domingo, 10 de abril de 2022

Agora pensem qual é

 

Há tempos a Teresa, leitora do meu blog, escreveu e interpretou o hino quadripolar.
Era uma prosa incrível que não sei se ainda pára no YouTube.
A Ana andou a cantar aquilo meses seguidos, quando descobriu. Entre muitas das palavras que lá constavam a Ana acabou de eleger, agora ao jantar, a sua palavra favorita. "Esta é que é, mamã!"
"Meretrista"
Adianto que ela percebeu sempre mal a palavra e nunca tivemos coragem de a corrigir.
...

sexta-feira, 8 de abril de 2022

Ir

 Há dias extraordinariamente ambivalentes.

De repente, há uma janela que se abre, se escancara para ti e tu ficas ali, sem saber se trepas, se a fechas e ficas ali, indecisa entre o calor de uma casa que conheces- onde te sentes em família, onde podes andar de pés descalços e sabes que há sempre comida quente sobre a mesa, abraços à tua espera - e o fresco das aventuras que te espera no outro lado do vidro, nas ruas desconhecidas cheias de desafios por desbravar. Sentas-te no parapeito da janela e olhas ora para dentro, ora para fora, o conforto de dentro, a casa e a família e todas as possibilidades em aberto de fora, tudo o que pode acontecer, a novidade, a mudança e tu até não és nada avessa à mudança. Fechas as portinholas e voltas para o calor? Ou pões uma mão de fora para testar a temperatura e, num salto de fé (é sempre de fé que se trata) saltas para o desconhecido (e se for um abismo? E se correr mal? E se ficares perdida ao frio? E se nunca encontrares o caminho para voltar? E se nunca mais houver volta?)?

Há dias extraordinariamente ambivalentes em que ficas de coração partido e, ao mesmo tempo, de coração acelerado porque dói sempre quando deixas quem gostas na mesma proporção do entusiasmo e da expectativa de quem está por conheceres, de quem um dia irás gostar.

Hoje foi um dia extraordinariamente ambivalente e eu vou saltar da janela porque a sorte protege os audazes e a mudança dá um medo do caraças mas nada nos lembra com mais poder de que estamos vivos.

Pode correr mal. Mas também pode correr bem.

Que a sorte, a fé e o afecto de quem fica dentro dos vidros da janela me proteja. Casa será sempre casa mas eu sou feita do verbo ir. Abram-se as janelas de par em par: estou a ir!

Vamos lá.

quinta-feira, 7 de abril de 2022

Respirar

 Entrava o sol pela janela e eu acreditei que era um bom pronuncio. Tinha comprado lírios violetas na véspera porque acreditei que seriam bons augúrios da chegada de uma Primavera há muito ansiada. Não no calendário, cá dentro, na vida.

Quando se tem esperança tudo nos parece simbólico e um pronuncio bom, agarramo-nos a tudo: ao sol a romper as frestas da janela, aos lírios a cantar opera desde os camarotes das jarras bonitas, a manta de rosetas da minha mãe a fazer arco-íris na sala.
As notícias vieram ao fim da tarde e eram boas. Quando a Dra. Mariana me ligou, desliguei o telefone e fiquei com os olhos cheios de lágrimas. A minha mãe está bem. Viva e bem.
Pensei que ia serenar e ter a paz que preciso tanto mas o meu cérebro pregou-me uma partida.
Desde então tem-me doido o peito e tenho tido dificuldade em respirar. Tenho que induzir o bocejo várias vezes para respirar fundo e sentir que respiro como deve de ser. Tenho tido pesadelos e noites pessimamente dormidas.

Tudo é compatível com uma crise de ansiedade desde segunda-feira. Ansiedade a estrear e com retroativos. Que me está a deixar exausta porque sou psicóloga e a reconheço teoricamente, sei de forma racional u estratégias para a minimizar e não consigo de forma alguma fazê-lo, como se ainda fosse preciso mais isto para eu perceber que não controlamos nada. Já tinha percebido há muito tempo, era escusado, mas o meu cérebro continua a sabotar-me e continuo cansada e a somatizar.

Não sei até quando.

As emoções são coisas sérias. As minhas estratégias de coping são sempre estratégias de resolução de problemas. Todas as minhas energias, perante um problema, são para a acção. Agora que posso descansar acho que o meu cérebro acha que se pode dar ao luxo de ficar triste, angustiado e doente com retroactivos.
Não posso fazer nada. Senão deixar toda a angustia acumulada passar.

