Não há nada mais duro que educar um filho.
Nós partilhamos experiências com outros amigos pais, lemos livros, participamos em fóruns, uns até tiram cursos de ciências do comportamento (presente!) mas nada nos prepara para os desafios de ensinarmos a vida e guiarmos o destino dos nossos filhos.
Até sabemos a teoria, conhecemos estratégias mas depois os dias engolem-nos, os impulsos atropelam-nos e o stress é um cão descontrolado e damos por nós desorientados e impulsivos, emocionais e irracionais, instintivos e irreflectidos.
Eu ainda não me habituei a isto de ser adulta e muitas vezes apetece-me pedir “coooito!” nesta correria da vida, para parar o pensamento, descansar o coração, enrolar-me sobre mim mesma e esvaziar a mente e voltar ao tempo em que a decisão mais difícil dos meus dias era escolher a roupa que ia levar no dia seguinte para o liceu.
Cresci a correr e não me habituei ainda aos papéis sociais que desempenho e em tudo o que me tornei: mulher, trabalhadora, adulta, casada, mãe. Sou tantas coisas e ainda assim desapareceu tanto do meu eu, distribuído e repartido por tantos pedacinhos de mim.
Hoje ela está triste. O pai está triste. Eu estou triste.
Educar é a tarefa mais dura dos meus dias e se eu tenho dias duros. ´
Coração de mãe não tem intervalo.
quinta-feira, 30 de maio de 2019
segunda-feira, 20 de maio de 2019
quinta-feira, 25 de abril de 2019
Sobre liberdade no dia de hoje e fugindo um bocadinho além das questões patrióticas
Quando o Papa Francisco esteve em Marrocos foi homenageado com um espetáculo em que um muçulmano canta uma oração em árabe, um judia em hebreu e uma cristã canta a Ave Maria de Caccini. Ao fim, a mistura das vozes numa sintonia perfeita, relembrando que a liberdade religiosa é possível.
Nada me parece mais perfeito para relembrar no dia de hoje.
terça-feira, 23 de abril de 2019
Ana, a confiançuda
Mámen em reunião até tarde. Eu e Ana jantamos, tomamos banho e enroscamo-nos no sofa
Ouço uma vozinha; "E agora um drinkezinho. mamã?!
Ouço uma vozinha; "E agora um drinkezinho. mamã?!
quinta-feira, 18 de abril de 2019
Anúncio do apocalipse
"Mãe quero falar-te sobre o meu aniversario."
" Xinapá, Ana, ainda falta muito : é só em Agosto. "
“A pergunta é: Vais tu fazer o meu bolo de aniversário, não vais?
#fml
" Xinapá, Ana, ainda falta muito : é só em Agosto. "
“A pergunta é: Vais tu fazer o meu bolo de aniversário, não vais?
#fml
segunda-feira, 15 de abril de 2019
sábado, 13 de abril de 2019
Ana, a sismóloga
Entrei no quarto dela e estava um caos.
Preparada para a repreender atiro: “Ana, que vem a ser isto?!”
Apanhada, riposta: “Um simulacro?
Preparada para a repreender atiro: “Ana, que vem a ser isto?!”
Apanhada, riposta: “Um simulacro?
terça-feira, 9 de abril de 2019
Quem define o que é preconceito terá que ser sempre o alvo deste
Começou no Carnaval: a mãe de uma pessoa para quem trabalho (gosto muito de ambas) queixava-se no facebook de que as pessoas estavam muito sensíveis a propósito dos comentários indignados e cheios de razão face a uma notícia de uma escola que tinha mascarado os seus alunos de negros, com peles pintadas, saias de palha e artefactos tribais.
A senhora indignava-se e quando lhe expliquei sobre apropriação cultural recusou-se a aceitar os meus argumentos, contrapondo que agora se vê “racismo em tudo”. Falei-lhe de racismo flagrante e racismo subtil com toda a boa vontade.
Continuava irredutível: que era uma forma de se mostrar a diversidade étnica e cultural, dizia a senhora e batia o pé. Contrapus para a realidade que eu e ela conhecemos: se numa escola decidissem mascarar os alunos de pessoas com deficiência, espetando-os em cadeiras de rodas ou dando-lhes canadianas, ela que é mãe de uma pessoa com deficiência, como se sentiria? Que era incomparável, que toda a vida nos mascarámos de chineses e indianos e qual era o mal. Eu continuava: porque não mascararem-se de pessoas com deficiência? Não era, pela mesma lógica, uma forma de sensibilização para a diversidade funcional?
Às vezes as pessoas têm que se remeter à sua insignificância face a temas que não as melindram, sendo humildes o suficiente para respeitarem os assuntos que melindram outrem. Não interessa se a intenção é ou não racista (normalmente é, mesmo que velada e inconsciente, é muitas vezes racismo subtil e está tão enraizada que nem damos por ela...), a questão é que se ofende, se melindra, se tem impacto generalizado na população de negros: é racismo. Mesmo que não compreendamos. Não temos que compreender (quem não consegue compreender). Temos que ser humildes e aceitar. E pedir desculpas, retratando-nos.
Isto a propósito do boneco negro que hoje jazia no iscte para gestão da raiva. “Ah, o boneco podia ser Branco”. Ah, mas não era. “Ah, mas é irrelevante, para o efeito, até podia ter sido um saco de boxe”. Mas não foi. “Ah, é apenas um ser inanimado de uma cor”. Pois mas a cor não é laranja ou roxo: representa uma figura humana negra. “Ah vocês vêem racismo em tudo!” Não está centrado no sujeito, isto do racismo, mas no objecto.
Nós podemos vê-lo ou não, desde que eles o sintam: é racismo.
Tal como seria discriminação se o boneco, de todos os bonecos que se pudessem ter escolhido para o efeito, estivesse sentado numa cadeira de rodas.
