segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Oh Aznavour...




[Há poucos cantores consensuais. Aznavour era, provavelmente, um deles e foi cantar hoje para as estrelas, como diz a minha filha numa visão romântica que espero que perdure para sempre, como as músicas do francês.



Acredito que toda a gente tem uma música preferida de Charles Aznavour,que cantou o amor, as saudades, os desgostos a sério daqueles de desgostar e de ser desgostado, que escancarou - com aquela voz como barba ralinha que acaricia a nossa pele e arranha-a numa espécie de dor e prazer -bandas sonoras de tantas vidas.



Esta é a música do único desgosto de amor da minha vida. Passaram muitos, muitos anos.
Obrigada por ma relembrar, recordando-me que o amor também é feito de distância, desencontros, memórias passadas e esperança. Que o amor é isto tudo o que cantou.
Isto tudo.]

sábado, 1 de setembro de 2018

Hoje choveu

Hoje choveu pela primeira vez desde que cá estamos. Não se avista o Pico no horizonte tal é a neblina. Ficámos por casa a jogar marralhinha em família. Comemos massa sovada com doce de Figo que sobrou dos mais de 2 quilos que um senhor roubou numa figueira alheia e nos veio vender à porta. Fingimos que não desconfiamos. Tenho aftas de tanto queijo ilha comido e acho que esgotei o Stock de kimas de maracujá de toda a ilha! Amanhã há festa na Caldeira e a vila vai ficar mais sossegada e vazia. Estamos preguiçosos e só cozinhámos ovos fingidos para o jantar. Andei a ver mantas tricotadas pela minha sogra e acabei por herdar uma linda, linda. Os cagarros sobrevoam o nosso telhado e ouvimo-los cantar em coro com as gaivotas que anunciam tempestade no mar. Está um calor insuportável e uma humidade típica de que já não me lembrava. Podia ser um dia chato mas não. É um dos melhores dias das férias. Sem pressas nem destinos para onde ir, sem relógios nem rotas. Vir por muitos dia permite desfrutarmos do dia-a-dia, provar esta rotina boa. Ele põe no rádio velho o CD de uma banda da terra que já não existe. No ar ouve-se a minha música açoriana preferida. Está perfeito. Ninguém mexa. 




[Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pézinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra

Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra

É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.] 

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A tia Conceição



O meu sogro tinha-nos dado as coordenadas por alto. A casa da tia Conceição, única tia bisavó da Ana do lado do avô paterno, fica numa parte longínqua e alta da ilha, mergulhada em nevoeiro. 

Não avisámos que íamos (eu contrariada que não me parece bem aparecer em casa alheia sem me fazer anunciar) mas a tia Conceição, mais deoito décadas sobre os ossos rijos, recebeu-nos como se nos esperasse há uma vida. Tirou uma cerveja do frigorífico e começou a desfilar histórias de netos, sobrinhos-netos, novas gerações frescas que prometem a continuidade desta linhagem de mulheres de olhos cor de mar. 

Fitou a Ana, trisneta da sua mãe, e marejaram-se os olhos de lágrimas: “são iguaizinhas: os cabelos loirinhos e os olhos. Ah , os olhos! Azuis enormes. Faz impressão, são iguaizinhas!” Limpou as lágrimas com o antebraço e nós estremecemos e sorrimos, comovidos com as memórias a brotarem como as hortenses férteis ali ao lado no quintal. 

Quis-nos mostrar a casa, rebocada rusticamente, pouca mobília, tudo arrumado magistralmente, fotografias de toda a gente nos poucos móveis e nas paredes despidas de acessórios. Casamentos, baptizados, coroações, primeiras comunhões e queimas das fitas da última geração: histórias de sangue numa exposição única que é também a história da minha filha. Um museu de memórias. 

Fitei o quadro com os olhos, sem os conseguir desviar. 

A coroa do Espírito Santo presente em todas as casas açorianas, símbolo de uma fé partilhada e coletiva. Sorri e pensei que um dia teria que levar uma coroa para nossa casa e voltei, atenta, à conversa que se desenrolava, vagarosa e cheia de afectos, na sala de estar com chão de linóleo. 

À saída a tia diz que não tem nenhuma notinha para dar à Ana [ó tia, por amor de Deus, não queremos dinheiro! Só a vimos abraçar!] e vêm-lhe as lágrimas aos olhos enquanto diz que provavelmente já não nos volta a ver. 

Soa a despedida e ele mascara a conversa com um abraço demorado. Vai buscar uma aguardente caseira que oferece ao sobrinho neto. 

