domingo, 21 de outubro de 2018

Perna de pau





Foi assim durante 4 anos. O Rui Monteiro inventou o mimo: "perna de pau". Apontava para as minhas botas ortopédicas, aparelhos de ferro até aos joelhos, presilha de velcro a prender as talas e gritava "perna de pau! perna de pau!".
Havia dias em que me custava ir para a escola, logo a mim, que sempre adorei estudar. Havia dias em que não me apetecia sair para o recreio, logo a mim, que sempre fui sociável e popular, brincalhona e gaiteira. Havia dias em que tinha saudades da escola do hospital, com a educadora Fernanda e outros meninos a terem aulas deitados em macas, todos em reabilitação naquele Alcoitão.
Sempre que, em convalescença de uma das inúmeras cirurgias o absentismo me tocava à porta meses seguidos, suspirava por voltar para junto da professora Emília e das minhas melhores amigas Joana e Sofia. Tinha também saudades do Hugo, minha paixoneta e do Bruno que batia em toda a gente que se metesse comigo. E voltava feliz com as conquistas físicas que a minha ausência me recompensava e com a possibilidade de voltar ao lugar onde pertencia. Mas, dias depois, a vontade morria com o eco das palavras gritadas no recreio "perna de pau! perna de pau!"
Nunca me importei com a minha diferença. Nascer e crescer com uma deficiência física nunca me perturbou. A minha realidade, desde sempre, era aquela, o meu conceito de "normalidade" era aquele, estava bem, tranquila, em paz com quem era, como era e como me sentia acerca disso. Aparentemente, só o Rui Monteiro se importava com a minha diferença, gritando alto aquele "perna de pau" todos os intervalos, todos os dias, todos os anos lectivos. Eu fingia não me importar, nunca verbalizei o quanto acreditava que aquela maldade intencional é que me fazia diferente, aquelas palavras a ecoarem no intervalo, a entrarem nos ouvidos dos outros meninos em jeito de um: "reparem, reparem, ela tem botas ortopédicas e anda de forma diferente!". 
Não era eu que me sentia diferente, era o Rui Monteiro que fazia questão que eu me sentisse. Não eram as minhas pernas encarceradas naquelas botas, magoadas pelos vincos dos aparelhos de ferro que me lembravam da minha diferença, era a voz cantada em jeito trocista daquele rapazinho, franzino e inseguro, que me usava como bode expiatório para desviar as atenções da sua gaguez, da sua dislexia, das suas dificuldades de aprendizagem, da sua própria diferença. 
Passei os quatro primeiros anos de escola sem tocar num gelado "perna de pau". 
Eu não tinha qualquer problema com a minha diferença, eu acreditava no poder da diversidade, eu era bem sucedida nas aulas, uma das melhores alunas da professora Emília, tinha a Joana e a Sofia para brincar nos recreios e o Bruno a dar sovas a todos os que não me queriam incluir a jogar "ao mata", Rui Monteiro incluído. Mas, ainda assim, havia dias em que me apetecia ficar em casa, aninhada no colo do meu avô, a comer o pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão da minha avó. 
O problema nunca foi meu: era dele, do Rui Monteiro. Um dia percebi isso. Era Verão e estávamos nas férias grandes e na colónia de férias a Guida pediu-me que segurasse no seu gelado enquanto apertava os ténis. O Perna de Pau derretia e ela gritou-me que o impedisse: provei o gelado! Oh céus, o que andava a perder nos últimos 4 anos, eu, que era uma boa menina, que merecia coisas boas, era eu que perdia a alegria de ir para a escola, a deleite de comer perna de paus, a felicidade de crescer sem fantasmas. Era eu, que não tinha qualquer problema com a minha diferença, que estava a perder. 
O Rui Monteiro lá continuava, cheio de problemas acerca das minhas pernas, a verbalizar isso com ofensas, a correr feliz no recreio, a jogar futebol, a assobiar no caminho para a escola, a comer perna de paus. Não era justo. Nesse dia, percebi isso. 
Desejei regressar à escola rápido, mostrar que não fazia mal, que as minhas pernas não eram bonitas mas que andavam e me levavam para tantos sítios, que as minhas botas eram bastante mais feias que os sapatos de verniz da Cátia mas que, ainda assim, me permitiam dançar, que se a minha diferença não me afectava, não me condicionava, não era mais forte que eu, logo, nenhuma voz maldosa o poderia ser. 
O Rui Monteiro avistou-me, naquele primeiro dia de aulas da quarta classe, "Perna de Pau! Perna de Pau!" Sorri, vitoriosa, olhando-o bem fundo nos olhos! Já não me sentia envergonhada, já não temia ouvir em voz alta o mimo, já não lhe dava qualquer poder sobre mim. Tinha 9 anos e foi, esse dia comum de escola, um dos mais importantes da minha vida.
Eu tinha provado o gelado. E nunca mais abriria mão de me deliciar em dias quentes de Verão com aquele sabor de nata e morango com aquela pequena folha de chocolate por cima só para desenjoar. Eu sabia quem era, assumia a minha diferença e escolhia viver bem com ela. Quando me chamou de perna de pau, nesse dia, senti-o como um elogio, de frescura e sabor: era a minha mente que mandava em mim,  no que sentia, não a voz maldosa do Rui Monteiro. 
Hoje, 25 anos depois, coordeno um projecto de combate ao bullying em crianças com deficiência e hoje, dia internacional da pessoa com deficiência, coordenei uma actividade com 100 crianças da mesma idade que eu e o Rui Monteiro tinhamos naquela altura, falei sobre diferenças mas, acima de tudo, sobre semelhanças, celebrei a diversidade e preconizei aquilo em que mais acredito: todos diferentes e não todos iguais: todos diferentes e ainda bem! Porque ser diferente é ser único e isso é o que torna, cada um de nós, especial. 
Assumir quem somos sem medo de ser único e diferente e fazer disso uma bandeira, a bandeira da diversidade. A minha desenho-a de cor branca, encarnada e um bocadinho de castanho. Da cor dos pernas de paus que deixei por comer naqueles quase quatro anos da minha infância, da cor do perna de pau que a Guida me passou para a mão para eu lhe segurar enquanto apertava os atacadores, da cor das meias que calçava debaixo das botas, nos vincos que os aparelhos me causavam e do couro das botas ortopédicas que me ajudaram a que hoje corra o Mundo pelos meus próprios pés. A que viva, segura, condicionando a MINHA acção e a MINHA vida pela MINHA realidade, não pela opinião dos outros.
Obrigada, Rui Monteiro: não imaginas o quanto fizeste por mim!

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Artur (37)




Conheci-o no dia da festa pública do primeiro aniversário da Ana: a ele e a toda a família- e não são poucos- loucos o suficiente para se enfiarem os seis num dia de calor extremo e virem dar-me um beijo a Lisboa directamente vindos de Tavira.

Nunca mais me esqueci.

A mãe- a Fátima- é uma mulher ímpar: mãe de (agora) cinco filhos, educa-os com o mesmo rigor, exigência, cuidado, disciplina e amor desde o mais velho- este Artur- ao mais pequeno Valentim, com um ano acabado de completar. E é um exemplo de educadora, o que se reflecte em todos eles mas hoje o post é para o Artur, o meu "sobrinho" chef, afoito e corajoso, destemido e criativo, bravo e rigoroso.

O Artur começou a interessar-se por cozinha no secundário, tendo concluído o Curso de Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, ao qual se seguiu um primeiro estágio curricular em grande, no The Oitavos na Quinta da Marinha como parte da equipa do então Chef  Pasteleiro Joaquim Sousa (o Chef que criou aquela sobremesa da flor negra que abria no prato e correu todos os facebooks, instagrams e masterchefs deste Mundo). 

