segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
O amor que fica
No outro dia, a propósito dos 20 anos de namoro com o Rui, perguntaram-me se eu acreditava em almas gêmeas.
Não acredito.
Amei 3 homens na vida: um demasiado platonicamente, um demasiado carnalmente e fiquei com o que amei na medida certa e no equilíbrio entre as duas margens.
Poderia ter tido uma relação duradoura e feliz com qualquer um dos outros 2 com quem não fiquei, tivessem as circunstâncias e os tempos sido diferentes, e eu ter sido diferente nesses tempos.
Não se esquecem os grandes amores: arrumam-se nas gavetas recônditas do coração, mete-se cheirinho de alfazema para prevenir maus cheiros e bolor, dobra-se bem dobrado e, em alguns casos, fez-se como com as toalhas de linho e embrulham-se em turcos antes de arrumar, para garantir que ficam acondicionados e preservados. Que não se estragam. Mesmo que saibamos que não os voltaremos a usar.
Antes achava que não: que os amores passados eram roupa usada, velha, descartável. Mas depois o tempo passou e eu passei pelo tempo e vislumbrei claramente quem eram os amores da minha vida e o quanto lhes quereria bem para sempre, mesmo que já não os tivesse a eles nem eles a mim.
O amor é uma sorte bestial para a qual não basta encontrar a pessoa certa: é preciso haver o timing das vidas, as circunstâncias do destino e a predisposição certa, porque o amor dá um trabalho danado! MEC escreveu “o amor é uma coisa, a vida é outra porque a vida dura a vida inteira, o amor não” e eu não acredito nisso nem nas almas gêmeas mas acredito que o amor pode durar uma vida inteira, mesmo que não resulte em relações ou em romance.
O respeito pela pessoa que se amou, o carinho e o bem querer mesmo à distância, os sorrisos que involuntariamente esboçamos quando nos vêm memórias à cabeça e o bem que nos fez aquele amor cá dentro, no motor do coração, são sinais inequívocos que o amor não se esgota quando encontramos o nosso final feliz.
Amei 3 homens na vida: um eu deixei, o outro deixou-me e fiquei com o terceiro. A vida corre: feliz. O amor a geminar não derruba o amor que já murchou e voltou à terra, fertilizando-a para alimentar melhor o amor que floresce.
Não há almas gêmeas.
Todo o amor fica mesmo que fiquemos num só amor.
domingo, 13 de janeiro de 2019
Porque hoje é dia 13...
Somos de datas simbólicas embora, na realidade, todos os meses, desde o primeiro, assinalamos o dia 13. Digo assinalamos porque nem sempre festejamos.
Houve dias 13 de festa, claro, a maior parte deles, mas também houve de cansaço extremo, de chegar ao fim do dia de trabalho e de sermos engolidos pela rotina e só desejarmos feliz mesário já deitados na cama, antes de dormir. Houve dias 13 miúdos, de estudo, vésperas de frequências, de férias escolares dele nos Açores e minhas em Monte Gordo, de jantares de refeições macrobióticas na cantina velha da cidade universitária. Houve dias 13 dele sair tarde do café Chocolat em Cascais ou da Zara onde teve que trabalhar depois das aulas para pagar as propinas e a sobrevivência durante os últimos anos da faculdade . Houve dias 13 de desemprego, de trabalhos duros, de salários em atraso e de flores roubadas em quintais de vizinhos, de não sabermos como ia ser a nossa vida no mês seguinte. Houve dias 13 na primeira casa alugada e na segunda e um dia 13 numa casa vazia com um bebé de um mês no colo, olhos marejados, depois de nos assaltarem a casa e nos levarem tudo. Houve dias 13 sem dinheiro para o fim do mês e dias 13 de aumentos salariais e jantares em sítios que sempre sonhámos ir como o 100 maneiras. Houve dias 13 a guardar o segredo excitante de que tínhamos um bebé na barriga e o dia 13 de Agosto de 2012 em que passámos finalmente a ser 3 numa bolha de amor, pais: nós. Houve dias 13 separados, zangados, desiludidos um com o outro, apartados e sem sermos marido e mulher e dias 13 de reencontro e reconciliação. Houve dias 13 de aliança de namoro no dedo e depois aliança de casados e até sem aliança antes de tudo voltar a ser como é agora. Houve dias 13 na primeira casa comprada e a partilharmos uma hipoteca, dias 13 de luto e de dor de pessoas que fomos perdendo e dias 13 banais, de esparguete com carne guisada sem glamour porque a vida não é sempre purpurinas. Houve dias 13 em NYC num rooftop no dia em que comemorámos 13 anos e casámos os anos de namoro.
E houve aquele dia 13 no terraço do bar do ISCTE em que ele me roubou um beijo e mudou os meus dias 13 para sempre. Venha o próximo.
São 20 anos de dias 13.
Labels:
Dia 13
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Ana, 2012
A minha avó tinha morrido na antevéspera do Natal anterior, Ana.
Nesse último Natal tínhamos ficado com um presente por abrir debaixo da árvore e (mais) um lugar vago na mesa. A minha mãe ficou órfã e num desgosto profundo que só o anúncio da tua vinda conseguiu atenuar. A tia Cinda também e os tios ficaram perdidos como só Freud conseguiria explicar.
Era o quinto Natal sem o meu avô e o primeiro sem ela, um Natal esvaziado daquela linha geracional. Eu e a Daniela só agora conseguimos falar deles com aquela saudade boa sem nós na garganta e com recordações divertidas para partilhar.
