quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Nem muitos, nem poucos: os suficientes.



Dei por mim a estabelecer como regra no instagram exactamente a mesma que firmei para as questões da minha amizade: nem muitos, nem poucos: os suficientes.

 Estabeleci um número que nunca ultrapasso de páginas a seguir: 500. Na amizade menos, infinitamente menos, sem número preciso mas talvez use como medida os dedos exactos da minha mão.

 As pessoas que sigo, como os amigos que guardo, merecem a minha atenção e tempo. Ora, toda a gente sabe que o tempo varia na proporção inversa da idade das pessoas porque é a mesma medida: quanto mais tempo se acumula nos ossos menos tempo externo se tem. Com a atenção varia na mesma proporção: quanto mais idade mais necessidade tem de se olhar a fundo, de não se dispersar, de perceber cada detalhe na pétala de um girassol, cada tonalidade de amarelo ao invés de um simples click num campo de girassóis para mostrarmos que “i’ve been there”. Estar é cada vez mais uma coisa demorada e lenta.

 Daí que desde que tenho instagram já tenha seguido e deixado de seguir dezenas de contas. Também tem que ver com fases da minha vida e necessidade de me inspirar: já deixei de seguir páginas de decoração nórdica, de maternidade perfeita, de minimalismo e organização pessoal. Não tem que ver com ter deixado de gostar ou não gostar das pessoas que as têm mas dos interesses que me despertam quem são, o que fazem e, especialmente, do que pensam e da forma como o transmitem. Inspiram-me cada vez mais pessoas serenas e que estão num processo contínuo de compreensão da vida, da arte, da música ou da poesia. Que serão talvez tudo a mesmíssima coisa.

 Às vezes procuro semelhanças: coloco um hashtag com um assunto ou pessoa que me interesse e começo a seguir quem fala sobre esse tema, na expectativa de encontrar mais pontas soltas que nos unam, de aprender coisas novas da vida. Percebo e não levo a peito quem deixa de seguir a minha pagina e no fundo só desejo mesmo que 500 pessoas me sigam com o mesmo tempo e atenção com que sigo as minhas 500. Pontas soltas ao quadrado. 

 Na vida como no instagram é preciso tempo e atenção para encontrar almas que se interessem pela vida da mesma forma que nós. 

 Aos quase quarenta, na vida já não dá para ver bonecos.

sábado, 24 de agosto de 2019

Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)




Só há uma forma de amar: cuidando.

 Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.

 E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.

 E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.

 Só há uma forma de amar: cuidando.

 A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.

E juntei-me a eles no refrão. 

 “Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Uma espécie de Oásis (Cueva del Gato)


Já estávamos cansados e já tínhamos 17 Pueblos Blancos no passaporte das nossas memórias.

 Já tínhamos muitos quilómetros de alcatrão acumulados, muitas montanhas com sol a nascer e a pôr-se decoradas nas retinas, muitas aldeias e vilas feitas noivas, alvas, brancas e puras cravadas em tudo o que vivemos, como se tivéssemos apanhado 17 bouquets sucessivamente que nos dessem acesso ao novo Pueblo, que fôssemos os próximos a que os barqueiros de lagoas, rios, ribeiras e barragens deixassem passar.

 Já tínhamos jamon, tapas em restaurantes e esplanadas, tintos de verano em varandas de hotéis e pensões em noites a dois enquanto a Ana já dormia, já tínhamos granizados, pão estrafegado em tomate, gaspacho frio, queijos e azeitonas compradas à beira da estrada e um desprezo enorme pela dieta durante todo o trilho.

 Já tínhamos o calor da cidade, o borrifar dos aspersores nas ruas de Mérida e o fresco de tantas fontes e fontanelas tatuados na pele. Já tínhamos o cheiro aos olivais e às árvores da serra, ao pó da terra árida e às dezenas de pássaros que voavam conosco sob o mesmo céu, abutres até. Já tínhamos casas brancas, azuis e a memória de uma cor terracota que marcou toda a viagem como os abanicos encarnados com bolas porque os clichês são para se perpetuarem.

 Já tínhamos a Carolina Deslandes, o Jorge Palma e a Luísa Sobral mais o Sérgio Godinho e a Mariza a tocarem na pen do carro e o Despacito na Radiolé e outras estações espanholas com ritmos de verão, pelo menos para nós. Já tínhamos noites estreladas em vales profundos e noites dormidas os três em camas apertadas e manhãs de lutas de almofadas só porque sim.

Faltáva-nos um oásis, daqueles à filme, um presente fresco numa longa travessia num deserto que não é metafórico, pois há muito que não nos sentíamos tão selva.

 Encontrámo-lo, perdidos na serra de Grazalema, e mergulhámos, enfim, nas águas geladas da Cueva del Gato.

 Podem googlar mas o Google nunca vos conseguirá explicar isto assim.

 Isto assim.

Na aldeia azul (Júzcar)


O GPS tinha-nos enganado.

 Nós não stressamos com imprevistos e até sabemos que é dos enganos que muitas vezes se chega a sítios inesperados e ainda melhores. Mas estávamos num trilho terrível, curvas e contra curvas, numa serra que não conhecíamos e num caminho de terra demasiado estreito para o nosso carro com penhascos lá em baixo.

 A Ana cantarolava lá atrás no banco, completamente alheia ao perigo que corríamos. Eu estava em pânico, a ansiedade no pico máximo, com arritmia e completamente descontrolada. Queria parar, voltar a pé, sair do carro e gritar, chorar, ligar para o 112 e pedir socorro, ai que se vem um carro de frente e nós não temos qualquer visibilidade, embatemos, caímos no penhasco e morremos. A Ana continuava a tagarelar, eu estava perdida em orações e a pensar que estava a segundos de ter a primeira crise de ansiedade da minha vida e não podia. Não podia mostrar descontrolo à minha filha, não podia entrar em pânico, tinha que permanecer segura e aparentemente sob controlo. 

Olhei para ele, ali ao lado, pálido e calado, com os maxilares tensos, a transpirar por todos os poros, corpo rígido. Ele estava a conduzir-nos, tinha a vida de nós os três nas mãos, não dizia nada. Não podia mostrar desconfiança na condução do meu marido, tinha que me manter optimista e controlada, tinha que o ajudar a tirar-nos dali.

