quarta-feira, 4 de março de 2020

A parábola que se transformou numa metáfora e a morte de uma das principais figuras de estilo

Há exactamente sete anos andava fascinada com esta história. Contei-a aqui mas posso voltar a resumi-la:

"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... e foi assim." 

  

Ulay morreu esta semana.

Dei por mim, triste e melancólica, a pensar em tudo o que poderia ter sido se se abraçassem e tivessem caminhado juntos na mesma direcção da Muralha da China. Teriam só conhecido uma margem- a mesma- os dois ao invés de cada um conhecer cada pedacinho do lado oposto. Teriam perdido Mundo? Teriam ganho Mundo?

Terá acontecido o mesmo com eles? Digo isto no sentido de acontecer de forma interna. Em que se tornaram no caminho individual? No que se poderiam ter tornado no plural?

O amor pode, não resistindo, persistir? E quando a vida e o amor são coisas diferentes? E todas as possibilidades que não passaram disso? E toda a história que se concretizou sobre uma não concretização?

Muitas vezes, o amor é uma coisa e a vida é outra e isso é, simultaneamente triste e belo de tão triste que é.  Uma contradição absolutamente estúpida. 

Ulay morreu esta semana e com ele morreu tudo o que poderia ter acontecido. 

terça-feira, 3 de março de 2020

Sistema de senhas prioritárias para o Coronovirus atribuídas a...


  • Pessoas que escrevem "-mos" em verbos conjugados na primeira pessoal do plural 
  • Pessoas que escrevem "estives-te" 
  • Pessoas que dizem "as alterações climáticas são uma treta, é tudo para ganhar dinheiro" e depois queixam-se que chove muito no verão ou que faz calor no inverno 
  • Machistas, racistas, xenófobos, fanáticos religiosos, políticos e clubisticos.
  • Pessoas que não distinguem o “à” do “há” 
  • Malta que cutuca no nosso braço enquanto falamos 
  • Pessoas que dizem "ha-des" e eles "idem"
  • Pessoas que dizem 'colocar' em vez de 'pôr' 
  • Pessoas que escrevem "fodasse" 
  • Gente que partilha imagens motivacionais da treta 
  • AVentesma
  • Pessoas que dizem ouvistes, falastes, Hades, Tufone, Pugrama... 
  • Pessoas que estacionam no lugar reservado a pessoas de mobilidade condicionada 
  • Homens que dizem “a minha Maria” quando se referem às mulheres 
  • Locutores de rádio super bem dispostos e felizes e a rir imenso logo às 8 da manhã. 
  • Malta que escreve "voçês" 
  • Toureiros e todos os que contribuem para isso 
  • Gente que diz "prontos" 
  • Pessoas que dizem “eu não sou racista mas"
  •  Pessoas que ainda têm jerricans cheios em casa
  • Fachos 
  • Mulheres que usam unhas de gel pontiagudas 
  • Terraplanistas 
  • Pessoas que começam a frase por "- Epá, estás mais gordo..." 
  • Pessoas que frequentaram a “universidade da vida” 
  • Pessoas que embarcam no medo e espalham rumores e fake news sem sequer tentar verificar idoneidade da informação 
  • Anti-vaxs
  •  Pessoas que lêem Pedro Chagas Freitas e Margarida Rebelo Pinto
  • Pessoas que usam 's como plural e desconhecem o uso do genitivo 
  •  Malta que diz sande e téni 
  • Pessoas que atendem o telemóvel durante espetáculos ou no cinema 
  •  Coachs da vida 
  •  Pessoas que mandam indirectas no Facebook 
  • Pessoas que tentam meter-se na frente dos outros na fila do supermercado 
  • Condutores de fim-de-semana 
  • Aquele youtuber que acabou com a namorada num vídeo 
  •  Homofóbicos e misóginos 
  • Pessoas que publicam fotos suas, acompanhadas de grandes pensamentos filosóficos (#sóquenão) e terminam os textos com "e mais não digo..." 
  • Os "arquitectos" que projectam WC públicos com menos de 1 m2, onde tens que encostar as pernas à sanita para conseguir entrar e fechar a porta! Ah!! E quem se lembra de instalar os sensores de luz, como se tivéssemos todos uma antena de meio metro na cabeça, para fazer aquilo disparar e não ficarmos de rabo para o ar a esbracejar! 
  • Homens que fazer mansplaining 
  • Pessoas que têm tanta pressa de entrar no elevador que bloqueiam a passagem de quem tem de sair para lhes dar lugar
  •  Gente de claques de futebol 
  • Pessoas que dizem "ele até diz umas verdades!" e esquecem as barbaridades políticas associadas 
  • Pessoas que compraram todas as máscaras e deixaram os imunodeprimidos a ver navios 
  • Quem diz "Amarei-te" e afins! 
  •  Epidemiologistas de sofá.

 (aceito mais sugestões na caixa de comentários)

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que usam o relógio no pulso direito e as outras.

Pertenço ao grupo de risco do coronovírus

Se quinar não me vão "atravessadas" na garganta as pessoas a quem não disse que amava nem as pessoas a quem me falta pedir desculpas: vão todas aquelas a quem não mandei para aquele sítio cabeludo.

Ana, a mercenária

Com toda a timidez que a caracteriza, a Ana tem uma característica improvável: adora trocas comerciais, é empreendedora e inventa sempre novas formas de ganhar dinheiro. Há uns tempos andou a vender receitas do seu fantástico bolo de cenoura, no Verão montou com a melhor amiga uma banca de limonada, já fez pulseiras de linha para vender às amigas e por aí fora. 

Vai que, recentemente, começou a separar, ela mesmo, as roupas e os brinquedos que já não usa e a vendê-los em segunda mão, estando- obviamente!- a juntar o dinheiro todo. 