Olha para a moldura da coroa e diz-me:”Gostas, não gostas?!” 

Sorrio e aceno, sem nenhuma intenção senão a gentileza do elogio. Tira-a da parede e dá-ma, sem me deixar reclamar: “lembrem-se de mim”. 

Lembraremos, tia!

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Ficar vazia

 



Era o meu tio solteiro e bon vivant. Teve um desgosto de amor daqueles dos livros de literatura sul americana e nunca mais se predispôs a amar. Bebia demais, fumava demais, sentia demais. Era meu padrinho e a vida foi-nos afastando pela dificuldade que eu sentia em empatizar com os vícios para além do homem de quem tanto gostava. Jogava comigo à batalha naval e ao domino com o meu avô. Vieram-lhe as lágrimas aos olhos quando pegou na Ana ao colo no dia em que nasceu e tinha um orgulho embevecido nela. Gostava de fazer sopas de letras, as mesmas dos livros que lhe ofereci quando o fui visitar com a dupla pneumonia. Foi há 4 anos e eu achei que tudo ia ficar bem. Comprei-lhe camisolas interiores térmicas e pedi a todos os santinhos que ele ficasse bom. Nunca ficou. Já não estava. No Natal estava fanhoso, bebia e saia-lhe líquido pelo nariz. Já falava com dificuldades e, soube depois, tinha o céu da boca queimado. Fizeram o biópsia e o meu amigo enfermeiro deu-me a notícia pelo telefone: havia pouco a fazer. Acompanhei-o a consultas, sempre calado, impaciente, sempre com pressa para que o tabaco lhe acalmasse o medo, a ansiedade, a desorientação. Eu fingia que tinha tudo sobre controlo mas tinha medo com ele, por ele, igual ao dele. Na véspera ele já não conseguia respirar. Nas urgências sugeriram a traqueostomia e toda a família decidiu que sim, mesmo que fosse contra a sua vontade, como era aliás. Pediram-me que entrasse no S.O. e o convencesse a autorizar - era a única a quem ele ouvia - e assim que entrei vi-o a chorar pela primeira vez, os olhos de angústia e desespero, a voz a faltar, a cabeça a acenar, que não, que não. Assinei o termo de responsabilidade e trouxe-o a dormir a última noite no meu sofá, a noite toda acordada a velar a aflição dele, a dar-lhe só mais um cigarro, o derradeiro. Desceu as escadas da minha casa com a dignidade de quem quer ser autônomo até ao fim e só o voltei a ver no hospital nesse dia. Esperava-me para morrer, o meu tio Nato. Sentiu a minha presença, respirou como quem salta de uma falésia para mergulhar. Esboçou um sorriso, apertou-me a mão e partiu. Há dois anos fiquei mais triste e frágil. Mais só.

domingo, 15 de julho de 2018

I had a dream





Todas as crianças crescem e desenvolvem-se através dos sentidos. Há muitas coisas que ainda hoje me são difíceis de concretizar porque tive uma infância praticamente imobilizada, entre camas de hospital, macas de reabilitação, cadeiras de rodas e standing frames. 

Não tenho qualquer auto-comiseração até porque desenvolvi muitas outras competências e uma resiliência que me é muito útil no meu dia-a-dia mas, por exemplo, nunca gatinhei. Gatinhar, para quem não sabe, é essencial enquanto experiência primária das crianças explorarem a noção de espaço, o esquema corporal, noções de lateralidade, orientação espacial, pensamento abstracto. Não aconteceu comigo como não acontece com nenhuma criança com problemas de mobilidade. 

 Também nunca andei de skate, trotinete ou patins. Aprendi à força da casmurrice da minha mãe a andar de bicicleta, contra todas as expectativas, e à força da minha casmurrice a fazer o pino de cabeça. Isso alterou muita da minha cognição, essa questão da mobilidade condicionada. 

 Percebo-o hoje enquanto vejo a Ana fazer tantas coisas com as suas pernas e com o seu corpo, de forma instintiva, apoiada e incentivada na maioria das vezes pela minha mãe,que vive agora também pela primeira vez uma “maternidade projectada” dita “normal”. É uma emoção e uma novidade para ambas: para mim e para a minha mãe. Para o pai não, é um dado adquirido, uma normalidade confortante. 

 O sistema vestibular é o conjunto de órgãos do ouvido interno dos vertebrados responsáveis pela detecção de movimentos do corpo, que contribui para a manutenção do equilíbrio.