Mas aquele Natal de 2012 foi mágico porque tu tinhas chegado sem maneiras, sem bateres à porta dos nossos corações e sem limpares os pés às nossas resistências e medos, chegaste com o encanto de quem chegou para ser adorada, a nossa menina Jesus. E trouxeste o renascer do Natal contigo, as memórias por construir para além das memórias por recordar, uma infinitude de possibilidades e sonhos e vida por viver: a tua e a nossa contigo.
E enquanto te escrevo este #dezlembro para te lembrar de onde eu venho tu teces uma teia de afectos para cimentares histórias novas em que nós passamos a ser os protagonistas do passado e do presente para um dia te lembrares a ti e aos teus filhos de onde vens tu.
Vens de um sítio mágico onde o amor é comunitário e família é uma mistura de vidas que se interligam e cruzam e são tão dependentes e ainda assim livres e é tão bom. Vens de um sítio onde os Natais passaram a ter novos rituais: um presépio por cada Natal vivido contigo, agora já à laia de colecção, vidros de janelas pintados com canetas de giz e uma estrela com o nome de cada um de nós na árvore de Natal e o tio Hugo a fazer todos os anos de Pai Natal e o Kubrick a correr com a cauda a dar a dar, e espectáculos de Natal com cenografia da tua autoria e músicas de Natal na televisão e a minha mãe e tu a distribuírem presentes. E calor.
O passado tem que se preservar mas és tu a nossa estrela guia que nos garante a luz para o futuro, o caminho do amor que continuará. Que se perpetua.
Obrigada por nos devolveres o Natal, querida Ana. A estrela no topo e no firmamento serás sempre tu.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Necas, 1955
O primeiro Natal em que me lembro dele teria uns onze anos, Ana.
Tinha emigrado tinha eu cinco e a sua memória era distante, do tempo em que eu tinha uma prima da minha idade que brincava comigo no pátio da minha avó. Depois eles separaram-se e eu via a minha prima de vez em quando, nos anos e no Natal até que a vida nos separou de vez e ela não seja agora sequer uma estrela nesta árvore.
Até lá ele era o tio emigrado e que não voltara, o tio que visitava a Europa que nós nem sonhávamos que existia, que aprendia receitas e comidas estranhas, mandava postais de outras capitais, o tio que corria o Mundo.
Um dia ele voltou casado com a Maria, a minha nova tia polaca de 23 anos com quem aprendi que curva era um palavrão em polaco e que me fazia máscaras de pele com batata cozida para me acalmar o acne. E trouxe receitas de spaggetti carbonara, lasanha e sanduíches estranhas, o meu tio que dizia “saaandwwwwishhh” em vez de sandes e que as dispunha em travessas enfeitadas com flores feitas com casca de tomate.
O tio porreiro que foi a primeira pessoa da família a conhecer o teu pai, o tio porreiro que traz sempre aventuras para contar, que pintou as paredes de todas as casas em que vivi e que nunca me diz não a nada. O tio trapalhão e bonacheirão que deixou de beber e fumar depois de um ataque cardíaco e que traz agora uma enésima tia cabo-verdiana para a família, porque sempre foi ele, o tio Necas, que trouxe o Mundo e os ingredientes mais exóticos e divertidos para esta família.
domingo, 9 de dezembro de 2018
Nato, 1958
E veio um Natal e ele nunca mais chegou, Ana.
Bem sei que não é um começo de história bonito mas alguém tem que te explicar que aquilo do “e viveram felizes para sempre” pode não ser bem assim. O tio Nato viveu anestesiado, bem ao estilo Shakespeariano, trocando o desgosto amoroso pelo prazer do álcool. Primeiro o prazer, depois o vício, no fim a doença. Para nós sempre a inevitabilidade. Eu pedia sempre ao menino Jesus que ele chegasse sóbrio e bem disposto, talvez por isso sempre preferisse o pai Natal, esse ao menos nunca me defraudava.
O Natal só começava quando nos sentávamos todos na mesa e isso só acontecia quando ele chegava, mesmo que ele demorasse a chegar e nós não conseguíssemos prever se teríamos a bebida também sentada à nossa mesa ou se ele viria sóbrio. Ninguém se sentava enquanto não estivéssemos todos e ele era, inevitavelmente, o último a chegar. A minha avó atrasava a panela das batatas, lembrava-se que as couves afinal não chegavam e engonhava a ir pedir umas emprestadas à vizinha ou às vezes deixava-as cozer demais propositadamente, para ter que deitar as couves moles fora e meter uma segunda panela ao lume, só para ganhar tempo e permitir que ele chegasse.
Às vezes, nas noites em que tardava mais, ia despejar o balde do lixo lá fora ao contentor e ia uma segunda ou terceira vez, mesmo que o balde já estivesse vazio e não houvesse nada para despejar, na esperança de o avistar ao fundo da rua.
Às vezes ele não vinha sozinho e comia em silêncio e ia deitar a tristeza embrulhada em álcool ainda antes dos mexidos e da aletria pousarem na mesa. Outras vinha sóbrio e era o mais entusiasta a aplaudir os meus espetáculos e os da Daniela e no fim da noite era o único que tinha pachorra para jogar connosco monopólio ou batalha naval ou dominó com o meu avô Amândio.