No fim-de-semana, depois de ter açambarcado uma quantia simpática na Kid to Kid a vender roupa, virou-se para mim e para o pai, muito séria, e informou:

"Sabem, a minha palavra preferida no Mundo é... "dinheiro"!

O pai, a fingir-se ofendido: "Dinheiro? Tens a certeza?"

"Pronto, "dinheiro" e logo a seguir "grátis". Também gosto muito da palavra "grátis". 

Eu e o pai olhamos um para o outro, chocados e ela encaram-me:

"Não precisas de ficar com essa cara, que a minha terceira palavra preferida, logo a seguir a "dinheiro" e grátis", é "mãe", tá?

...

segunda-feira, 2 de março de 2020

Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização




"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...

De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD

Beijinhos quadripolares radioactivos

Ana C."


Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!

[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]

Despedidas à porta da escola: uma análise histórica da minha curta vida como mãe



No pré-escolar: 

Beijinhos, vá. Tem um bom dia, meu amor. Brinca muito. Porta-te bem. A mãe ama-te muito. 

No início da escola primária: 

Não dispas o casaco no recreio, ouviste? Toma atenção nas aulas! Não te esqueças da lancheira. Beijinhos, vá. A mãe ama-te muito.

Há dois meses:  

Não dispas o casaco no intervalo. Estás cheia de cieiro: não te esqueças de pôr o batom nos lábios. Come tudo o que vai na lancheira, ok? Muita atenção nas aulas, ouviste? Beijinhos, vá. A mãe ama-te muito. 

Há um mês:

A mãe ama-te muito, querida. Tem um dia feliz mas NÃO ENCOSTES A CABEÇA AOS MENINOS QUE ESTIVEREM A COÇAR MUITO O CABELO, OUVISTE? Beijinhos, tá?

Há uma semana:

A mãe ama-te muito MAS o coronovirus existe e estás proibida de dar abraços e beijinhos a quem quer que seja, ESTÁ BEM? 


The Secret Diary of Pólo Norte, Aged 39¾

Tens que fazer dieta que depois dos 40 não é fácil emagrecer. Se te desleixas ele arranja outra mais nova, que os homens a partir de uma certa idade, dá-lhes para isto. Não mudes de trabalho porque depois estás velha para encontrar um novo. Olha, que tens uma filha para criar. Não vais dar um irmão à miúda? Olha que é agora ou nunca! Já ouviste falar de menopausa precoce? Sabes que o útero tem um prazo de validade? Não pintes esses cabelos brancos não, que não é preciso. As tuas maminhas também já começam a acusar o peso da gravidade? Não podes comprar outra casa que já nenhum banco empresta dinheiro a trinta anos a pessoas de quarenta, né? Oh, uma pena ficares só por uma filha, que um não é nada mas também, ser mãe aos 40, só se fosse para seres avó da criança. Mudar de cidade? Nesta idade? Tu ganha juízo. Sabias que a outra fez uma plástica: podias seguir-lhe o exemplo. Credo, gabo-te a energia. Já não tens idade para usar esse decote. Não sejas tão impulsiva. Já não tens idade para dizeres palavrões que és uma senhora. Vais fazer uma festa de 40 anos com o tema dos anos 20? Podias usar uma maquilhagem básica para disfarçar essas manchas na pele. Já fizeste a mamografia? Já fizeste a ecografia mamária? Oh, tu também tens pés de galinha? Na tua idade é melhor assumires de vez o fato de banho, que já não tens corpo para bikini. Podias correr: na tua idade o que está a dar é fazer corridinhas. Ganha juízo e deixa-te estar como estás. Fazer uma tatuagem: olha para o que te havia de dar agora... Tens que ter mais pudor com o que escreves que não podes envergonhar a tua filha. Nem a tua mãe. O teu marido não se chateia que saias à noite com um amigo? Moderninhos, han? O Boom não é para gente da tua idade. Tu estima bem o teu marido que ele faz tudo em casa e homens desses não se arranja por aí. Estás gordinha, pá! Todas as tuas amigas estão na segunda ronda de bebés, tens a certeza que não? Uma corzinha nas unhas, vá, faz lá um esforço! Um gelinho? Bebe muita água que assim ficas sem fome. Fica tão feio uma senhora beber cerveja pela garrafa. Não percebo como não te interessas por moda. Estás a ficar uma simplória. Andas desleixada. Quanto é que te pesas, se não é indiscrição? Já não tens idade para falar de sexo assim, parece vulgar. Devias cuidar mais de ti. Como assim trocaste os recursos humanos por psicologia social? Queres ver que o dinheiro não te faz falta. Não tens saudade de ser bem sucedida? Vais ao revenge of the 80's? Estás gorda, já nem te conhecia. Já trocavas esses relógiozinhos da Swatsch por relógios de gente crescida, han? Como assim não és louca por malas e sapatos? Vais à neve? Tens a certeza que não vais mesmo dar um irmão à Ana? A melhor prenda que se pode dar a uma criança é um irmão. Ah, desculpa, se calhar não podes ter mais, não é? A tua vida é fantástica: não estragues tudo. As pessoas da tua idade... No teu tempo... Olha, quase, quase a entrar na ternura dos 40, han?