 Então, respirei fundo-muito fundo- e fui buscar energia, serenidade e gestão das emoções à menina que ficava, aos 5 anos, internada no hospital meses seguidos, a sentir-se sozinha e perdida quando acabava a hora da visita e a minha mãe tinha que sair e a noite chegava e eu só me podia valer a mim mesma. Eu ainda sou essa Liliana, progressivamente segura e controlada, racional e objectiva: tens que ficar, é para teu bem, isto vai passar, não tarda muito tens alta e vais para casa. 

Abri os olhos e comecei a falar com ele: este caminho vai acabar, não sabemos daqui a quanto tempo, mas vai acabar, vamos com calma, somos uma equipa, buzina duas vezes em cada aproximar de curva para que nos ouçam, está quase, vai correr bem. 

Correu. Chegámos à aldeia azul da cor dos olhos deles. Vivos, unos, equipa. Família. Respirei fundo, enfim

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

[ Um grão infinito de mil bocados do Mundo]



Durante muito tempo fui bairrista, regionalista, quase ruista que toda a gente sabe que a minha rua é a mais bonita do Mundo só porque é a minha. 

Nasci em Cascais, mas sou Minho nas raízes, Poiares, Barcelos e Ponte de Lima a palpitarem-me nas veias, sangue do Norte galopante como o ritmo dos acordeãos e dos cavaquinhos. Sou de Aveiro por adopção de verões inteiros a ver os toiros arrastarem as redes de peixe na Vagueira e ovos moles comidos à colherada com vista para as casas piratas da Costa Nova. E sou Açores por afinidade, sou caldeira de Santo Cristo por amor, a Horta por paixão e Ponta Delgada e o pico do Pico porque os afectos de quem nos quer e trata bem passam a fazer parte de nós.

Eu sabia que o meu amor por uma terra que constrói de forma sólida a minha essência encontrava-se entre esta quadratura: Cascais, Minho, Aveiro e Açores, azul e verde na minha alma.

Mas depois cresci e quis mostrar o Mundo à Ana e passámos a ser os caretos de Podence e Trás-os-Montes com danças celtas e nós a pular à volta da fogueira a queimar o Judas. E passámos a ser o Porto e um bairro que habitámos e continua a fazer parte de nós, Francelos e o senhor da Pedra como fundo de gargalhadas bebés. E passámos a ser a Cúria colorida como o papel de parede do Hotel do Parque e barcos a remos e nós lá dentro a sorrir. E passámos a ser Marvão e um picnic sob um tecto de estrelas no castelo nós a rodopiar sob a lua. E passámos a ser Fátima da fé e da renovação de votos de casados como um roteiro de esperança que também se renova. E passámos a ser Tomar porque sim. E passámos a ser o Algarve da casa da meia lua, da prova de amizade sincera, de Cacela velha e corpos bezuntados de areia e pele a saber a sal. 

Talvez deixemos de ser tanto uma ou duas terras e nos vendamos ao Mundo. Talvez deixemos de ter a essência apurada e passemos a ser uma caldeação de sítios que tatuamos nas memórias mas acredito agora no poder libertador de se estar espalhado por tantos sítios e sermos o melhor de cada um deles: um grão infinito de mil bocados do Mundo. 

Sejamos.]

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Road trip -dia 5 (Pueblos Blancos)



Há dois anos planeámos fazer esta viagem: perdermo-nos pelo sul de Espanha na rota dos Pueblos Blancos, pequenas aldeias, lugares e vilas em redor da serra de Cadiz e da serra de Grazalema com povo Serrano e casas brancas, esconderijos secretos, pedaços de história guardados, gastronomia caseira, longe do rebuliço, numa viagem de aventura a três.

 Teria acontecido no ano passado se eu não tivesse ficado doente, depois na penúria e em convalescença e por fim não tivéssemos rumado aos Açores, onde fazíamos falta. A Ana teria seis anos acabados de fazer e seria uma viagem marcante para assinalar esse marco, antes da entrada na escola primária.

 Mas a vida trocou-nos as voltas e mesmo que eu não tivesse estado na penúria, mesmo que os Açores não nos tivessem chamado, a verdadeira questão é que as minhas pernas e o meu corpo nunca me teriam permitido ser andarilho com a minha família por aqui. 

 Este ano, a Ana já tem sete anos, já lê sozinha no banco traseiro do carro e já nos ajudou a fazer o mealheiro durante todo o ano para estas férias. Eu já consigo andar mais de um km seguido, já lhe consigo pegar ao colo encaixando-a na anca quando os seus pés estão cansados e precisa de mimo, já consigo nadar nos rios, piscinas e mar sem me cansar à quinta braçada, já lhe consigo ensinar flamenco improvisado e dançar de forma atabalhoada com ela pelas Calles e já percebi - relembrei-me à força de não a ter- que saúde é tudo.

 É tudo e este ano, por estar rica de pés, pernas, anca e coxas, por conseguir novamente andar, correr, saltar, nadar, subir, descer e dançar- por tudo isto!- é altura de comemorarmos estarmos vivos e com corpos a funcionarem bem e realizarmos os nossos desejos.

 O nosso era o de explorarmos os Pueblos Blancos e tornou-se, sempre a tempo, numa maravilhosa e “preciosa” realidade.