Os nossos Natais não foram cem por cento felizes por causa dele mas era quando ele chegava e se sentava que começava o nosso Natal e foi com ele que aprendi que o amor de mãe manda no tempo e no acontecimento dos dias, sempre que a minha avó deixava queimar as couves só para lhe dar tempo para ele chegar.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
Daniela, 1990
Era meia noite e vinte e três, Ana.
A avó e o tio Chico ligaram a dizer que a minha prima Daniela tinha nascido. Tinha nove anos e foi a primeira vez que senti um misto de emoções entre euforia pela novidade da primeira bebé na família desde que eu me lembrava de ser gente e o medo de perder a atenção exclusiva de neta e sobrinha única.
As pessoas diziam-me “agora vais ter que dividir tudo!” e eu não sabia bem como iria ser. Sabia que queria uma menina, na verdade, quando a vi soube que a tinha esperado sempre e era ela que eu queria. E depois, aos dez anos, no primeiro Natal que passamos juntas (e nunca mais passámos nenhum separadas) foi tudo melhor: os mexidos partilhados, da avó partilhada, o colo partilhado, do avô partilhado, as gargalhadas partilhadas, os espetáculos de Natal inicialmente partilhados.
Depois a distância de uma década colocou-nos em diferentes degraus da vida e eu, já adolescente, tive segunda oportunidade de viver a vida através dela: vivi a magia do Harry Potter com ela, ouvi mil vezes a música do Coyote Bar com ela e depois um dia fiquei crescida e ela passou a fazer sozinha os espetáculos de Natal, mesmo antes de me deixar brincar . eu falsamente contrariada e armada em adulta, como se lhe estivesse a fazer um favor, com as recém desembrulhadas Polly Pockets.
Agora cada uma tem a sua casa e eu tenho mais saudades dela que nunca e não percebo porque não estamos mais tempo juntas, minha primeira, meu único amor em posição de par, minha primeira caçula, antes até de ti, Ana. E foi com ela, no dia 17 à meia noite e vinte e três, que aprendi que o amor não se divide nem multiplica: partilha-se.
Neste Natal estaremos ambas no mesmo lado da plateia a assistir ao teu espetáculo de Natal. Porque amar em coro é sempre melhor.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Cinda, 1962
Foi a primeira vez que vi umas escadas rolantes, Ana.
Foi no aeroporto e havia uma distância de um metro que me separava da barreira onde a minha tia ia entrar rumo a Londres, no tempo que a emigração era distante e cara, impossível de suavizar. Eu não me queria despedir. Não havia Ryanair nem Skype nem sequer telemóvel e a minha tia partia por tempo indeterminado e Londres era a Austrália para mim: o outro lado do Mundo. A minha tia fez-se de forte, “vá, dá beijinho à tia. Não chores! Não tarda muito a tia volta!”
Mas eu não parei de chorar, com um nó na garganta que nunca desatou como quando assistia ao “Anjo na Terra” na televisão. E chorei durante todo o caminho de regresso a casa, e chorei em cada chamada telefônica semanal, e chorei sempre que um avião qualquer rasgava as nuvens e me diziam “diz adeus à tia!”, nunca percebi porque me mandavam dizer adeus à minha tia, quando o que eu mais queria era dizer-lhe olá, aninhar-me no seu colo fresco e pedir-lhe que desenhasse bonecas de lábios carnudos e me ensinasse o truque de pintar sempre para o mesmo lado e dentro das linhas e costurasse saias da lambada só para mim.
Durante dois ou três anos os Natais foram incompletos, a minha avó chorava a sua ausência, o telefone tocava e mandávamos beijinhos e disfarçávamos com um tom despachado e alegre para não a entristecer, à minha tia Cinda, e depois ficava um silêncio antes da ceia, o meu avô limpava os olhos com as costas das mãos e eu ainda hoje não gosto de escadas rolantes porque me lembram partidas e natais vividos a aprender à força o que é sentir muito a falta de alguém
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
Amândio, 1930
Todos se calavam na sala, Ana.
O que era curioso porque éramos muitos e barulhentos naqueles Natais em que não havia saudades. Primeiro o meu pai ainda vivia conosco e depois veio o tempo em que ele, o meu avô, sem dar conta nem se impor, me ensinou a ser amada com uma filha por um pai.
Chegavam à vez: primeiro a tia Cinda e o tio Chico - e a tia e a minha mãe não entravam na cozinha, a minha avó Ana não deixava, mas traziam tabuleiros infinitos para a mesa: primeiro batatas, depois couves e nabos e no fim o bacalhau- entretanto, o tio Necas e por fim o tio Nato e nos sentávamos enfim, a comer o princípio da roupa velha do dia seguinte, naquele tempo em que eu era neta e sobrinha única e não havia ninguém para amar a seguir. A
mesa era grande para a sala pequena mas nunca nos sentíamos apertados e o meu avô sentava-se à cabeceira e contava sempre a história que o Sr. Gil Pancadas- seu melhor amigo- tinha ficado muito admirado quando o tinha conhecido recém chegado do Minho e percebera que ele nunca tinha comido Peru pelo Natal e prometeu-lhe dar um Peru todos os Natais até que o primeiro deles morresse e ria-se, invariavelmente, apontando para o Peru de cada ano a marinar no tabuleiro para assar no dia seguinte.
Mas depois dos doces e antes do meu pai se vestir de Pai Natal ele elevava a voz: “shiu! Pouco barulho que vamos dar início ao espectaculo. Senhoras e senhores os vossos aplausos para a Liana” e eu entrava e cantava, fazia mimica, dançava e declamava poesia e não se ouvia um “ai” na sala sob pena de se enraivecer o velho minhoto.