Ide-vos foder. 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Coração em tempos de cólera

O meu coração é um freguês do Lidl que passeia naqueles corredores centrais cheios de bugigangas à espera de aparecer uma quinquilharia que nunca me ocorreria que viesse a precisar mas que, a partir daquele momento, não consigo imaginar a minha vida sem tal inutilidade. E embora tenha tudo em casa, domine os sítios onde está tudo guardado, tenha moldado o sofá e as almofadas ao meu corpo e os tapetes e os chinelos aos meus pés deformados, o meu coração vai sempre lembrar-se que precisa de uma máquina de cortar pelos do nariz. Colorida, embora a cor não faça falta para nada e com certificação iso9001 e tudo.
Só que a verdade, verdadinha, é que eu nem sequer tenho pêlos no nariz.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ana, a maravilhosa introvertida



Sou extrovertida, animada, barulhenta, divertida e popular. Ocupo muito espaço nas relações (o que, na maioria das vezes, nem sequer é uma coisa boa), sou impulsiva, impaciente e hiperactiva, gosto de estar no centro das atenções e posso parecer “over” em tantas e tantas outras situações. Por outro lado sou a rainha das festas: conto piadas, distribuo temas de conversa, lanço os foguetes e apanho a cana. 
As pessoas sentem-se, geralmente, animadas na minha presença. Sou muito auto-confiante nas relações interpessoais e altamente empática. 

 Em todas as procuras de emprego, depois de passar a triagem curricular, safei-me sempre nas entrevistas presenciais, muito mais pelas minhas competências sociais do que pelas hard skills. Ser extrovertida abre muitas portas. O mundo está feito para os extrovertidos e se colocarmos uma conotação positiva/negativa nestes traços de personalidade, a extroversão será sempre encarada, no senso comum, como o o traço de personalidade positivo. As pessoas adoram os miúdos descarados e fala-baratos, os mais comunicativos e sem medo de se exporem, os que gostam de palco. Os miúdos extrovertidos arrancam gargalhadas, dão pica e conversa e fazem os adultos sentirem-se divertidos e felizes. 

 Daí que quando engravidei projectei a Ana assim, barulhenta, divertida e destrambelhada, ruidosa e sociável como eu. A Ana sempre foi uma bebé tranquila, chorava quando precisava de alguma coisa, aninhava-se no meu colo e ali aguentava muito tempo feliz e contemplativa e nunca gostou de andar de colo em colo- "ai que a menina estranha toda a gente!"- só no meu, do pai, da avó e da tia. Nunca foi uma miúda que sorrisse indiscriminadamente nem uma criança “dada”, e não fosse ser factualmente uma bebé Nestlé, não era uma bebé que apetecesse, que cativasse. 

 Um dia no colégio, tinha três anos, vi-a a brincar sozinha e inquiri a educadora: que aquele era um comportamento regular, que odiava ambientes de grupo confusos e de disputa, que não tinha paciência para negociar brinquedos e que não precisava da aprovação dos pares nem cedia à pressão social . Fiquei com o coração apertado, se me visse sozinha aos três anos na creche, sentir-me-ia perdida e abandonada e ai minha rica filha. 

 A timidez, ou a introversão como lhe chamo eu, não era na altura- como não continua a ser- um problema para a Ana. Custou-me a entender que o estar sozinha não acarreta qualquer sofrimento para a Ana e que não só não evita ,como procura, muitas vezes, ambientes tranquilos e recatados, onde se predispõe a criar, a brincar, a testar e a descobrir o Mundo, sem pressões externas, sem ritmos impostos pelos outros sem negociação.
A Ana não aprecia grandes grupos com muitas interações, não gosta de dispersar, privilegia ter uma amiga ou duas de referência e investe, aprofundadamente, nessas relações ao invés de dispersar tempo, atenção e energia em grupos com mais elementos. Também não gosta de conversas de circunstância, recusa desde sempre a dar beijos a estranhos (e nós nunca a obrigámos) e, se puder, não esboça mais que um sorriso quando se metem com ela. E metem-se muito, o que a incomoda grandemente.

 Ao princípio custou-me empatizar com a Ana e cai no erro de a empurrar para o comportamento esperado e socialmente desejável. Foi para mim durante muito tempo uma espécie de conflito interno, assente num receio inconsciente de que a Ana fosse diferente, se sentisse diferente e que isso lhe trouxesse sofrimento. Que, por ser tímida e reservada, a vida lhe fosse mais difícil. Com base neste medo quase caí no erro de achar que a Ana teria que gostar ou teria que se adaptar a uma maioria, para que não fosse excluída, marginalizada ou apenas desajustada ou inadaptada. Obrigá-la a interações sociais forçadas, insistir no “dá um aperto de mão ao senhor!”, “vai lá brincar com os meninos ali no parque infantil” e colocá-la em contextos desportivos ou artísticos que implicassem interação social: tentei de tudo. 

A Ana continuava a não se sentir confortável. 

A pôr-se debaixo do meu sovaco de cada vez que se queria ver livre de uma situação indesejável, a olhar para o chão e a emburrar. E eu a repreendê-la, quando ficávamos sozinhas, e a instruí-la sobre normas sociais com estranhos que nunca mais veríamos, pessoas com que nos cruzamos mas com quem só temos micro-interações, dizer-lhe que tinha que ser mais simpática.
E a pensar que as pessoas- todas- a achariam mal educada e no fundo era “about me”: uma mãe incompetente que não obriga a filha a ser cativante e fofinha e, por isso, querida e gostada por todos. Popular e cativante. 

 E um dia caiu-me a moeda: eu estava a dar sinais, inconscientes, à minha filha de seis anos, de que tinha deixar de ser ela, de ser como é, para corresponder às expectativas dos outros. Dos outros que não nos interessam grande coisa porque, para os que ela ama e verdadeiramente lhe importam, o comportamento é sempre de profunda proximidade e amor dedicado. Que era mais importante os outros, os estranhos, elogiarem a sua simpatia e validarem em como era um amor de criança do que a fazer sentir-se confortável.
 Quarailho, estava a privilegiar as expectativas dos outros e a aprovação social ao bem estar emocional da minha filha! E passei a adoptar outra estratégia, que era a de deixá-la gerir as relações sociais como entende, sem a repreender ou forçar, mas justificando-a a terceiros, como que a defendê-la de julgamentos alheios e juízos de valor, a pedir que “não a levassem a mal”: “ah, a Ana é tímida, sabe?!” ou “não sai nada a mim que sou uma galhofeira”. A expô-la, portanto. A justificá-la sem qualquer sentido. 