Aceitem.
Retratem-se.
domingo, 7 de abril de 2019
Português quadripolar
Gosto de viver em Portugal porque todos os outros lugares são estrangeiros e estranhos.
Com isto não quero dizer que não goste dos outros países, à excepção que eles não são casa, não têm uma caixa multibanco a cada esquina e estão carregados de estímulos, novidades e coisas para serem descobertas que se tornam cansativas porque não são conhecidas e dominadas.
Aquela brincadeira de sair da nossa zona do conforto é muito engraçada, mas assim que estamos desconfortáveis, estranhos ou estrangeiros, não procuramos outra coisa senão sentirmo-nos em casa.
O mundo é capaz de se dividir entre quem desfaz a mala de viagem nos quartos de hotel e pendura a roupa que traz no guarda-roupa bem como coloca livros em cima das estranhas mesas de cabeceira e os outros.
O pior de ser português é o ritmo do cinema, a má condução, as adaptações dos reality shows e os comentadores dos jornais online.
O melhor de ser português é, à parte do café, o ser bairrista seja dentro do nosso bairro quando estamos a ver as marchas populares, seja a defender a nossa cidade quando temos jogos de futebol ou seja a assumirmo-nos portugueses buzinando a cada camião que passa com uma bandeirinha portuguesa no espelho dianteiro quando viajamos de carro pela Europa.
Nós gostamos muito de pertencer aqui e como uma mãe relativamente a um filho, gostamos muito de nos queixar do nosso país mas ai de quem não seja daqui ou venha de fora e diga mal dele.
Meu rico Portugal: quanto mais conheço os outros, mais gosto de ti.
Somos portugueses em muitas coisas mas as mais importantes são este bairrismo e a paixão pela comida, seja ela de que província for, nisso estamos unificados, não há nenhum lado no Mundo onde se coma melhor que em Portugal.
E não tem que ver só com a comida, mas com o sol que ilumina a esplanada, o som do mar aos nossos pés, os miúdos a correrem à volta da mesa em segurança, o cheiro a maresia e aos primeiros cremes protectores e o bitoque até pode ser uma merda.
Tanto nos dá: haja pão para molharmos na gema do ovo estrelado e uma cerveja geladinha e ficamos felizes.
Eu também.
quinta-feira, 4 de abril de 2019
quarta-feira, 27 de março de 2019
quinta-feira, 21 de março de 2019
sábado, 2 de março de 2019
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019
Ana, a mercenária
Estamos a caminho da consulta com o pediatra e reparo que carrega a pasta com as receitas do bolo de cenoura que anda a vender:
“Que é que foi? Pensavas que o Dr. Mário ia escapar-se a comprar-me uma?!”
...
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019
Ana, a valente
A Ana veio trabalhar comigo no sábado. Estava chocha desde a véspera e quando lhe toquei ardia em febre. A tosse tinha dado lugar à febre e eu tinha a certeza que vinha aí a terceira amigdalite do último ano e arranquei para o hospital.
Falo sempre com ela de igual para igual “Ana: és capaz de ter uma amigdalite e os bichos que moram na tua garganta têm que morrer de vez. “ Ela começou a chorar baixinho e a murmurar que não queria outra injecção de penincilina.
Eu abracei-a e olhei-a nos olhos: ”se se confirmar a amigdalite e havendo a alternativa do antibiótico durante uma semana e no pressuposto que ficas boa de uma maneira ou de outra, tu podes decidir, Ana”
Que decidirias tu, mãe?
“A injeccao porque nunca tive medo de agulhas e porque sempre tive pressa de deixar de estar doente. Mas tu é que sabes de ti, Ana. Tu é que decides, mesmo. “
E quando entrámos nas urgências o médico simpático fez uma zaragatoa e confirmou a amigdalite.
“Agora vem a pergunta chata, mãe...” e eu pedi-lhe que perguntasse à Ana e ele olhou-me com desdém “por amor de Deus, mãe, a criança ainda não tem maturidade para decidir” e a Ana interrompeu-o e disse “a injeccao de penincilina!”
E ele ficou com os olhos muito grandes de espanto e admiração. “Tem que ser para passar rápido! Dói muito mas é o melhor” e a enfermeira disse que nunca tinha visto nada assim, e o médico colou-lhe um autocolante na camisola e deu-lhe uma luva cheia a imitar um balão em forma de pica-pau e eu dei-lhe a mão enquanto ela chorava com a agulha a entrar-lhe na pele e no fim ela aterrou no meu colo quieta e cansada e deu-me um dos momentos mais orgulhosos da minha existência como mãe.
Isto de ser mãe também dói muito e muitas vezes mas é sempre o melhor.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019
Desistir nem sempre é fracassar
A Ana falava das suas aulas de música no conservatório. Estava entusiasmada a falar desta nova linguagem que eu não domino: breve, semibreve, mínima, colcheia. Eu sorria, enternecida, quando a minha amiga que partilhava a conversa connosco acrescentou “Oh, Ana, tu começas tão entusiasmada nas actividades. Vê lá se desta vez não desistes!”
E eu fiquei ali a pensar nessa conversa de toda uma vida que insiste, persiste e não desiste e esse filho da puta de otimismo tóxico que me enoja horrores de tu vais conseguir, só energia positiva e de insiste, persiste e não desiste. Eu não quero que a minha filha se sinta obrigada a não desistir.
Se o desporto a faz sentir frustrada, não lhe dá prazer, lhe baixa a auto-estima ela pode e deve desistir. E procurar outro onde se sinta confortável e feliz. Ou parar e não procurar nada.
Se escolher uma área académica no décimo ano que perceba que não é afinal a praia dela, em que tenha que aprender disciplinas que não lhe digam nada, que a orientem para um caminho que não é o que ela espera, que desista. Que volte atrás e recomece. Ou só que páre.