Eu era a Estrela daquela noite e ele ficava fascinado a assistir ao meu crescimento, à minha voz a cantar, às minhas pernas a dançar, à minha infância a permitir-me ser feliz sem filtros nem embaraço. E depois todos tinham que bater palmas e abríamos as prendas e se o sono nos permitisse ainda fazíamos uma partida de monopólio, que eu por causa dele, acabava sempre por ganhar. Às vezes deitava-me no meio deles e de manhã ouvíamos cassetes de anedotas e o pelos caminhos de Portugal.
E havia sempre peru até que o forno se apagou e nunca mais ele mandou calar ninguém na sala, só para me ouvirem cantar..
sábado, 1 de dezembro de 2018
Ana, 1929
Sabes, Ana, o Natal é a minha avó, matriarca desta família e sua memória mais ancestral. Raiz mais profunda da nossa história, tua também.
Nas vésperas começávamos a guardar o pão duro para os mexidos e a minha avó Ana ia à mercearia do João Aires, primo direito, e aviava as compras de frutos secos e pinhões, numa altura em que as pinhas do pinhal ao pé da igreja já não davam pinhões e, talvez por isso, reclamasse sempre do seu preço. Num alguidar punha a massa das filhós a repousar e cheirava sempre a canela na nossa casa e ao desejo gustativo dos doces minhotos que continuam a alegrar a nossa mesa, como um vira que vira e torna a virar ou canções de acordeão à desgarrada.
Na véspera da véspera de Natal o avô Amândio esfarelava o pão bem miudinho, que os mexidos só sabem bem com pão miudinho e a avó Ana metia-o na panela maior e mexia bem tudo lá dentro até sair um doce castanho-canela que distribuía em pratos e tigelas e taças, todas as que tínhamos em casa. Na manhã da véspera de Natal era a vez das filhós que tinham ficado a descansar e com uma mestria de samurai ou de mulher do Norte- é parecido- agarrava-as numa colher e fritava-as. Chamava-me sempre: “Liaaaana!”, no tempo em que eu era Liana para toda a gente lá em casa, e apontava-me filhós a filhós a ganhar forma na frigideira: “esta parece um dragão, esta uma árvore, esta um gato”.
Era assim a minha avó que em vez de descortinar imagens de sonho nas nuvens do céu, as fazia a olhar massa de filhós na frigideira da cozinha pequenina e apertada. Eu tinha sempre a tarefa mais importante: passar as filhós por açúcar e canela e fazer carreirinhos de canela em cima dos mexidos e da aletria.
No dia de Natal era a comida mais desejada: as filhós-nuvens e os mexidos com estradas de canela em cima, caminhos para o céu. Sabes, Ana, este ano quando comeres mexidos, aqueles que não ficarão iguais aos da minha avó Ana porque não foram esfarelados pelo avó Amândio, perceberás porque, tantos anos depois, o nosso Natal continuará a ser para sempre a minha avó Ana.
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
O Mundo divide-se (edição mete-nojo)
O mundo divide-se entre quem é mãe e continua a acordar às onze da manhã ao sábado e as outras.
domingo, 25 de novembro de 2018
Dez(l)embro
Este ano decidi comprar enfeites de árvore definitivos.
Parece-me que aos 38 anos, a pagar uma hipoteca, sedentária assumida, casada há doze anos (e juntos há vinte), no mesmo emprego há cinco anos seguidos, já estou numa altura em que posso pensar em criar tradições definitivas, objetos para permanecerem.
Este ano, na nossa árvore de Natal teremos uma estrela por cada membro da família (os meus avós e tio também lá estarão) a lembrar-nos, Natal após Natal, quem somos: passado, presente e futuro. Inteiros. Unos. Família.
E não é disto que se trata o Natal?!
[obrigada @zitamina pela concretização desta ideia tão de amor]
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Mãe nostálgica
[Estamos a conversar baixinho no sofá. A minha amiga e eu, com a Ana no colo, com uma birra de sono e eu a embalá-la para adormecer. "Eu vi a Amélia no arvoredo, tão pequenina cheia de medo". Ela, olha-me, e pergunta-me " Se tivesses que escolher apenas um adjectivo para te diferenciar como mãe, qual escolherias para definir o tipo de mãe que és? "Os olhos da Marianita são verdes como limão". Penso naquilo, aconchego a Ana mais para junto do calor do meu corpo, mais calma, a respiração a sintonizar com a minha, os olhos a semi-cerrarem-se. "Ó Rosinha, ó Rosinha do meio vem comigo malhar o centeio" Ela trauteia as músicas que mais nenhum miúdo dos que brinca com ela conhece, baixinho, está quase a cair no sono. De repente, a memória da minha avó, anos atrás, comigo ao colo, o calor do seu peito, o seu cheiro a Minho, a casa, a pronúncia nestas letras que lhe dedico, voz rouca. "Era meia noite cantava o cuquinho, era meia noite no seu buraquinho".