 Até que me fartei: deixei de justificar a introversão da minha filha e abraço-a e celebro-a. 

Sou uma mãe extrovertida e tenho uma filha introvertida. Aprendi, a custo, o importante que é respeitar as características da Ana, não a extrovertoevangilizando e estando sempre a tentar que se adapte a contextos ou comportamentos que pedem extroversão. Da mesma forma que se fosse uma mãe introvertida e tivesse um filho mais extrovertido, também não deveria impedi-lo ou castrá-lo na sua necessidade, igualmente legítima, de socialização. 

Ser extrovertido não é bom da mesma maneira de que ser introvertido não é mau. Introversão e extroversão não são sequer traços de personalidade opostos: fazem parte do mesmo continuum e toda a gente é, simultaneamente, extrovertida e introvertida, sendo apenas um dos traços o dominante e o outro o recessivo. É um espetro, portanto. E que maravilhoso e diverso que isso representa! 

A Ana é criativa e independente. Sensível e bondosa. Não é influenciável nem sente pressão social. Não precisa de agradar ninguém. É obstinada e confiável. Quando escolhe alguém dedica-lhe todo o seu amor e faz tudo por essa pessoa. E não escolhe muita gente, por isso, só pessoas muito especiais entram no mundo da Ana. Não dispersa, é observadora e boa ouvinte, atenta aos detalhes e discreta. Lida bem com a frustração e não valoriza a opinião de terceiros que não legitima. Conhece-se bem e é auto-confiante. É muito subtil e tem um sentido de humor acutilante. Não precisa de palco: tem os aplausos dentro de si e é a criança mais generosa e empática que conheço. É muito dedicada à família. Não é impulsiva e é ponderada na tomada de decisões, tendo uma sensatez fora do normal para a sua idade. É muito perspicaz e óptima a resolver problemas. Aprecia leitura, arte, música. E retira muito prazer em atividades solitárias: gosta mesmo muito da sua própria companhia. Aprecia o silêncio, a organização, ambientes estruturados. Adora escrever, fazer jardinagem e, ainda por cima sendo filha única, tem uma imaginação brutal nas suas brincadeiras. Acredita em fadas e unicórnios e tem estratégias de coping incríveis. É independente e livre. Muito livre. 

 É a timidez da Ana que traz todas estas características fantásticas que fazem dela a miúda espantosa que é. Então da próxima vez que lhe dizerem “então: não falas?” ou “o gato comeu-te a língua” pensem que isso é tão rude como mandar calar um extrovertido. Da próxima vez que lhe disserem “ai és tão bonita mas depois és tão antipatica” ou “aí Ana: és tão bichinho do mato!”: ide para o real caralho.

 Eu aprendo todos os dias com a Ana: a ser mais calma, mais ponderada, melhor ouvinte, mais paciente, a respeitar o tempo e o espaço do outro.A gostar mais de mim e da minha própria companhia. Há muito que aprender com os introvertidos, embora o Mundo esteja feito à medida de nós, os como eu, os extrovertidos, os carismáticos e barulhentos. 

A introversão da Ana não era nada que eu alguma vez projectasse mas, hoje, não a trocava por nada. Porque é ela que faz da minha filha o ser maravilhoso que é.
 Só não a chateiem na rua, tá?

Ana, a herege

A minha mãe mostra à Ana uma imagem dos Três Pastorinhos e conta-lhe a história da aparição de Fátima.

"Avó: e porque é que a Lúcia está zangada?"

"Ó Ana, a Lúcia não está zangada!"

(silêncio enquanto volta a mirar a pagela)

"Ai avó, já olhaste bem para a cara dela?!..."


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Ana, a chiba

"Avó, sabes que a Bárbara  gosta de homens muito mais velhos?"

"Ahn? Como assim, Ana?"

"Então, avó, a Bárbara tem sete anos e já gostou do irmão da Madalena. que está no quinto ano! No quinto ano já tem 10 anos, avó! Dez anos!"

...

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Papoilas e amor




Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se chama #sóquenão, ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou tal como eu não gosto, ensinei-lhe que borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos, ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar, ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância. 

Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou que foi e é sempre tudo sobre o amor.

Fuck Them!

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Ó Ana, não corra tanto, plamordedeus!

O sonho de qualquer mãe beta: a filha loira de olhos azuis, o labrador ou golden retriever ou cão ou lá o que é a marca do bicho e a praia.



Que nossa senhora dos sapatos de vela me proteja.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Ana, a fonética baralhada

Eu a propósito do registo do nosso fim-de-semana no seu diário gráfico: “Sabes aquelas açoteias que vimos no Algarve, Ana?!”~

Ana dá um belinha na própria testa e exclama: “é isso mesmo, mãe: o nome da nova auxiliar é açoteia!

(Pausa)

“Ou Soraia. É qualquer coisa assim...”

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Deus é sereia

Quando chegámos à Fuzeta olhaste para a areia com os olhos muito esbugalhados: taaaaantas conchas, mãe! 

Eu sorri e convidei-te a descalçares-te e começaste a explicar-me que as sereias só visitam as praias com areias cheias de conchas. Que são estas conchas as jóias que as sereias já não querem usar e assim as disponibilizam aos humanos. E a cada concha que apanhavas havia uma expressão de espanto: olha esta toda riscada, olha esta com tantas cores de arco-íris por dentro, olha este búzio que enroladinho. 