Se um dia tiver um trabalho em que se sinta miserável, em que não lhe apeteça levantar-se de manhã para ir trabalhar, então, que se foda e desista.
Se um dia tiver um namorado ou um marido que não a trate condignamente, que não preste, então que ganhe coragem e desista.
Desistir não é covardia. Desistir não é falhar. Desistir é decidir.
Decidir que chega, que não se quer, que se quer melhor ou apenas diferente. Decidir que se quer mudar.
Decidir o curso da nossa vida.
Portanto se a Ana achar que as breves e semicolcheias não lhe dizem nada e que não respondem à sua curiosidade e à necessidade de conhecer e compreender o Mundo, então que desista. E recomece. Ou só pare. Pare apenas. Todas as vezes que for preciso.
O encanto da vida passa por começar, experimentar, desistir, recomeçar, continuar. Parar.
E decidir sempre com a alma e o coração. Com coragem e bravura. Mesmo que seja decidir que desiste.
Que desista, pois então.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
No fim morremos todos
38 anos e sete meses menos dois dias.
Já penso na minha própria morte (durante mais de duas décadas não pensei nela), na minha mortalidade e finitude.
O futuro está sempre na sombra e no encalço do presente. Li um dia que somos velhos quando temos mais memórias que sonhos, mais recordações do que projectos e planos, mais lá atrás, caminhos e estradas velhos conhecidos que atalhos desconhecidos por explorar. Estou cheia de sonhos simples e concretizáveis e guardo com alfazema num canto do meu coração todas as memórias de afectos e amor. Tudo o resto não tem espaço em mim, nem o rancor nem o ódio, nem coisas tóxicas nem nada que não me tenha acrescentado. O meu coração tem apenas memória RAM para o passado bom e o futuro de paz e leveza, que é isso que espero enquanto for envelhecendo. Dizem aos mortos "que a terra te seja leve" mas eu acho que deviam dizer aos vivos que o ar lhes seja leve para que o pensamento, os sonhos e os planos voem livres como o vento. Um céu leve.
Deixei de saber só o que não quero e passei a ter uma clara noção do que quero. Quero a saúde minha e dos que amo, quero quem me quer bem por perto, a intimidade reservada para as gargalhadas de quem me ama na mesma proporção do que eu os amo. Quero reciprocidade e merecimento. Quero relações fáceis e simples, sem cobranças nem julgamentos,sem truques na manga nem agendas secretas,sem cerimônias nem formalidades.Quero ser eu,sem pensar no que dizem os outros. E quero só quem me quer assim, quem goste de mim como sou e não me queira, projecte ou fantasie diferente ou à sua medida. O meu molde é torto, único e nunca me conseguirei encaixar.
Quero sentar-me com as pernas à chinês no passeio se estiver cansada, não me importar com maneiras socialmente impostas, dizer vernáculos e rir alto, usar decotes e não fazer fretes e quando me disserem que já não tenho idade para isto, poder fazer um pirete e cagar-me para o facto da idade não me perdoar.
A vida não é um juiz do certo ou do errado, não traz reguada incorporada e no fim morremos todos. Quero fazer o que sempre fiz: o que me dá na real gana, o que me faz sentir-me fiel aos meus valores e leal às minhas crenças.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2019
A minha vontade sempre que alguém me pede uma bio
Liliana: ursa, palhaça, blogostar do borboto, influencer da Bobadela, unicórnia wanna be e artista da cassete pirata
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019
segunda-feira, 28 de janeiro de 2019
sexta-feira, 25 de janeiro de 2019
O amor que fica
No outro dia, a propósito dos 20 anos de namoro com o Rui, perguntaram-me se eu acreditava em almas gêmeas.
Não acredito.
Amei 3 homens na vida: um demasiado platonicamente, um demasiado carnalmente e fiquei com o que amei na medida certa e no equilíbrio entre as duas margens.
Poderia ter tido uma relação duradoura e feliz com qualquer um dos outros 2 com quem não fiquei, tivessem as circunstâncias e os tempos sido diferentes, e eu ter sido diferente nesses tempos.
Não se esquecem os grandes amores: arrumam-se nas gavetas recônditas do coração, mete-se cheirinho de alfazema para prevenir maus cheiros e bolor, dobra-se bem dobrado e, em alguns casos, fez-se como com as toalhas de linho e embrulham-se em turcos antes de arrumar, para garantir que ficam acondicionados e preservados. Que não se estragam. Mesmo que saibamos que não os voltaremos a usar.
Antes achava que não: que os amores passados eram roupa usada, velha, descartável. Mas depois o tempo passou e eu passei pelo tempo e vislumbrei claramente quem eram os amores da minha vida e o quanto lhes quereria bem para sempre, mesmo que já não os tivesse a eles nem eles a mim.
O amor é uma sorte bestial para a qual não basta encontrar a pessoa certa: é preciso haver o timing das vidas, as circunstâncias do destino e a predisposição certa, porque o amor dá um trabalho danado! MEC escreveu “o amor é uma coisa, a vida é outra porque a vida dura a vida inteira, o amor não” e eu não acredito nisso nem nas almas gêmeas mas acredito que o amor pode durar uma vida inteira, mesmo que não resulte em relações ou em romance.
O respeito pela pessoa que se amou, o carinho e o bem querer mesmo à distância, os sorrisos que involuntariamente esboçamos quando nos vêm memórias à cabeça e o bem que nos fez aquele amor cá dentro, no motor do coração, são sinais inequívocos que o amor não se esgota quando encontramos o nosso final feliz.
Amei 3 homens na vida: um eu deixei, o outro deixou-me e fiquei com o terceiro. A vida corre: feliz. O amor a geminar não derruba o amor que já murchou e voltou à terra, fertilizando-a para alimentar melhor o amor que floresce.
Não há almas gêmeas.