 Embora crianças com Spina Bífida tenham estes órgãos intactos a sua lesao vertebro medular não lhes dá resposta. Crianças cadeirantes não giram sobre o próprio corpo, não sobem as árvores, nao saltam nem sentem o vento enquanto correm, não fazem o pino, andam de patins ou trotineta nem sentem esta maravilhosa experiência que é o movimento e a velocidade. 

 Quando pedi de prenda de aniversário um montante relativamente alto para custear a diária do aluguer de um autocarro adaptado que levasse as crianças do campo de treino ao único parque infantil do país, o Parque Raró era apenas com o desejo de ver neles o brilho nos olhos que todos os dias vejo na minha filha. 

 A três dias do meu aniversário... obrigada a todos! 

Conseguiram agora pintar esse brilho nos meus! 

 Muito, muito obrigada

terça-feira, 3 de julho de 2018

E agora vamos lá falar de coisas sérias. Muito sérias.



"KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO

Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta. O que concluí é absolutamente kafkiano.
Ora atentem:

- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.


- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.

- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos comentários).

- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados. Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.

- No seu estilo tão típico, o Trump assinou uma executive order para pôr fim à separação de famílias. Ou seja, é um herói porque vem resolver o problema que ele mesmo criou. O mais provável, segundo as ONG no terreno, é que essa executive order permita a detenção conjunta de pais e filhos enquanto os pais aguardam julgamento. O que é bom porque, uma vez que essa prática é ilegal, isso dá a quem está no terreno um ato jurídico concreto para atacar. E continua a colocar-se o problema da reunião familiar: não há nenhum sistema no terreno para o fazer. É inacreditável mas é mesmo verdade: os EUA separaram estas famílias sem terem um plano sobre como as reunir novamente. As ONG no terreno relatam que às vezes conseguem localizar as crianças porque os processos de entrada no país têm números sequenciais aos dos pais. Mas nem sempre. As crianças estão já espalhadas pelos EUA e ninguém sabe muito bem onde. Ou seja, isto está longe de estar resolvido e a batalha jurídica destas famílias está longe de ter acabado! Além de tudo isto, têm ainda pela frente a batalha pelo estatuto de refugiados.


- Não, o decreto executivo do Trump não resolve absolutamente nada. Significa, "na melhor das hipóteses", que as famílias passam a poder ficar detidas em conjunto indefinidamente, enquanto os pais aguardam julgamento penal e enquanto não são ouvidos por um juiz de imigração sobre o seu pedido de asilo. Não sei bem em que mundo paralelo isto pode ser uma boa notícia...

- O motivo pelo qual as famílias estavam a ser separadas na fronteira é o chamado Flores Settlement, que determina que um menor não pode ser detido em instalações destinadas à detenção de adultos por mais de 20 dias. Este acordo contém toda uma série de proteções para os menores detidos pelas autoridades de imigração que a administração Trump quer assim fazer cair. Estamos a falar da proibição de estes partilharem quarto e casa de banho com adultos que não conhecem, da obrigação de terem acesso a cuidados médicos dignos, entre muitas outras normas de proteção. Revogar isto não é solução para nada! Não se deixem iludir pela propaganda do Trump! As ONG no terreno vão certamente litigar contra isto.

- Acresce que este decreto executivo só vale para o futuro, ou seja, impede novas separações familiares. Quanto àquelas que já aconteceram, nada se prevê quanto à reunião familiar. Aliás, nem se sabe bem como fazê-lo em termos práticos porque, muito simplesmente, está o caos instalado e ninguém sabe bem onde estão as crianças. A maior parte dos pais e das mães desconhece o seu paradeiro. Para aqueles que se apresentaram num posto fronteiriço e pediram asilo, sendo depois detidos por entrarem ilegalmente no território (sim, isso mesmo que leram!), geralmente os processos de asilo dos pais e dos filhos têm números sequenciais e por isso as ONGs no terreno conseguem localizar as crianças de forma mais ou menos simples. Para aqueles que foram detidos já em território americano e só depois separados, sabe Deus!

- Tudo isto para dizer que nada está resolvido, que a batalha jurídica destas famílias e das demais que venham a ser detidas em conjunto vai durar meses ou anos e que não podemos desmobilizar. Estar atento, estar informado, contribuir na medida das nossas possibilidades para ajudar quem está no terreno a lutar contra a barbárie -- é esta a nossa "to do list"!

- O nosso interesse e contributo continuam a fazer todo o sentido! Não desmobilizar até que TODAS as crianças estejam de volta aos braços dos pais!

Aqui fica o link para ajudarmos estas famílias: 

Da minha amiga Inês Melo Sampaio Antunes que trabalha no Tribunal de Justiça Europeu 

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 42


O outro queria um Ferrari amarelo



Eu queria uma camisa amarela, a modos que no Natal a minha mãe ofereceu-me uma muito gira da Primark.