A minha mãe está curada. Em breve o meu coração perceberá que pode relaxar e é tempo de comemorar.
Não sei quando. Sei que será quando conseguir apreciar sem sombras o sol, os lírios, a manta e, principalmente, a conseguir respirar outra vez.

Venha a Primavera.

Ana, a hiperbólica

 

Sem dar conta trago para a mesa uma colher de sopa para o gelado de sobremesa da Ana.
Atira a Ana: "Agora não te esqueças de trazer um remo para mexer o teu cafezinho, han!"

Açorianos perceberão


A palavra preferida do Rui é "ensocado",

À moda de São Jorge diz-se "ensucuado" e eu amo expressões açorianas, caraças! 

Fiz a mesma pergunta agora à Ana


"A minha palavra preferida é "mãe"."
"Não, Ana, esquece o significado! O som de palavra mesmo..."
"Sim, é "mãe". Eu grito o som, oiço o som e a seguir vens tu e resolves tudo e qualquer coisa ..
"Isso é muito fofo!"
"Sim, é "mãe". Empatado com "chulé". Não sei de qual gosto mais ..."

... 

Qual a vossa palavra preferida? (do ponto de vista fonético, esqueçam lá a simbologia, ok?)

 

Começo eu: psiché.
Agora vocês.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

O Mundo divide-se...

 ... entre quem prefere farófias com doce de ovos e quem prefere farófias com leite creme.

terça-feira, 5 de abril de 2022

Ana, a actriz

 

Ana todos os dias, ao intervalo, brinca de ser atriz e representa os mais diversos papéis, inspirada vá se lá saber do quê.
Hoje, ao pequeno almoço, comentávamos que a minha mãe deixou de fumar e a pequena suspira:
"Tem sido complicado, mãe. Esta semana temos estado a representar Alice no País das Maravilhas e eu era sempre a lagarta que fumava e inspirava-me na avó e agora a lagarta teve que passar a mascar pastilha elástica e ficou assim um bocadinho esquisito...."
...

Precisamos de reflectir urgentemente sobre o assédio, a comunicação social e a forma como tudo anda prevertido

 

Lisboa. Março de 2022. Uma diretora de serviço de um hospital de referência demite-se depois de ter sido acusada, por dezenas de enfermeiros, enfermeiras e assistentes operacionais, de alegado assédio moral e laboral. Dezenas. Que apresentaram, em bloco, uma carta à Administração do Hospital afirmando que se não fosse aberto um inquérito interno e uma averiguação, avançariam para a barra dos tribunais.
Face a isto a Administração decidiu abrir o inquérito, ouvir as dezenas de pessoas e, na sequência disto, suspender a profissional da suas funções que, segundo as notícias de orgãos de comunicação social mais sérios, se viu forçada a apresentar demissão neste contexto. E que o fez.
Jornal Expresso. Abril de 2022. Sai uma notícia que avança que "Em declarações ao Expresso, a médica disse que foi uma decisão pessoal e apontou como motivo a forma como se gerem as pessoas no Serviço Nacional de Saúde".
O Expresso, um jornal que sempre considerei sério, isento e de referencia, escreve exactamente esta notícia a propósito do caso:
"Sem adiantar em concreto o que a fez abandonar o SNS depois de uma carreira dedicada à prestação de cuidados na rede pública, a pediatra acrescentou apenas: “Não estou zangada com o SNS, que sempre servi com lealdade e com o melhor do meu conhecimento técnico. Este ciclo está encerrado.” (...)
Acrescenta a notícia "O fim de funções da responsável pela Infeciologia do Dona Estefânia é conhecido na mesma semana em que o hospital deixou de conseguir assegurar exames de imagiologia, como ecografias, no período noturno (a partir das 20 horas) por falta de profissionais."
Remata, ainda, com "Ao Expresso, a administração garante que tenta encontrar uma solução: “Há uma efetiva falta de radiologistas no SNS, cenário que complica a gestão das escalas. Estamos a procurar uma solução definitiva a contar a partir de 1 de abril, pois até esta data tudo está assegurado. Reforçamos que nenhuma criança deixa de ser vista ou fica sem cuidados.”
Temos, portando, uma culpabilização encapotada do SNS face à saída de profissionais especialistas e aparentemente com elevada competência técnica dos hospitais, por não lhes serem garantidas condições mínimas de trabalho.
Zero referências às acusações de alegado bullying, denunciado por DEZENAS de profissionais. Zero referências ao inquérito que foi aberto, à suspensão da profissional que daí resultou. Zero voz às DEZENAS de profissionais que alegadamente foram vítimas de assédio por parte desta senhora.
A caixa de comentários é inanarrável: as pessoas são facilmente manipuladas porque não procuram mais informação, porque lhes comem o que lhes põem à frente. Não as culpo. Houve tempos em que, se lesse no Expresso, não precisaria de procurar em mais lado nenhum. Não são estes os tempos.
Um profissional, especialmente, um médico faz-se de "humanidade" e amor às pessoas". Escrevi-o há dias a propósito da sorte que tenho em encontrar médicos incríveis no meu caminho. E enfermeiros e enfermeiras. E assistentes operacionais. Também nesse hospital de que se fala nas notícias, onde nasci, onde fui seguida e onde já colaborei como profissional.
Lisboa. Abril de 2022. Um abraço para todas as vítimas que são esquecidas nas notícias, que são duplamente violentadas com o desprezo da comunicação social e a falta de um espaço onde possam ter voz, onde possam denunciar abusos, onde possam alertar outros pares do que não é aceitável. Um abraço a todas as vítimas que, dão corpo, sangue e suor por um serviço público frágil mas cheio de gente com valor e que têm que ler que o SNS não presta e que por isso deixa sair "os melhores", os "especialistas", os "diretores".
O SNS está vivo graças a estas pessoas. A estas vítimas também. E graças à valentia e coragem de enfermeiros, enfermeiras e assistentes pessoais que, em bloco, não aceitam menos que o respeito que merecem e não permitem que o SNS perpetue desumanidade. Saibam que vos escuto e que muito gostaria de ouvir bem alto a vossa voz.
Para vocês: o meu mais profundo obrigada.