Em 2014 acabou  o Curso e entrou no Belcanto do José Avillez onde estagiou  durante 3 meses, seguindo-se de um estágio no El Celler de Can Roca em Girona, que tem 3 estrelas Michelin e era naquele ano o “Melhor Restaurante do Mundo” pela 50 Best Restaurant. 

Foi aqui que começou a entrar mais na parte "salgada" da cozinha e trabalhou em quase todas as secções do restaurante incluindo o Laboratório. Regressou a Portugal e em 2015 foi pela primeira vez até Copenhaga para experimentar uma semana intensiva no Relae, e onde, mesmo em tão curto espaço de tempo,  despertou para a importância da origem do produto, a sua caminhada até chegar ao restaurante, à sustentabilidade e ao “foraging” (consiste em recolher plantas, ervas, frutas, cogumelos selvagens).



Claro que nem tudo são rosas, ou não fosse isto a vida, e foi também neste ano que teve uma experiência péssima que quase o fez desistir desta área e onde o chefe queria servir lavagante com 3 dias de cozido e onde não havia qualquer sentido de hospitalidade, respeito pelos ingredientes e sobretudo, respeito pelos clientes. Este episódio afectou bastante o Artur, um tipo franzino e sério, sem tempo a perder e em 2016 pensou como alternativa o ensino, tendo começado a dar aulas na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro. No entanto, Artur é "hands on", não é galinha de capoeira, é de campo e das bravas e logo, logo, começou a trabalhar no Restaurante Vistas no Monte Rei Golf & Country Club, tendo na sequência desta colaboração sido seleccionado para a final ibérica do San Pellegrino Young Chef of the Year 2018, que reuniu os 10 melhores jovens cozinheiros de Portugal e Espanha (com a participação de apenas dois portugueses). 

Rumou novamente à capital, o Artur intrépido, tendo ajudado a abrir a Confraria do Polvo, que aqui recomendei e cuja colaboração ter-se-ia mantido se não tivesse sido chamado pelo Noma, o melhor restaurante do Mundo, onde se encontra a estagiar há quatro meses. 

Durante os 2 primeiros meses esteve na produção e em algumas das estações a ajudar no serviço e preparações para serviço, que a vida de cozinheiro não é só glamour.  No entanto, o Artur brilha por onde passa, e no final do segundo mês foi convidado por um dos Sub-Chefs a fazer parte do Laboratório de Fermentação, Investigação e Desenvolvimento e ainda por lá anda, feliz e contente. Neste momento está a desenvolver produtos novos para o Menu de Peixe e Marisco que será servido a partir de 9 de Janeiro de 2019.
Se por um lado assisti orgulhosa e embevecida, como uma tia a sério, ao pulsar do Artur pelas cozinhas deste Mundo, por outro, não vejo a hora dele voltar a Portugal e marcar um jantarinho parolo e saloio à tuga e cozinhar só para mim!

Artur. Nome de Rei. Anotem que ainda vão ouvir falar muito dele.

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Começar o dia a (Eslo)vacalhar

"Boa noite :)

Aqui vai a Quadripolarização da Eslováquia. Tenho de confessar que já vivi lá uns meses... Mas foi passando, passando e vim embora sem a Quadripolarizar! Espero estar perdoada x)
As duas primeiras fotos são do Lago Kuchadja, a paisagem não é a melhor mas dado que o lago estava todo congelado eu achei apropriado. Na terceira foto era eu que já estava congelada, mas o "ovni" é daqueles pontos imperdíveis e merecia ficar registado.




Não sei se precisavas, mas Quadripolarizei também Viena, no Palácio da Princesa Sissi (sim, e com mais um lago congelado!) :)



Espero que gostes das fotos e peço desculpa pelo papel tão pequeno, mas foi o que consegui arranjar.

Beijinhos
Raquel"


Xinapá, Raquel! Já me enviaste isto há tanto tempo que se calhar já tens filhos a entrar na universidade e já usas o cogumelo do tempo! Tu desculpas.me? Tu desculpas-me?

Eslováquia e Áustria quadripolarizadas! Yeahhhh!





[O planisfério está actualizado aqui
Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!]

sábado, 6 de outubro de 2018

Vamos falar de chá






Tinha onze ou doze anos, lia o Clube das Chaves e as Gémeas no Colégio de Santa Clara e ainda estava a aprender a lidar com as maminhas que me tinham aparecido e ainda a porra da menarca preconce e todas aquelas hormonas parvas que apareceram sem avisar. 

Os rapazes gostavam de jogar futebol mas era inverno, no início dos anos 90 não havia cá pavilhões gimnodesportivos nem campos cobertos e os rapazes-maçados!- tinham encontrado como alternativa à diversão via futebol:apalpar os rabos às meninas que, no intervalo,passavam nos corredores em direcção à sala. 

Eu tinha onze ou doze anos, via o "Agora Escolha" e às vezes o "Já Tocou" mas sentia-me uma miúdinha por dentro e quando, nesse Inverno, olhei para a fila de rapazes perfilados e encostados às paredes de ambas as laterais do corredor da C+S não queria acreditar que me iriam apalpar a mim, nem sequer era uma boazona, meia geek e segui segura. Fui apalpada no rabo, nas mamas e onde mais calhou naquele caminho que me pareceu infinito, enquanto gritava de horror, o coração a palpitar depânico, humilhada e reduzida a distração de rapazes que não podiam jogar futebol porque estava a chover enquanto se riam do pânico em mim gerado. Atrás de mim outras iguais a mim, a serem tratadas de igual forma. 

Abeirei-me de uma  "contínua" que minimizou o episódio, com condescendência para os rapazes "oh filha, já se sabe como são parvos os rapazes desta idade: vocês não liguem!" e me fez sentir ridícula e mariquinhas. Na sala de aula falei à professora que em tom de gozo me sugeriu que "olha, responde-lhes com a mesma moeda: apanhem-nos quando estiverem sozinhos e apalpem-nos todos" e fiquei incrédula: eu não queria apalpar ninguém, tinha onze ou doze anos, ouvia New Kids on the Block, não me interessava o corpo dos rapazes parvos da minha escola, nem castigá-los tocando-lhes arbitrariamente. Em casa falei à minha mãe que- como sempre com a assertividade que a caracteriza- me instruiu para no dia seguinte ir, com algumas das minhas outras colegas que tinham sido apalpadas, ao Conselho Directivo fazer queixa de cada um dos rapazes que conseguira identificar. Na sala do Conselho Directivo as duas professoras que receberam o nosso grupinho ouviram-nos atentamente para nos sugerirem o mesmo "vocês já sabem que os rapazes são mesmo parvo: não lhes liguem! As portas estão abertas para o exterior no inicio e no fim do corredor, vocês saiam e façam o caminho por fora e assim não se sujeitam a que eles vos apalpem". Uma de nós, penso que a Susaninha ainda terá retorquido que estava a chover, contornar o corredor por fora implicaria que nos molhássemos sem termos culpa nenhuma dos apalpões e fomos abafadas por um "mas vocês querem ser apalpadas ou não? Estamos a dar-vos uma alternativa...". 

Nesse dia, em que percebemos que ninguém iria chamar os rapazes ao conselho directivo,que ninguém os ia repreender ao corredor, que só dependia de nós fugir e não deles serem obrigados a conter-se e castigados pela acção; nesse dia fomos reduzidas à insignificância por outras mulheres, contínua, professoras, presidente do concelho directivo.

Tinha onze ou doze anos mas, nesse dia, percebi que as mulheres são as maiores inimigas delas mesmas. 

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Oh Aznavour...