No entanto, fiquei doente e foi em Maio que, a propósito de uma reunião importante com um parceiro chique, com sede ali no Marquês de Pombal, a estreei. 

Típica camisa da Primark: simples, tecido leve e com botões meio soltos. 

Sou uma nódoa a andar de canadianas, pelo que, quando cheguei à sede do parceiro todo eu era uma instalação desconchavada tipo Joana Vasconcelos: camisa de fora, mala sempre a cair do ombro e a empecilhar na canadiana, a outra mão a segurar uma pasta com papéis toda amarrotada também a empecilhar na outra canadiana e o ar mais esgroviado do Mundo. 

"Respira fundo e compõe-te, Lilana!"- pensei eu, enquanto chamava o secular elevador, daqueles com gradeamento. 

Dou o primeiro passo para entrar no famigerado elevador e não sei como, parece que ainda estou a ver o momento em câmara lenta, a canadiana enriça-se num botão, o botão solta-se e cai, em slow motion, para o exacto espaço entre o
elevador e a entrada, caindo para sempre naquele fosso.

Qual dos botões, perguntam vocês? O de baixo? O de cima? Nããã!
O do meio, pois está claro: o botão principal, o que tapa as mamas, precisamente, lá podia ser outro?!

E ali estava eu, a ver subir o cabrão do elevador e a pensar, piso a piso, como iria resolver o facto de aparecer com o mamaçal todo de fora (para quem não me conhece,eu sou "amiga do peito"!) a uma reunião onde as pessoas se cumprimentam só com um beijo.

Ao sair, tentei compor a camisa, enquanto me equilibrava nas canadianas e... cai segundo botão (eram três) e nesta altura estava boa para ir para o Meco, não para uma reunião num parceiro chique. 

Pensei que a única solução era andar com os braços mesmo coladinhos às costelas, de forma a apertar violentamente as "meninas" e tentar cobrir-me com o tecido, anteriormente conhecido como camisa, e agora uma espécie de lenço inútil.  

Entro, ninguém dá por nada (ou fingiram muito bem) e quando me perguntaram se queria um café, aceitei de imediato, para ganhar tempo enquanto a secretária se afastava e me deixava sozinha uns minutos até o meu interlocutor chegar. 

E foi assim, que aos 37 anos, tive uma reunião espectacular com a minha poderosa camisa amarela toda agrafada com um agrafador de mesa que ali jazia. 

Estou assim, capaz de patentear a ideia!
Ou só de mandar a Primark para o amarelo que a pariu!

domingo, 1 de julho de 2018

Da Ópera do Chiado à Lyrica de Arroios ou há ironias verdadeiramente quadripolares.

Disclaimer: eu sou a pessoa que nem sequer bilhete de ida e volta no comboio compra, porque conheço de ginjeira o potencial para me acontecerem imprevistos na puta da vida e não quero arriscar.

Odeio projectos a longo prazo porque acho sempre que isso me vai deixar refém das coisas e limitar-me caso me apeteça mudar de ideias.

Portanto, a compra da prenda de Natal do meu marido só se pode explicar pela facto de eu, à altura, já estar doente e a achar que ia quinar, portanto, que tinha que me despedir dele partilhando com ele experiências há muito adiadas e cumprindo um date por mês, com bilhetes comprados, lugares reservados e tudo planeado com uma antecedência que hoje, à distância de meio ano, ainda me deixa, como diria a minha avó "barada" (se não sabem o que é, perguntem ao minhoto mais próximo!"). Ou então explica-se porque estava já doente e com falta de imaginação e numa ida à FNAC tratei de tudo duma sé vez e despachei o assunto. 

Durante os últimos sete meses arrastei-me, primeiro com dores, depois com o efeito arrebatador da medicação, portanto, neste momento sinto que estive numa espécie de coma e lembro-me das coisas muito ao longe, meio difusas e, a esta distância, nem sei como consegui ir aos sítios e fazer coisas. Mas diz que fui, há fotografias que o provam e tudo. 