 Olá Pueblos Blancos: vamos criar memórias felizes?!

domingo, 18 de agosto de 2019

Road trip - dia 3 e 4 (Sevilha)



De Sevilha muitas aprendizagens pela primeira vez: aprender que os adultos também precisam de colo e o importante que foi dormirmos os três naquela noite em que recebemos a notícia triste da partida da tia Ascensão, aprender que a tristeza pode ficar aninhada a um canto da alma e a vida prosseguir e sem culpas, sem cobranças sem remorsos porque a vida é de quem a vive, aprender que poucas coisas fazem mais feliz uma criança que lhe permitirmos experimentar ser quem quer ser mesmo que para isso baste um vestido às bolas, um leque e uns sapatos de salto, aprender que a fantasia não pode ficar refém do Carnaval e que o jogo simbólico é das aquisições mais mágicas da infância, aprender que basta passar uma fronteira para ser normal partilhar comida do mesmo prato e que as tapas não são apenas comida mas especialmente amor partilhado, aprender que remar de barco parece fácil mas que só lhe sobrevivemos com bom ritmo, inteligência, estratégia e trabalho em equipa como afinal acontece com quase tudo na vida, aprender que viajar em família só tem sentido se respeitarmos os gostos, vontades, desejos, ritmos e características de cada um e que ceder para ver o outro feliz não é chato mas apenas uma oportunidade de dele ficarmos mais próximo, aprender que as melhores viagens não têm horários nem rotinas e que férias são para se irem vivendo devagarinho e sem planos, enganando-nos no caminho para nos surpreendermos com a surpresa do desconhecido e do jamais planeado. 

 De Sevilha aprendemos que os três somos os melhores companheiros de viagem uns dos outros, a dizer “olé” acentuando na tónica certa e que abanicos de 3 euros podem fazer-nos ainda mais felizes.

Óle.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Road trip- pausa a meio do dia 2 (Sevilha)




Sou uma inconsequente e ensinei a música do genérico “Juego de la Oca” à minha filha, que a canta em looping e isto se fosse mesmo como nos anos 90 eu dava o cabelo ao manifesto no barbeiro aqui do burgo só para ela se calar.


 Socoooooorrrrrooo!

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Road trip - dia 1 (Mérida)



De Mérida a procura em vão de referências à princesa da Disney com o mesmo nome.


 De Mérida little Roma ao virar de muitas esquinas, as primeiras palavras em castelhano da Ana, calor que nos abraça e nos sufoca, abanicos às bolas porque muitas vezes os clichés são sempre as melhores ideias. 

De Mérida tinto de verano em salas climatizadas, o primeiro gazpacho da Ana, pontes romanas, a procura da próxima loja com ar condicionado, o templo de Diana, o circo romano, o museu, a lembrança que trazíamos no carro o borrifador que usamos para engomar roupa e, a partir daí, a diversão completa pelas ruas quentes e boas, boas e quentes. “E se andássemos no comboio e visitássemos os monumentos todos à turista?” e logo a seguir Mérida vista do amarelinho, o aqueduto dos milagres, o teatro romano, a ponte romana a dar-nos o tom da metáfora, pássaros em voos picados no céu.

 Mérida que acolhia os veteranos romanos depois de muitas lutas e batalhas na pele (para nós também), Mérida cidade de compensação, Mérida no coração.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Road trip- dia 0



Saímos depois de almoço: uma mala de roupa para cada um, um saco com os sapatos de todos e uma mochila de higiene. Um cesto com comida e bebidas, uma mochila para cada um com termos cheios de bebida. Uma pen com música que a minha mãe gravou ao gosto de cada um de nós, uma almofada de pescoço para a Ana e ála.


Acreditamos que aos sete anos podemos partir numa aventura no asfalto: temos uma rota definida, reservas de dormidas para os primeiros três dias (depois logo se vê quanto tempo queremos ficar em cada sítio que não gostamos de coisas muito rígidas), duas máquinas fotográficas para mim e a Ana, um diário de viagem para a Ana e papéis e aguarelas para o Rui, este instagram para mim. Aos sete anos vamos celebrar a descoberta, a emoção do desconhecido, a imprevisibilidade da vida e a família.


 A união merecida sem horários rígidos, compromissos, stress e afazeres: a liberdade.

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Aos 9 de Agosto de 2019, à Ana por ocasião do seu 7º aniversário



Há sete anos não dormi ansiosa por tu chegares. 

Esperei-te como quem espera todas as estações do ano: esperei-te como quem espera a primeira flor de cera no vaso lá fora que só brota uma flor por ano, esperei-te como quem espera o primeiro dia de praia com o mergulho silenciado por outono, inverno e primavera e o sabor do sal a abraçar-nos a pele, esperei-te como quem espera o primeiro chá quente e scones a sair do forno em tardes de vento e chuva, esperei-te como quem espera a meia noite da véspera de Natal. 

Esperei-te, Ana, como quem espera o amor completo. 

Ontem, depois de quase uma semana de ausência, depois de reclamares a atenção que é tua por direito, depois de pedires colo, beijos e abraços, cafuné e chamego, depois de empurrares cadeiras de rodas, ajudares a transportar tabuleiros no refeitório, de brincares sentada no chão porque se eles não podem usar as pernas tu também não queres usar, depois de teres abraçado a menina que caiu, depois de teres ajudado a pentear outras meninas mais velhas que tu e ajudares a calçar o menino que teve um surto, achei que te tratávamos como uma adulta. 

Olhei-te de fora e vi-te, crescida e madura como as primeiras cerejas, os primeiros figos de setembro, os dióspiros mais melosos e as laranjas mais sumarentas. E chamei-te, culpada por esperar tanto de ti e abracei-te, era meia noite e estavas de vassoura a varrer a sala de formação: “Parabéns, meu amor! Desculpa não nos temos conseguido despachar mais cedo! Desculpa não estares ainda a dormir! Amanhã o dia é só para ti!”.

 E tu, cansada e ansiosa por virmos passar este dia a casa, abraçaste-me: “não faz mal, mãe: eu gosto muito de te ajudar a ajudar os meninos da colónia!” 

Esperei-te há sete anos e admirei-te em todo o esplendor de uma natureza completa como nesta noite de vassoura nas mãos e a doçura de todas as frutas maduras no coração. 

Esperei-te há sete anos como quem espera o amor. Obrigada por mo trazeres inteiro e completo. 

Sete anos, Ana. 

Há sete anos saiu-me o sete no Totoloto: és o meu jackpot. 

Parabéns, meu amor!

sábado, 3 de agosto de 2019

Não exijo nada menos que uma tatuagem a dizer "Amor de mãe" quando ela for adulta

Há meses que a Ana insiste em que este ano seja eu que faça o seu bolo de aniversário.

 São duas de amanhã e ainda não fiz malas para levar para o campo de treino que começa esta manhã e que me obrigará a estar uma semana ausente de casa mas fiz o ensaio geral do bendito bolo.