Uma« das meus maiores propósitos como mãe é não deixar morrer o passado e trazê-lo até à Ana, fazê-lo perpetuar no futuro a que ela vai dar corpo e forma. Não deixar morrer as histórias da Quinta da Torre, em Poiares. O debulhar do milho, os fios de ouro nos dias de festa, o leite que saía da teta da vaca directamente para a mesa de pedra da cozinha, lá em baixo os animais a aquecerem a casa."Anda comigo, Amélia vem, que eu estou sozinho não tenho ninguém". Fazê-la sentir o aconchego da minha infância, a dolência do embalar da minha avó nas noites com dor de barriga, o cheiro do doce de tomate na panela, o colo a adormecer-me. A história da nossa família, da morte da tia Isaura, da vergonha da gravidez sem pai da tia Maria, a fé na santinha Balazar. "O centeio, o centeio, a cevada, ó Rosinha, minha namorada". Trazer-lhe para o presente o melhor do meu passado.
"Sou uma mãe nostálgica"- respondo, enfim, de regresso dos meus pensamentos.
A Ana adormeceu.]
Ana, 1960
Ana como tu, Ana.
Um dia vais estar careca de ouvir esta história do teu nome que é o nome da minha avó que morreu quando tu decidiste vir morar para a minha barriga e da minha mãe que é a pessoa que mais amo no Mundo e saberás a importância de te chamares Ana, como todas as mulheres da minha vida, tu também.
A minha mãe é simultaneamente a pessoa mais complexa e simples que conheço: complexa porque é inconformada, subversiva, incorrompível, desobediente, teimosa e nada agradadora, de ideias fixas e firmes, a mulher mais inteligente e justa que conheço, a melhor qualidade que podes vir a herdar dela para além da honestidade, integridade e o nome acabado em “ade” é o sentido rigoroso de justiça e isso é uma coisa bela e rara.
Dizia-te eu, Ana, que é, simultaneamente, a pessoa mais simples que conheço porque sei-a de cor do ponto de vista de quem já morou nela, conheço-lhe as janelas dos sorrisos, a porta da vida, sei tudo o que ela não lhe apetece contar-me porque os olhos dela ditam palavras para o meu coração e cada silêncio dela é uma narrativa cheia de sentido para mim.
Um dia nós as duas ficámos sozinhas no Natal e isso, tendo mudado tudo, não tornou nada diferente: sempre fomos as duas sozinhas numa placenta de amor vitalício que nada tem o condão de romper e nesse Natal, de há precisamente 30 anos, chorámos agarradas a ausência do meu pai, lembro-me do abraço apertado e das lágrimas dela a misturarem-se com as minhas e lembro-me que me agachei no seu colo e respirei fundo e tranquilizei-me: éramos só nós as duas e nada ficava, afinal, diferente.
Nunca mais deixámos de ser só nós as duas porque o Natal é mãe, casa, é colo, é amor umbilical. Agora somos três, matrioskas, unas e é melhor e tu vieste para mostrar porque é o três o número da perfeição. Mas o meu Natal, aninhada, frágil e criança, crente na magia do Pai Natal e eufórica, esse Natal que me pertence será sempre ela.
O meu Natal é a minha mãe.
A minha mãe Ana, a realmente Maior.
domingo, 21 de outubro de 2018
Perna de pau
Foi assim durante 4 anos. O Rui Monteiro inventou o mimo: "perna de pau". Apontava para as minhas botas ortopédicas, aparelhos de ferro até aos joelhos, presilha de velcro a prender as talas e gritava "perna de pau! perna de pau!".
Havia dias em que me custava ir para a escola, logo a mim, que sempre adorei estudar. Havia dias em que não me apetecia sair para o recreio, logo a mim, que sempre fui sociável e popular, brincalhona e gaiteira. Havia dias em que tinha saudades da escola do hospital, com a educadora Fernanda e outros meninos a terem aulas deitados em macas, todos em reabilitação naquele Alcoitão.
Sempre que, em convalescença de uma das inúmeras cirurgias o absentismo me tocava à porta meses seguidos, suspirava por voltar para junto da professora Emília e das minhas melhores amigas Joana e Sofia. Tinha também saudades do Hugo, minha paixoneta e do Bruno que batia em toda a gente que se metesse comigo. E voltava feliz com as conquistas físicas que a minha ausência me recompensava e com a possibilidade de voltar ao lugar onde pertencia. Mas, dias depois, a vontade morria com o eco das palavras gritadas no recreio "perna de pau! perna de pau!"
Nunca me importei com a minha diferença. Nascer e crescer com uma deficiência física nunca me perturbou. A minha realidade, desde sempre, era aquela, o meu conceito de "normalidade" era aquele, estava bem, tranquila, em paz com quem era, como era e como me sentia acerca disso. Aparentemente, só o Rui Monteiro se importava com a minha diferença, gritando alto aquele "perna de pau" todos os intervalos, todos os dias, todos os anos lectivos. Eu fingia não me importar, nunca verbalizei o quanto acreditava que aquela maldade intencional é que me fazia diferente, aquelas palavras a ecoarem no intervalo, a entrarem nos ouvidos dos outros meninos em jeito de um: "reparem, reparem, ela tem botas ortopédicas e anda de forma diferente!".
Não era eu que me sentia diferente, era o Rui Monteiro que fazia questão que eu me sentisse. Não eram as minhas pernas encarceradas naquelas botas, magoadas pelos vincos dos aparelhos de ferro que me lembravam da minha diferença, era a voz cantada em jeito trocista daquele rapazinho, franzino e inseguro, que me usava como bode expiatório para desviar as atenções da sua gaguez, da sua dislexia, das suas dificuldades de aprendizagem, da sua própria diferença.
Passei os quatro primeiros anos de escola sem tocar num gelado "perna de pau".