Assim,em Janeiro fomos comemorar o nosso aniversário de namoro ao Cooking and Nature Hotel (não gostámos muito e nem tem que ver com eu estar doente, foi mesmo uma desilusão), em Fevereiro adorámos o visionamento do Harry Potter em concerto (foi uma altura em que tive uma ligeira melhoria e deste lembro-me bem!) na Altice Arena, em Março (no auge das dores) consegui fazer a "aventura na serra" com mámen sabe-Deus-como porque estava no auge das dores e em Abril já estava praticamente e enlouquecer de dores. Em pura agonia.
Claro que era em Abril que tinha que estar marcado o programa mais desejado pelo homem: a ida à ópera. Pronto vocês têm maridos fits e desportivos, urbanos e coiso: a mim saiu-me um betinho erudito. É que o temos. E como é das ilhas, de uma em particular bastante pequena onde a vida cultural resume-se ao encontro de bandas filarmónicas, assistir à ópera no São Carlos era um desejo há muito adiado. Claro que eu em Dezembro, na loucura, comprei um camarote inteiro (onde estava com a cabeça?) e foi, claramente, o espectáculo com que ele mais delirou quando recebeu o presente de Natal. E claro que tinha que estar marcado para Abril, o pior mês que tive em termos de dores. 

O rapaz que, não desfazendo os das outras, é o mais fixe disse que não se importava de não ir, que haveria de haver outras oportunidades, o que importava era eu estar confortável. Mas, perante a fixeza do homem e mais a minha culpa judaico-cristã (e vá, porque gosto mesmo dele e sabia que era uma coisa que ele tinha tanta vontade de fazer comigo) enfiei uma data de comprimidos no bucho, estiquei o cabelo com a escova de esticar o cabelo que recebi no Natal, pus base a rodos para ver se disfarçava o ar doentíssimo e pálido com que estava, enfiei o único vestido de gala que me servia, todo ele preto e cheio de pedras tcharan- um Mango A/W 1999- enfiei as canadianas (a.k.a. muletas) no braço e lá fui. 

Claro que em Abril, água mil. Claro que chovia a rodos. Claro que o meu cabelo ficou um merdum 5 minutos depois e, de repente, achei que aquele era look para o Harry Potter dois meses antes pois eu estava tipo a Hermione e claro que andar de canadianas, com as borrachas dos ponteiros a escorregar sem parar fizeram logo com que o meu mood ficasse espectacular. Claro que ao chegar, o empregado me conduziu a um elevador de mil oito troca o passo e claro que o camarote que eu tinha reservado era super longe e senti que estava a fazer o triatlo de São Carlos, depois da molha que tinha apanhado já tinha nadado, agora estava na parte da corrida e não tarda muito ia pedalar dali para fora, mais de dez minutos a andar sobre a alcatifa almofadada de São Carlos e a perna a doer-me e eu de vestido a empecilhar-me, cabelo lambido e o ar mais miserável do Mundo. O homem todo feliz no seu fato piu-piu e o cabelo ligeiramente molhado, só paradar aquele ar blasé. 

Chegados ao camarote respirei fundo. O pior tinha passado. Havia três lugares: um para cada um de nós e uma para a minha perna (abençoada ideia peregrina em ter comprado o camarote inteiro!).O ambiente no São Carlos é épico e o homem estava ali a realizar o seu sonho de tenor frustrado. 

Começa a ópera.


Ok, tem legendas, boa! Dá para ir acompanhando a história e eis que entra o Romeo (ler "Rrrrrrróóóómeeeeeooooo!") mas epá...
- "Ó Rui, o Romeu é uma gaja?"
- "Shut, não sei! Deixa-me ouvir!"
- "Epá, ó Rui, isto não pode ser da medicação: quem está a fazer de Romeu é uma gaja!"
- "Shut, não interessa, é mesmo assim que a ópera foi escrita..."
- "Não interessa?! Era virmos ver um musical sobre a Tieta do Agreste e aparecer-te a Guida Scarlati, gostavas? O Romeu tem que ser um homem. Um homem cheio de pêlo, muito macho e italiano, pá!"
- "Liliana, estamos na ópera, importas-te de te abstrair desse detalhe?"
-" Com'ássim abstrair? Isto faz algum sentido? Não me consigo abstrair agora..."
E foi assim que eu, que como toda a gente sabe sou pela liberdade sexual, cada uma sabe da sua camae tudo e tudo que, aos 37 anos e nove meses, percebi que isto tudo é perfeito e fantástico: mas não ponham uma mulher a fazer de Romeu e a beijar a Julieta que eu não me consigo abstrair do potencial lésbico do momento, ok?"

Intervalo. Vou espreitar o telemóvel. Uma mensagem da minha médica neurologista já reformada mas que pedira a um colega ortopedista de topo o favor de olhar para uns exames meus e dar o seu parecer a perguntar se tinha os exames comigo,  pois o colega estava de banco no Hospital Dona Estefânia e tinha ali um furinho entre cirurgias para me dar uma opinião. 