Todo o amor fica mesmo que fiquemos num só amor.
domingo, 13 de janeiro de 2019
Porque hoje é dia 13...
Somos de datas simbólicas embora, na realidade, todos os meses, desde o primeiro, assinalamos o dia 13. Digo assinalamos porque nem sempre festejamos.
Houve dias 13 de festa, claro, a maior parte deles, mas também houve de cansaço extremo, de chegar ao fim do dia de trabalho e de sermos engolidos pela rotina e só desejarmos feliz mesário já deitados na cama, antes de dormir. Houve dias 13 miúdos, de estudo, vésperas de frequências, de férias escolares dele nos Açores e minhas em Monte Gordo, de jantares de refeições macrobióticas na cantina velha da cidade universitária. Houve dias 13 dele sair tarde do café Chocolat em Cascais ou da Zara onde teve que trabalhar depois das aulas para pagar as propinas e a sobrevivência durante os últimos anos da faculdade . Houve dias 13 de desemprego, de trabalhos duros, de salários em atraso e de flores roubadas em quintais de vizinhos, de não sabermos como ia ser a nossa vida no mês seguinte. Houve dias 13 na primeira casa alugada e na segunda e um dia 13 numa casa vazia com um bebé de um mês no colo, olhos marejados, depois de nos assaltarem a casa e nos levarem tudo. Houve dias 13 sem dinheiro para o fim do mês e dias 13 de aumentos salariais e jantares em sítios que sempre sonhámos ir como o 100 maneiras. Houve dias 13 a guardar o segredo excitante de que tínhamos um bebé na barriga e o dia 13 de Agosto de 2012 em que passámos finalmente a ser 3 numa bolha de amor, pais: nós. Houve dias 13 separados, zangados, desiludidos um com o outro, apartados e sem sermos marido e mulher e dias 13 de reencontro e reconciliação. Houve dias 13 de aliança de namoro no dedo e depois aliança de casados e até sem aliança antes de tudo voltar a ser como é agora. Houve dias 13 na primeira casa comprada e a partilharmos uma hipoteca, dias 13 de luto e de dor de pessoas que fomos perdendo e dias 13 banais, de esparguete com carne guisada sem glamour porque a vida não é sempre purpurinas. Houve dias 13 em NYC num rooftop no dia em que comemorámos 13 anos e casámos os anos de namoro.
E houve aquele dia 13 no terraço do bar do ISCTE em que ele me roubou um beijo e mudou os meus dias 13 para sempre. Venha o próximo.
São 20 anos de dias 13.
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Dia 13
segunda-feira, 24 de dezembro de 2018
Ana, 2012
A minha avó tinha morrido na antevéspera do Natal anterior, Ana.
Nesse último Natal tínhamos ficado com um presente por abrir debaixo da árvore e (mais) um lugar vago na mesa. A minha mãe ficou órfã e num desgosto profundo que só o anúncio da tua vinda conseguiu atenuar. A tia Cinda também e os tios ficaram perdidos como só Freud conseguiria explicar.
Era o quinto Natal sem o meu avô e o primeiro sem ela, um Natal esvaziado daquela linha geracional. Eu e a Daniela só agora conseguimos falar deles com aquela saudade boa sem nós na garganta e com recordações divertidas para partilhar.
Mas aquele Natal de 2012 foi mágico porque tu tinhas chegado sem maneiras, sem bateres à porta dos nossos corações e sem limpares os pés às nossas resistências e medos, chegaste com o encanto de quem chegou para ser adorada, a nossa menina Jesus. E trouxeste o renascer do Natal contigo, as memórias por construir para além das memórias por recordar, uma infinitude de possibilidades e sonhos e vida por viver: a tua e a nossa contigo.
E enquanto te escrevo este #dezlembro para te lembrar de onde eu venho tu teces uma teia de afectos para cimentares histórias novas em que nós passamos a ser os protagonistas do passado e do presente para um dia te lembrares a ti e aos teus filhos de onde vens tu.
Vens de um sítio mágico onde o amor é comunitário e família é uma mistura de vidas que se interligam e cruzam e são tão dependentes e ainda assim livres e é tão bom. Vens de um sítio onde os Natais passaram a ter novos rituais: um presépio por cada Natal vivido contigo, agora já à laia de colecção, vidros de janelas pintados com canetas de giz e uma estrela com o nome de cada um de nós na árvore de Natal e o tio Hugo a fazer todos os anos de Pai Natal e o Kubrick a correr com a cauda a dar a dar, e espectáculos de Natal com cenografia da tua autoria e músicas de Natal na televisão e a minha mãe e tu a distribuírem presentes. E calor.
O passado tem que se preservar mas és tu a nossa estrela guia que nos garante a luz para o futuro, o caminho do amor que continuará. Que se perpetua.
Obrigada por nos devolveres o Natal, querida Ana. A estrela no topo e no firmamento serás sempre tu.
quinta-feira, 13 de dezembro de 2018
Necas, 1955
O primeiro Natal em que me lembro dele teria uns onze anos, Ana.
Tinha emigrado tinha eu cinco e a sua memória era distante, do tempo em que eu tinha uma prima da minha idade que brincava comigo no pátio da minha avó. Depois eles separaram-se e eu via a minha prima de vez em quando, nos anos e no Natal até que a vida nos separou de vez e ela não seja agora sequer uma estrela nesta árvore.
Até lá ele era o tio emigrado e que não voltara, o tio que visitava a Europa que nós nem sonhávamos que existia, que aprendia receitas e comidas estranhas, mandava postais de outras capitais, o tio que corria o Mundo.
Um dia ele voltou casado com a Maria, a minha nova tia polaca de 23 anos com quem aprendi que curva era um palavrão em polaco e que me fazia máscaras de pele com batata cozida para me acalmar o acne. E trouxe receitas de spaggetti carbonara, lasanha e sanduíches estranhas, o meu tio que dizia “saaandwwwwishhh” em vez de sandes e que as dispunha em travessas enfeitadas com flores feitas com casca de tomate.
