quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A minha casa são eles


No ano passado planeámos que este ano regressaríamos a São Jorge. Há 5 anos que cá não vínhamos. 

Seria uma viagem de reconciliação com esta terra que desde essa altura, a propósito do batizado da miúda, nos falhou. Estivemos no Faial há 2 anos. E as nossas pessoas de São Jorge têm-nos visitado em Cascais amiúde. Portanto, não eram saudades das pessoas nem das ilhas: era uma necessidade absoluta de reconciliação com a ilha do dragão. 

Mas nós não somos rígidos e sabemos que planos são só planos até serem realidades. E que são voláteis e, por vezes, não passam de planos. Daí eu fiquei doente. Muitos meses. E o dinheiro que tínhamos amealhado para a viagem foi usado em médicos e medicamentos. E na entrada de um carro pois o nosso velhinho decidiu que este era o ano ideal para morrer. Ficámos zerados. Nós não somos materialistas e sabemos que o dinheiro vem e vai. E que se recupera, ao contrário do tempo e do amor que não se pode adiar. 

Então os nossos amigos esmagaram-nos de generosidade em forma de férias: a Sofia ofereceu-nos dias na casa de Vilamoura, a Margarida disponibilizou-nos a chave da da Ericeira e a Inês abriu-nos a porta da casa do Norte. Eram esses os planos saltimbancos: correr as casas de férias de quem nos quer bem, comer massa com atum e aproveitar o Verão em que perdemos quase todas as nossas economias mas eu recuperei a minha saúde e mobilidade e, por isso, eles me recuperaram a mim. 

Mas depois veio um projecto de formação comportamental e um budget disponível de que não estava a contar. E decidi em segredo que, desta vez, os planos voltariam aos eixos.  E no dia do aniversário da Ana, ao fim do dia, cansados e felizes, sozinhos em casa disse-lhe que iríamos voltar a sua casa. 

Ele sorriu e disse “a minha casa és tu”. E eu tive a certeza de que o dinheiro não vale nada.

Ele regressou à terra e há muito tempo que não o via tão feliz. E nós felizes por ele. Felizes com ele. 

Felizes porque todo o ano, para lá das férias, a nossa casa também é ele. 

Ele veio ajustar os seus pilares a esta ilha à prova de sismos. 

E a vida é uma metáfora do caraças!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Ainda da fajã das almas



Na nossa fajã preferida a prima leva-a ao colo em direccão ao mar. 

Eu seguia-as a fotografar a beleza irrepetível desta fajã e atrás de mim ele apoiava a sua própria mãe na descida, de braço dado. Mais tarde o avô havia de interromper o trabalho para se juntar a nós. 

Mergulhámos muito todos. O mar enrolou-nos e brincámos às amonas. O pai e o avô subiram para uma cerveja partilhada e nós ficamos no calhau a partilhar línguas de gato e batatas fritas de pacote. 

A Ana fez uma amiga e ambas apanham pequeninos búzios das rochas. Oferece-lhe um pacote de sumo e improvisam um Pic-nic em cima do meu vestido húmido.

 A Ana contempla o horizonte e fita a montanha: “isto é que é um verdadeiro pico-nic, mamã!”

Rimos da piada. E levamos desta tarde o nome da fajã muito a peito.

Almas cheias

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A tia Conceição



O meu sogro tinha-nos dado as coordenadas por alto. A casa da tia Conceição, única tia bisavó da Ana do lado do avô paterno, fica numa parte longínqua e alta da ilha, mergulhada em nevoeiro. 

Não avisámos que íamos (eu contrariada que não me parece bem aparecer em casa alheia sem me fazer anunciar) mas a tia Conceição, mais deoito décadas sobre os ossos rijos, recebeu-nos como se nos esperasse há uma vida. Tirou uma cerveja do frigorífico e começou a desfilar histórias de netos, sobrinhos-netos, novas gerações frescas que prometem a continuidade desta linhagem de mulheres de olhos cor de mar. 

Fitou a Ana, trisneta da sua mãe, e marejaram-se os olhos de lágrimas: “são iguaizinhas: os cabelos loirinhos e os olhos. Ah , os olhos! Azuis enormes. Faz impressão, são iguaizinhas!” Limpou as lágrimas com o antebraço e nós estremecemos e sorrimos, comovidos com as memórias a brotarem como as hortenses férteis ali ao lado no quintal. 

Quis-nos mostrar a casa, rebocada rusticamente, pouca mobília, tudo arrumado magistralmente, fotografias de toda a gente nos poucos móveis e nas paredes despidas de acessórios. Casamentos, baptizados, coroações, primeiras comunhões e queimas das fitas da última geração: histórias de sangue numa exposição única que é também a história da minha filha. Um museu de memórias. 

Fitei o quadro com os olhos, sem os conseguir desviar. 

A coroa do Espírito Santo presente em todas as casas açorianas, símbolo de uma fé partilhada e coletiva. Sorri e pensei que um dia teria que levar uma coroa para nossa casa e voltei, atenta, à conversa que se desenrolava, vagarosa e cheia de afectos, na sala de estar com chão de linóleo. 

À saída a tia diz que não tem nenhuma notinha para dar à Ana [ó tia, por amor de Deus, não queremos dinheiro! Só a vimos abraçar!] e vêm-lhe as lágrimas aos olhos enquanto diz que provavelmente já não nos volta a ver. 

Soa a despedida e ele mascara a conversa com um abraço demorado. Vai buscar uma aguardente caseira que oferece ao sobrinho neto. 

Olha para a moldura da coroa e diz-me:”Gostas, não gostas?!” 

Sorrio e aceno, sem nenhuma intenção senão a gentileza do elogio. Tira-a da parede e dá-ma, sem me deixar reclamar: “lembrem-se de mim”. 