E, de repente, ali estava eu, para espanto de muitos pais na sala de espera das urgências de um hospital pediátrico, a entrar ofegante, vestida de gala e a rigor, acompanhada por um gajo vestido de gala e a rigor, a entrar numa consulta de um hospital pediátrico... sem estar acompanhada por nenhuma criança!

A cara das pessoas era impagável e eu lá me dei conta do plus da maquilhagem entretanto esborratada (esfreguei muito os olhos para conseguir ver bem o palco, que o camarote era tão bom que era de lado e tínhamos que fazer ginástica para ver algumas partes da cena) que me fazia parecer um guaxinim e do cabelo à Hermione,entretanto seco mas em mau. 

O ortopedista não teceu nenhum comentário. Disse que não era nada da poda dele mas aconselhou-me a mudar de medicação. Em 5 minutos prescreveu-me daquelas receitas modernaças que vão descarregar no nosso telemóvel e deu-me alta. 

Já não fomos a tempo de apanhar o fim da ópera (assim com'assim se eu quiser ver cenas lésbicas vou ao Youporn e Romeu de pipi não é para mim) e voltámos para casa cabisbaixos: mámen estava desgostosíssimo porque não conseguiu ver o espectáculo até ao fim (e não achou graça quando eu lhe expliquei que aquilo morria tudo no fim,que não se apoquentasse) e eu particularmente desanimada porque era mais uma especialidade que se descartava de mim e não me apontava nenhuma orientação. 

Fizemos a A5 em silêncio, a caminho de casa. Parámos na farmácia de serviço e eis que vem a nova medicação:




A minha vida é uma trágico-comédia.
E estávamos a assistir de camarote.  

[Fuck my life!]


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Carta à auxiliar da sala do Jardim de Infância da minha filha



Querida Fernanda,

No fim do ano lectivo, o último da Ana antes de ingressar no primeiro ciclo e, por isso, o último em que acompanha a minha Ana queria agradecer-lhe.

Sabe, é que muitas vezes as pessoas- os pais incluídos- se esquecem do papel das auxiliares. Eu- às vezes- também mas hoje não.


Queria agradecer-lhe o papel que teve durante este ano na vida da minha filha. Não foi um papel auxiliar nem secundário, foi um papel insubstituível e principal.


Foi a Fernanda que acolheu. todas as manhãs, a minha Ana na sala. Que lhe deu bons dias risonhos. Colo nos dias em que estava mal disposta. Que a conduziu à reunião de tapete. Que lhe ajeitou ganchos a escorregar no cabelo liso e escorrido.

Foi a Fernanda a primeira a alertar-nos para o impacto que a minha doença estava a ter no comportamento da Ana. A dizer-nos que a sentia triste, preocupada, meia deprimida.  Foi a Fernanda que resolveu muitas birras da Ana não querer ficar na escola de manhã, sabendo-me doente e de cama em casa e querendo ficar comigo, a tomar conta de mim, numa parentalizacao precoce que nunca lhe permitimos. Foi a Fernanda que lhe deu colos, que a abraçou, que limpou uma diarreia somática, que lhe fez companhia quando a tristeza da Ana não lhe apetecia brincar com os outros meninos, que nos atendeu todos os telefonemas - sem se mostrar enfadada ou aborrecida - depois do pai a deixar na escola para nos certificarmos que tinha, enfim, serenado. Foi a Fernanda que introduziu a Ana nas brincadeiras das colegas sem a forçar, que a juntou e foi facilitadora na sua relação com as meninas com um perfil comportamental semelhante ao dela, que a incentivou a escalar e a saltar à corda, que lhe desinfectou esfoladelas nos joelhos, arranjou penteados porque o pai não tem lá muito jeito e foi a Fernanda que se mostrou sempre de coração partido face à reação da Ana à minha incapacidade de ter uma vida normal, de regressar à nossa vida normal, de termos a vida virada do avesso.

No tempo lectivo foi a Fernanda que a virava sempre do lado certo, que conversou com a Ana na hora do recreio, que a escutou e ouviu, que a serenou e lhe prometeu que isto tudo ia passar. A Ana contava-nos isso e garantia-nos o quanto acredita em si.

E a Fernanda nem sabia que ia passar (nem nós ) mas passou. 
Também graças a si.


À Fernanda que anteontem, depois de dois períodos lectivos difíceis, de um 2018 particularmente duro para toda a nossa família e perante a falta de talento desportivo da Ana, crashou a prova de corta-mato a meio para a resgatar do último lugar.