O tio porreiro que foi a primeira pessoa da família a conhecer o teu pai, o tio porreiro que traz sempre aventuras para contar, que pintou as paredes de todas as casas em que vivi e que nunca me diz não a nada. O tio trapalhão e bonacheirão que deixou de beber e fumar depois de um ataque cardíaco e que traz agora uma enésima tia cabo-verdiana para a família, porque sempre foi ele, o tio Necas, que trouxe o Mundo e os ingredientes mais exóticos e divertidos para esta família.
domingo, 9 de dezembro de 2018
Nato, 1958
E veio um Natal e ele nunca mais chegou, Ana.
Bem sei que não é um começo de história bonito mas alguém tem que te explicar que aquilo do “e viveram felizes para sempre” pode não ser bem assim. O tio Nato viveu anestesiado, bem ao estilo Shakespeariano, trocando o desgosto amoroso pelo prazer do álcool. Primeiro o prazer, depois o vício, no fim a doença. Para nós sempre a inevitabilidade. Eu pedia sempre ao menino Jesus que ele chegasse sóbrio e bem disposto, talvez por isso sempre preferisse o pai Natal, esse ao menos nunca me defraudava.
O Natal só começava quando nos sentávamos todos na mesa e isso só acontecia quando ele chegava, mesmo que ele demorasse a chegar e nós não conseguíssemos prever se teríamos a bebida também sentada à nossa mesa ou se ele viria sóbrio. Ninguém se sentava enquanto não estivéssemos todos e ele era, inevitavelmente, o último a chegar. A minha avó atrasava a panela das batatas, lembrava-se que as couves afinal não chegavam e engonhava a ir pedir umas emprestadas à vizinha ou às vezes deixava-as cozer demais propositadamente, para ter que deitar as couves moles fora e meter uma segunda panela ao lume, só para ganhar tempo e permitir que ele chegasse.
Às vezes, nas noites em que tardava mais, ia despejar o balde do lixo lá fora ao contentor e ia uma segunda ou terceira vez, mesmo que o balde já estivesse vazio e não houvesse nada para despejar, na esperança de o avistar ao fundo da rua.
Às vezes ele não vinha sozinho e comia em silêncio e ia deitar a tristeza embrulhada em álcool ainda antes dos mexidos e da aletria pousarem na mesa. Outras vinha sóbrio e era o mais entusiasta a aplaudir os meus espetáculos e os da Daniela e no fim da noite era o único que tinha pachorra para jogar connosco monopólio ou batalha naval ou dominó com o meu avô Amândio.
Os nossos Natais não foram cem por cento felizes por causa dele mas era quando ele chegava e se sentava que começava o nosso Natal e foi com ele que aprendi que o amor de mãe manda no tempo e no acontecimento dos dias, sempre que a minha avó deixava queimar as couves só para lhe dar tempo para ele chegar.
sexta-feira, 7 de dezembro de 2018
Daniela, 1990
Era meia noite e vinte e três, Ana.
A avó e o tio Chico ligaram a dizer que a minha prima Daniela tinha nascido. Tinha nove anos e foi a primeira vez que senti um misto de emoções entre euforia pela novidade da primeira bebé na família desde que eu me lembrava de ser gente e o medo de perder a atenção exclusiva de neta e sobrinha única.
As pessoas diziam-me “agora vais ter que dividir tudo!” e eu não sabia bem como iria ser. Sabia que queria uma menina, na verdade, quando a vi soube que a tinha esperado sempre e era ela que eu queria. E depois, aos dez anos, no primeiro Natal que passamos juntas (e nunca mais passámos nenhum separadas) foi tudo melhor: os mexidos partilhados, da avó partilhada, o colo partilhado, do avô partilhado, as gargalhadas partilhadas, os espetáculos de Natal inicialmente partilhados.
Depois a distância de uma década colocou-nos em diferentes degraus da vida e eu, já adolescente, tive segunda oportunidade de viver a vida através dela: vivi a magia do Harry Potter com ela, ouvi mil vezes a música do Coyote Bar com ela e depois um dia fiquei crescida e ela passou a fazer sozinha os espetáculos de Natal, mesmo antes de me deixar brincar . eu falsamente contrariada e armada em adulta, como se lhe estivesse a fazer um favor, com as recém desembrulhadas Polly Pockets.
Agora cada uma tem a sua casa e eu tenho mais saudades dela que nunca e não percebo porque não estamos mais tempo juntas, minha primeira, meu único amor em posição de par, minha primeira caçula, antes até de ti, Ana. E foi com ela, no dia 17 à meia noite e vinte e três, que aprendi que o amor não se divide nem multiplica: partilha-se.
Neste Natal estaremos ambas no mesmo lado da plateia a assistir ao teu espetáculo de Natal. Porque amar em coro é sempre melhor.
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
Cinda, 1962
Foi a primeira vez que vi umas escadas rolantes, Ana.
Foi no aeroporto e havia uma distância de um metro que me separava da barreira onde a minha tia ia entrar rumo a Londres, no tempo que a emigração era distante e cara, impossível de suavizar. Eu não me queria despedir. Não havia Ryanair nem Skype nem sequer telemóvel e a minha tia partia por tempo indeterminado e Londres era a Austrália para mim: o outro lado do Mundo. A minha tia fez-se de forte, “vá, dá beijinho à tia. Não chores! Não tarda muito a tia volta!”