Lembraremos, tia!

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A herança de uma infância nas ilhas



Às vezes fico quieta a contemplar o momento. 

Fecho os olhos e vejo mais além, a memória macro e que perdurará para além do segundo em que cliquei para tirar este retrato. 

A Ana foi feliz no Pico: andou de barco, viu golfinhos a nadar no oceano, fez uma nova tia (um xi querida Laura), amigas (beijinhos Dafne!) e primas em barda (memórias das gargalhadas com a Vera, Sabrina, irmã da Sabrina, Fernando José, Ana e quem mais viesse por bem!), estendeu-se no calhau da Maré, provou comida típica e bebeu kima de maracujá ao pequeno almoço, assistiu ao concerto do Richie Campbell, comeu algodão doce, andou de baloiço, correu à solta, cansou-se nos Insuflaveis que aprendeu a chamar de pula-pula, visitou o museu baleeiro, tirou fotografias, fez sestas no carro, aprendeu tudo sobre baleias, comeu gelados, acordou com vista para o Pico do Pico, viu vacas de todas as cores e feitios e deslumbrou-se com a beleza das lagoas, provou pão de véspera, deleitou-se a ver danças folclóricas e em especial a Chama-Rita, azucrinou a paciência à prima, distribuiu abraços a quem quis distribuir, recebeu uma T-shirt de açoriana honorária, portou-se mal às vezes não por má educação mas por reguilice, cantou, dançou, reiterou mil vezes que o Pico é a sua ilha preferida e foi incrivelmente feliz.


Às vezes fico quieta a contemplar o momento e o momento passa a ser a minha contemplação e o espanto de conseguir criar memórias felizes na infância da minha filha.


 Afectos: a minha herança um dia será esta. A memória de uma infância a abarrotar de afectos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Acto de rendição



Passaram vinte anos desde que visitei os Açores pela primeira vez. 

Foi amor à primeira vista mas foi uma paixão controlada, cheia de resistências e não assumida durante mais de dois terços deste tempo. Os Açores são a casa dele, terra-mãe e mar-pai e eu sentia-me numa luta desigual, com poucos trunfos para derrotar esta beleza, este paraíso. 

E se ele quisesse voltar? E se eu tivesse que vir com ele? E se o nosso futuro passasse por aqui? 

Eu tinha medo de perder o meu amor para esta terra e passei toda a vida a lutar contra ela, numa luta inventada por mim, um medo estúpido e infundado do meu inconsciente. 

Passava a vida a comparar o que via: este arco é igual à boca do inferno em Cascais, esta estrada igual a uma em Sintra, Cascais tem uma baía mais bonita que esta, lá há mais vida nocturna, as pastelarias da minha terra é que são, mas aqui não há semáforos?!... 

Sempre à procura de semelhanças, de coisas em comum ou coisas menos evoluídas, numa competição idiota como se evolução fosse a urbe, o cosmopolita. 

Silly me. 

Há poucos anos pela primeira vez comecei a procurar as diferenças, a unicidade e o espanto surgiu, sem resistências, entreguei o corpo às balas das ilhas. 

Os Açores não entram em competição com nada. Não precisam. Valem por si só, pelas suas paisagens, cultura, pessoas. 

Os Açores são os Açores e isso, parecendo pouco, é tudo. 

Eu tinha medo de perder o meu amor para esta terra mas foi o meu amor que me ganhou para esta terra. 

Os Açores são ele e a Ana. 

Os Açores também sou eu.

Rendo-me, enfim.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Aos 9 de Agosto de 2018, à Ana por ocasião do seu 6º aniversário

Seis anos. Fecha-se um ciclo e eu sinto-me expectante pelo que aí vem sem deixar de sentir uma ponta de nostalgia pelo que passou. 

Em ti, Ana, já não há quaisquer resquícios do bebê que foste: não há chuchas, dormes sozinha, não há elementos de transição nem tiques de primeira infância, comse sozinha, a voz já não é de bebé nem no tom nem na articulação de palavras, estás com um timbre natural deliciosamente rouco e já lês tudo. Continuas a procurar o meu colo e a pedir-me beijinhos nas feridas até que a parva da pré-adolescência te traga a mania que és auto-suficiente e crescida demais para o afecto. 

Antes de dormir disse-te: “Estás a crescer tão depressa, Ana! Já sabes tantas coisas do Mundo” e tu abraçaste-me e suspiraste, num tom de fado que só usas comigo, “eu não sei nada, mamã!” Respondi que sabias sim e que cada vez menos precisavas de mim para os rituais do dia-dia. “Já comes sozinha sem ajuda há que séculos” “Mas preciso que tu me cozinhes e sopres a comida antes de vir para a mesa para eu não me queimar” “Também já fazes a cama sozinha!” “Mas preciso que no fim tu dês sempre um jeitinho” “Já lês letras e frases” “Mas preciso que tu leias os livros inteiros porque são muitas frases e me canso” “Já tomas banho sozinha!” “Mas preciso de ti para me tirares espuma do cabelo” Sorrio.

 Tu sorris-me de volta e metes-me a mão no pescoço, abraçando-me. 

Repito baixinho para me convencer “eu serei sempre a mãe que sopra a comida, que lê as histórias grandes quando o sono não permite, que dá o jeitinho na cama, que tira a espuma no fim do banho, a mãe que compõe”. Não te quero fazer sentir este peso. “Mas sabes, Ana, não tem mal nenhum não precisares da mãe! Quando crescemos é normal!” “Sei, mãe. Mas também não tem mal nenhum continuar a precisar para sempre...” 

Estás a crescer, Ana, depressa e ainda bem porque és tu quem me ensina, agora, tantas coisas do Mundo, enfim.
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