Que o Santo Buddy Valastro me proteja!


domingo, 21 de julho de 2019

Tenho que dar um nome à minha bicla



Pedalei com mais força e deixei a Ana para trás, certa que o pai lhe deitava um olho. 

Deixei de os ouvir, ganhei balanço, passei por cima de calhaus grandes e achei que ia cair umas duas ou três vezes. Não parei. A regra foi-me ensinada no Alcoitão, de cada vez que fazia uma cirurgia ortopédica e lá ficava para reabilitação para reaprender a andar: ganha-se balanço e segue-se em frente, nunca se pára com medo de cair, é a coragem do balanço e a determinação de avançar que faz que não se caia. 

Se se cair, paciência, a voz da Dra. Beatriz : “se cair, levanta-se, ora essa. Levanta-se, ganha balanço e põe-se a andar”. 

De repente, fecho os olhos e continuo a pedalar: o vento na minha cara, a velocidade do ar contra o meu corpo a furar o espaço e a memória do meu avô que punha molas nas “perneiras” das calças para elas não se emaranharem na corrente da bicicleta velha e eu atrás à boleia, com a mochila às costas a caminho do liceu. 

O meu avô nunca me deixava ao portão, achava que eu tinha vergonha de ir na boleia da bicicleta velha guiada por um velho com molas a prenderem as calças e houve uma altura em que era capaz de ter, naquela altura em que todas as adolescentes querem ser cool, mas depois eu cresci e um dia, já no secundário, perguntei-lhe se me deixava mesmo ao portão, ele parou e olhou para trás “não tens vergonha que os teus amigos gozem contigo?” E eu disse que não, que tinha orgulho que ele me levasse na sua bicicleta porque me queria poupar as pernas e os pés fracos e sempre cansados mais o peso da mochila e o meu avô fez como eu no Alcoitao e tomou balanço e avançou, pedalando com muita força, e eu fechei os olhos e senti-me como hoje, e se caísse tudo bem, ele estava lá para me levantar. 

Hoje não está mas eu já não tenho medo e sei que se sacode as mãos, ganha-se balanço e avança-se. 

Nunca há outra opção senão avançar.

terça-feira, 16 de julho de 2019

O último dos 30



Este é o meu último post dos 38 anos.

Foi um ano bom e mau. Foi um ano que começou com a recuperação de meses de doença e esperança e fé e brindes à saúde e que acabou com dois nódulos vistos numa ecografia de rotina e uma semana calada e circunspecta cheia de medo e de superstição e de um aviso para repetir exames em menos de seis meses. Foi um ano que começou com Açores e muita água salgada que diz que afasta más energias e muitas fajãs e lagoas e mar a regar os ossos e as carnes e que acaba com trabalho árduo na zona J de Chelas, o caminho da segunda circular todos os dias para lá e para cá a matutar no desafio de financiar um campo de treino que a menos de quinze dias de começar ainda não está cem por cento financiado. Foi um ano que começou com a miúda entusiasmada a iniciar o primeiro ciclo e a ansiar conhecer a professora nova e acaba com a miúda exausta a precisar urgentemente de férias longe com os pais só para ela. Foi um ano em que a relação começou assente na conjugalidade emocional e acaba com a conjugalidade prática do dia-a-dia a esmagar-nos. Foi um ano que teve Roma intensa, romântica, cheia de vida e gente e detalhes e acaba a precisar de um tempo fora sem nada para fazer e pulseira tudo incluído. Foi um ano que começou de cabelo comprido e loiro e acaba de cabelo curto e escurecido. Foi um ano que começou sem vontade de escrever e acaba com vontade de escrever trinta livros. Foi um ano de regresso ao Minho e às origens, as memórias e introspecção e que agora quer focar-se no destino e no futuro, nos projectos, planos e concretizações. 

Foi um ano que começou no período fértil e acaba com TPM e isto, parecendo que não, representa muito bem os meus 38 anos. Assim como a vida. 

Venham amanhã- para fechar com chave de ouro os sobrevalorizados 30- os 39.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Quais as vossaas melhores memórias de Verão de infância?



Acabava a escola e eu chegava a casa. A primeira coisa a fazer, nessa tarde do último dia de aulas, eram os trabalhos de casa. Todos. De enfiada. E eram muitos.
Quando não havia tempo útil para os terminar, completava a tarefa no dia seguinte. Era a minha forma de me ver livre das tarefas escolares até Setembro. A minha mãe educou-me para não gostar de tarefas chatas pendentes.
A seguir era a rainha do quintal.
Tínhamos um baloiço grande de jardim e eu sentava-me a ler nos finais da manhã, as gémeas no colégio de santa Clara e no das Quatro Torres eram minhas companheiras de aventura e cheguei a desejar ir viver num internato.
Depois a minha avó chamava-me para ir almoçar, não sem antes esperarmos pelo meu avô ao portão, para se juntar a nós. O meu avô cortava-me os bifes, esmagava-me as batas com o peixe e regava tudo com azeite e vinagre e não me ralhava quando eu fazia bolhinhas no sumo com a palhinha. A minha avó ria-se, mas era às escondidas.
À tarde ir brincar com a Cláudia e a Rita à cirumba, eu não era boa a correr, as botas com aparelhos estorvavam as asas da minha cabeça e agrilhoavam-me as pernas mas elas não se importavam. Muitas vezes jogávamos ao elástico ou ao sete com uma bola de ténis contra uma parede. Às vezes a avó Maria, a avó da Cláudia, chamava-nos para lanchar pão com o melhor doce de tomate de que tenho memória. Outras voltávamos a perder-nos no quintal, a fingir quer fazíamos bolinhos, com farinha e água da mangueira e ríamos muito. Vivíamos no tempo em que havia estações do ano e o Verão era mesmo Verão.
Às vezes, aos fins-de-semana íamos à praia da Conceição e andava de gaivota com as minhas primas que, Agosto após Agosto, vinham de avião visitar-nos.
À noite, pelo menos uma vez em cada Verão, ia nas cavalitas do meu pai até à Feira de Artesanato do Estoril e a minha mãe pedia sempre a uma fotógrafa que lá andava para me tirar uma fotografia que depois imprimia a preto e branco e que registava a minha evolução, Verão após Verão.
Os Verões felizes da nossa meninice servem para plantar memórias e sementes boas que nos preparam para os outonos e invernos da idade adulta e não só nos ajudam a estruturar: constroem-nos cheios de flores e de sol.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Ana, a geógrafa

A jogar ao stop electrónico com a Ana e sai a categoria “rios ou lagos” e a máquina ordena “letra joooota”. Eu e o pai ficamos num impasse a pensar e a Ana dá uma traulitada no botão e responde muito assertivamente: 


“Duuuh! Janeiro: Rio de Janeiro!”

segunda-feira, 1 de julho de 2019

I want to ride my bike

Tenho 38 anos, quase 39. 