Mas eu não parei de chorar, com um nó na garganta que nunca desatou como quando assistia ao “Anjo na Terra” na televisão. E chorei durante todo o caminho de regresso a casa, e chorei em cada chamada telefônica semanal, e chorei sempre que um avião qualquer rasgava as nuvens e me diziam “diz adeus à tia!”, nunca percebi porque me mandavam dizer adeus à minha tia, quando o que eu mais queria era dizer-lhe olá, aninhar-me no seu colo fresco e pedir-lhe que desenhasse bonecas de lábios carnudos e me ensinasse o truque de pintar sempre para o mesmo lado e dentro das linhas e costurasse saias da lambada só para mim.
Durante dois ou três anos os Natais foram incompletos, a minha avó chorava a sua ausência, o telefone tocava e mandávamos beijinhos e disfarçávamos com um tom despachado e alegre para não a entristecer, à minha tia Cinda, e depois ficava um silêncio antes da ceia, o meu avô limpava os olhos com as costas das mãos e eu ainda hoje não gosto de escadas rolantes porque me lembram partidas e natais vividos a aprender à força o que é sentir muito a falta de alguém
segunda-feira, 3 de dezembro de 2018
Amândio, 1930
Todos se calavam na sala, Ana.
O que era curioso porque éramos muitos e barulhentos naqueles Natais em que não havia saudades. Primeiro o meu pai ainda vivia conosco e depois veio o tempo em que ele, o meu avô, sem dar conta nem se impor, me ensinou a ser amada com uma filha por um pai.
Chegavam à vez: primeiro a tia Cinda e o tio Chico - e a tia e a minha mãe não entravam na cozinha, a minha avó Ana não deixava, mas traziam tabuleiros infinitos para a mesa: primeiro batatas, depois couves e nabos e no fim o bacalhau- entretanto, o tio Necas e por fim o tio Nato e nos sentávamos enfim, a comer o princípio da roupa velha do dia seguinte, naquele tempo em que eu era neta e sobrinha única e não havia ninguém para amar a seguir. A
mesa era grande para a sala pequena mas nunca nos sentíamos apertados e o meu avô sentava-se à cabeceira e contava sempre a história que o Sr. Gil Pancadas- seu melhor amigo- tinha ficado muito admirado quando o tinha conhecido recém chegado do Minho e percebera que ele nunca tinha comido Peru pelo Natal e prometeu-lhe dar um Peru todos os Natais até que o primeiro deles morresse e ria-se, invariavelmente, apontando para o Peru de cada ano a marinar no tabuleiro para assar no dia seguinte.
Mas depois dos doces e antes do meu pai se vestir de Pai Natal ele elevava a voz: “shiu! Pouco barulho que vamos dar início ao espectaculo. Senhoras e senhores os vossos aplausos para a Liana” e eu entrava e cantava, fazia mimica, dançava e declamava poesia e não se ouvia um “ai” na sala sob pena de se enraivecer o velho minhoto.
Eu era a Estrela daquela noite e ele ficava fascinado a assistir ao meu crescimento, à minha voz a cantar, às minhas pernas a dançar, à minha infância a permitir-me ser feliz sem filtros nem embaraço. E depois todos tinham que bater palmas e abríamos as prendas e se o sono nos permitisse ainda fazíamos uma partida de monopólio, que eu por causa dele, acabava sempre por ganhar. Às vezes deitava-me no meio deles e de manhã ouvíamos cassetes de anedotas e o pelos caminhos de Portugal.
E havia sempre peru até que o forno se apagou e nunca mais ele mandou calar ninguém na sala, só para me ouvirem cantar..
sábado, 1 de dezembro de 2018
Ana, 1929
Sabes, Ana, o Natal é a minha avó, matriarca desta família e sua memória mais ancestral. Raiz mais profunda da nossa história, tua também.
Nas vésperas começávamos a guardar o pão duro para os mexidos e a minha avó Ana ia à mercearia do João Aires, primo direito, e aviava as compras de frutos secos e pinhões, numa altura em que as pinhas do pinhal ao pé da igreja já não davam pinhões e, talvez por isso, reclamasse sempre do seu preço. Num alguidar punha a massa das filhós a repousar e cheirava sempre a canela na nossa casa e ao desejo gustativo dos doces minhotos que continuam a alegrar a nossa mesa, como um vira que vira e torna a virar ou canções de acordeão à desgarrada.
Na véspera da véspera de Natal o avô Amândio esfarelava o pão bem miudinho, que os mexidos só sabem bem com pão miudinho e a avó Ana metia-o na panela maior e mexia bem tudo lá dentro até sair um doce castanho-canela que distribuía em pratos e tigelas e taças, todas as que tínhamos em casa. Na manhã da véspera de Natal era a vez das filhós que tinham ficado a descansar e com uma mestria de samurai ou de mulher do Norte- é parecido- agarrava-as numa colher e fritava-as. Chamava-me sempre: “Liaaaana!”, no tempo em que eu era Liana para toda a gente lá em casa, e apontava-me filhós a filhós a ganhar forma na frigideira: “esta parece um dragão, esta uma árvore, esta um gato”.
Era assim a minha avó que em vez de descortinar imagens de sonho nas nuvens do céu, as fazia a olhar massa de filhós na frigideira da cozinha pequenina e apertada. Eu tinha sempre a tarefa mais importante: passar as filhós por açúcar e canela e fazer carreirinhos de canela em cima dos mexidos e da aletria.
No dia de Natal era a comida mais desejada: as filhós-nuvens e os mexidos com estradas de canela em cima, caminhos para o céu. Sabes, Ana, este ano quando comeres mexidos, aqueles que não ficarão iguais aos da minha avó Ana porque não foram esfarelados pelo avó Amândio, perceberás porque, tantos anos depois, o nosso Natal continuará a ser para sempre a minha avó Ana.
segunda-feira, 26 de novembro de 2018
O Mundo divide-se (edição mete-nojo)
O mundo divide-se entre quem é mãe e continua a acordar às onze da manhã ao sábado e as outras.
domingo, 25 de novembro de 2018
Dez(l)embro
Este ano decidi comprar enfeites de árvore definitivos.