segunda-feira, 4 de abril de 2022

O melhor da pandemia


Começo eu: não ter que enfrentar a perda de tempo imposta pelo trânsito.


O pior da pandemia


Começo eu: os diretos de vendas no facebook.
Agora vocês.

Esta loucura boa de ser mãe

 

Chegamos- atrasadas- ao portão da escola.
Ana sai do carro a equilibrar a lancheira, muito despachada, bate com a porta do carro e toca à campainha do portão para que lho abram.
Naquele compasso de espera, em que o nosso carro não arranca porque ela ainda não entrou, grito-lhe da janela do carro: "És liiinda!"
Ela vira-se para mim, pisca o olho, e atira um "Foste tu que fizeste, sua maluca!"
...

domingo, 3 de abril de 2022

O Mundo divide-se...


... entre as pessoas que têm, pelo menos, um sobrenome que é o nome de uma terra e as outras.

Ah, assim faz sentido!

 

Acordei às 08h. Adormeci a seguir ao almoço e estive a fazer uma sesta no sofá até agora.
Passei, portanto, a ser uma pessoa que dorme em suaves prestações....

FML.

La decadence

 

É domingo, a Ana está a passar o fim-de-semana na tia e eu acordo às 08h da manhã. Sem despertador.
A seguir o quê?

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Suspiro*


Apresento-vos a Alícia Sierra de Alcabideche...




Uma hora de nerf cá em casa

 

Este ano substituo a tradicional caça ao ovo na Páscoa pela caça às balas, caraças!

Pronto, a miúda ganhou uma Nerf*

 

"Sou a Alicia Sierra de Alcabideche, mamã"
...


[* Para quem, como eu até há horas não sabe o que é: uma pistola tipo paintball com balas de borracha...]


[** Leitoras fofinhas que trabalham na CPCJ: ups, foi sem querer que a deixámos ver a Casa de Papel...]

Como saber que uma criança é filha de um casal de psicólogos?

 

Ana chega da escola super querida comigo, toda ela mimos e festinhas e risinhos e tudo, e o pai fica atónito e ofendido a olhar para ela armado em Calimero.
Resposta da bicha :
"Ai pai: tem paciência que eu hoje estou com a Electra avariada..."
Freud ficaria orgulhoso, caraças!

quinta-feira, 31 de março de 2022

Hospital de Santa Maria

  


Para se ser um bom profissional são precisas muitas coisas: formação, experiência, dedicação, interesse, motivação, disciplina, competência, brio, capacidade de entrega, inspiração. Acredito que para todas as profissões mas em particular para os médicos.