O gáudio de te ver durante mais de uma hora a maravilhares-te com pedaços do mar da cor dos teus olhos. 

E quando o sol começou a mergulhar no horizonte sentaste-te, cansada e em silêncio, e encostaste-te a mim, sentadas à chinês no areal. E eu levantei-me, enfim, e enquanto virava as costas para irmos beber um chocolate quente ali no borda d’água e tu um chá de limão e aquecermo-nos, comecei a ouvir um barulho repentino da maré a encher, a água a subir inesperadamente, o mar há um minuto parado e quieto, agora, de repente, a manifestar-se. 

Olhei para trás e estavas estarrecida: “mãe, shiiiiuuu! Ouve as sereias a abanarem as caudas debaixo do mar e a dizerem-nos adeus!” 

E depois um sussurro: “adeus, sereias! Adeus!” 

E ensinaste-me neste fim de tarde, Ana, tudo o que é importante saber sobre fé e amor, crença e sonho. Deus pode ter cabelos de algas e cauda de sereia. 

Obrigada por trazeres até mim esse segredo sem filtros, como esta fotografia, como tu, querida Ana, meu grande amor.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Ana e os estrangeirismos gastronómicos

Nós a preparar a carne e os molhos do fondue para o jantar e diz a Ana, muito convicta:

"Olhem, escusam-me de dar outros molhos, porque eu só gosto do molho cheesecake*, ok?"



[*Era o molho cocktail]

sábado, 21 de dezembro de 2019

2019 como o meu cabelo




Cortei e andei meses seguidos a chorar porque ele demorava a crescer e queria voltar a ser igual a sempre e chego ao fim do ano com ele comprido e a suspirar que se calhar deveria cortá-lo outra vez para experimentar voltar a ser diferente.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Chove, como na rua, em mim.

Ali estava eu: diante do meu próprio velório. 

No marido dela o Rui: desorientado, perdido, vazio, arrasado como se o vento da morte da mulher tivesse vindo com a tempestade que atrasava a vinda de mais gente a prestar as últimas homenagens. 50 anos. Tinha 50 anos e uma velhice pela frente que nunca chegou a viver e eu agora não sei como vai ser, ela foi sempre primeiro, abria sempre o caminho, contava-me como era, sem romantizações nem pessimismos: a realidade. 

A filha ia-nos recebendo um a um, com cortesia e uma maturidade que não se encontra em ninguém com 20 anos. A minha projeção da Ana na filha dela: ser filho de uma pessoa com deficiência torna os miúdos em seres diferentes. Não especiais: apenas diferentes. A Rita nunca corria desenfreadamente quanto era pequena e um dia com a Ana ao colo perguntei-lhe como tinha conseguido ela essa proeza da miúda nunca lhe fugir, que sorte que tinha, imagina que fugia, a aflição que seria não poderes correr para a apanhar à custa da cadeira de rodas e eu, que não sou veloz na corrida, que não aguento tempos infinitos em pé com ela ao colo, como vou fazer? “Os filhos fazem-se aos pais que têm”- disse-me a Dulce, agora ali à minha frente num caixão frio de madeira. 

Na Rita a Ana: madura, pragmática, objectiva, com uma força que não reconheço em mais filhos de ninguém. Os meus amigos a chegarem: o Filipe, o Luis. 

A Dulce tornou tudo possível quando o futuro de mulheres com deficiência era uma incerteza: era possível trabalhar e ser auto-suficiente, era possível viver sozinha, era possível casar, era possível ser mãe. E agora que eu já sou tudo isso, porque a Dulce confortou a minha ansiedade, porque estreou todas as possibilidades, quem me vai contar o futuro? Não sei, agora, como é possível ser velhinha, como se gere o síndrome do ninho vazio, como é ser avó, como é viver com corpos enrugados e artroses e no fim como é pensar que a morte vai chegar porque a vida já está cheia, preenchida, completa. 

A Dulce morreu e não tenho a minha referência e em quem me projectar. E, pela primeira vez, o futuro parece-me desconhecido e incerto. A Dulce morreu e já não tenho quem me faça spoiling à vida. 

Chove, como na rua, em mim.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

AçoriANA

 “O Pico continua a ser a minha ilha preferida, mãe!”

 “Porquê, Ana?” 

“São Jorge cheira a casa, a Terceira cheira a mel, São Miguel cheira a àgua mas, ó mãe, o Pico cheira a nuvens!”

sábado, 30 de novembro de 2019

Quasi-fecho de 2019

O final de 2019 foi uma espécie de auto-redenção. 

Decidi deixar de procrastinar e tomar a rédea de muitas coisas pendentes e para as quais me faltava energia, motivação ou fé de que conseguiria fazer, avançar ou mesmo alcançar. Depois voltei a ficar doente e tinha tudo para me auto-boicotar e - oh senhores!- se eu sou especialista no auto-boicote. 

Mas bastou mexer uma peça para tudo se desalinhar e eu ter-me visto na obrigação de agir. Tipo dominó. Mesmo. 

Foi o novo trabalho, que trouxe uma nova rotina, uma nova colega (gosto tanto dela), novos assuntos, novas aprendizagens. E, de repente, um novo eu se debruçou perante mim mesma. E vieram coisas a seguir. 