Obrigada por tudo e por tanto, Fernanda. Nenhuma palavra consegue transmitir a gratidão que o meu coração de mãe lhe dedicará para sempre. Obrigada por amparar a Ana num ano em que lhe doeu tanto na alma crescer.


Cresceu mais forte e segura, muito graças a si. Não é o seu trabalho que aqui enalteço: foi a sua capacidade e generosidade de cuidar e amar a Ana quando e onde ela tanto precisou. Obrigada por lhe ter limpado as lágrimas, feito sorrir e lhe ter dado, todas as vezes sem nunca o negar, o colo que a minha ausência não me permitia e nem em casa, muitas vezes, tinha força anímica para compensar. 

Nem sempre foi fácil mas nunca a vi de má cara e sabemos que a Ana não é uma miúda simples e fácil de compreender. Oh como a admiro! Ensinou-a pelo exemplo de amor, generosidade, humanidade e afecto e deu continuidade ao trabalho que tentamos fazer em casa. É tão boa nesse papel, sabe?!



Foi uma excelente companheira de equipa juntamente com a educadora mas- principalmente- connosco. Aceitou o compromisso de fazer da minha Ana uma menina melhor, todos os dias, sem ter expectativas do que era ser melhor, apenas respeitando a direcção, os gostos, interesses e personalidade que ela foi demonstrando. Respeitando e apoiando a Ana na sua essência, sem a querer mudar. 



A Ana é a nossa semente, minha e do pai. Todos os dias a regamos para que cresça saudável e feliz. Mas foram ambas- a Fernanda e a Helena também- que todos os dias úteis, das nove às quatro da tarde, na nossa ausência, lhe abriram a janela da infância e lhe mostraram o sol. Porque o vosso amor foi fotossíntese para esta Ana, a minha Ana, agora mais forte e em flor.


Obrigada por tudo. Por ser exactamente a pessoa em quem a minha filha procurou o colo que a minha ausência não permitia ser eu a dar. Que a minha doença não estava a ser capaz de providenciar nas doses necessárias. O seu colo não é auxiliar, foi educador, de amor e afecto e teve um papel principal.

Um papel que nunca esqueceremos.

Um beijinho nosso. Um beijinho com sabor a colo de mel. A um colo principal.
Liliana- mãe da Ana“

terça-feira, 19 de junho de 2018

Chocados com as crianças mexicanas separadas dos pais na fronteira dos USA? Leiam este post!



Tenho a sorte de estar rodeada de pessoas inteligentes e informadas e, por isso, ter acesso privilegiado a informação fidedigna e credível sobre os mais variados temas. Assim, com a devida autorização, partilho tudo o que há para saber sobre este caso transcrevendo. textualmente, as palavras da minha amiga Inês Sampaio Melo Antunes, distinta advogada no Tribunal de Justiça Europeu e que percebe da poda, num texto único, conciso e absolutamente esclarecedor:

"Tribunal de Justiça Europeu explica: "KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO"
Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta.
O que concluí é absolutamente kafkiano. Ora atentem:
- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.
- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.
- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos final deste texto).
- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados.
Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.
Obrigada por me lerem até aqui!"

Ler aqui aqui 

sábado, 21 de abril de 2018

Inter-rail hospitalar- Ser optimista mas a culpa é da puta cadeira



Chegou Dezembro e as coisas não melhoravam. Médica de família diagnostica hérnia discal  (detectada numa TAC numa ida à urgência do hospital) e compressão do nervo ciático.

Nesta altura as idas às urgências com dores alucinantes eram tantas que as empregadas do Hospital já atribuiam desconto de funcionário do Hospital a mámen. 

Farta de injecções de voltarem e relmus e com uma overdose de mentol de Transact experimentei o quiropata, que não se revelou eficaz no meu caso. 

As compras de Natal foram feitas num só dia e, numa fase final, já usando a cadeira de rodas do Cascaishopping, o que- vendo o copo meio cheio- me deu prioridade numa série de filas das lojas. Noite de Natal a ganir baixinho (de dores até porque os presentes correram muito bem) e tirando o facto de mámen ter levado a minha Bimby para arranjar para vir a tempo de confecionar a ceia de Natal, que este ano era cá em casa, e de lhe terem assaltado o carro e roubado a bicha, pronto, tirando isto e as dores foi um Natal pois. 

O ano novo foi simpático, com amigos do coração cá em casa sem me deixarem mexer um dedo sequer para me pouparem- beijinhos Margarida, Luna, Paulo, Laura- queijo, enchidos,marisco e vinho (para os que não tomam medicação).