Não se trata de ser a profissão mais nobre, que isto não é uma competição de ego e estatuto mas, especialmente, de ser a profissão que segura as vidas de todos nós, com cuidado, nas mãos.

Conheci dezenas de médicos ao longo da minha vida: sou uma paciente com doutoramento. Talvez por isso, na óptica muito experiente do utilizador, consiga perceber o que faz de um bom médico um médico excepcional. Seja em que especialidade for.

Quando entrei pelas urgências do Santa Maria com a minha mãe tive o pior dia da minha vida. Para além das notícias e do prognóstico difícil , sair dum hospital distrital como acabávamos de sair (onde conhecemos os cantos à casa e profissionais lá dentro) para um central, gigante e labirinto, assusta e desorienta.

Foi esta médica que me acolheu. À minha mãe mas especialmente a mim, em pânico e desvairada, cheia de medo e de tristeza e me deu tempo para falar, para perguntar, me esclareceu todas as dúvidas, me apazigoou, me permitiu acompanhar a minha mãe, não fez nenhum juízo de valor, nunca deixou de encontrar um espaço para vir falar comigo e me orientar. E percebi que é isto e só isto que faz um médico excepcional: o serviço às pessoas, a sensibilidade, a atenção e, sobretudo, a humanidade.

Diz-se que quem nossos filhos beija, nossa boca adoça. Eu acrescento que quem nossas mães trata com respeito e humanidade, aos nossos corações dá colo.

Chama-se Mariana Caetano, é médica otorrinolaringologista do Hospital de Santa Maria e, por mais vidas que viva, nunca lhe conseguirei agradecer.

Talvez este texto nunca lhe chegue às mãos mas fica aqui para que todos decorem o seu nome: Mariana Caetano. Mariana Caetano: médica mas, sobretudo, pessoa.

Obrigada pelo amor. É sempre de amor ao outro que se trata.

quarta-feira, 30 de março de 2022

Melodia de só desgostos em estrogénio maior*

 

"Estou assim, mãe, asssim- e junta o indicador com o polegar- de me tornar uma fashionista. Vais ter que lidar com o desgosto. Estas meias são mesmo wow, não picam nada. Estou mortinha por usar saltos altos e batom encarnado e vestidos de lantejoulas e glitering. Quando for adulta vou para todo o lado de lantejoulas, vais ver. E vou continuar a ter um Instagram de costas mas com todas as minhas roupas. A tua amiga diz que eu tenho as costas mais famosas da internet. Imagina quando nas minhas costas forem só lantejoulas, imaginas? Lantejoulas douradas sempre. Vou parecer um globo de ouro igual aqueles da SIC... "

Ana, 9 anos e picos


(* Foi karma lançado pela minha amiga Mónica Lice )

terça-feira, 29 de março de 2022

Só para nascidos nos anos 80

 


Tenho a rencarnação da viúva Porcina em casa...






FML

Ah, o sabor da pré-adolescência pela manhã

 

"Mãe, vamos ter que ter esta conversa: podes parar de me comprar collants de lã que eu gosto mesmo é daqueles de mousse macia na pele?"
...

domingo, 27 de março de 2022

Se calhar tenho que a inscrever numa arte marcial

 

A Ana quis ajudar-me a amaciar uns bifes de alcatra com o martelo da carne.

O almoço vai ser bolonhesa...

sábado, 19 de março de 2022

Como vive uma criança sem pai?

 