[Há poucos cantores consensuais. Aznavour era, provavelmente, um deles e foi cantar hoje para as estrelas, como diz a minha filha numa visão romântica que espero que perdure para sempre, como as músicas do francês.



Acredito que toda a gente tem uma música preferida de Charles Aznavour,que cantou o amor, as saudades, os desgostos a sério daqueles de desgostar e de ser desgostado, que escancarou - com aquela voz como barba ralinha que acaricia a nossa pele e arranha-a numa espécie de dor e prazer -bandas sonoras de tantas vidas.



Esta é a música do único desgosto de amor da minha vida. Passaram muitos, muitos anos.
Obrigada por ma relembrar, recordando-me que o amor também é feito de distância, desencontros, memórias passadas e esperança. Que o amor é isto tudo o que cantou.
Isto tudo.]

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Ana,a literal

Ana agarra num papo-seco e começa a comê-lo.

 A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"

 Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"

...

Ana, a lógica

Ana agarra num papo-seco e começa a comê-lo.

A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"

Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"

...

sábado, 1 de setembro de 2018

Hoje choveu

Hoje choveu pela primeira vez desde que cá estamos. Não se avista o Pico no horizonte tal é a neblina. Ficámos por casa a jogar marralhinha em família. Comemos massa sovada com doce de Figo que sobrou dos mais de 2 quilos que um senhor roubou numa figueira alheia e nos veio vender à porta. Fingimos que não desconfiamos. Tenho aftas de tanto queijo ilha comido e acho que esgotei o Stock de kimas de maracujá de toda a ilha! Amanhã há festa na Caldeira e a vila vai ficar mais sossegada e vazia. Estamos preguiçosos e só cozinhámos ovos fingidos para o jantar. Andei a ver mantas tricotadas pela minha sogra e acabei por herdar uma linda, linda. Os cagarros sobrevoam o nosso telhado e ouvimo-los cantar em coro com as gaivotas que anunciam tempestade no mar. Está um calor insuportável e uma humidade típica de que já não me lembrava. Podia ser um dia chato mas não. É um dos melhores dias das férias. Sem pressas nem destinos para onde ir, sem relógios nem rotas. Vir por muitos dia permite desfrutarmos do dia-a-dia, provar esta rotina boa. Ele põe no rádio velho o CD de uma banda da terra que já não existe. No ar ouve-se a minha música açoriana preferida. Está perfeito. Ninguém mexa. 




[Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pézinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra

Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.

Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra

É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.] 

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A minha casa são eles


No ano passado planeámos que este ano regressaríamos a São Jorge. Há 5 anos que cá não vínhamos. 

Seria uma viagem de reconciliação com esta terra que desde essa altura, a propósito do batizado da miúda, nos falhou. Estivemos no Faial há 2 anos. E as nossas pessoas de São Jorge têm-nos visitado em Cascais amiúde. Portanto, não eram saudades das pessoas nem das ilhas: era uma necessidade absoluta de reconciliação com a ilha do dragão. 

Mas nós não somos rígidos e sabemos que planos são só planos até serem realidades. E que são voláteis e, por vezes, não passam de planos. Daí eu fiquei doente. Muitos meses. E o dinheiro que tínhamos amealhado para a viagem foi usado em médicos e medicamentos. E na entrada de um carro pois o nosso velhinho decidiu que este era o ano ideal para morrer. Ficámos zerados. Nós não somos materialistas e sabemos que o dinheiro vem e vai. E que se recupera, ao contrário do tempo e do amor que não se pode adiar. 

Então os nossos amigos esmagaram-nos de generosidade em forma de férias: a Sofia ofereceu-nos dias na casa de Vilamoura, a Margarida disponibilizou-nos a chave da da Ericeira e a Inês abriu-nos a porta da casa do Norte. Eram esses os planos saltimbancos: correr as casas de férias de quem nos quer bem, comer massa com atum e aproveitar o Verão em que perdemos quase todas as nossas economias mas eu recuperei a minha saúde e mobilidade e, por isso, eles me recuperaram a mim. 

Mas depois veio um projecto de formação comportamental e um budget disponível de que não estava a contar. E decidi em segredo que, desta vez, os planos voltariam aos eixos.  E no dia do aniversário da Ana, ao fim do dia, cansados e felizes, sozinhos em casa disse-lhe que iríamos voltar a sua casa. 

Ele sorriu e disse “a minha casa és tu”. E eu tive a certeza de que o dinheiro não vale nada.

Ele regressou à terra e há muito tempo que não o via tão feliz. E nós felizes por ele. Felizes com ele. 

Felizes porque todo o ano, para lá das férias, a nossa casa também é ele. 

Ele veio ajustar os seus pilares a esta ilha à prova de sismos. 

E a vida é uma metáfora do caraças!

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Ainda da fajã das almas



Na nossa fajã preferida a prima leva-a ao colo em direccão ao mar. 

Eu seguia-as a fotografar a beleza irrepetível desta fajã e atrás de mim ele apoiava a sua própria mãe na descida, de braço dado. Mais tarde o avô havia de interromper o trabalho para se juntar a nós. 

Mergulhámos muito todos. O mar enrolou-nos e brincámos às amonas. O pai e o avô subiram para uma cerveja partilhada e nós ficamos no calhau a partilhar línguas de gato e batatas fritas de pacote. 

A Ana fez uma amiga e ambas apanham pequeninos búzios das rochas. Oferece-lhe um pacote de sumo e improvisam um Pic-nic em cima do meu vestido húmido.

 A Ana contempla o horizonte e fita a montanha: “isto é que é um verdadeiro pico-nic, mamã!”

Rimos da piada. E levamos desta tarde o nome da fajã muito a peito.

Almas cheias

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

A tia Conceição



O meu sogro tinha-nos dado as coordenadas por alto. A casa da tia Conceição, única tia bisavó da Ana do lado do avô paterno, fica numa parte longínqua e alta da ilha, mergulhada em nevoeiro. 

Não avisámos que íamos (eu contrariada que não me parece bem aparecer em casa alheia sem me fazer anunciar) mas a tia Conceição, mais deoito décadas sobre os ossos rijos, recebeu-nos como se nos esperasse há uma vida. Tirou uma cerveja do frigorífico e começou a desfilar histórias de netos, sobrinhos-netos, novas gerações frescas que prometem a continuidade desta linhagem de mulheres de olhos cor de mar. 

Fitou a Ana, trisneta da sua mãe, e marejaram-se os olhos de lágrimas: “são iguaizinhas: os cabelos loirinhos e os olhos. Ah , os olhos! Azuis enormes. Faz impressão, são iguaizinhas!” Limpou as lágrimas com o antebraço e nós estremecemos e sorrimos, comovidos com as memórias a brotarem como as hortenses férteis ali ao lado no quintal. 

Quis-nos mostrar a casa, rebocada rusticamente, pouca mobília, tudo arrumado magistralmente, fotografias de toda a gente nos poucos móveis e nas paredes despidas de acessórios. Casamentos, baptizados, coroações, primeiras comunhões e queimas das fitas da última geração: histórias de sangue numa exposição única que é também a história da minha filha. Um museu de memórias. 

Fitei o quadro com os olhos, sem os conseguir desviar. 

A coroa do Espírito Santo presente em todas as casas açorianas, símbolo de uma fé partilhada e coletiva. Sorri e pensei que um dia teria que levar uma coroa para nossa casa e voltei, atenta, à conversa que se desenrolava, vagarosa e cheia de afectos, na sala de estar com chão de linóleo. 

À saída a tia diz que não tem nenhuma notinha para dar à Ana [ó tia, por amor de Deus, não queremos dinheiro! Só a vimos abraçar!] e vêm-lhe as lágrimas aos olhos enquanto diz que provavelmente já não nos volta a ver. 