Parece-me que aos 38 anos, a pagar uma hipoteca, sedentária assumida, casada há doze anos (e juntos há vinte), no mesmo emprego há cinco anos seguidos, já estou numa altura em que posso pensar em criar tradições definitivas, objetos para permanecerem.
Este ano, na nossa árvore de Natal teremos uma estrela por cada membro da família (os meus avós e tio também lá estarão) a lembrar-nos, Natal após Natal, quem somos: passado, presente e futuro. Inteiros. Unos. Família.
E não é disto que se trata o Natal?!
[obrigada @zitamina pela concretização desta ideia tão de amor]
quinta-feira, 15 de novembro de 2018
Mãe nostálgica
[Estamos a conversar baixinho no sofá. A minha amiga e eu, com a Ana no colo, com uma birra de sono e eu a embalá-la para adormecer. "Eu vi a Amélia no arvoredo, tão pequenina cheia de medo". Ela, olha-me, e pergunta-me " Se tivesses que escolher apenas um adjectivo para te diferenciar como mãe, qual escolherias para definir o tipo de mãe que és? "Os olhos da Marianita são verdes como limão". Penso naquilo, aconchego a Ana mais para junto do calor do meu corpo, mais calma, a respiração a sintonizar com a minha, os olhos a semi-cerrarem-se. "Ó Rosinha, ó Rosinha do meio vem comigo malhar o centeio" Ela trauteia as músicas que mais nenhum miúdo dos que brinca com ela conhece, baixinho, está quase a cair no sono. De repente, a memória da minha avó, anos atrás, comigo ao colo, o calor do seu peito, o seu cheiro a Minho, a casa, a pronúncia nestas letras que lhe dedico, voz rouca. "Era meia noite cantava o cuquinho, era meia noite no seu buraquinho".
Uma« das meus maiores propósitos como mãe é não deixar morrer o passado e trazê-lo até à Ana, fazê-lo perpetuar no futuro a que ela vai dar corpo e forma. Não deixar morrer as histórias da Quinta da Torre, em Poiares. O debulhar do milho, os fios de ouro nos dias de festa, o leite que saía da teta da vaca directamente para a mesa de pedra da cozinha, lá em baixo os animais a aquecerem a casa."Anda comigo, Amélia vem, que eu estou sozinho não tenho ninguém". Fazê-la sentir o aconchego da minha infância, a dolência do embalar da minha avó nas noites com dor de barriga, o cheiro do doce de tomate na panela, o colo a adormecer-me. A história da nossa família, da morte da tia Isaura, da vergonha da gravidez sem pai da tia Maria, a fé na santinha Balazar. "O centeio, o centeio, a cevada, ó Rosinha, minha namorada". Trazer-lhe para o presente o melhor do meu passado.
"Sou uma mãe nostálgica"- respondo, enfim, de regresso dos meus pensamentos.
A Ana adormeceu.]
Ana, 1960
Ana como tu, Ana.
Um dia vais estar careca de ouvir esta história do teu nome que é o nome da minha avó que morreu quando tu decidiste vir morar para a minha barriga e da minha mãe que é a pessoa que mais amo no Mundo e saberás a importância de te chamares Ana, como todas as mulheres da minha vida, tu também.
A minha mãe é simultaneamente a pessoa mais complexa e simples que conheço: complexa porque é inconformada, subversiva, incorrompível, desobediente, teimosa e nada agradadora, de ideias fixas e firmes, a mulher mais inteligente e justa que conheço, a melhor qualidade que podes vir a herdar dela para além da honestidade, integridade e o nome acabado em “ade” é o sentido rigoroso de justiça e isso é uma coisa bela e rara.
Dizia-te eu, Ana, que é, simultaneamente, a pessoa mais simples que conheço porque sei-a de cor do ponto de vista de quem já morou nela, conheço-lhe as janelas dos sorrisos, a porta da vida, sei tudo o que ela não lhe apetece contar-me porque os olhos dela ditam palavras para o meu coração e cada silêncio dela é uma narrativa cheia de sentido para mim.
Um dia nós as duas ficámos sozinhas no Natal e isso, tendo mudado tudo, não tornou nada diferente: sempre fomos as duas sozinhas numa placenta de amor vitalício que nada tem o condão de romper e nesse Natal, de há precisamente 30 anos, chorámos agarradas a ausência do meu pai, lembro-me do abraço apertado e das lágrimas dela a misturarem-se com as minhas e lembro-me que me agachei no seu colo e respirei fundo e tranquilizei-me: éramos só nós as duas e nada ficava, afinal, diferente.
Nunca mais deixámos de ser só nós as duas porque o Natal é mãe, casa, é colo, é amor umbilical. Agora somos três, matrioskas, unas e é melhor e tu vieste para mostrar porque é o três o número da perfeição. Mas o meu Natal, aninhada, frágil e criança, crente na magia do Pai Natal e eufórica, esse Natal que me pertence será sempre ela.
O meu Natal é a minha mãe.
A minha mãe Ana, a realmente Maior.
domingo, 21 de outubro de 2018
Perna de pau
Foi assim durante 4 anos. O Rui Monteiro inventou o mimo: "perna de pau". Apontava para as minhas botas ortopédicas, aparelhos de ferro até aos joelhos, presilha de velcro a prender as talas e gritava "perna de pau! perna de pau!".
Havia dias em que me custava ir para a escola, logo a mim, que sempre adorei estudar. Havia dias em que não me apetecia sair para o recreio, logo a mim, que sempre fui sociável e popular, brincalhona e gaiteira. Havia dias em que tinha saudades da escola do hospital, com a educadora Fernanda e outros meninos a terem aulas deitados em macas, todos em reabilitação naquele Alcoitão.