Eu não tinha qualquer problema com a minha diferença, eu acreditava no poder da diversidade, eu era bem sucedida nas aulas, uma das melhores alunas da professora Emília, tinha a Joana e a Sofia para brincar nos recreios e o Bruno a dar sovas a todos os que não me queriam incluir a jogar "ao mata", Rui Monteiro incluído. Mas, ainda assim, havia dias em que me apetecia ficar em casa, aninhada no colo do meu avô, a comer o pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão da minha avó.
O problema nunca foi meu: era dele, do Rui Monteiro. Um dia percebi isso. Era Verão e estávamos nas férias grandes e na colónia de férias a Guida pediu-me que segurasse no seu gelado enquanto apertava os ténis. O Perna de Pau derretia e ela gritou-me que o impedisse: provei o gelado! Oh céus, o que andava a perder nos últimos 4 anos, eu, que era uma boa menina, que merecia coisas boas, era eu que perdia a alegria de ir para a escola, a deleite de comer perna de paus, a felicidade de crescer sem fantasmas. Era eu, que não tinha qualquer problema com a minha diferença, que estava a perder.
O Rui Monteiro lá continuava, cheio de problemas acerca das minhas pernas, a verbalizar isso com ofensas, a correr feliz no recreio, a jogar futebol, a assobiar no caminho para a escola, a comer perna de paus. Não era justo. Nesse dia, percebi isso.
Desejei regressar à escola rápido, mostrar que não fazia mal, que as minhas pernas não eram bonitas mas que andavam e me levavam para tantos sítios, que as minhas botas eram bastante mais feias que os sapatos de verniz da Cátia mas que, ainda assim, me permitiam dançar, que se a minha diferença não me afectava, não me condicionava, não era mais forte que eu, logo, nenhuma voz maldosa o poderia ser.
O Rui Monteiro avistou-me, naquele primeiro dia de aulas da quarta classe, "Perna de Pau! Perna de Pau!" Sorri, vitoriosa, olhando-o bem fundo nos olhos! Já não me sentia envergonhada, já não temia ouvir em voz alta o mimo, já não lhe dava qualquer poder sobre mim. Tinha 9 anos e foi, esse dia comum de escola, um dos mais importantes da minha vida.
Eu tinha provado o gelado. E nunca mais abriria mão de me deliciar em dias quentes de Verão com aquele sabor de nata e morango com aquela pequena folha de chocolate por cima só para desenjoar. Eu sabia quem era, assumia a minha diferença e escolhia viver bem com ela. Quando me chamou de perna de pau, nesse dia, senti-o como um elogio, de frescura e sabor: era a minha mente que mandava em mim, no que sentia, não a voz maldosa do Rui Monteiro.
Hoje, 25 anos depois, coordeno um projecto de combate ao bullying em crianças com deficiência e hoje, dia internacional da pessoa com deficiência, coordenei uma actividade com 100 crianças da mesma idade que eu e o Rui Monteiro tinhamos naquela altura, falei sobre diferenças mas, acima de tudo, sobre semelhanças, celebrei a diversidade e preconizei aquilo em que mais acredito: todos diferentes e não todos iguais: todos diferentes e ainda bem! Porque ser diferente é ser único e isso é o que torna, cada um de nós, especial.
Assumir quem somos sem medo de ser único e diferente e fazer disso uma bandeira, a bandeira da diversidade. A minha desenho-a de cor branca, encarnada e um bocadinho de castanho. Da cor dos pernas de paus que deixei por comer naqueles quase quatro anos da minha infância, da cor do perna de pau que a Guida me passou para a mão para eu lhe segurar enquanto apertava os atacadores, da cor das meias que calçava debaixo das botas, nos vincos que os aparelhos me causavam e do couro das botas ortopédicas que me ajudaram a que hoje corra o Mundo pelos meus próprios pés. A que viva, segura, condicionando a MINHA acção e a MINHA vida pela MINHA realidade, não pela opinião dos outros.
Obrigada, Rui Monteiro: não imaginas o quanto fizeste por mim!
quinta-feira, 18 de outubro de 2018
100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Artur (37)
Conheci-o no dia da festa pública do primeiro aniversário da Ana: a ele e a toda a família- e não são poucos- loucos o suficiente para se enfiarem os seis num dia de calor extremo e virem dar-me um beijo a Lisboa directamente vindos de Tavira.
Nunca mais me esqueci.
A mãe- a Fátima- é uma mulher ímpar: mãe de (agora) cinco filhos, educa-os com o mesmo rigor, exigência, cuidado, disciplina e amor desde o mais velho- este Artur- ao mais pequeno Valentim, com um ano acabado de completar. E é um exemplo de educadora, o que se reflecte em todos eles mas hoje o post é para o Artur, o meu "sobrinho" chef, afoito e corajoso, destemido e criativo, bravo e rigoroso.
O Artur começou a interessar-se por cozinha no secundário, tendo concluído o Curso de Gestão e Produção de Pastelaria na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro, ao qual se seguiu um primeiro estágio curricular em grande, no The Oitavos na Quinta da Marinha como parte da equipa do então Chef Pasteleiro Joaquim Sousa (o Chef que criou aquela sobremesa da flor negra que abria no prato e correu todos os facebooks, instagrams e masterchefs deste Mundo).
Em 2014 acabou o Curso e entrou no Belcanto do José Avillez onde estagiou durante 3 meses, seguindo-se de um estágio no El Celler de Can Roca em Girona, que tem 3 estrelas Michelin e era naquele ano o “Melhor Restaurante do Mundo” pela 50 Best Restaurant.
