Percebo que haja uma certa atracção para a desgraça, uma coisa meio irracional e sádica, por outro lado uma necessidade de pertença para amanhã podermos participar nas conversas de café, dar o nosso bitaite. Mas- infelizmente e à custa da Margarida- já sabemos ao que vamos e já sabemos que não queremos ir. 

É que sem audiências, a sociedade civil é capaz de ser mais soberana que todas as outras entidades. 

E- caramba!- a sociedade civil somos todos nós.



segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

"Super Nanny": qual o nosso papel?

Infelizmente, no meu ponto de vista, não valerá de nada reportar-se a situação à Ordem dos Psicólogos por duas razões:

1- O título do programa é  A super-nanny" e isso configura o papel da técnica no mesmo;

2 - O disclaimer final, que aqui reproduzo, e a escolha da palavra "educadora," não é ingénuo e protege a técnica.





Sugiro que quem queira demonstrar a sua indignação face a esta assunto o faça pelas seguintes vias:

  • Pedido de intervenção junto da CNPDPCJ  (ninguém quer nem deseja que a Margarida seja retirada do seu contexto familiar, atenção aos preconceitos que se fazem relativamente à missão das CPCJs deste país. Mas urge que uma equipa técnica e profissional, credível e validade, de uma CPCJ possa acompanhar estes pais de forma séria de forma a ajudá-los na gestão das suas competências parentais e que se pronunciem de forma exemplar de forma a balizar a protecção e os direitos que as crianças devem receber dos seus pais na gestão das suas educações). 
Exemplo de pedido de intervenção: 

"Bom dia,



Ontem a SIC estreou um programa em horário nobre, chamado «The Nanny». O mesmo é um «reality show» em que os protagonistas são uma criança indisciplinada e uma nanny/psicóloga que está lá para a corrigir e apaziguar o ambiente familiar.
Assisti a um breve trecho do programa e em apenas 5 minutos tive a oportunidade de observar várias violações aos direitos da criança, nomeadamente: 1 - O direito à imagem;
Num tempo em que os pais recebem constantes avisos sobre a necessidade de proteger os seus filhos - limitando, por exemplo, a sua exposição nas redes sociais -, este programa aparece completamente em contra-ciclo e, principalmente, expõe uma criança que não deu o seu consentimento para tal e que ao longo do programa, por várias vezes, manifestou o seu desagrado com as várias situações que foram expostas. Uma criança que hoje vai ter de ir à escola e que será certamente confrontada pelos colegas com todas as situações em que o pior de si foi transmitido pela televisão, para todo o país.
2 - O direito à reserva da intimidade da vida privada (por exemplo, foi-lhe imposto que tomasse banho diante de uma estranha e com uma câmara de televisão presente). 3 - O direito à proteção pela pessoa em quem confia

Peço-vos o favor de verem o programa e de agirem de imediato - é necessário impedir que mais crianças sejam maltratadas desta forma. Muito obrigada pela vossa atenção.



É importante reiterar que as crianças não pertencem a ninguém.: as crianças são sujeitos de direitos e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados a zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir.

E o Estado somos todos nós. 

A Super Nanny ou "Kid Whisperer"




Comecemos pelo título: " a super nanny" que afinal não é nanny, que em português significa "ama" ou- se formos aos antigamentes- "perceptora", que supostamente baralha aqui um bocadinho o papel de uma psicóloga que é o que é a protagonista do programa. Urge perceber que são coisas diferentes, só naquela de começarmos a chamar os bois pelos nomes.

Quando comecei a assistir aos spots publicitários do programa os meus olhos começaram a tremelicar mas aprendi que, nestas coisas, não se pode julgar um livro pela capa e aguardei pelo programa para emitir juízos de valor com conhecimento de causa. De facto estava enganada: foi pior que o que imaginei.

E assim começou o programa com o anúncio de que "A "Super Nanny" já está a caminho" no seu mini amarelo, tal bombeiro tinoni-tinoni que vai acudir a um acidente mas na missão de "tornar as famílias portuguesas mais felizes", de indumentária de perceptora-secretária-de-óculos-de-massa-sexy. Ufa, fiquei muito mais descansada! Só que não.

Vamos colocar aqui uns sons para tornar a coisa mais tcharam e filmar algumas expressões visuais de desaprovação da "nanny" para tornar a coisa mais emotiva: checked.