Com medo que a medicação me desse sono e eu me viesse a esquecer daquela noite entre 2017 e 2018 a minha filha e a sua melhor amiga lançaram aqueles canhões de confettis às doze badaladas. Resultou. Cada vez que faço limpezas à casa, e já passaram 4 meses, encontro cabrões de confettis nos sítios mais recondidos, tipo a boiar dentro do autoclismo casa de banho do meu quarto, que fica assim a 3 km da sala ou na gaiola do coelho que fica a 5 km da sala. 


E foi, de facto, uma meia noite inesquecível pois estava na casa de banho às doze badaladas, saí disparada para a sala (tão disparada quanto me permitiam as dores nas costas,  portanto, cheguei quase a tempo de 2019) e esquecida da miséria em que me encontro fiz ali uma tentativa para cumprir a superstição e subir para uma cadeira com uma nota, num momento trágico-cómico, pois para além de não conseguir movimentos que me permitiam subir para a dita, o meu marido tinha-se esquecido de levantar dinheiro e só tinha uma nota que- cretino!- orgulhosamente ostentava no pedestal das minhas cadeiras da AREA, que foram caras, se eu não subo ninguém sobre e... cagaram-se todos para mim. 

Ali estava eu, início de 2018, por pouco não passei a viradinha numa posição escatológica, sentada à mesa a segurar uma nota de Monopólio (que tínhamos jogado antes do Party) e mais marreca que o Bruno Carvalho naquele meme a sair do banco de suplentes.
Na verdade, acho que esse era o verdadeiro presságio para o ano de 2018: um ano quase de cagada, sem subir nem descer,na realidade sem me mexer, e com uma vida financeira tão promissora como a de um investidor do Monopólio. 

Que viesse Janeiro. Assim com'assim já tenho passe V.I.P nas urgências e mámen descontos na cafetaria do hospital.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

terça-feira, 10 de abril de 2018

Post meramente publicitário com o fim de (tentar) mostrar à minha família uma utilidade que seja deste blog



A minha prima é focada. Um bocadinho excessivamente até.Daquelas que quando está a trabalhar pode não dormir dias seguidos nem comer sushi se lhe puserem à frente enquanto não acaba uma tarefa. Igualzinha a mim que basta alguém me oferecer uma bica (vendida!) e lá tem três dedos de conversa (porque merda se diz três dedos de conversa? Podem ser dois dedos de conversa? Quatro dedos? Qual a lógica disto? Estão a ver? Eu sou mesmo igualzinha a ela, não disperso nada...). 

Desde para aí os dez anos que diz que quer ser arquitecta. A culpa é minha, nove anos e meio mais velha,que lhe apresentei os SIMS (já ninguém joga SIMS?) e enquanto me entretia a afogar os bonecos enviando-os para a piscina e depois suprimindo as escadas até que eles morressem de cansaço e eu pudesse ganhar uns trocos para continuar o jogo (pensando bem, é melhor nunca referir este facto à minha psicanalista...) a miúda prodígio construía cidades inimagináveis no SIMS city. É isto, eu já fiquei com a genética da beleza da parte da família,também não podia querer a parte da inteligência, né?! 

A modos que sim, a miúda tornou-se arquitecta e há uns quatro anos que se tem vindo a especializar numa área específica que tem que ver com modelagem 3D, renders, imagens 3D e assim coisas que eu queria muito explicar mas eu era a que suprimia as necessidades de comida e de fazer xixi dis SIMS, não me exijam muito,ok?

Assim, acabou de lançar a sua nova empresa - a Into Studio-  que produz imagens digitais estáticas e "in motion", muito virada para projectos de arquitectura 3D de suporte a outros gabinetes de arquitectura, imobiliárias e real state, remodelações de casas e edifícios, trabalho com fábricas de mobiliário e design, etc. 

A modos que eu avisei lá em cima, ninguém veio ao engano, que este era um post publicitário para provar à minha mãe que o blog serve para a alguma coisa e tentar compensar o meu tio, pai da minha prima, que não me perdoa a entrada em casa dos SIMS, que o pessoal está para velho e eu já tinha dado o desgosto de ir para psicologia, todas as esperanças de uma médica na família se dissiparam com esta história da arquitectura. 

Visitam o site? Likam na página de facebook? Vá, é a minha caçula, mexam esses dedos!

(e se não likarem aqui vai a praga de sete anos de azar, um furúnculo no nariz, uma verruga na virilha, pé de atleta e não há alho que vos valha. Lembrem-se que sou pessoa que sacava as escadas de acesso aos SIMS para eles morrerem cansados a nadar, tá.?! Não percam isso de vista!)
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