Foi aqui que começou a entrar mais na parte "salgada" da cozinha e trabalhou em quase todas as secções do restaurante incluindo o Laboratório. Regressou a Portugal e em 2015 foi pela primeira vez até Copenhaga para experimentar uma semana intensiva no Relae, e onde, mesmo em tão curto espaço de tempo, despertou para a importância da origem do produto, a sua caminhada até chegar ao restaurante, à sustentabilidade e ao “foraging” (consiste em recolher plantas, ervas, frutas, cogumelos selvagens).
Claro que nem tudo são rosas, ou não fosse isto a vida, e foi também neste ano que teve uma experiência péssima que quase o fez desistir desta área e onde o chefe queria servir lavagante com 3 dias de cozido e onde não havia qualquer sentido de hospitalidade, respeito pelos ingredientes e sobretudo, respeito pelos clientes. Este episódio afectou bastante o Artur, um tipo franzino e sério, sem tempo a perder e em 2016 pensou como alternativa o ensino, tendo começado a dar aulas na Escola de Hotelaria e Turismo de Faro. No entanto, Artur é "hands on", não é galinha de capoeira, é de campo e das bravas e logo, logo, começou a trabalhar no Restaurante Vistas no Monte Rei Golf & Country Club, tendo na sequência desta colaboração sido seleccionado para a final ibérica do San Pellegrino Young Chef of the Year 2018, que reuniu os 10 melhores jovens cozinheiros de Portugal e Espanha (com a participação de apenas dois portugueses).
Rumou novamente à capital, o Artur intrépido, tendo ajudado a abrir a Confraria do Polvo, que aqui recomendei e cuja colaboração ter-se-ia mantido se não tivesse sido chamado pelo Noma, o melhor restaurante do Mundo, onde se encontra a estagiar há quatro meses.
Durante os 2 primeiros meses esteve na produção e em algumas das estações a ajudar no serviço e preparações para serviço, que a vida de cozinheiro não é só glamour. No entanto, o Artur brilha por onde passa, e no final do segundo mês foi convidado por um dos Sub-Chefs a fazer parte do Laboratório de Fermentação, Investigação e Desenvolvimento e ainda por lá anda, feliz e contente. Neste momento está a desenvolver produtos novos para o Menu de Peixe e Marisco que será servido a partir de 9 de Janeiro de 2019.
Se por um lado assisti orgulhosa e embevecida, como uma tia a sério, ao pulsar do Artur pelas cozinhas deste Mundo, por outro, não vejo a hora dele voltar a Portugal e marcar um jantarinho parolo e saloio à tuga e cozinhar só para mim!
Artur. Nome de Rei. Anotem que ainda vão ouvir falar muito dele.
sábado, 13 de outubro de 2018
sexta-feira, 12 de outubro de 2018
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Começar o dia a (Eslo)vacalhar
"Boa noite :)
Aqui vai a Quadripolarização da Eslováquia. Tenho de confessar que já vivi lá uns meses... Mas foi passando, passando e vim embora sem a Quadripolarizar! Espero estar perdoada x)
As duas primeiras fotos são do Lago Kuchadja, a paisagem não é a melhor mas dado que o lago estava todo congelado eu achei apropriado. Na terceira foto era eu que já estava congelada, mas o "ovni" é daqueles pontos imperdíveis e merecia ficar registado.
Não sei se precisavas, mas Quadripolarizei também Viena, no Palácio da Princesa Sissi (sim, e com mais um lago congelado!) :)
Espero que gostes das fotos e peço desculpa pelo papel tão pequeno, mas foi o que consegui arranjar.
Beijinhos
Raquel"
Xinapá, Raquel! Já me enviaste isto há tanto tempo que se calhar já tens filhos a entrar na universidade e já usas o cogumelo do tempo! Tu desculpas.me? Tu desculpas-me?
Eslováquia e Áustria quadripolarizadas! Yeahhhh!
[O planisfério está actualizado aqui.
Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com.
Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!]
sábado, 6 de outubro de 2018
Vamos falar de chá
Tinha onze ou doze anos, lia o Clube das Chaves e as Gémeas no Colégio de Santa Clara e ainda estava a aprender a lidar com as maminhas que me tinham aparecido e ainda a porra da menarca preconce e todas aquelas hormonas parvas que apareceram sem avisar.
Os rapazes gostavam de jogar futebol mas era inverno, no início dos anos 90 não havia cá pavilhões gimnodesportivos nem campos cobertos e os rapazes-maçados!- tinham encontrado como alternativa à diversão via futebol:apalpar os rabos às meninas que, no intervalo,passavam nos corredores em direcção à sala.
Eu tinha onze ou doze anos, via o "Agora Escolha" e às vezes o "Já Tocou" mas sentia-me uma miúdinha por dentro e quando, nesse Inverno, olhei para a fila de rapazes perfilados e encostados às paredes de ambas as laterais do corredor da C+S não queria acreditar que me iriam apalpar a mim, nem sequer era uma boazona, meia geek e segui segura. Fui apalpada no rabo, nas mamas e onde mais calhou naquele caminho que me pareceu infinito, enquanto gritava de horror, o coração a palpitar depânico, humilhada e reduzida a distração de rapazes que não podiam jogar futebol porque estava a chover enquanto se riam do pânico em mim gerado. Atrás de mim outras iguais a mim, a serem tratadas de igual forma.