Não conheço esta mãe e não a quero julgar. Conheço o que transmitiram dela na televisão e o que os produtores do programa seleccionaram para que eu e todos os telespectadores pudéssemos fazer um guião na nossa cabeça sobre as suas competências parentais. Não o quero aqui fazer, nomeadamente, no que concerne à capacidade de reagir e gerir as emoções da filha que demonstrou no programa (embora ali denote muitos dos clichés dos pais portugueses, a maioria tão- mal- enraizados que nem se consegue ter um sentido crítico sobre eles, desde argumentos que se refugiam em figuras externas de autoridade para impôr regras que devem ser impostas pelos próprios pais como o famoso "se não comeres vou chamar o polícia" ou "se não te portares bem vou dizer ao pai Natal" ou mesmo "vem o papão/homem do saco/ASAE/Ministro das Finanças",ou, no caso desta mãe, o famoso "vou telefonar para o teu pai", também muito em voga em famílias monoparentais, em que é confortável que o bad cop seja o progenitor ausente durante a situação e, por isso, impossibilitado de gerir a situação; às típicas atribuições causais externas do "a minha mãe estraga-a!").

A esta altura, depois de ouvir o nome da "Margarida" umas 252432 vezes, depois de ver a imagem da Margarida umas 23262829 vezes comecei a ficar zangada com esta mãe. Não pela forma como geria bem ou mal ou não geria ou não ajudava a gerir o comportamento e as emoções da filha mas pelo facto de a desproteger e expôr desta forma.

A birra é uma estratégia da criança expressar o que quer ou não quer, as suas emoções, zangas e frustrações e, especialmente, as suas necessidades (de atenção, de compreensão da situação específica, de se fazer ouvir). A birra faz parte do desenvolvimento sócio-emocional da criança, constituindo manifestações/ reacções da criança ao Mundo quando ainda não se encontra na posse de outras ferramentas, estratégias ou estadios emocionais que lhe permitam exteriorizar a sua frustração face aos acontecimentos que lhe sucedem. 

A criança é apenas criança, alguém que está a estruturar a sua personalidade, a organizar os seus pensamentos, valores e as suas atitudes, e que por isso tenta perceber, interpretar e dominar o ambiente onde se insere. E incluir-se nele. Posicionar-se no Mundo. E faz parte deste processo de apropriação o colocar em causa as regras estabelecidas, o negociar, o lutar pela prevalência das suas vontades e desejos (até porque as crianças são inatamente egocêntricas), num constante desafio face aos adultos que lhe são próximos. 

O problema é que generalizamos, muitas vezes, birras e catalogamo-las de má educação, quando nem sempre isso é verdade. Quando ouvimos este comentário, era importante questionar sobre o que é ser mal educado. É desafiar regras impostas? É lutar pela satisfação das suas necessidades imediatas? É manifestar-se emocionalmente face a situações que não vão de encontro aos seus desejos? 

 Mas a verdade é que os pais são constantemente desafiados. E os grandes desafiadores não são os seus filhos mas os outros adultos, num mundo onde a informação está à distância de uma actualização de uma página de rede social, onde tudo acontece no imediato e onde os “crescidos” deixaram de saber esperar, também.

Margarida fez muitas "birras" durante o programa. Margarida não queria ir para a cama depois da mãe utilizar como estratégia cansá-la a assistir a desenhos animados antes de a mandar dormir. Cansou-a, de facto, mas não a fartou: excitou-a, expô-la a uma série de estímulos visuais e sonoros que a excitaram, quando a altura era de a acalmar e relaxar, preparando-a para o sono que se seguiria. Depois de uma espiral de choro e birra face a recusa em ir para a cama, a inflexibilidade de a mandar para o banco do castigo e a recusa da criança naquele: "Vai para o banquinho", quando estava cansada dos estímulos dos desenhos animados e da hora avançada e exausta de tanto chorar e gritar. E foi. Num estado emocional de profundo descontrolo às dez da noite e na preparação para adormecer. Pior, a má da fita foi quem? A Margarida. 