Soa a despedida e ele mascara a conversa com um abraço demorado. Vai buscar uma aguardente caseira que oferece ao sobrinho neto. 

Olha para a moldura da coroa e diz-me:”Gostas, não gostas?!” 

Sorrio e aceno, sem nenhuma intenção senão a gentileza do elogio. Tira-a da parede e dá-ma, sem me deixar reclamar: “lembrem-se de mim”. 

Lembraremos, tia!

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A herança de uma infância nas ilhas



Às vezes fico quieta a contemplar o momento. 

Fecho os olhos e vejo mais além, a memória macro e que perdurará para além do segundo em que cliquei para tirar este retrato. 

A Ana foi feliz no Pico: andou de barco, viu golfinhos a nadar no oceano, fez uma nova tia (um xi querida Laura), amigas (beijinhos Dafne!) e primas em barda (memórias das gargalhadas com a Vera, Sabrina, irmã da Sabrina, Fernando José, Ana e quem mais viesse por bem!), estendeu-se no calhau da Maré, provou comida típica e bebeu kima de maracujá ao pequeno almoço, assistiu ao concerto do Richie Campbell, comeu algodão doce, andou de baloiço, correu à solta, cansou-se nos Insuflaveis que aprendeu a chamar de pula-pula, visitou o museu baleeiro, tirou fotografias, fez sestas no carro, aprendeu tudo sobre baleias, comeu gelados, acordou com vista para o Pico do Pico, viu vacas de todas as cores e feitios e deslumbrou-se com a beleza das lagoas, provou pão de véspera, deleitou-se a ver danças folclóricas e em especial a Chama-Rita, azucrinou a paciência à prima, distribuiu abraços a quem quis distribuir, recebeu uma T-shirt de açoriana honorária, portou-se mal às vezes não por má educação mas por reguilice, cantou, dançou, reiterou mil vezes que o Pico é a sua ilha preferida e foi incrivelmente feliz.


Às vezes fico quieta a contemplar o momento e o momento passa a ser a minha contemplação e o espanto de conseguir criar memórias felizes na infância da minha filha.


 Afectos: a minha herança um dia será esta. A memória de uma infância a abarrotar de afectos.

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Acto de rendição



Passaram vinte anos desde que visitei os Açores pela primeira vez. 

Foi amor à primeira vista mas foi uma paixão controlada, cheia de resistências e não assumida durante mais de dois terços deste tempo. Os Açores são a casa dele, terra-mãe e mar-pai e eu sentia-me numa luta desigual, com poucos trunfos para derrotar esta beleza, este paraíso. 

E se ele quisesse voltar? E se eu tivesse que vir com ele? E se o nosso futuro passasse por aqui? 

Eu tinha medo de perder o meu amor para esta terra e passei toda a vida a lutar contra ela, numa luta inventada por mim, um medo estúpido e infundado do meu inconsciente. 

Passava a vida a comparar o que via: este arco é igual à boca do inferno em Cascais, esta estrada igual a uma em Sintra, Cascais tem uma baía mais bonita que esta, lá há mais vida nocturna, as pastelarias da minha terra é que são, mas aqui não há semáforos?!... 

Sempre à procura de semelhanças, de coisas em comum ou coisas menos evoluídas, numa competição idiota como se evolução fosse a urbe, o cosmopolita. 

Silly me. 

Há poucos anos pela primeira vez comecei a procurar as diferenças, a unicidade e o espanto surgiu, sem resistências, entreguei o corpo às balas das ilhas. 

Os Açores não entram em competição com nada. Não precisam. Valem por si só, pelas suas paisagens, cultura, pessoas. 

Os Açores são os Açores e isso, parecendo pouco, é tudo. 

Eu tinha medo de perder o meu amor para esta terra mas foi o meu amor que me ganhou para esta terra. 

Os Açores são ele e a Ana. 

Os Açores também sou eu.

Rendo-me, enfim.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Aos 9 de Agosto de 2018, à Ana por ocasião do seu 6º aniversário

Seis anos. Fecha-se um ciclo e eu sinto-me expectante pelo que aí vem sem deixar de sentir uma ponta de nostalgia pelo que passou. 

Em ti, Ana, já não há quaisquer resquícios do bebê que foste: não há chuchas, dormes sozinha, não há elementos de transição nem tiques de primeira infância, comse sozinha, a voz já não é de bebé nem no tom nem na articulação de palavras, estás com um timbre natural deliciosamente rouco e já lês tudo. Continuas a procurar o meu colo e a pedir-me beijinhos nas feridas até que a parva da pré-adolescência te traga a mania que és auto-suficiente e crescida demais para o afecto. 

Antes de dormir disse-te: “Estás a crescer tão depressa, Ana! Já sabes tantas coisas do Mundo” e tu abraçaste-me e suspiraste, num tom de fado que só usas comigo, “eu não sei nada, mamã!” Respondi que sabias sim e que cada vez menos precisavas de mim para os rituais do dia-dia. “Já comes sozinha sem ajuda há que séculos” “Mas preciso que tu me cozinhes e sopres a comida antes de vir para a mesa para eu não me queimar” “Também já fazes a cama sozinha!” “Mas preciso que no fim tu dês sempre um jeitinho” “Já lês letras e frases” “Mas preciso que tu leias os livros inteiros porque são muitas frases e me canso” “Já tomas banho sozinha!” “Mas preciso de ti para me tirares espuma do cabelo” Sorrio.

 Tu sorris-me de volta e metes-me a mão no pescoço, abraçando-me. 

Repito baixinho para me convencer “eu serei sempre a mãe que sopra a comida, que lê as histórias grandes quando o sono não permite, que dá o jeitinho na cama, que tira a espuma no fim do banho, a mãe que compõe”. Não te quero fazer sentir este peso. “Mas sabes, Ana, não tem mal nenhum não precisares da mãe! Quando crescemos é normal!” “Sei, mãe. Mas também não tem mal nenhum continuar a precisar para sempre...” 

Estás a crescer, Ana, depressa e ainda bem porque és tu quem me ensina, agora, tantas coisas do Mundo, enfim.

terça-feira, 3 de julho de 2018

E agora vamos lá falar de coisas sérias. Muito sérias.



"KAFKA NA FRONTEIRA EUA-MÉXICO

Passei a tarde a informar-me sobre o que juridicamente está em causa na situação das crianças separadas dos pais nos EUA. Este é o meu principal mecanismo de preservação: informar-me para procurar manter a sanidade mental e a sensação possível de controlo do que se passa à minha volta. O que concluí é absolutamente kafkiano.
Ora atentem:

- Como o que está em causa é uma prática administrativa (policy) e não uma norma geral e abstrata, não é possível litigar contra isto de uma só vez ou instaurar uma providência cautelar única para parar este horror. É preciso litigar caso a caso.


- Como não estão em causa cidadãos americanos, o Estado americano não é obrigado a pagar um advogado a estes desgraçados. Portanto, se não houver uma ONG que lhes deite a mão, ficam sem aconselhamento jurídico naquele que é seguramente o pior momento das suas vidas. No limite, podemos ter crianças de colo a representarem-se a si próprias em tribunal.