Como vive uma criança sem pai? Pergunto-me muitas vezes, olhando para os outros que conheço sem pai, mas olhando especialmente para dentro.
Eu tinha um pai. Era divertido, presente, falador e extrovertido, brincalhão mas, acima de tudo, era o meu. Um dia ele foi embora e eu fiquei com um espaço vazio para sempre.
Cresce-se sem pai. Sobrevive-se sem pai. Aprende-se sem pai. Até se pode ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo.
Mas cresce-se a pensar que não se é importante o suficiente para o pai ter escolhido ficar. Sobrevive-se a pensar que um dia talvez se consiga compreender o porquê, se consiga explicar como aconteceu, entender razões, não ser culpa nossa que os adultos confundissem conjugalidade com parentalidade, atirar as culpas para quem escolheu não nos escolher; sobrevive-se a tentar preencher esse espaço vazio com outras figuras de referência, a mãe que também é pai mas que nunca consegue ser, coitada, é um puzzle e o formato dela não encaixa naquele buraco, o avô que até é homem mas que nunca consegue ser pai por ternura a mais, gap geracional, os avôs nunca conseguem ser os mais fortes. E aprende-se que esse espaço vazio nunca se preenche porque é uma amputação no crescimento e tudo o resto são próteses para a alma, e a alma aprende a andar mas o campeonato é outro, não é a mesma velocidade, a mesma estrutura emocional, não é a mesma certeza de amor inabalável. Não se cura. Não se preenche. Não se substitui.
Aprende-se a ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo. Sou uma pessoa feliz, contente com quem é e com o modo como a vida vai correndo.
Quando os vejo - Rui e Ana- percebo o bom que deve ser esse amor que vocês falam, os posts com as fotografias dos vossos pais no dia do Pai, essa estrutura firme e rochosa do amor entre pais e filhos (ah, e filhas ..) e fico com pena.
Não apenas de não viver isso igual mas com muita pena do meu pai ter escolhido que não queria viver isso comigo. Não foi só ele que perdeu. Fomos os dois.
Mas eu ganhei a minha mãe que também foi pai, o meu avô, os meus tios. E agora o Rui. Foram todos eles que me ensinaram a ser feliz, querida, amada, importada e importante mesmo sem pai. O amor regenera.
Obrigada.

sexta-feira, 18 de março de 2022

Não há forma certa de lidar com a guerra, porque fomos feitos de paz

Primeiro não conseguia dormir, remexia-me na cama, levantava-me, ia à cozinha beber água, via notícias no telemóvel, ia ao Twitter, ia ao quarto da Ana olhar para ela, imaginava se fossemos nós, abandonar tudo de material, no limite só nós temos uns aos outros, tudo o resto é matéria, mas a matéria dá conforto, calor, dá afecto, somos feitos de amor, por isso não sabemos lidar com a Guerra, porque fomos feitos para a Paz.

Doia-me a cabeça, as notícias na televisão sempre ligada, as actualizações pop up no telemóvel, as crianças nas imagens, a Ana em cada uma delas, é sempre sobre nós, nós nos outros, a empatia é sempre egoísta, o trabalho mais pesado, eu mais lenta, a cabeça a doer.

Decidi abrandar os estímulos, ver só televisão o fim do dia, desligar as actualizações do telemóvel, estaria a ser covarde? Estaria a fazer evitamento? A entrar em negação?

A guerra existia para além do que eu decidia, do que eu controlava- o que posso fazer para acrescentar sem me doer a cabeça, sem querer que a guerra me dê cabo da saúde mental?
Experimento diferentes estratégias, tento encontrar uma forma de lidar com isto, ponho mãos à obra, percebo como sempre que não consigo mudar o Mundo mas consigo ajudar devagarinho, uma pessoa de cada vez, coisas práticas, não preciso de fazer nada grandioso, pequenas coisas, pequenas ajudas, uma de cada vez, fazer o dia a dia de algumas pessoas avançar, já não me dói a cabeça, não vale de nada- bem sei...- a Guerra não acaba mas ao menos não me mato por dentro, isso não salva ninguém mas salva-me a mim, nos aviões ensinam-nos sempre que antes de metermos uma máscara de oxigénio às crianças que estão ao nosso lado temos que as metermos primeiro a nós.

Não há forma certa de lidar com a Guerra porque fomos feitos para a paz.

quinta-feira, 10 de março de 2022

Ana, a pré-adolescente

 