Podemos falar no "banquinho"?  A criança só consegue pensar de forma crítica e reflexiva acerca dos seus actos, compreendendo, de facto, as questões valorativas e morais das regras. O castigo tem que ter uma relação de causa-efeito com o erro das crianças. Imaginemos a seguinte situação: a Margarida atira comida para o chão de propósito e recusa-se a apanhar, fazendo uma birra enorme quando insistimos e sabendo, claramente, que está a fazer um disparate. Mandar para o "banquinho", ir pensar no disparate que acabou de fazer não serve para nada, para além de dar tempo à mãe para respirar fundo e descansar a cabeça (ou seja, não é um castigo para a criança, é apenas um escape para o adulto). A estratégia tem sempre que relacionar numa lógica causa-feito o erro com a consequência, ou seja, "sujaste o chão, agora limpas, não há outra alternativa que não essa" (mesmo que limpe mal e que a mãe tenha que limpar melhor a seguir, sem que ele perceba, mas tem que limpar).  Mais ainda, o castigo não pode ser atribuído sem que seja dada à criança a oportunidade de o corrigir ou minimizar, responsabilizando-se pelos seus actos e agindo sobre eles. Isto quer dizer que se a Margarida dá uma palmada à mãe, de forma zangada e deliberada (o que não sucedeu, o que eu assisti foram apenas reacções de impulso à frustração) após ser contrariada ou numa situação de confronto, deve ser orientada pela mesma acerca do reconhecimento e gestão da emoção bem como da razão do erro, tendo a oportunidade de gerir as consequências que a sua acção causou ("Podes vir conversar comigo, para eu te explicar o que sinto quando me bates e pedir-me desculpa porque me magoaste?!). Ou seja, não é convidando a criança a isolar-se num canto a pensar no seu erro que ela o vai assimilar, assumir e tentar corrigir ou minimizar. É mostrando-lhe as consequências directas do seu acto e a forma de as tentar resolver de forma directa e participativa. Nenhuma criança pequena vai, efectivamente, reflectir acerca das consequências dos seus erros virada para uma parede sozinha. Nenhuma. Nem há qualquer função pedagógica nesta prática e se não mostrar ao seu filho o que pode fazer para corrigir ou minimizar o erro ele nunca terá hipóteses de alterar o seu comportamento porque não conhece alternativa e não percebe as consequências directas do disparate que acabou de fazer. E ninguém aprende sem compreender a realidade. E a realidade não se aprende virado para um canto de uma parede a pensar na morte da bezerra. Portanto, metam o "banquinho" num sítio que eu cá sei. 

Margarida não queria tomar banho na presença de uma estranha que acabara de conhecer e que lhe entrara pela casa adentro, violando o seu espaço e tempo de privacidade e intimidade, pedindo-lhe "beijinhos" de forma demasiado "nanny" e "pouco psicóloga" (ai esta coisa dos adultos precisarem do afecto das crianças e sugerirem-lhes contacto físico para se sentirem queridos e respeitados...). Margarida gritou: "Tu não mandas em mim!". Ah, abençoada, Margarida: a esta altura até a mim me apetecia berrar. 

 "Eu quero ir para o teu quarto" (fuga à situação de exposição com a câmara de filmar à frente), "Eu quero colo" (necessidade de conforto), "Eu não quero ir para o banco, quero ir para a cama" (fuga à humilhação)", ""Quero colo, Mãe!" (necessidade preemente de afecto e pedido de protecção) e "Eu quero dormir no teu quarto"- ouvia-se amiúde. Margarida queria acabar com aquele suplício.

Margarida gritava por socorro nesta peça, não gritava porque fazer birras era fixe. Margarida queria pôr fim aquele ciclo de violação da intimidade (ainda por cima permitida e validade pela mãe, uma das pessoas em que mais deveria confiar e a mais deveria proteger), de pressão para se comportar de forma autómata ("Toma lá o sapinho e obedece, se faz favor!"- Pavlov explica), de corresponder às expectativas dos adultos e de intromissão nas relações bidireccionais entre os diferentes membros da família (e na minha cabeça, novamente, a imagem da  "nanny" a pedir beijinho assim que conhece a criança, "a nanny" a assistir ao banho, num total desrespeito pelos limites da privacidade e do corpo da criança, a "nanny" a mandar a mãe dar um beijinho à avô, ah esperem- se calhar está certo é mesmo "nanny", não estou certa que esta senhora perceba assim tanto de Psicologia...). 

""Ela não dá valor nenhum à mãe" - dizia a mãe e eu já nem me lembro do nome da mãe, para que se veja como todo o foco e o ónus destas questões ficaram sobre os ombros de uma criança de sete anos.