- Os funcionários do Border Patrol estão a explorar a situação de vulnerabilidade destes pais e destas mães para os pressionarem a assinar a papelada para a deportação voluntária, dizendo-lhes que assim reencontram os filhos mais rapidamente. São depois imediatamente postos em aviões de regresso ao país de origem, sem terem sido ouvidos por um juiz que aprecie se há perigo de vida no país de origem caso sejam deportados (non-refoulement), e sem os filhos (já aconteceu; link para artigo do New York Times nos comentários). É que um menor nunca pode consentir numa deportação voluntária, tem sempre de ser ouvido por um juiz. Portanto, temos os pais de volta ao país de origem e os filhos nos EUA, sem que os pais tenham qualquer ideia de como reavê-los. Com a agravante de que, uma vez deportados, nunca mais serão elegíveis para o estatuto de refugiado porque reconheceram que entraram ilegalmente no país, cometeram um crime. No máximo, podem vir a obter um providência cautelar contra a deportação, mas estão sempre numa posição jurídica muito frágil, podendo ser deportados por funcionários do Border Patrol menos escrupulosos ou que não estejam para se maçar a ver a papelada (já aconteceu; link para artigo do New Yorker nos comentários).

- Na “melhor das hipóteses”, os pais não assinam o tal papel da deportação voluntária. São então criminalmente perseguidos por terem entrado ilegalmente no país, podendo eventualmente pedir o estatuto de refugiados nesse âmbito. Mas o seu processo corre sempre separadamente do dos filhos, ou seja, não há nenhuma garantia de que ambos fiquem ou ambos sejam deportados. Se estão tão horrorizados como eu e querem dar meios a quem pode lutar contra isto, este link permite repartir equitativamente uma doação por várias ONG que estão no terreno a lutar contra esta crueldade inominável.

- No seu estilo tão típico, o Trump assinou uma executive order para pôr fim à separação de famílias. Ou seja, é um herói porque vem resolver o problema que ele mesmo criou. O mais provável, segundo as ONG no terreno, é que essa executive order permita a detenção conjunta de pais e filhos enquanto os pais aguardam julgamento. O que é bom porque, uma vez que essa prática é ilegal, isso dá a quem está no terreno um ato jurídico concreto para atacar. E continua a colocar-se o problema da reunião familiar: não há nenhum sistema no terreno para o fazer. É inacreditável mas é mesmo verdade: os EUA separaram estas famílias sem terem um plano sobre como as reunir novamente. As ONG no terreno relatam que às vezes conseguem localizar as crianças porque os processos de entrada no país têm números sequenciais aos dos pais. Mas nem sempre. As crianças estão já espalhadas pelos EUA e ninguém sabe muito bem onde. Ou seja, isto está longe de estar resolvido e a batalha jurídica destas famílias está longe de ter acabado! Além de tudo isto, têm ainda pela frente a batalha pelo estatuto de refugiados.


- Não, o decreto executivo do Trump não resolve absolutamente nada. Significa, "na melhor das hipóteses", que as famílias passam a poder ficar detidas em conjunto indefinidamente, enquanto os pais aguardam julgamento penal e enquanto não são ouvidos por um juiz de imigração sobre o seu pedido de asilo. Não sei bem em que mundo paralelo isto pode ser uma boa notícia...

- O motivo pelo qual as famílias estavam a ser separadas na fronteira é o chamado Flores Settlement, que determina que um menor não pode ser detido em instalações destinadas à detenção de adultos por mais de 20 dias. Este acordo contém toda uma série de proteções para os menores detidos pelas autoridades de imigração que a administração Trump quer assim fazer cair. Estamos a falar da proibição de estes partilharem quarto e casa de banho com adultos que não conhecem, da obrigação de terem acesso a cuidados médicos dignos, entre muitas outras normas de proteção. Revogar isto não é solução para nada! Não se deixem iludir pela propaganda do Trump! As ONG no terreno vão certamente litigar contra isto.

- Acresce que este decreto executivo só vale para o futuro, ou seja, impede novas separações familiares. Quanto àquelas que já aconteceram, nada se prevê quanto à reunião familiar. Aliás, nem se sabe bem como fazê-lo em termos práticos porque, muito simplesmente, está o caos instalado e ninguém sabe bem onde estão as crianças. A maior parte dos pais e das mães desconhece o seu paradeiro. Para aqueles que se apresentaram num posto fronteiriço e pediram asilo, sendo depois detidos por entrarem ilegalmente no território (sim, isso mesmo que leram!), geralmente os processos de asilo dos pais e dos filhos têm números sequenciais e por isso as ONGs no terreno conseguem localizar as crianças de forma mais ou menos simples. Para aqueles que foram detidos já em território americano e só depois separados, sabe Deus!

- Tudo isto para dizer que nada está resolvido, que a batalha jurídica destas famílias e das demais que venham a ser detidas em conjunto vai durar meses ou anos e que não podemos desmobilizar. Estar atento, estar informado, contribuir na medida das nossas possibilidades para ajudar quem está no terreno a lutar contra a barbárie -- é esta a nossa "to do list"!

- O nosso interesse e contributo continuam a fazer todo o sentido! Não desmobilizar até que TODAS as crianças estejam de volta aos braços dos pais!

Aqui fica o link para ajudarmos estas famílias: 

Da minha amiga Inês Melo Sampaio Antunes que trabalha no Tribunal de Justiça Europeu 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A importância de me chamar Liliana



A mudança sentia-a cá dentro,a  instalar-se devagarinho e silenciosa como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos.  Sempre fui crítica, sarcástica (no sentido verdadeiro da coisa e não no eufemismo hipócrita de quem é verdadeiramente mau e maldoso de génese e se quer esconder sob o manto do sarcasmo [mygas, isso não pega, nem que vocês fossem o Harry Potter sob o manto da Invisibilidade, tá?) ]) e irónica, sem medo de dizer o que sinto mesmo que o que sentisse pudesse ferir susceptibilidades, abrir feridas, magoar. A verdade: a minha fidelidade, lealdade e obediência cega à verdade acima de tudo. Tão mas tão errada que estava. 

O momento de clivagem foi a  minha  maternidade. é um cliché- aguentem, também tenho a minha quota para gastar e vou usá-la até ao fim!- e perceber, há quase seis anos a que agora não era apenas eu: era a Ana, eu na Ana, o meu exemplo para a Ana, o reflexo de mim na Ana. Não mudei logo, tipo sacaram-me a miúda do bucho, coseram-me aqui a barriga com o mesmo jeito com que coso os botões da bata da escola dela, e desceu em mim a nossa senhora da sabedoria maternal, da sensibilidade absoluta e da consciência universal. Não, já disse. Veio devagarinho como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos e foi a Ana que me ensinou. 

Não tenho a certeza se nasci para ser mãe nem se tenho um jeito espectacular para isto mas de uma coisa tenho absoluta certeza: a Ana nasceu para ser filha- a minha filha- e tem um talento único e genial para isto. Agradeço-lhe todos os dias o que muda, devagarinho, em mim.

Eu tinha tudo para ser uma pessoa insegura. Tudo. Nasci com uma deficiência, passei anos da minha infância internada, usei botas ortopédicas até à adolescência, talas para dormir até ser adulta e já namorar, o meu pai é o maior flop da história dos pais e deu à sola quando eu tinha oito anos e deixou-me a mim e à minha mãe em muito maus lençóis, na puberdade fui vítima de bullying por ter uma deficiência e ainda tinha o desplante de sempre ser boa aluna e até marrona do género que vai à escola para estudar e não para ser da malta (nunca tive necessidade de ser da malta nem gosto de papar grupos)- até um bocadinho "croma" do género que fica de rastos quando trazia um 98% num teste para casa e nunca fui para a rua nem tive uma falta disciplinar- à conta do divórcio dos meus pais tivemos que ir viver com os meus avós maternos que não tinham grandes posses económicas e nada- absolutamente nada na minha vida- foi fácil de conquistar. Foi tudo suado até à última gota, custoso e tirado a ferros. 