Comprei-lhe tops. O corpo está a mudar e quero proporcionar-lhe conforto e suporte, quero fazer tudo certo, agora que eu já estava veterana em ser mãe de uma criança, tenho que aprender de novo a ser mãe. Duma pré -adolescente.
Sinto-me insegura mas quero tentar fazer tudo certo como quando comprei os biberões mais anatómicos, a cadeirinha do carro mais segura. Mas não há lojas @babyblue_pt para mães de pré -adolescentes, não há cursos de preparação para a adolescência, não há livros que nos guiem e eu só quero tentar fazer tudo certo.
Comprei-lhe tops e isso foi um gatilho de irritabilidade: começou a escalar, a embirrar com coisas triviais, a chorar, estava confusa e zangada e não sabia explicar o que sentia nem porque se sentia assim. Eu abracei-a: "foi por causa dos tops, Ana? Não tens que os vestir já, ficam só ali na gaveta para um dia que te apeteça vestir, quando te apetecer, sem pressão, pode ser no tempo que quiseres". Ela choramingava sem motivo aparente. Abracei-a com mais força: "És o meu bebé, serás sempre o meu bebé..." e ela ia desarmando, parando de choramingar progressivamente, rendida no meu colo.
"Mas tem algum mal usar um top?" - perguntava o pai em surdina, confuso no meio de tanto estrogéneo. Não era o top.
Fui capaz de conhecer o choro da minha filha e diferenciá-lo quando parecia apenas guinchos aos ouvidos dos outros: havia o da fome, o do sono, o da fralda suja e o das dores, o mais aflitivo. Aprendi sozinha a conhecê-la. Agora tenho que fazer de novo. Perceber cada emoção, cada gatilho emocional, o que está por detrás de cada explosão, o não querer crescer, o querer continuar a ser pequena. Aprender a reconhecê-la enquanto cresce.
Não era o top. Eu percebi este choro, agora também.
Por isso, tal como quando era pequena, dei-lhe o meu colo, o meu regaço e embalei-a: "és o meu bebé, serás sempre o meu bebé..."
E o coração dela serenou. E com ele o meu, o desta mãe.
Os tops esperam na gaveta.

quarta-feira, 9 de março de 2022

Ana, a ecológica

 

Estamos, em família, a falar de ecologia e sustentabilidade. O pai para a Ana: "Qual a ação mais ecológica que fazes, Ana?"
Diz a Greta de Alcabideche: "Dahhh! Xixi no duche, claro!"
...

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Ana, a pragmática

 

Comprámos há mais de um mês a fantasia de Carnaval deste ano: rainha de copas da Alice no País das Maravilhas.
Entretanto, recebemos da escola um e-mail a avisar que o tema deste ano (e dos últimos cinco anos) era os oceanos.
A Ana trata logo do assunto: "Enfio os óculos de mergulho e fica a Rainha de Copas a ver peixinhos no Oceano, que achas?!"
...

Só para quem vê Netflix

 

"Mãe, há alguma hipótese de amanhã me mascarar de Anna Delvey?"

...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

Ah, o maravilhoso mundo dos trabalhos manuais que a escola manda para casa

 

O desta semana era o de concebermos uma cadeira dos afetos.
A Joana Vasconcelos terá sucessora e ... eis a nossa!







Mandem vir a Floribela para compor, pode ser?

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Ana, a esfalecer


Ana liga-me enquanto estou a caminho de casa, na auto-estrada:
-"Ai mãe, demoras muito?! Estou a sentir-me mal, com fome. Estou a "ESFALECER".
Eu (preocupada): "Pede à avó que te dê de alguma coisa de petisco, só para aconchegar..."
Ana: "Calculei que ias dizer isso. Então é ok que tenhamos mandado vir pizzas, não é?"

domingo, 20 de fevereiro de 2022

Fui eu que fiz esta miúda

 

A Ana fez a sua própria banda desenhada em que a Mona Pizza farta de estar sempre a sorrir e o Frito farto de estar sempre a gritar fazem uma manif e decidem mudar de expressão.






Não sei lidar ❤️

sábado, 19 de fevereiro de 2022

Croma dourada

 


A Ana foi para a cozinha fazer o seu bolo de cenoura.
Quarenta minutos depois apresentou-nos a sua obra prima (DON'T ask!) com uma proposta:
"Bora cantar os
parabéns
ao covid?!"
Nós: "Credo! Que bolo é esse? "
Ana: "É para o covid!"
Eu: "Que forma usaste? Isso está uma desgraça..."
Ana: "Qual é a parte do "é para o covid" que não percebeste?!
...
Eu mereço?!

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Está oficialmente para adopção


Ana anda entusiasmada com as histórias do Asterix, influenciada pelo pai.
Ana para o pai: "Eu sou o Astérix, que sou muito esperta. Tu és o Obelix, porque és divertido e gorducho"
Eu (armada em confiançuda a pensar que ela iria responder que eu seria a Falbala): "E eu, Ana, sou quem?"
Ana (num impulso): "És o peixeiro..."
...

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Causa Própria

Se não viram, ainda vão a tempo.
Uma série incrível, com uma direcção de fotografia soberba e interpretações geniais. Na televisão pública, que está melhor que nunca.