Passei a minha vida toda em crises existenciais: primeiro porque era diferente, depois porque queria muito andar de bicicleta sem rodinhas e as botas ortopédicas estorvavam, depois porque as borbulhas não passavam com clerasil, depois porque não sabia que área de estudo escolher, depois porque não tinha a certeza do que queria ser quando fosse adulta e a hora para universidade estava à porta, depois porque não arranjava emprego, depois porque arranjei e era a recibos verdes e não tinha estabilidade nem contrato de trabalho para pedir um empréstimo habitação ao banco, depois porque veio a pré-crise e a primeira empresa onde trabalhei declarou insolvência, depois separei-me no mesmo ano em que o meu avô morreu, depois tinha medo de pedir um empréstimo habitação e a crise e o camandro, depois a segunda empresa despediu-me grávida depois de me reconciliar, depois tive um aborto, depois trabalhei numa empresa que me dava um salário fixe ao fim do mês mas em que me sentia miserável, depois a minha avó morreu e tive uma gravidez de alto risco, depois veio o Passos Coelho, depois assaltaram-me a casa, depois fomos morar numa casa péssima arrendada, depois passei a trabalhar outra vez a recibos verdes e- quarailho!- já tinha dado para esse peditório e o que me levavam em impostos fazia-me chorar literalmente cada final de trimestre, depois comprei casa e uma hipoteca para a vida, depois fiquei gravemente doente, depois passei a trabalhar na associação onde me sinto realizada mas onde as condições não são fixes, depois perguntam-me se não vou mesmo ter segundo filho que os 40 estão à porta e a vida tem prazo de validade e eu continuo a não saber exactamente o que quero ser quando for grande e, de repente, já sou grande. Tenho quase 39 anos e à parte de ainda ter borbulhas que nenhum clerasil resolve e precisar definitivamente de arrumar a minha vida profissional num sítio com salário digno e onde possa fazer o que sei fazer bem (independentemente da área que segui e do título profissional que ganhei), tudo o que eu preciso no meu aniversário é de uma bicicleta. 

Com cestinho à frente e uma campaínha para não ser preciso desatar a praguejar.

domingo, 30 de junho de 2019

Ana, a empreendedora

A Ana e a melhor amiga andam há duas semanas a preparar este dia: foram apanhar limões ao limoeiro da minha tia, juntaram dinheiro para comprar açúcar, copos e ainda fizeram dois bolos. Montaram a sua primeira banca de limonada e estão na rua mas até agora zero clientes.

 Está uma ventania desgraçada e nada de calor. 

 A ver se chegam a alguma conclusão

sexta-feira, 21 de junho de 2019

21 de Junho: solestício de Verão



Ando a escrever um livro para a Ana, avô. ´

Já vai com muitas páginas e conta as histórias da nossa família para ela um dia ter certeza de que sangue e fibra é feita, de onde vem (de onde “bem”), que histórias a trouxeram até ao meu ventre, que adn moldou o seu carácter, espírito, coração.

 Reparei que muitas pessoas de cujas histórias lhe relato chegaram até mim em farrapos de momentos e cujas histórias de vida lhe resumo num parágrafo, dois se tanto. A tia Isaura que morreu com uma apendicite e que foi enterrada vestida de noiva de véu e flor de laranjeira depois do namorado confirmar que morria virgem e imaculada. A tia Maria que escondeu uma gravidez concebida no meio do milho e que foi mãe solteira para vergonha de toda a gente, sem nunca mais ter conhecido outro homem que não o cretino pai da filha que nunca a perfilhou. A tua mãe, minha bisavó Ana, que morreu queimada porque teve uma crise de epilepsia enquanto se aquecia à lareira. 

Decoramos e transmitimos de geração em geração as pessoas assim: por acontecimentos invulgares ou excepcionais, por feitos não normativos. Nunca resultam em mais de um parágrafo. 

No entanto, a ti avô, dedico várias páginas deste livro e tu eras tão normativo e previsível, tão certinho e normal e ainda assim o homem mais importante da minha história, luz e calor, referência securizante e óbvia, solstício de Verão na minha vida. 

A tua vida e o verão com que iluminou as nossas davam um livro cheio de amor, ternura, dedicação e bondade. Hoje fazes 89 anos. 

Continuas a fazer enquanto não fores apenas um parágrafo resumido na história dos teus descendentes futuros. F

azes 89 anos porque não és passado em mim, nunca me passarás, querido avô, presente de presença e presente de prenda, presente ao quadrado para sempre em mim. 

Parabéns!

quinta-feira, 30 de maio de 2019

Coração de mãe não tem intervalo.

Não há nada mais duro que educar um filho.

Nós partilhamos experiências com outros amigos pais, lemos livros, participamos em fóruns, uns até tiram cursos de ciências do comportamento (presente!) mas nada nos prepara para os desafios de ensinarmos a vida e guiarmos o destino dos nossos filhos.

Até sabemos a teoria, conhecemos estratégias mas depois os dias engolem-nos, os impulsos atropelam-nos e o stress é um cão descontrolado e damos por nós desorientados e impulsivos, emocionais e irracionais, instintivos e irreflectidos.

Eu ainda não me habituei a isto de ser adulta e muitas vezes apetece-me pedir “coooito!” nesta correria da vida, para parar o pensamento, descansar o coração, enrolar-me sobre mim mesma e esvaziar a mente e voltar ao tempo em que a decisão mais difícil dos meus dias era escolher a roupa que ia levar no dia seguinte para o liceu.