Acontece esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor: a minha mãe e a minha família nuclear (avós, tios e prima) sempre me souberam amar e fazer sentir amada, protegida e cuidada da melhor forma imaginável e isso fez de mim, provavelmente, a pessoa mais auto-consciente, resiliente e segura que possam imaginar.

"Ah se és tão segura porque tens essa necessidade de o apregoar?" Não tenho. Mas também não tenho que o esconder sob o manto da falsa modéstia que nunca terei. Sei exactamente quem sou, o caminho que já percorri e as merdas que já fiz (oh, e se já fiz muitas, tantas, imensas!) e as probabilidades infinitas de voltar a cometer argoladas na minha vida. Mas também sei todas as conquistas que consegui, todas as improbabilidades e impossibilidades que contornei e alcancei e quais os meus pontos fortes. Sei, exactamente, quem sou e sinto-me amada. É apenas essa a chave para se ser segura: sentir-se bem amada como me sinto. Como sempre me senti. Pelas pessoas certas, pelas pessoas que me importam e as que me fazem falta e a diferença na vida, da forma de amor que reconheço como o que me faz falta e o que chega para me fazer uma pessoa feliz. 

Por não ser consensual e politicamente correcta (o que é isso de se ser politicamente correcta? É ser-se sensato e pensar no que se diz e escreve antes de vomitar palavras pela boca e pelos teclados sem medir o efeito que isso pode causar nos outros? É reler o que se escreve e reflectir se estamos a criticar ações e atitudes ou direccionadamente pessoas específicas, no matter what, só por serem elas? Se sim, pronto, anseio ser essa pessoa sensata e sensível ao efeito que causo nos outros, quero ser uma pessoa politicamente correcta, então!) sempre suscitei reacções nas pessoas: ou adoravam-me ou odiavam-me, sendo que as que me odiavam era mesmo a sério, nunca me esquecendo da hater de estimação que era stalker, enviava emails para a minha família, colocava as minhas fotografias na net numa altura em que eu escolhi ser anónima na blogosfera, criava blogs "sarcásticos" para os quais convidada amigas minhas pessoais para colaborar porque lá está, era sarcasmo, e não podiam haver "vacas sagradas", criou o maior sururu dentro do bicho que ela própria criara e acabou terrivelmente sozinha e triste no twitter, até que mudou de estratégia e espero eu que tenha sido feliz para sempre (gente feliz, não chateia!).

Havia (há) um padrão nas haters deste blog (ou "nas minhas haters", como queiram, não me dou essa importância): pessoas que se tentaram aproximar de mim, criar relação comigo, ser próximas à força, quererem privar, entrar na minha rotina, partilhar momentos de intimidade, implorarem que lhes aprovasse comentários de escárrnio com o pretexto de que partilhávamos do mesmo estilo "sarcástico", frequentarem (algumas até de forma muito activa) eventos blogosféricos dinamizados por mim, estarem lá, quererem ver de perto, perguntarem se podiam pegar na minha filha ao colo, comprarem produtos de uma loja online que cheguei a criar, combinarem sítios públicos para os apanhar em mãos mas, perante o meu recuo de não querer dar logo a confiança desejada, partilhar a cumplicidade unidireccional sentida, alinhar em merdas que não lembram ao menino Jesus, desiludi-las por não corresponder às expectativas que tinham criado acerca de mim (que vem a ser uma coisa diferente do que eu sou e difere de pessoa para pessoa) ou, simplesmente, não aprovar comentários de novos blogs com nick names a colarem-se aos das bloggers famosas e não permitir que através da minha plataforma servissem de isco para as pequeninas piranhas que por aí gravitam na blogosfera, pequeninas para serem tubarões e comer mas suficientemente rápidas, ágeis e com tempo para farejar sangue e rabearem nas caixas de comentários Esse é o perfil das pessoas a quem eu irrito na blogosfera e estes são 99% dos motivos que servem de motor para me passaram a dedicar um tempo de  desamor extraordinário. Sempre o mesmo perfil: o perfil de quem se sente rejeitada, não importada, ignorada ou simplesmente não notada, como se ser notado por uma pessoa que escreve um blog fosse um caso de vida ou morte, um boost na auto-estima, um propósito de vida. Ou talvez apenas a única forma viável para estas pessoas se fazerem também notar, parasitas ou alpinistas de um montanha tão insiginificante e efémera. Talvez um dia perceberão. 

A história das haters lembra-me sempre a da terceira fada da Bela Adormecida que, percebendo que era a única não convidada para a festa (por esquecimento, lembram-se?) terá pensado: "Se não me querem, também não vos vou deixarem esquecer-me..." e vai de largar a porra do feitiço-karma na vida da pobre da Bela Adormecida. Como se quisessem afirmar: "Pela confusão que crio, pelo diz que disse que semeio, pelas meias palavras e metáforas direccionadas e farpas que espeto, pela porcaria que sou e que faço é que eu existo e é esta a única forma que conheço para repararem em mim e não ser esquecida!"

Claro que na atitude dos outros acabamos por rever as nossas e quantas vezes, no passado, poderemos ter caído nessa mesma tentação de criticar só por criticar, atingir as pessoas só por serem as pessoas e não aquelas ações específicas? Faz-se rewind na cabeça e vem-nos à memória aquele post em que se criticou o workshop tolo criado por um blogger, se reagiu de cabeça quente à hater que nos pespegou as fotografias nossas e da nossa família inteira na net  ou que nos difamava diariamente, com a sonsice que conseguiu enganar amigos pessoais pelo caminho, num blog "satírico" que visava ser uma "passadeira vermelha" da blogosfera mas que eia apenas um monólogo da Cláudia Ramos da blogosfera direccionado a mim e do post inflamado com que a desmascarei e gerou uma onda de solidariedade única ou daquela vez em que achámos que, enough era enough, e tínhamos que dizer publicamente que a Presidente do nosso clube de anti-fãs era uma pessoa sem quaisquer escrúpulos, que nos comentários públicos do nosso blog oferecia-se para emprestar uma máquina de aerossóis à nossa filha aflita com uma infecção respiratória, cheia de boa fé e sentimentos de solidariedade, a quem tínhamos permitido constar nos nossos contactos de facebook privado porque nos parecia essa pessoa cheia de boas intenções e que, em paralelo, alimentava um hate-blog em que a special guest era eu.  

Não sou uma santa, não pensem. Mas nunca prejudiquei a vida pessoal de ninguém. Nuca meti famílias ou trabalhos ao barulho nas tricas da blogosfera e sempre agi reactivamente e em defesa. Claro que ao longo destes anos, fiz muita porcaria e  escrevi, no passado, muitas coisas de que me arrependo neste blog. O manto do anonimato, tal como o mando de invisibilidade do Harry Potter, é confortável e dá muito jeito, isenta-nos de uma certa responsabilidade e de uma necessidade de se pensar duas vezes antes de se carregar no botão "publicar".  É confortável porque podemos falar das nossa batalhas com a nossa sogra porque a nossa sogra é uma personagem abstracta e ninguém sabe que é a Dona X. ou podemos contar destrambelhices da nossa mãe sem que ninguém saiba que é a pessoa Y. mas pensando apenas que é a mãe abstracta de uma personagem blogosférica abstracta. 

Nunca gastei energias a ser gratuitamente má para ninguém e sempre que me prejudicaram não me deixei toldar pela raiva. Escolho bem as minhas batalhas e só dedico energia nas que valem realmente a pena. E depois da Ana nascer- lá está- decidi que só gasto energia em batalhas positivas, em situações de justiça ou a melhorar a vida de alguém. Não roubo tempo de qualidade que posso dedicar à minha filha em cusquices ou tricas que não têm qualquer interesse. Uso o meu tempo e a minha energia onde sinto que a minha voz faça uma diferença para o bem. Tudo o resto não me interessa. Não me importa, verdadeiramente.  