Passando a critica intelectual, a verdade é que tem o Nuno Lopes e lalalala. #fazia 

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

Era o "Absolutamente Fabulosas" e a CPCJ deve estar a bater-me à porta



Ana: "Hoje no intervalo eu, o Duarte, a Leonor e a Ana Lúcia brincámos ao "Esplendidamente Perfeitas"
Eu: "Ao quê?"
Ana: "Ao "Esplendidamente Perfeitas". Eu era a Edwina, claro .."
...
(Não sei como vou encarar os pais destes colegas da Ana na próxima reunião na escola...)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

"Sonhos que sonhei: onde estão?" Aqui.

Em Agosto quando fomos à Eurodisney a Ana atirou uma moeda para o poço de desejos na caverna dos piratas. Eu ouvi ela a desejar baixinho, de olhos fechados, enquanto a atirava: quero voltar aqui com toda a minha família.


A minha mãe e a minha tia fazem tudo pela Ana desde o dia em que ela nasceu. Apanham-na na escola, levam-na a lanchar, ficam com ela até regressarmos de Lisboa e chegamos sempre antes de jantar, às vezes dao-lhe elas o jantar e adiantam o banho, vão às compras com ela, a passear, a fazer aventuras na natureza (aqui é a minha mãe!), Se ficamos até tarde em projetos pós laborais, reuniões, formações, lá estão elas sempre a dar suporte. E isto tudo sem nunca se queixarem, felizes por estarem com a Ana, gratas por a poderem acompanhar. E nas férias ainda ma raptam para praia, campismo, piscina e dão-lhe os melhores Verões da infância.


Partilham o dia-a-dia, todos os dias, desde há dez anos, com a Ana. Era normal que a Ana quisesse retribuir. Porque se trata de gratidão, este desejo da Ana.


Há seis meses que fazemos mealheiro: a Ana guardou todas as notas e moedas do Pão por Deus, do Natal, da venda dos seus macramés aos amigos e vizinhos, da venda no OLX de livros, brinquedos e roupa usados, eu das formações que dei fora de horas, o Rui das aguarelas que tem pintado timidamente.


Neste fim-de-semana o sonho da Ana tornou-se magicamente real.


A lâmpada do Aladino funciona mesmo. Fomos mesmo, mesmo felizes.

Para registo

4 semanas é o tempo que uma sobrancelha demora a crescer.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada

 A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada.

Fiquei a consumir-me desde então porque não lhe tinha escrito nada. Não gosto de estar em falta com a minha mãe.

Estava doente nesse dia. Uma infecção urinária que não passa. Mas fui deixar a Ana à escola e passei no supermercado para comprar coisas para fazer o jantar para a família, na minha casa. E depois fui à fábrica de bolos e comprei o melhor bolo de amêndoa e chantilly do mundo, com raspas de chocolate por cima. E passei no shopping para lhe comprar um presente. No espaço de uma hora, sempre a correr. Trabalhei toda a manhã e tinha febre. Na minha hora de almoço dei uma geral na casa, para que ao jantar estivesse tudo apresentável. Arrastei-me a fazer isto. E voltei a trabalhar até ao fim da tarde. Acabei o trabalho e pus a mesa bonita. Fiz bacalhau espiritual, leite creme e preparei todo o jantar. Encomendei picanha e fomos buscá-la ao restaurante.

Chegou a minha mãe com a Ana e a seguir toda a família. Foi um jantar tão bom, que quase me esqueci da febre, da infecção urinária e do cansaço extremo.

Depois ao deitar-me percebi que não lhe tinha escrito nada bonito. A minha mãe gosta de palavras bonitas, eu bem sei. E merece todas as do Mundo, porque é a mulher mais valente e inteira que eu conheço.
A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada. Na sala ainda há restos do seu aniversário, incluindo o quadro de luz que a Ana lhe preparou.

A minha mãe gosta de palavras bonitas mas ensinou-me que as palavras valem pouco quando não são acompanhadas por gestos de bem querer. Acho que estarei perdoada.
Eu tenho a minha mãe e a Ana tem-me a mim: todo o amor entre mães e filhas é por aglutinação. Não poderia ter melhor. Acho que mereço esta mãe, a minha mãe, apesar de não ter escrito palavras mas lhe ter dedicado todo o meu dia, mesmo sem estar ao seu lado.

Amar é sempre cuidar e querer bem.

Talvez as palavras estejam sobrevalorizadas.

Fico a dever-te um poema, mãe mas tenho troco, gorgeta e juros no amor infinito que sinto por ti. No bem querer.

Parabéns. Também a mim que te tenho só para mim.
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