Cresci a correr e não me habituei ainda aos papéis sociais que desempenho e em tudo o que me tornei: mulher, trabalhadora, adulta, casada, mãe. Sou tantas coisas e ainda assim desapareceu tanto do meu eu, distribuído e repartido por tantos pedacinhos de mim.

 Hoje ela está triste. O pai está triste. Eu estou triste.

Educar é a tarefa mais dura dos meus dias e se eu tenho dias duros. ´

Coração de mãe não tem intervalo.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

Sobre liberdade no dia de hoje e fugindo um bocadinho além das questões patrióticas




Quando o Papa Francisco esteve em Marrocos foi homenageado com um espetáculo em que um muçulmano canta uma oração em árabe, um judia em hebreu e uma cristã canta a Ave Maria de Caccini. Ao fim, a mistura das vozes numa sintonia perfeita, relembrando que a liberdade religiosa é possível. 

Nada me parece mais perfeito para relembrar no dia de hoje. 

terça-feira, 23 de abril de 2019

Ana, a confiançuda

Mámen em reunião até tarde. Eu e Ana jantamos, tomamos banho e enroscamo-nos no sofa

Ouço uma vozinha; "E agora um drinkezinho. mamã?!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Anúncio do apocalipse

"Mãe quero falar-te sobre o meu aniversario."

" Xinapá, Ana, ainda falta muito : é só em Agosto. "

 “A pergunta é: Vais tu fazer o meu bolo de aniversário, não vais?

#fml

sábado, 13 de abril de 2019

Ana, a sismóloga

Entrei no quarto dela e estava um caos.

 Preparada para a repreender atiro: “Ana, que vem a ser isto?!” 

Apanhada, riposta: “Um simulacro?

terça-feira, 9 de abril de 2019

Quem define o que é preconceito terá que ser sempre o alvo deste

Começou no Carnaval: a mãe de uma pessoa para quem trabalho (gosto muito de ambas) queixava-se no facebook de que as pessoas estavam muito sensíveis a propósito dos comentários indignados e cheios de razão face a uma notícia de uma escola que tinha mascarado os seus alunos de negros, com peles pintadas, saias de palha e artefactos tribais. 

A senhora indignava-se e quando lhe expliquei sobre apropriação cultural recusou-se a aceitar os meus argumentos, contrapondo que agora se vê “racismo em tudo”. Falei-lhe de racismo flagrante e racismo subtil com toda a boa vontade. 

Continuava irredutível: que era uma forma de se mostrar a diversidade étnica e cultural, dizia a senhora e batia o pé. Contrapus para a realidade que eu e ela conhecemos: se numa escola decidissem mascarar os alunos de pessoas com deficiência, espetando-os em cadeiras de rodas ou dando-lhes canadianas, ela que é mãe de uma pessoa com deficiência, como se sentiria? Que era incomparável, que toda a vida nos mascarámos de chineses e indianos e qual era o mal. Eu continuava: porque não mascararem-se de pessoas com deficiência? Não era, pela mesma lógica, uma forma de sensibilização para a diversidade funcional? 

Às vezes as pessoas têm que se remeter à sua insignificância face a temas que não as melindram, sendo humildes o suficiente para respeitarem os assuntos que melindram outrem. Não interessa se a intenção é ou não racista (normalmente é, mesmo que velada e inconsciente, é muitas vezes racismo subtil e está tão enraizada que nem damos por ela...), a questão é que se ofende, se melindra, se tem impacto generalizado na população de negros: é racismo. Mesmo que não compreendamos. Não temos que compreender (quem não consegue compreender). Temos que ser humildes e aceitar. E pedir desculpas, retratando-nos. 

Isto a propósito do boneco negro que hoje jazia no iscte para gestão da raiva. “Ah, o boneco podia ser Branco”. Ah, mas não era. “Ah, mas é irrelevante, para o efeito, até podia ter sido um saco de boxe”. Mas não foi. “Ah, é apenas um ser inanimado de uma cor”. Pois mas a cor não é laranja ou roxo: representa uma figura humana negra. “Ah vocês vêem racismo em tudo!” Não está centrado no sujeito, isto do racismo, mas no objecto.

 Nós podemos vê-lo ou não, desde que eles o sintam: é racismo. 

Tal como seria discriminação se o boneco, de todos os bonecos que se pudessem ter escolhido para o efeito, estivesse sentado numa cadeira de rodas. 

Aceitem. 

Retratem-se.

domingo, 7 de abril de 2019

Português quadripolar

Gosto de viver em Portugal porque todos os outros lugares são estrangeiros e estranhos.

 Com isto não quero dizer que não goste dos outros países, à excepção que eles não são casa, não têm uma caixa multibanco a cada esquina e estão carregados de estímulos, novidades e coisas para serem descobertas que se tornam cansativas porque não são conhecidas e dominadas. 

Aquela brincadeira de sair da nossa zona do conforto é muito engraçada, mas assim que estamos desconfortáveis, estranhos ou estrangeiros, não procuramos outra coisa senão sentirmo-nos em casa. 

O mundo é capaz de se dividir entre quem desfaz a mala de viagem nos quartos de hotel e pendura a roupa que traz no guarda-roupa bem como coloca livros em cima das estranhas mesas de cabeceira e os outros. 

O pior de ser português é o ritmo do cinema, a má condução, as adaptações dos reality shows e os comentadores dos jornais online. O melhor de ser português é, à parte do café, o ser bairrista seja dentro do nosso bairro quando estamos a ver as marchas populares, seja a defender a nossa cidade quando temos jogos de futebol ou seja a assumirmo-nos portugueses buzinando a cada camião que passa com uma bandeirinha portuguesa no espelho dianteiro quando viajamos de carro pela Europa. 

Nós gostamos muito de pertencer aqui e como uma mãe relativamente a um filho, gostamos muito de nos queixar do nosso país mas ai de quem não seja daqui ou venha de fora e diga mal dele.

 Meu rico Portugal: quanto mais conheço os outros, mais gosto de ti. 

Somos portugueses em muitas coisas mas as mais importantes são este bairrismo e a paixão pela comida, seja ela de que província for, nisso estamos unificados, não há nenhum lado no Mundo onde se coma melhor que em Portugal. 