Fui eu que decidi, racionalmente, prescindir do anonimato deste blog, mesmo que por causa disso tenha sido prejudicada em várias áreas, inclusive, na profissional, com os nomes das empresas onde trabalhei a serem expostas maldosamente em caixas de comentarios, com posts meus enviados para CEOs, posts sobre a minha sogra enviados para as caixas de mensagens do facebook da senhora e coisas que não lembram ao menino Jesus e olhem que eu sou muito criativa.

Prescindi do anonimato no dia em que percebi que esse acto poderia salvar a vida de uma criança e fá-lo-ia novamente de olhos fechados mil e uma vezes again  (mesmo que não tenha sido atingido o propósito e o Rodrigo tenha morrido primeiro, e depois a Bia ). Ter-me-ia sido, especialmente naquela fase, muito mais confortável ter assobiado para o lado e mantido o anonimato, continuar a escrever chalaças da minha vida pessoal e profissional, não ter que colocar filtro no conteúdo dos posts e este blog continuar o  propósito que me fez criá-lo: ser uma catarse divertida da vida de uma miúda que gosta de escrever, altamente crítica e com um humor auto-depreciativo, observadora e mordaz, impulsiva e que escreve o que pensa sem meias medidas e que "what you see is what you get!".

Nunca balizei ou condicionei o que eu escrevo neste blog por causa das pessoas que não gostam de mim, do que escrevo ou de ambas as coisas. É real. Não tenho a mínima curiosidade em visitar blogs (não visito mesmo, até por uma questão de amor-próprio: não dou visualizações a gente idiota!) que se dedicam à dissertação sobre os blogs alheios (também não vejo esse tipo de programas na televisão para não lhes dar audiência nem compro revistas de fofocas para não contribuir para a tiragem ou clico em links de revistas inúteis digitais para aumentar o número de visualizações), não tenho a mínima curiosidade em saber o que pensam de mim as haters deste estaminé, nunca fui consensual nem tive intenções de o ser, vivo bem com o facto de haver quem não goste de mim ou do que escrevo (às vezes também não gosto do que já escrevi, é assim a vida, crescer em treze anos de blog implica mudar muito e nem sou daquelas que diz que não se arrepende de nada do que fez e que antes fazer e arrepender-se do que não ter feito e ficar a pensar "e se"...) e esta é a mais real das verdades, que pode ser confirmada pelas pessoas que me conhecem e que sabem da minha relação com isto dos blogs.

Mas a perda do anonimato trouxe uma responsabilidade para além da de eu assumir o que escrevo enquanto Liliana e já não enquanto Pólo Norte ou ursa. É que a Liliana é filha da Ana, nora da mãe do Rui, mulher do Rui, prima da Daniela, trabalhadora na ASBIHP e mãe da Ana. E aí tudo muda de figura. Eu não posso continuar a escrever trivialidades que para mim não têm importância quando corro o risco de com isso magoar a minha mãe, fragilizar a minha filha ou fazer com que as pessoas confundam o meu lado profissional (que não conhecem) e fazer juízos de valor sobre o meu trabalho quando isso pode ter repercussões na vida da associação. Não posso continuar a fazer chalaças sobre o guru da auto-ajuda quando descubro que ele é irmão do marido de uma colega que adoro e com isso posso magoá-los ou que posso mandar uma boca com farpa para a figura política que esteve mal numa declaração numa rede social quando é pai de uma pessoa de quem gosto e que é inexcedível na ajuda que me dá em todos os projectos sociais onde me meto, portanto,que foi criada por esse mesmo pai com valores que não só admiro como confirmo de perto. Não posso partilhar desabafos humorísticos sobre reuniões de pais quando os pais dos colegas da Ana sabem que a Ana é a colega dos filhos deles nem colocar conteúdos e matérias hilariantes do meu dia-a-dia que envolvem outras pessoas e que, sem qualquer hesitação, colocaria no passado quando até a senhora do café e a minha gestora de conta do banco sabem ambas que eu sou a autora deste blog. 

Portanto, ao longo dos últimos tempos este blog passou por essa crise de identidade: de eu gostar dele como ele sempre foi, de ter um efeito catártico que me faz tanta falta mas de haver uma necessidade imperativa de mudar, não por via das críticas de quem não gosta dele ou de mim mas para poder preservar e não magoar as pessoas da minha vida real de quem gosto e que gostam de mim.
E porque eu cresci, o blog cresceu, o advento das redes sociais deu-lhe uma visibilidade que ainda continuo a ter dificuldade em imaginar e porque este blog já não é o da ursa, o da Pólo Norte: é o da Liliana.

Acredito que tenha perdido muita da sua espontaneidade e, com ela, muita da sua graça natural, destrambelhice e falta de filtro. É um preço que não me importo de pagar se isso não magoar ou melindrar as pessoas de quem gosto. As melhores histórias (ou as mais hilariantes) são, agora, contadas em privado, em jantares com amigos (muitos que foram trazidos por este blog) à volta da mesa, com gargalhadas reais em vez de lols. 

O blog, necessariamente, mudou.

Durante anos escrevi religiosamente todos os dias sem excepção até a uma altura em que mudei de trabalho (que distava a 170 km) de minha casa e fiquei sem tempo nem energia. Quando alguns meses depois constatei a minha incapacidade de fazer 340 km por dia e estar menos de uma hora por dia com a minha filha e aceitei um projeto em Lisboa estava sem ritmo de escrita e com tanta coisa para recuperar e viver que ficar sentada em frente a um pc me parecia um desperdício de tempo. Desde então- porque vivo muito mais no tempo que não uso para me sentar a escrever- tenho tido mil assuntos dignos de serem escritos e tenho tido saudades de me sentar e escrever como forma de arrumar muitas das ideias que nunca deixaram de me fervilhar e de partilhar tantas coisas giras que tenho descoberto. Mas, por outro lado, não me revejo no novo paradigma da blogosfera dos famosos que decidiram todos querer ser bloggers com equipas de ghost writters a escrever por eles e eles apenas a darem os nomes às plataformas. Também não me revejo no novo paradigma da blogosfera de escrutínio da vida de quem escreve ao invés do que é, efectivamente, escrito e que deveria ser o tema das salutares discussões de ideias. Também já é sobejamente conhecido que não me revejo no poder que publicidade ganhou na blogosfera e não me apetece ser carne para canhão de departamentos de marketing a troco de feijões .

No entanto, continuo a gostar muito de escrever, de conhecer gente fixe por causa do blog (e que dificilmente conheceria doutra forma) e de usar a minha escrita para fazer coisas fixes e ter um alcance que de outra forma nunca poderia almejar. Feito o balanço este blog já virou mundos e fundos, já mudou para melhor a vida de muitas pessoas, tem uma voz de grande alcance e sendo um misto entre destrambelhice e coisas sérias, fait divers e indignações, divagações trágico-cómicas, partilha de momentos kafkianos que não lembram ao Bruno de Carvalho e capacidade de mobilização de massas em torno de causas sociais que, sem o mínimo de modéstia, não reconheço em nenhum outro blog; feito o balanço este blog tem trazido mais ganhos que perdas.

Orgulho-me dele e do que com ele já foi possível alcançar. Dos feitos que ele proporcionou. Das pessoas a quem ele mudou perspectivas de vida, obrigou a pensar diferente, mudou a vida. E do efeito que teve em mim, mais do que em todos os outros, tornando-me numa pessoa melhor. 