Sempre que, em convalescença de uma das inúmeras cirurgias o absentismo me tocava à porta meses seguidos, suspirava por voltar para junto da professora Emília e das minhas melhores amigas Joana e Sofia. Tinha também saudades do Hugo, minha paixoneta e do Bruno que batia em toda a gente que se metesse comigo. E voltava feliz com as conquistas físicas que a minha ausência me recompensava e com a possibilidade de voltar ao lugar onde pertencia. Mas, dias depois, a vontade morria com o eco das palavras gritadas no recreio "perna de pau! perna de pau!"
Nunca me importei com a minha diferença. Nascer e crescer com uma deficiência física nunca me perturbou. A minha realidade, desde sempre, era aquela, o meu conceito de "normalidade" era aquele, estava bem, tranquila, em paz com quem era, como era e como me sentia acerca disso. Aparentemente, só o Rui Monteiro se importava com a minha diferença, gritando alto aquele "perna de pau" todos os intervalos, todos os dias, todos os anos lectivos. Eu fingia não me importar, nunca verbalizei o quanto acreditava que aquela maldade intencional é que me fazia diferente, aquelas palavras a ecoarem no intervalo, a entrarem nos ouvidos dos outros meninos em jeito de um: "reparem, reparem, ela tem botas ortopédicas e anda de forma diferente!".
Não era eu que me sentia diferente, era o Rui Monteiro que fazia questão que eu me sentisse. Não eram as minhas pernas encarceradas naquelas botas, magoadas pelos vincos dos aparelhos de ferro que me lembravam da minha diferença, era a voz cantada em jeito trocista daquele rapazinho, franzino e inseguro, que me usava como bode expiatório para desviar as atenções da sua gaguez, da sua dislexia, das suas dificuldades de aprendizagem, da sua própria diferença.
Passei os quatro primeiros anos de escola sem tocar num gelado "perna de pau".
Eu não tinha qualquer problema com a minha diferença, eu acreditava no poder da diversidade, eu era bem sucedida nas aulas, uma das melhores alunas da professora Emília, tinha a Joana e a Sofia para brincar nos recreios e o Bruno a dar sovas a todos os que não me queriam incluir a jogar "ao mata", Rui Monteiro incluído. Mas, ainda assim, havia dias em que me apetecia ficar em casa, aninhada no colo do meu avô, a comer o pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão da minha avó.
O problema nunca foi meu: era dele, do Rui Monteiro. Um dia percebi isso. Era Verão e estávamos nas férias grandes e na colónia de férias a Guida pediu-me que segurasse no seu gelado enquanto apertava os ténis. O Perna de Pau derretia e ela gritou-me que o impedisse: provei o gelado! Oh céus, o que andava a perder nos últimos 4 anos, eu, que era uma boa menina, que merecia coisas boas, era eu que perdia a alegria de ir para a escola, a deleite de comer perna de paus, a felicidade de crescer sem fantasmas. Era eu, que não tinha qualquer problema com a minha diferença, que estava a perder.
O Rui Monteiro lá continuava, cheio de problemas acerca das minhas pernas, a verbalizar isso com ofensas, a correr feliz no recreio, a jogar futebol, a assobiar no caminho para a escola, a comer perna de paus. Não era justo. Nesse dia, percebi isso.
Desejei regressar à escola rápido, mostrar que não fazia mal, que as minhas pernas não eram bonitas mas que andavam e me levavam para tantos sítios, que as minhas botas eram bastante mais feias que os sapatos de verniz da Cátia mas que, ainda assim, me permitiam dançar, que se a minha diferença não me afectava, não me condicionava, não era mais forte que eu, logo, nenhuma voz maldosa o poderia ser.
O Rui Monteiro avistou-me, naquele primeiro dia de aulas da quarta classe, "Perna de Pau! Perna de Pau!" Sorri, vitoriosa, olhando-o bem fundo nos olhos! Já não me sentia envergonhada, já não temia ouvir em voz alta o mimo, já não lhe dava qualquer poder sobre mim. Tinha 9 anos e foi, esse dia comum de escola, um dos mais importantes da minha vida.
Eu tinha provado o gelado. E nunca mais abriria mão de me deliciar em dias quentes de Verão com aquele sabor de nata e morango com aquela pequena folha de chocolate por cima só para desenjoar. Eu sabia quem era, assumia a minha diferença e escolhia viver bem com ela. Quando me chamou de perna de pau, nesse dia, senti-o como um elogio, de frescura e sabor: era a minha mente que mandava em mim, no que sentia, não a voz maldosa do Rui Monteiro.
Hoje, 25 anos depois, coordeno um projecto de combate ao bullying em crianças com deficiência e hoje, dia internacional da pessoa com deficiência, coordenei uma actividade com 100 crianças da mesma idade que eu e o Rui Monteiro tinhamos naquela altura, falei sobre diferenças mas, acima de tudo, sobre semelhanças, celebrei a diversidade e preconizei aquilo em que mais acredito: todos diferentes e não todos iguais: todos diferentes e ainda bem! Porque ser diferente é ser único e isso é o que torna, cada um de nós, especial.
Assumir quem somos sem medo de ser único e diferente e fazer disso uma bandeira, a bandeira da diversidade. A minha desenho-a de cor branca, encarnada e um bocadinho de castanho. Da cor dos pernas de paus que deixei por comer naqueles quase quatro anos da minha infância, da cor do perna de pau que a Guida me passou para a mão para eu lhe segurar enquanto apertava os atacadores, da cor das meias que calçava debaixo das botas, nos vincos que os aparelhos me causavam e do couro das botas ortopédicas que me ajudaram a que hoje corra o Mundo pelos meus próprios pés. A que viva, segura, condicionando a MINHA acção e a MINHA vida pela MINHA realidade, não pela opinião dos outros.
Obrigada, Rui Monteiro: não imaginas o quanto fizeste por mim!
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