E não tem que ver só com a comida, mas com o sol que ilumina a esplanada, o som do mar aos nossos pés, os miúdos a correrem à volta da mesa em segurança, o cheiro a maresia e aos primeiros cremes protectores e o bitoque até pode ser uma merda. 

Tanto nos dá: haja pão para molharmos na gema do ovo estrelado e uma cerveja geladinha e ficamos felizes. 

Sabem aquela coisa da “felicidade está nas pequenas coisas”? Foram os portugueses que o descobriram.

Eu também.

quarta-feira, 27 de março de 2019

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Ana, a mercenária

Estamos a caminho da consulta com o pediatra e reparo que carrega a pasta com as receitas do bolo de cenoura que anda a vender:

“Que é que foi? Pensavas que o Dr. Mário ia escapar-se a comprar-me uma?!”


...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Ana, a valente

A Ana veio trabalhar comigo no sábado. Estava chocha desde a véspera e quando lhe toquei ardia em febre. A tosse tinha dado lugar à febre e eu tinha a certeza que vinha aí a terceira amigdalite do último ano e arranquei para o hospital. 

Falo sempre com ela de igual para igual “Ana: és capaz de ter uma amigdalite e os bichos que moram na tua garganta têm que morrer de vez. “ Ela começou a chorar baixinho e a murmurar que não queria outra injecção de penincilina. 

Eu abracei-a e olhei-a nos olhos: ”se se confirmar a amigdalite e havendo a alternativa do antibiótico durante uma semana e no pressuposto que ficas boa de uma maneira ou de outra, tu podes decidir, Ana” 
Que decidirias tu, mãe?
 “A injeccao porque nunca tive medo de agulhas e porque sempre tive pressa de deixar de estar doente. Mas tu é que sabes de ti, Ana. Tu é que decides, mesmo. 

 E quando entrámos nas urgências o médico simpático fez uma zaragatoa e confirmou a amigdalite. 

“Agora vem a pergunta chata, mãe...” e eu pedi-lhe que perguntasse à Ana e ele olhou-me com desdém “por amor de Deus, mãe, a criança ainda não tem maturidade para decidir” e a Ana interrompeu-o e disse “a injeccao de penincilina!”

 E ele ficou com os olhos muito grandes de espanto e admiração. “Tem que ser para passar rápido! Dói muito mas é o melhor” e a enfermeira disse que nunca tinha visto nada assim, e o médico colou-lhe um autocolante na camisola e deu-lhe uma luva cheia a imitar um balão em forma de pica-pau e eu dei-lhe a mão enquanto ela chorava com a agulha a entrar-lhe na pele e no fim ela aterrou no meu colo quieta e cansada e deu-me um dos momentos mais orgulhosos da minha existência como mãe.

 Isto de ser mãe também dói muito e muitas vezes mas é sempre o melhor.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Desistir nem sempre é fracassar


A Ana falava das suas aulas de música no conservatório. Estava entusiasmada a falar desta nova linguagem que eu não domino: breve, semibreve, mínima, colcheia. Eu sorria, enternecida, quando a minha amiga que partilhava a conversa connosco acrescentou “Oh, Ana, tu começas tão entusiasmada nas actividades. Vê lá se desta vez não desistes!” 

E eu fiquei ali a pensar nessa conversa de toda uma vida que insiste, persiste e não desiste e esse filho da puta de otimismo tóxico que me enoja horrores de tu vais conseguir, só energia positiva e de insiste, persiste e não desiste. Eu não quero que a minha filha se sinta obrigada a não desistir.

Se o desporto a faz sentir frustrada, não lhe dá prazer, lhe baixa a auto-estima ela pode e deve desistir. E procurar outro onde se sinta confortável e feliz. Ou parar e não procurar nada.

Se escolher uma área académica no décimo ano que perceba que não é afinal a praia dela, em que tenha que aprender disciplinas que não lhe digam nada, que a orientem para um caminho que não é o que ela espera, que desista. Que volte atrás e recomece. Ou só que páre.

Se um dia tiver um trabalho em que se sinta miserável, em que não lhe apeteça levantar-se de manhã para ir trabalhar, então, que se foda e desista.

Se um dia tiver um namorado ou um marido que não a trate condignamente, que não preste, então que ganhe coragem e desista.

Desistir não é covardia. Desistir não é falhar. Desistir é decidir.

Decidir que chega, que não se quer, que se quer melhor ou apenas diferente. Decidir que se quer mudar. 

Decidir o curso da nossa vida.

Portanto se a Ana achar que as breves e semicolcheias não lhe dizem nada e que não respondem à sua curiosidade e à necessidade de conhecer e compreender o Mundo, então que desista. E recomece. Ou só pare. Pare apenas. Todas as vezes que for preciso.

O encanto da vida passa por começar, experimentar, desistir, recomeçar, continuar. Parar.

E decidir sempre com a alma e o coração. Com coragem e bravura. Mesmo que seja decidir que desiste. 

Que desista, pois então.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

No fim morremos todos

38 anos e sete meses menos dois dias.


Já penso na minha própria morte (durante mais de duas décadas não pensei nela), na minha mortalidade e finitude.



O futuro está sempre na sombra e no encalço do presente. Li um dia que somos velhos quando temos mais memórias que sonhos, mais recordações do que projectos e planos, mais lá atrás, caminhos e estradas velhos conhecidos que atalhos desconhecidos por explorar. Estou cheia de sonhos simples e concretizáveis e guardo com alfazema num canto do meu coração todas as memórias de afectos e amor. Tudo o resto não tem espaço em mim, nem o rancor nem o ódio, nem coisas tóxicas nem nada que não me tenha acrescentado. O meu coração tem apenas memória RAM para o passado bom e o futuro de paz e leveza, que é isso que espero enquanto for envelhecendo. Dizem aos mortos "que a terra te seja leve" mas eu acho que deviam dizer aos vivos que o ar lhes seja leve para que o pensamento, os sonhos e os planos voem livres como o vento. Um céu leve.