Durante muitos meses, nesta indefinição, tive saudades do meu blog e não me coibi de o dizer em voz alta que e que ele era único e não há outro igual. Prometi a mim mesma que em Setembro do ano passado voltaria a pegar nisto a sério, até porque Setembro é forte em new seasons e até começava também o This is us e o GOT,a miúda retomaria a escola após as férias grandes e o trabalho acalma sempre depois dos campos de treino no Verão. Era em Setembro.

Mas acontece que fiquei doente. Gravemente doente E as palavras secaram-me. Literalmente, Com dores de agonia não há paciência para sentar e escrever. Sentia-me muito mal e, em muitos momentos, com verdadeira auto-comiseração. Frágil,doente e vulnerável. E-vocês sabem- eu nem tenho medo de mostrar a minha fragilidade ou a minha vulnerabilidade. Mas para além de não ter força anímica achei que era a altura de me proteger e não me expor. Tinha que gerir as dores, a Ana a deprimir por me ver sempre a piorar e acamada, o meu marido a velar-me todas as noites sem dormir oito horas seguidas durante meses. A minha mãe desorientada. Não me queria expor e permitir que as filhas das putas das aves agoirentas que por aí andam, sem qualquer empatia ou sentido de oportunidade e humanidade, aproveitassem este momento para me atacarem. Não por mim, que já disse, não leio mesmo. Nem pelo Rui que quase nem o meu blog lê, quanto mais os de abutres. Mas pela minha mãe que, nas suas navegações pela internet, não merecia ver nesta altura específica comentários maldosos ou só "satíricos" sobre a filha para quem ela tinha lutado toda a vida para ter mobilidade ser falada nesses antros e em caixas de comentários numa altura em que a filha tinha deixado de andar. Nenhuma mãe merece ter que se cruzar com comentários maldosos e gratuitos sobre os seus filhos, especialmente numa altura em que os seus filhos não têm energia nem força anímica para as serenar e explicar que não importa, que não é para legitimar, que não é para dar credibilidade porque ambas sabemos que eu sou.


Mas depois escrevi o post.

E voltou a acontecer esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor e aparecem, em número avassalador, as "lovers" em antagonia às "haters".

A primeira- e a mais importante e decisiva em todo este processo- foi a Daniela. Leitora antiga do blog a quem eu nunca tinha posto os olhos em cima e... médica. Foi ela que se importou comigo. Que quis saber. Que me deu a medicação certa para serenar a agonia (já não eram dores, era agonia) e que me reencaminhou para a  equipa clínica certa, a que não desiste de mim, a que me ajudou a estar hoje aqui a escrever, sem dores nem incómodo, como se um milagre tivesse acontecido. A Daniela, a quem devo a qualidade de vida que recuperei, a minha filha a voltar a ir feliz para a escola e a não continuar na escalada de uma depressão aos cinco anos por me ver sempre com dores, a chorar e acamada e o meu marido a conseguir descansar uma noite seguida sem me estar a velar. A Daniela a quem devo a recuperação da minha vida de volta. 

Depois a Patrícia, também ela blogger e médica, que soube falar com a pessoa certa para se tentar encontrar o diagnóstico certo. Que pediu favores em meu nome, que se incomodou, que quis sempre saber. E a Cláudia, leitora antiga, que coagiu o cunhado neurocirurgião a dar-me uma segunda opinião de borla. E a Sofia, enfermeira, que não conseguiu ficar indiferente à minha descrição da dor e marcou consulta em tempo record pedindo favor ao médico com quem trabalha, para eu poder ter um plano b.

A seguir vieram os pobres dos meus amigos, desesperados por eu já não atender telefonemas nem responder a mensagens a perceber pelo blog o estado da nação e a finalmente conseguirem agir à revelia da pior doente de sempre: a Xana a exigir que eu lhe passassse o meu NIB para me depositar o valor da ressonância magnética que o SNS só me garantia para finais de 2019, a Ana Margarida e o Paulo sempre presentes, a Rita a fazer grandes pesquisas e revisões de literatura, a sacar-me artigos e abstracts que nos pudessem apontar um diagnostico, a Ana Luisa a dizer sempre "presente", a contactar sempre com mámen, a reiterar sempre a presença e o apoio e a reencaminhar-me para a melhor osteopata cumulativamente fisioterapeuta do Mundo. E a Eileen que fez escala em Portugal numa viagem intercontinental só para sair do aeroporto a correr e me deixar um abraço e um beijo. 

E depois os amigos que apoiaram sempre e transversalmente:a Rosália e o Andrea a emprestarem-nos durante meses o carro depois do nosso ter avariado para sempre para garantir que a Ana era todos os dias levada confortavelmente à escola sem ter que andar a pé dois quilómetros com o pai a segurar-lhe no guarda-chuva e que eu pudesse comparecer a todas as consultas sem ter que ir de ambulância ou transportes públicos, a MEP a tratar-me de processos legais para os quais eu não tinha qualquer força anímica e que eram de extrema relevância e não podiam ser negligenciados, a Patrícia do BNP Paribas e o Miguel da Fujitsu a garantirem-me a continuidade de projectos de trabalho para o qual eu tinha lançado sementes mas que agora não tinha saúde para colher e acompanhar (e a com isso garantirem que as pessoas para quem trabalho não fossem prejudicadas pelas minha baixa médica); a trupe inteira que se juntou em Janeiro a fazer a minha vez a acarretar móveis e a mobilar um anexo de raiz para garantir que uma mãe e um bebé com Spina Bífida vindos dos PALOPs pudessem sair do abrigo temporário para o qual tinham prazo de saída e pudessem ter um tecto digno para dormir (nunca vos conseguirei agradecer, foi uma verdadeira linha de montagem quando eu já nem conseguia segurar num banco com as dores a serem disfarçadas, minha Paula, comadre Rosa, Leonor, Marta Guerra, Rosa Santos,  Susana e Andreia, e um beijo especial à minha tia Custódia!); a Andreia e a tia Maria Francisco a agilizarem-nos contactos privilegiados para a compra do novo carro em tempo record e a Marta a fazer magia junto do nosso banco para que nos aprovassem o crédito e nos libertassem o valor necessário em tempo record para o podermos adquirir.

Nunca me esquecerei de um momento particular em que estava a agoniar de dores em casa e apareceu-me aqui uma amiga de infância que está emigrada e me vinha pedir apoio porque era vítima de violência doméstica, ao mesmo tempo que uma mãe e um bebé com Spina Bífida me ligam do Hospital Dona Estefânia às onze da noite porque tiveram alta mas não tinham dinheiro para regressar a casa (e o  bebé não comia há horas porque a mãe só fala crioulo e não sabia pedir comida nem tinha dinheiro com ela para resgatar um pacote de bolachas da máquina de vending) e eu com a minha amiga a chorar no sofá, com dores de pura agonia a tentar disfarçar e, de repente, salva por um grupo de póletes que agarrou num carro velho que nem pode circular no Centro de Lisboa e foi resgatar mãe e bebé e os levou, em segurança a casa. A fazer a minha vez.

Tanta gente boa a segurar-me as pontas. A garantir que os meus projectos profissionais não caiam por eu estar de baixa, que o facto de estar acamada e incapacitada para pedir subsídios e apoios para sustentarem estes projectos não era impedimentos deles verem a luz do dia, gente que contribuiu monetariamente, com trabalho, com tempo,com energia. Tanta gente a fazer a minha vez quando eu não podia fazer a minha vez.  Tanta gente que esteve silenciosa durante anos de blog a sair da toca, a mandar mensagens de apoio, sugestões de médicos, partilha de casos, emails de força e energia positiva. Amor. Tanto mas tanto amor. 

Talvez este blog tivesse mesmo que mudar.



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