- pensei no supermercado, quando aquele rapaz loiro de olhos azuis me perguntou "arroz carolino ou agulha?".
Ali estava eu, 35 anos, adulta. Não sei como passou tudo tão rápido, como carga de água o tempo me engoliu e me tornei nesta pessoa de 35 anos, casada, com uma aliança no dedo em vez do anel do humor cuja pedra mudava de cor conforme o meu temperamento e fio de prata com medalhinha à mummy em vez do colar de couro com a medalha que comprei em Sevilha com o João, aquela medalhinha creepy com o olho de holograma a aparecer conforme o ângulo através do qual o olhávamos. Eu a escolher se o arroz que levava nas compras era agulha ou carolino (who cares?) ao invés de escolher se agora ouvia agora a cassete dos Pearl Jam ou dos Nirvana.
Às vezes dou por mim, estupefacta, a constatar no que me tornei. Acontece-me normalmente, de manhã, enquanto me olho ao espelho na casa de banho e me resigno com mais um cabelo branco no cocuruto (porque raios os cabelos brancos aparecem à frente e são mais espetados e fortes?) ou quando recebo emails do Jardim de Infância dela dirigidos "aos encarregados de educação". O que vale é que, na maioria das vezes, em que começo a constatar isto (e a deprimir), a miúda loira interrompe-me os pensamentos, com ranho para eu assoar ou um gancho no cabelo para arranjar e acabam-se as questões metafísicas. Toda a gente sabe que nada na vida é mais prioritário que limpar a ranhoca aos filhos, sob pena das camisolas acabarem todas com nódoas nas mangas que não há detergente que as salve.
Diz que sou eu: adulta, 35 anos, a ficar grisalha (doem-me os dedos só de escrever isto), encarregada de educação de uma criatura de 3 anos, cujo ranho lhe limpo de bom grado, ganchos lhe ajeito como quem nunca fez outra coisa na vida senão cuidar de penteados infantis e com capacidade de decisão para escolher se o arroz que se leva para a despensa é agulha ou carolino.
Talvez seja só eu, que ando numa crise existencial, em negação de como o tempo me engoliu e de repente me confronto com o facto de já não ser mesmo uma miúda, ser adulta (oh céus!), mulher, mãe sem me lembrar da coisa ter sido gradual e reflectida. Talvez, no fundo, quisesse mesmo acreditar naquilo que dizem as revistas e as frases inspiradoras, de que os 30 são os novos 20 (não são!) e de como as mulheres ficam mais sábias e apuradas com o passar dos anos (ahahahah!). Só que não.
Ali estava eu, a decidir entre o agulha e o carolino ("leva os dois!"), a sacar da carteira de "senhora" com fotografia de passe da miúda lá dentro (sim, sou mesmo uma mãe!), a pagar com cartão multibanco com o meu nome lá escrito, a dar de caras com a requisição da mamografia ("Ah, a Liliana tem mesmo que a fazer! Aos 35 anos tem que se começar a fazer este tipo de controlo..."- dissera-me a médica na véspera).
Às vezes (muitas) queria voltar a poder usar o anel com a pedra do humor, o colar creepy do olho, a carteira com abertura de velcro e a achar que as mulheres de 35 anos eram velhas, "senhoras", vá.
Entretanto, continuo em negação a pensar que para o jantar de hoje uso o agulha para fazer arroz de marisco e o carolino para a sobremesa de arroz-doce. Ainda bem que trouxe os dois.
Oh diabo, no que me tornei.