A mãe de Margarida está cansada. E precisa de ajuda, talvez muito para além das questões parentais. A valorizar-se a ela mesma e a sentir-se valorizada e não colocar essa responsabilidade na filha. 
Talvez, em primeiro lugar, se deva ajudar a mãe da Margarida, não a Margarida. Deve ajudar-se a mãe da Margarida em contexto psicoterapêutico, respeitando o seu direito à confidencialidade e privacidade, treinado com ela competências de gestão das próprias emoções, ensinando-lhe ferramentas e estratégias, acompanhando o seu percurso. No que diz respeito às competências parentais, deve envolver-se o pai neste processo, quem sabe em terapia familiar (se for caso disso) porque a Margarida é filha de um casal e a ambos compete delinear  gerir o projecto de vida da filha comum, e que é completamente alheio às questões da conjugalidade. Com regras, com ética, com respeito pela individualidade desta mãe.

Da forma que ela deveria ter feito com a sua própria filha.  

As crianças não pertencem a ninguém.: as crianças são sujeitos de direitos e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados a zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir. Exemplo: se por convicção religiosa ou outra os pais recusam tratamento médico necessário (seja uma transfusão, seja outro simples tratamento), o Estado, via tribunal de menores, pode determinar seja prestado o tratamento. Caso exista um risco iminente para a vida da criança, os médicos podem tomar a decisão de tratar, antes ainda de expressa determinação do tribunal. 

Em suma, os pais não têm o direito de expôr publicamente os filhos. Têm é o dever de os proteger.

"Ah, a Margarida começou- finalmente!- a dormir no próprio quarto depois de muitas zangas"- declarou, vitoriosa, a mãe no fim da peça. Claro, cansaram-na, tornaram-na exausta, fizeram-na desistir. Não foi uma vitória, foi um fracasso.
Margarida desistiu, entregou-se, sem perceber porquê. 
Talvez volte ao mesmo quando as câmaras se desligarem e perceber que a mãe precisou de uma testa de ferro para a educar, que a mãe tem dificuldade em estabelecer, ela própria, as suas regras, suas, próprias, com o recurso a algumas figuras de confiança e de referência mas, efectivamente, as suas regras.  Quando a regra não é a nossa,temos que a incorporar em nós. Ninguém sabe ou pode educar os seus filhos com maior preparação que os próprios pais. Porque se as regras para educar não são suas, mas dos especialistas, dos gurus da psicologia ou da educação ou da saúde infantil- das nanny, que seja!-  e não as incorporam; se são as regras do pediatra, da psicóloga, da internet ou da amiga, não estão interiorizadas e são externas, os pais perdem o seu papel enquanto figuras de autoridade.

De todos os erros da mãe da Margarida- que eu não queria esmiuçar mas que acabei por fazer: mea culpa- , este foi claramente o pior: expôr brutalmente as emoções da filha, como se delas fosse proprietária. Transmitir,  em formato de reality show- como vemos fazer as senhoras da Casa dos Segredos aos gritos ou nunca nos esqueceremos da Gisela do Masterplan num melt down à beira Tejo- as emoções de uma criança que hoje, segunda feira, irá à escola.
Onde será "famosa" não pelas melhores razões, onde será exposta a comentários, e muito provavelmente, apontada, talvez gozada ou ridicularizada, O bullying entre pares nesta idade é esmagador e a Margarida precisa de amor, não de machadadas na sua auto-estima e no seu auto-conceito, promovidas e validadas pela sua figura de referência maternal. Aquela em quem mais deveria confiar no Mundo.

E- infelizmente- vaticino que para minimizar o impacto disto não seja preciso uma "nanny" nem uma "educadora" mas uma psicóloga a sério. Das que não coagem ao beijinho, das que se constrangem face a assistir a banhos de crianças que não as suas, das que não forçam mãe e avó a cumprimentarem-se com o afecto que a câmara de filmar reclama. Das que não usam banquinhos.

À SIC recomendo que adoptem para Portugal o formato "dog whisperer" já que este "kid whisperer" não funcionará. É que aqui não bastam biscoitos de recompensa em formato de sapos com íman nem passear as crianças enquanto se faz jogging pelo bairro para as cansarem. Aqui é preciso respeitar o direito a ser-se pessoa na infância. 