Num instante (relativo) resolvi de forma assertiva o problema de saúde, sem hesitações nem pudores. Decidi que não queria gastar energia com relações difíceis e deixei gente para trás sem arrependimento nem temores mas também sem zanga nem raiva ou rancor. E decidi que ia recuperar a única amizade antiga cuja perda me feria estruturalmente e estamos num processo apaziguador e quentinho de reaproximação. Decidi que escrever me fazia mesmo falta e ressuscitar o blog, sem pressões nem auto-cobranças, com a liberdade que tanto me dá prazer. E comprar um sofá grande, enorme, onde possamos ver televisão os três aninhados e enrolados uns nos outros e jogar jogos de tabuleiro lá em cima sentados à chinês e tudo o que nos apetecer. E escolhi a forma como quero entrar nos meus 40 anos. 

Falta agarrar em um ou dos temas pelos cornos, mas sinto que estou a caminho. E agora voltei a ser loira que é como me sinto mais eu e, sendo a questão mais frívola de todas, talvez represente tudo aquilo que vos quero dizer. Fez-se assim uma espécie de luz: dentro e fora da cabeça. 

Em mim.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Ana, a tocar-me nas feridas desde 2012

"Mãe, tens medo de tigres?"

 Não.

"E de alturas?"

 Não.

"E de cobras?"

 Não.

"E de sítios fechados?"

 Não.

"E de ratos e ratazanas?"

 Não.


 (Faz a pausa e um sorriso de quem tem uma carta invencível na manga)

" E da avó?"

domingo, 24 de novembro de 2019

sábado, 23 de novembro de 2019

Ana, a anti-discurso motivacional

"A avó disse que bastava eu querer muito uma coisa e tornava-se possível mas é tão mentira: bem que eu podia querer lamber o meu próprio cotovelo que tinha cá uma sorte..."

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A primeira quadripolarização do come back





"Olá Pólo Norte. 

Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt. Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar! Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos. 

 Beijinhos"

Obrigada, Matilde! Grande beijinho.

Conheça todos os países já quadripolarizados aqui.

O Mundo divide-se ...

... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Ana, o espírito santo dos livros

"Mãe, hoje ressuscitei dois livros da biblioteca da escola"

Isto é capaz de ser uma metáfora da vida

Há uns tempos andava com problemas intestinais (é a vida, babes, sou de carne e tripas: aguentem-me!). Mas o que me irritava mesmo a molécula é que estava com um olfacto super apurado e, para todo o lado onde quer que fosse, toda a gente me parecia ter mau hálito. Um péssimo hálito. Um horrendo e persistente pivete.

Sustinha a respiração e tudo para ver se não levava com os bafos de onça alheios. 

Comentei isto do problema do meu olfacto apurado com mámen.

E parece que, foi-se a ver e o mau hálito era meu.  


 ...


Lição a reter: se tudo de parece mal cheiroso e tu és o único denominador comum, o inferno é capaz de não ser os outros.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Os meus amigos podem não ser melhores que os vossos, mas terão certamente um sentido de humor mais peculiar # 45


Ninguém tem sobrinhos cães mais fofos que eu...

Podem achar que isto é um apelo a voto mas eu não sou nenhuma influencer e só falo de mim: portanto pensem à vontade e ainda levam com o #eeuralada

Na semana que passou fui jantar com o Jorge - este Jorge- e uma amiga comum, também ela cadeirante, antes de irmos a um evento.

A amiga desloca-se de cadeira de rodas eléctrica e para chegar a qualquer compromisso tem que sair de casa- ainda que seja em Lisboa cidade- muito tempo antes, uma vez que só (alguns) autocarros da Carris conseguem oferecer-lhe a única alternativa: não se pode confiar na falta de elevadores a funcionar em pleno no acesso aos metros (quando há elevadores), não há normalmente táxis adaptados para aquela tipologia de cadeira eléctrica ( e a haver cada corrida custa mais que um jantar) e não há Ubers adaptados.

Ponto de encontro: parque Mayer, centro de Lisboa. Há ali dentro um restaurante simpático e com boa comida que já me havia sido recomendado. Na véspera liguei para lá para me certificar se tinha acessibilidade e a resposta veio afirmativa, até haveria a possibilidade de uma rampa amovível.

Fomos descansados e quando chegámos percebemos que não só não estava a rampa disponível como a acessibilidade estava pronta para ser assegurada em braços pelos empregados solícitos do restaurante: uma das cadeiras eléctricas sozinha pesa mais de cem quilos, para terem a noção. Declinámos gentilmente, até porque nenhum adulto tem vontade de entrar ao colo de estranhos num restaurante, por mais boa vontade e gentileza que venha revestida a oferta: precisamos de rampas e acessibilidades, não colos nem jeitinhos.

Frustrados continuamente, lembrámo-nos de que havia ali na esquina um restaurante sobejamente conhecido- estávamos na Avenida da Liberdade, uma das artérias principais de Lisboa. Assim que chegámos percebemos que não conseguiríamos entrar porque havia degraus disuasores mas ofereceram-nos como alternativa a esplanada contígua, em cima do passeio lateral da própria Avenida. Queríamos mesmo jantar e arriscámos, ainda que pingasse e os enormes chapéus não nos protegessem da chuva. Quando nos trouxeram o menu percebemos que não tínhamos disponíveis os mesmos pratos que serviam lá dentro às pessoas que descem degraus automaticamente sem pensarem nisso e que por não terem mobilidade condicionada jantavam com ar condicionado e a uma temperatura confortável. Indagámos a razão do menu alternativo: era o menu da esplanada. Mas a esplanada não tinha sido uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade pelo facto de um edifício com serviço público não cumprir a lei das acessibilidades. Que percebiam mas que aquele era o menu da esplanada.

Frustrados exasperadamente e salpicados de chuva pedimos um prego e bebidas de pressão. Veio a conta: 15 euros por pessoa (repito: um prego e uma bebida de pressão). Ah, são preços de esplanada! A mesma que não foi uma escolha nossa, mas uma inevitabilidade.