Deixei de saber só o que não quero e passei a ter uma clara noção do que quero. Quero a saúde minha e dos que amo, quero quem me quer bem por perto, a intimidade reservada para as gargalhadas de quem me ama na mesma proporção do que eu os amo. Quero reciprocidade e merecimento. Quero relações fáceis e simples, sem cobranças nem julgamentos,sem truques na manga nem agendas secretas,sem cerimônias nem formalidades.Quero ser eu,sem pensar no que dizem os outros. E quero só quem me quer assim, quem goste de mim como sou e não me queira, projecte ou fantasie diferente ou à sua medida. O meu molde é torto, único e nunca me conseguirei encaixar.



Quero sentar-me com as pernas à chinês no passeio se estiver cansada, não me importar com maneiras socialmente impostas, dizer vernáculos e rir alto, usar decotes e não fazer fretes e quando me disserem que já não tenho idade para isto, poder fazer um pirete e cagar-me para o facto da idade não me perdoar.



A vida não é um juiz do certo ou do errado, não traz reguada incorporada e no fim morremos todos. Quero fazer o que sempre fiz: o que me dá na real gana, o que me faz sentir-me fiel aos meus valores e leal às minhas crenças.



Quero morrer livre.Sempre livre

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A minha vontade sempre que alguém me pede uma bio

Liliana: ursa, palhaça, blogostar do borboto, influencer da Bobadela, unicórnia wanna be e artista da cassete pirata

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

O amor que fica



No outro dia, a propósito dos 20 anos de namoro com o Rui, perguntaram-me se eu acreditava em almas gêmeas. 
Não acredito. 

Amei 3 homens na vida: um demasiado platonicamente, um demasiado carnalmente e fiquei com o que amei na medida certa e no equilíbrio entre as duas margens. 

Poderia ter tido uma relação duradoura e feliz com qualquer um dos outros 2 com quem não fiquei, tivessem as circunstâncias e os tempos sido diferentes, e eu ter sido diferente nesses tempos. 

Não se esquecem os grandes amores: arrumam-se nas gavetas recônditas do coração, mete-se cheirinho de alfazema para prevenir maus cheiros e bolor, dobra-se bem dobrado e, em alguns casos, fez-se como com as toalhas de linho e embrulham-se em turcos antes de arrumar, para garantir que ficam acondicionados e preservados. Que não se estragam. Mesmo que saibamos que não os voltaremos a usar. 

Antes achava que não: que os amores passados eram roupa usada, velha, descartável. Mas depois o tempo passou e eu passei pelo tempo e vislumbrei claramente quem eram os amores da minha vida e o quanto lhes quereria bem para sempre, mesmo que já não os tivesse a eles nem eles a mim. 

O amor é uma sorte bestial para a qual não basta encontrar a pessoa certa: é preciso haver o timing das vidas, as circunstâncias do destino e a predisposição certa, porque o amor dá um trabalho danado! MEC escreveu “o amor é uma coisa, a vida é outra porque a vida dura a vida inteira, o amor não” e eu não acredito nisso nem nas almas gêmeas mas acredito que o amor pode durar uma vida inteira, mesmo que não resulte em relações ou em romance.

 O respeito pela pessoa que se amou, o carinho e o bem querer mesmo à distância, os sorrisos que involuntariamente esboçamos quando nos vêm memórias à cabeça e o bem que nos fez aquele amor cá dentro, no motor do coração, são sinais inequívocos que o amor não se esgota quando encontramos o nosso final feliz. 

Amei 3 homens na vida: um eu deixei, o outro deixou-me e fiquei com o terceiro. A vida corre: feliz. O amor a geminar não derruba o amor que já murchou e voltou à terra, fertilizando-a para alimentar melhor o amor que floresce. 

Não há almas gêmeas. 

Todo o amor fica mesmo que fiquemos num só amor.

domingo, 13 de janeiro de 2019

Porque hoje é dia 13...

Somos de datas simbólicas embora, na realidade, todos os meses, desde o primeiro, assinalamos o dia 13. Digo assinalamos porque nem sempre festejamos. 

Houve dias 13 de festa, claro, a maior parte deles, mas também houve de cansaço extremo, de chegar ao fim do dia de trabalho e de sermos engolidos pela rotina e só desejarmos feliz mesário já deitados na cama, antes de dormir. Houve dias 13 miúdos, de estudo, vésperas de frequências, de férias escolares dele nos Açores e minhas em Monte Gordo, de jantares de refeições macrobióticas na cantina velha da cidade universitária. Houve dias 13 dele sair tarde do café Chocolat em Cascais ou da Zara onde teve que trabalhar depois das aulas para pagar as propinas e a sobrevivência durante os últimos anos da faculdade . Houve dias 13 de desemprego, de trabalhos duros, de salários em atraso e de flores roubadas em quintais de vizinhos, de não sabermos como ia ser a nossa vida no mês seguinte. Houve dias 13 na primeira casa alugada e na segunda e um dia 13 numa casa vazia com um bebé de um mês no colo, olhos marejados, depois de nos assaltarem a casa e nos levarem tudo. Houve dias 13 sem dinheiro para o fim do mês e dias 13 de aumentos salariais e jantares em sítios que sempre sonhámos ir como o 100 maneiras. Houve dias 13 a guardar o segredo excitante de que tínhamos um bebé na barriga e o dia 13 de Agosto de 2012 em que passámos finalmente a ser 3 numa bolha de amor, pais: nós. Houve dias 13 separados, zangados, desiludidos um com o outro, apartados e sem sermos marido e mulher e dias 13 de reencontro e reconciliação. Houve dias 13 de aliança de namoro no dedo e depois aliança de casados e até sem aliança antes de tudo voltar a ser como é agora. Houve dias 13 na primeira casa comprada e a partilharmos uma hipoteca, dias 13 de luto e de dor de pessoas que fomos perdendo e dias 13 banais, de esparguete com carne guisada sem glamour porque a vida não é sempre purpurinas. Houve dias 13 em NYC num rooftop no dia em que comemorámos 13 anos e casámos os anos de namoro.

 E houve aquele dia 13 no terraço do bar do ISCTE em que ele me roubou um beijo e mudou os meus dias 13 para sempre. Venha o próximo. 

São 20 anos de dias 13. 
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