Um abraço solidário, querida Margarida. Pudesse eu dar-te colo. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Porque hoje é dia 13

             

E (hoje) cada post meu será para te dizer que eu sei que vou-te amar por toda a minha vida. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

A EXPERIMENTAR | O restaurante onde o polvo é rei

As expectativas eram altas: se por um lado adoooooro polvo; por outro- o lado mais importante- a "Confraria do Polvo", inaugurada há 15 dias, trazia para bem pertinho de mim o génio do chef. Artur Gomes, um jovem cozinheiro muito talentoso que já passou pelo Oitavos, pelo Belcanto, pelo Celler de Can Roca, em Girona (3 estrelas Michelin e melhor restaurante do mundo por duas vezes), Relae,  em Copenhaga e o Monte Rei, no Algarve mas, mais relevante de tudo neste brilhante currículo:  filho da minha grande amiga Fátima Agostinho.
Tenho acompanhado a trajectória do Artur pelos relatos babados e orgulhosos da mãe e a vontade de me sentar numa mesa com pratos servidos por ele estava a ser há demasiado tempo adiada quando percebi que o Artur acabara de ser contratado pela "Confraria do Polvo", ali em Oeiras, para espalhar magia. 
À vontade juntou-se uma certa curiosidade matreira: "como é que um cozinheiro, habituado a trabalhar com os melhores, em restaurantes de estrelas Michelin, com recursos e produtos de primeira, conseguirá redimensionar a sua arte para trabalhar num restaurante despretensioso, low cost e de rua e, em particular, tendo em conta que a sua criatividade terá que convergir num produto específico: o polvo?"
Foi esta a pergunta que fiz pessoalmente ao Artur, na última quarta feira, depois de lhe ter aparecido de surpresa num restaurante ainda com cheiro a novo.  A resposta veio em forma de desafio: "senta-te que eu mostro-te." 
Assim, dispensei a carta e fiz o truque que aprendi há muitos anos a ler o livro "Em Portugal não se come nada mal", de Miguel Esteves Cardoso: deixei o menu por conta do chefe, com uma única advertência: a Ana não gosta de batatas, tudo o resto era à vontade do cozinheiro. E assim foi.
Começámos com uma entrada de salada de polvo, temperada magistralmente, sem demasiado azeite a afogar o pobre do polvo, erro tantas vezes cometido noutros restaurantes,  e com um toque a cebola roxa, pimento verde, pimento vermelho, salsa, vinagre balsâmico e vinagre de cidra, que tornaram-na, oficialmente, na melhor salada de polvo do Mundo. E- oh senhores!- se eu sou especialista em saladas de polvo!
Seguiu-se, para mim, o melhor prato do repasto: polvo frito com massa tempura e molho tártaro, numa combinação leve e fresca e que nos levou ao paraíso! A Ana, nesta fase, deliciava-se com um rissol de polvo, que a Ana é dos salgados, dos rissóis e das chamuças, estava na sua "praia". A esta altura toda a família se desgraçava na maravilhosa arte de lamber os dedos. 


Para refeição principal um caril de polvo como não há memória e um segredo desvendado que tem que ser aqui partilhado: quando lhe perguntei o truque para o polvo ser tão tenrinho que quase se desfazia na boca, uma delícia há muito não provada, o chef Artur explicou-me que antes de se cozer o polvo pode fazer-se uma marinada com o polvo e kiwis por cima, uma vez que os kiwis contêm um aminoácido que desfaz a proteína do polvo e o torna mais tenro. Viver para aprender!
As sobremesas não surpreenderam: para mámen um arroz doce e para mim um bolo de bolacha (feito com manteiga que eu não gosto de bolo de bolacha com natas). A Ana não gosta de doces. Mas não precisávamos, estávamos a rebentar de polvo-deleite!
Para acompanhar sumos para as meninas pois estou a tomar medicação e não pude acompanhar mámen num copo de vinho. Depois dos cafés, a conta: trinta e seis euros, uma verdadeira pechincha face à frescura do polvo, à qualidade dos produtos, ao espaço clean do restaurante e à mestria do cozinheiro, comprovadamente, o maior trunfo deste restaurante. 
Vaticino, claramente, o maior sucesso desta Confraria do Polvo, pelo que, recomendo que lá vão nos próximos tempos, enquanto ainda é demasiado novo e desconhecido, enquanto ainda não precisam de marcar mesa nem de esperar em filas, enquanto as "massas" não descobrem este achado. É que o futuro deste restaurante promete!


Conhecer o paraíso dos amantes de polvo

Quem? Restaurante "Confraria do Polvo"
Onde? Rua Cândido dos Reis, 168,  2780-212 Oeiras
Contacto: 21 586 9064
Saber mais? Aqui 
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