Este é apenas um exemplo de uma quinta-feira à noite.

Eu não gosto de política mas percebo a sua necessidade como modelo de funcionamento social. Na verdade o que eu não gosto são de políticos, com agendas secretas e necessidades de tachos, vindos das universidades das juventudes partidárias e sem saberem que há vida para além da chatice dentro de carros confortáveis e funcionais na fila da A5 e da maçada do tempo que demora a vir o menu de degustação do restaurante in a que vão e onde comem a temperatura ambiente confortável e banda sonora a condizer.

Sobre o BE tenho pontos em que me revejo na sua agenda política e outros que nem por isso ou outros que não de todo.

No domingo - 6 de Outubro- votarei neles, ainda assim.

Porque a política tem que nos representar: a todos. Tem que haver vozes dissonantes, diferentes perspectivas, oposição (por isso é sempre tão perigoso haver maiorias absolutas). E de haver pessoas que proponham legislação que proteja todos, sabendo do que falam, na pele, não conceptualmente.

O Mundo não é das maiorias: é de todos. Inclusive de todas as minorias no seu espectro total desde aqueles que demoram mais de uma hora a atravessar Lisboa sem trânsito por falta de transportes acessíveis e que comem pregos cheios de nervos a 15 paus e com chuva na mona e ainda assim são privilegiados porque não vivem no limiar da pobreza até tantas outras pessoas com deficiência a quem não sobra esse valor depois de todas as despesas inerentes aos gastos com as desvantagens trazidas pelas suas patologias e nem sequer de casa conseguem sair para ir à rua, vivendo numa espécie de prisão domiciliária sem terem cometido nenhum crime, excepto o de não terem corpos cem por cento funcionais.

Este não é um apelo ao voto. Cada um votará em consciência e estará sempre certo. É um remind para que não se esqueçam que os políticos nos devem representar a nós, povo, conhecendo de perto onde nos dói e o que precisa de ser feito. E que nos representam e, por isso, são também a nossa voz.

E agora leiam a noticia com que partilho este post e conheçam o Jorge: o político que representa a minha causa, por ser tanto e também a dele.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Recomeços sem mimimis


Perguntam-me como corre a primeira semana de trabalho.

 Chamam-me valente, corajosa, que começar tudo de novo aos quase 40 é só para os bravos, que audácia arriscar num desafio desconhecido agora que sou mãe e que não devo correr riscos. ´

As pessoas sobrevalorizam os inícios e começos, desprezando que os primeiros passos de uma corrida são sempre os mais fáceis. Recomeçar não é complicado: é estimulante, causa borboletas na barriga e tem a magia de uma lua-de-mel, onde tudo o que vem ainda não está materializado e pode hipoteticamente tudo vir a acontecer. Mesmo os sonhos, os desejos e as expectativas que à frente constatemos que não passaram disso.

 Mudar é bom, especialmente quando é por escolha e não por inevitabidade.

 Mudo aos quase 40 e mãe de uma filha porque sei que o legado mais importante que lhe posso deixar é a certeza de que só nos farão sentir velhos se nos conformarmos, que a experiência só traz mais segurança e serenidade bem como certeza do que queremos.

 E eu queria tempo (não dinheiro porque o dinheiro recupera-se e o tempo não) e novas aprendizagens (não um cargo de poder porque o ego é uma armadilha letal) com pessoas que me pudessem ensinar coisas novas e desafiantes. Queria um ambiente flexível e ter novidades para contar ao jantar.

 E queria mudar porque o mais difícil é permanecer, resistir aos meses e anos em velocidade de cruzeiro quando se tem alma de pirata. O mais difícil é fazer maratonas e ter endurance e não iniciar sprints.

 Desta vez escolhi o mais fácil: seguir o meu instinto, sair de um terreno que dominava de olhos vendados e pôr-me à prova, sentir borboletas nos ossos, nas entranhas, para além de na barriga.

 A primeira semana foi boa, foi fácil: é sempre fácil quando nós cedemos a ser exactamente quem somos.

 Serei sempre uma pessoa que adora mudanças e que abraça recomeços. Recomecemos. Aprendamos.

 Sejamos quem estamos destinados a ser.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O amor é uma caixa de velocidades

Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.


Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados. 


Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.


Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for. 


O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Nem muitos, nem poucos: os suficientes.



Dei por mim a estabelecer como regra no instagram exactamente a mesma que firmei para as questões da minha amizade: nem muitos, nem poucos: os suficientes.

 Estabeleci um número que nunca ultrapasso de páginas a seguir: 500. Na amizade menos, infinitamente menos, sem número preciso mas talvez use como medida os dedos exactos da minha mão.

 As pessoas que sigo, como os amigos que guardo, merecem a minha atenção e tempo. Ora, toda a gente sabe que o tempo varia na proporção inversa da idade das pessoas porque é a mesma medida: quanto mais tempo se acumula nos ossos menos tempo externo se tem. Com a atenção varia na mesma proporção: quanto mais idade mais necessidade tem de se olhar a fundo, de não se dispersar, de perceber cada detalhe na pétala de um girassol, cada tonalidade de amarelo ao invés de um simples click num campo de girassóis para mostrarmos que “i’ve been there”. Estar é cada vez mais uma coisa demorada e lenta.

 Daí que desde que tenho instagram já tenha seguido e deixado de seguir dezenas de contas. Também tem que ver com fases da minha vida e necessidade de me inspirar: já deixei de seguir páginas de decoração nórdica, de maternidade perfeita, de minimalismo e organização pessoal. Não tem que ver com ter deixado de gostar ou não gostar das pessoas que as têm mas dos interesses que me despertam quem são, o que fazem e, especialmente, do que pensam e da forma como o transmitem. Inspiram-me cada vez mais pessoas serenas e que estão num processo contínuo de compreensão da vida, da arte, da música ou da poesia. Que serão talvez tudo a mesmíssima coisa.