Abeirei-me de uma "contínua" que minimizou o episódio, com condescendência para os rapazes "oh filha, já se sabe como são parvos os rapazes desta idade: vocês não liguem!" e me fez sentir ridícula e mariquinhas. Na sala de aula falei à professora que em tom de gozo me sugeriu que "olha, responde-lhes com a mesma moeda: apanhem-nos quando estiverem sozinhos e apalpem-nos todos" e fiquei incrédula: eu não queria apalpar ninguém, tinha onze ou doze anos, ouvia New Kids on the Block, não me interessava o corpo dos rapazes parvos da minha escola, nem castigá-los tocando-lhes arbitrariamente. Em casa falei à minha mãe que- como sempre com a assertividade que a caracteriza- me instruiu para no dia seguinte ir, com algumas das minhas outras colegas que tinham sido apalpadas, ao Conselho Directivo fazer queixa de cada um dos rapazes que conseguira identificar. Na sala do Conselho Directivo as duas professoras que receberam o nosso grupinho ouviram-nos atentamente para nos sugerirem o mesmo "vocês já sabem que os rapazes são mesmo parvo: não lhes liguem! As portas estão abertas para o exterior no inicio e no fim do corredor, vocês saiam e façam o caminho por fora e assim não se sujeitam a que eles vos apalpem". Uma de nós, penso que a Susaninha ainda terá retorquido que estava a chover, contornar o corredor por fora implicaria que nos molhássemos sem termos culpa nenhuma dos apalpões e fomos abafadas por um "mas vocês querem ser apalpadas ou não? Estamos a dar-vos uma alternativa...".
Nesse dia, em que percebemos que ninguém iria chamar os rapazes ao conselho directivo,que ninguém os ia repreender ao corredor, que só dependia de nós fugir e não deles serem obrigados a conter-se e castigados pela acção; nesse dia fomos reduzidas à insignificância por outras mulheres, contínua, professoras, presidente do concelho directivo.
Tinha onze ou doze anos mas, nesse dia, percebi que as mulheres são as maiores inimigas delas mesmas.
quinta-feira, 4 de outubro de 2018
segunda-feira, 1 de outubro de 2018
Oh Aznavour...
[Há poucos cantores consensuais. Aznavour era, provavelmente, um deles e foi cantar hoje para as estrelas, como diz a minha filha numa visão romântica que espero que perdure para sempre, como as músicas do francês.
Acredito que toda a gente tem uma música preferida de Charles Aznavour,que cantou o amor, as saudades, os desgostos a sério daqueles de desgostar e de ser desgostado, que escancarou - com aquela voz como barba ralinha que acaricia a nossa pele e arranha-a numa espécie de dor e prazer -bandas sonoras de tantas vidas.
Esta é a música do único desgosto de amor da minha vida. Passaram muitos, muitos anos.
Obrigada por ma relembrar, recordando-me que o amor também é feito de distância, desencontros, memórias passadas e esperança. Que o amor é isto tudo o que cantou.
Isto tudo.]
quinta-feira, 20 de setembro de 2018
Ana,a literal
Ana agarra num papo-seco e começa a comê-lo.
A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"
Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"
...
A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"
Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"
...
Ana, a lógica
Ana agarra num papo-seco e começa a comê-lo.
A minha mãe reclama: "Estás a comer pão seco, Ana?"
Resposta da bicha: "Então, querias que o molhasse, não?"
...
sábado, 1 de setembro de 2018
Hoje choveu
Hoje choveu pela primeira vez desde que cá estamos. Não se avista o Pico no horizonte tal é a neblina. Ficámos por casa a jogar marralhinha em família. Comemos massa sovada com doce de Figo que sobrou dos mais de 2 quilos que um senhor roubou numa figueira alheia e nos veio vender à porta. Fingimos que não desconfiamos. Tenho aftas de tanto queijo ilha comido e acho que esgotei o Stock de kimas de maracujá de toda a ilha! Amanhã há festa na Caldeira e a vila vai ficar mais sossegada e vazia. Estamos preguiçosos e só cozinhámos ovos fingidos para o jantar. Andei a ver mantas tricotadas pela minha sogra e acabei por herdar uma linda, linda. Os cagarros sobrevoam o nosso telhado e ouvimo-los cantar em coro com as gaivotas que anunciam tempestade no mar. Está um calor insuportável e uma humidade típica de que já não me lembrava. Podia ser um dia chato mas não. É um dos melhores dias das férias. Sem pressas nem destinos para onde ir, sem relógios nem rotas. Vir por muitos dia permite desfrutarmos do dia-a-dia, provar esta rotina boa. Ele põe no rádio velho o CD de uma banda da terra que já não existe. No ar ouve-se a minha música açoriana preferida. Está perfeito. Ninguém mexa.
[Ainda sinto os pés no terreiro
Onde os meus avós bailavam o pézinho
A bela Aurora e a Sapateia
É que nas veias corre-me basalto negro
E na lembrança vulcões e terramotos
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
Se no olhar trago a dolência das ondas
O olhar é a doçura das lagoas
É que trago a ternura das hortênsias
No coração a ardência das caldeiras.
Por isso é que eu sou das ilhas de bruma
Onde as gaivotas vão beijar a terra
É que nas veias corre-me basalto negro
No coração a ardência das caldeiras
O mar imenso me enche a alma
E tenho verde, tanto verde a indicar-me a esperança.]
Subscrever:
Mensagens (Atom)
