 Às vezes procuro semelhanças: coloco um hashtag com um assunto ou pessoa que me interesse e começo a seguir quem fala sobre esse tema, na expectativa de encontrar mais pontas soltas que nos unam, de aprender coisas novas da vida. Percebo e não levo a peito quem deixa de seguir a minha pagina e no fundo só desejo mesmo que 500 pessoas me sigam com o mesmo tempo e atenção com que sigo as minhas 500. Pontas soltas ao quadrado. 

 Na vida como no instagram é preciso tempo e atenção para encontrar almas que se interessem pela vida da mesma forma que nós. 

 Aos quase quarenta, na vida já não dá para ver bonecos.

sábado, 24 de agosto de 2019

Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)




Só há uma forma de amar: cuidando.

 Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.

 E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.

 E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.

 Só há uma forma de amar: cuidando.

 A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.

E juntei-me a eles no refrão. 

 “Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Uma espécie de Oásis (Cueva del Gato)


Já estávamos cansados e já tínhamos 17 Pueblos Blancos no passaporte das nossas memórias.

 Já tínhamos muitos quilómetros de alcatrão acumulados, muitas montanhas com sol a nascer e a pôr-se decoradas nas retinas, muitas aldeias e vilas feitas noivas, alvas, brancas e puras cravadas em tudo o que vivemos, como se tivéssemos apanhado 17 bouquets sucessivamente que nos dessem acesso ao novo Pueblo, que fôssemos os próximos a que os barqueiros de lagoas, rios, ribeiras e barragens deixassem passar.

 Já tínhamos jamon, tapas em restaurantes e esplanadas, tintos de verano em varandas de hotéis e pensões em noites a dois enquanto a Ana já dormia, já tínhamos granizados, pão estrafegado em tomate, gaspacho frio, queijos e azeitonas compradas à beira da estrada e um desprezo enorme pela dieta durante todo o trilho.

 Já tínhamos o calor da cidade, o borrifar dos aspersores nas ruas de Mérida e o fresco de tantas fontes e fontanelas tatuados na pele. Já tínhamos o cheiro aos olivais e às árvores da serra, ao pó da terra árida e às dezenas de pássaros que voavam conosco sob o mesmo céu, abutres até. Já tínhamos casas brancas, azuis e a memória de uma cor terracota que marcou toda a viagem como os abanicos encarnados com bolas porque os clichês são para se perpetuarem.

 Já tínhamos a Carolina Deslandes, o Jorge Palma e a Luísa Sobral mais o Sérgio Godinho e a Mariza a tocarem na pen do carro e o Despacito na Radiolé e outras estações espanholas com ritmos de verão, pelo menos para nós. Já tínhamos noites estreladas em vales profundos e noites dormidas os três em camas apertadas e manhãs de lutas de almofadas só porque sim.

Faltáva-nos um oásis, daqueles à filme, um presente fresco numa longa travessia num deserto que não é metafórico, pois há muito que não nos sentíamos tão selva.

 Encontrámo-lo, perdidos na serra de Grazalema, e mergulhámos, enfim, nas águas geladas da Cueva del Gato.

 Podem googlar mas o Google nunca vos conseguirá explicar isto assim.

 Isto assim.

Na aldeia azul (Júzcar)


O GPS tinha-nos enganado.

 Nós não stressamos com imprevistos e até sabemos que é dos enganos que muitas vezes se chega a sítios inesperados e ainda melhores. Mas estávamos num trilho terrível, curvas e contra curvas, numa serra que não conhecíamos e num caminho de terra demasiado estreito para o nosso carro com penhascos lá em baixo.

 A Ana cantarolava lá atrás no banco, completamente alheia ao perigo que corríamos. Eu estava em pânico, a ansiedade no pico máximo, com arritmia e completamente descontrolada. Queria parar, voltar a pé, sair do carro e gritar, chorar, ligar para o 112 e pedir socorro, ai que se vem um carro de frente e nós não temos qualquer visibilidade, embatemos, caímos no penhasco e morremos. A Ana continuava a tagarelar, eu estava perdida em orações e a pensar que estava a segundos de ter a primeira crise de ansiedade da minha vida e não podia. Não podia mostrar descontrolo à minha filha, não podia entrar em pânico, tinha que permanecer segura e aparentemente sob controlo. 

Olhei para ele, ali ao lado, pálido e calado, com os maxilares tensos, a transpirar por todos os poros, corpo rígido. Ele estava a conduzir-nos, tinha a vida de nós os três nas mãos, não dizia nada. Não podia mostrar desconfiança na condução do meu marido, tinha que me manter optimista e controlada, tinha que o ajudar a tirar-nos dali.

 Então, respirei fundo-muito fundo- e fui buscar energia, serenidade e gestão das emoções à menina que ficava, aos 5 anos, internada no hospital meses seguidos, a sentir-se sozinha e perdida quando acabava a hora da visita e a minha mãe tinha que sair e a noite chegava e eu só me podia valer a mim mesma. Eu ainda sou essa Liliana, progressivamente segura e controlada, racional e objectiva: tens que ficar, é para teu bem, isto vai passar, não tarda muito tens alta e vais para casa. 

Abri os olhos e comecei a falar com ele: este caminho vai acabar, não sabemos daqui a quanto tempo, mas vai acabar, vamos com calma, somos uma equipa, buzina duas vezes em cada aproximar de curva para que nos ouçam, está quase, vai correr bem. 

Correu. Chegámos à aldeia azul da cor dos olhos deles. Vivos, unos, equipa. Família. Respirei fundo, enfim
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