sábado, 29 de agosto de 2020

É um avião?

É um unicórnio morto e esculachado? É um arco-íris com problemas hormonais? É uma farfalota pimpinela que nunca se depilou depois de ter corrido naquelas corridas que atiram tintas para o trombil dos participantes?


Não: é a mochila da minha filha.


Ponho água fresca numa jarra


Antigamente odiava todas as rotinas: eram chatas, aborrecidas, previsíveis e enfadonhas. Eu sou feita do imprevisível, do flexível, do não planeado, da surpresa da vida, do improviso. 

 Depois, tal como uma criança que vê um infindável número de vezes o mesmo filme de desenhos animados, comecei, devagarinho,a apreciar saber o que vai acontecer. Gosto de saber que regra geral encontro pessoas civilizadas que usam máscara e não põem em risco a saúde pública, de comprar legumes sempre numa banca e fruta noutras duas, de visitar as peixeiras que acham que eu tenho sempre cara de quem compra sardinhas (e, na verdade, eu prefiro carapaus), que o senhor dos ovos dê sempre um ovo à Ana e o das flores a tente corromper com uma geribera para mudar de clube de futebol, de beber um café da Luísa e no inverno de comer pão com chouriço. 

Em psicologia chama-se “segurança do previsível” e eu gosto muito de chamar mercado a este mercado e saber que para a Ana é e será sempre o “mercado das flores”. 

 Há uma felicidade segura em viver aqui e uma previsibilidade encantadora em ter flores frescas em jarras espalhadas pela casa todos os fins de sábados de manhã.

terça-feira, 25 de agosto de 2020

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

This could be the end of everything





 I walked across an empty land

I knew the pathway like the back of my hand

I felt the earth beneath my feet

Sat by the river, and it made me complete
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
I came across a fallen tree

I felt the branches of it looking at me

Is this the place we used to love?

Is this the place that I've been dreaming of?
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
And if you have a minute, why don't we go

Talk about it somewhere only we know?

This could be the end of everything

So why don't we go

Somewhere only we know?

Somewhere only we know
Oh, simple thing, where have you gone?

I'm getting old, and I need something to rely on

So tell me when you're gonna let me in

I'm getting tired, and I need somewhere to begin
And if you have a minute, why don't we go

Talk about it somewhere only we know?

This could be the end of everything

So why don't we go?

So why don't we go?
Ahh

Ohh
This could be the end of everything

So why don't we go

Somewhere only we know?

Somewhere only we know

Somewhere only we know

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Férias nas Caldas # III acto

“Tu explicas-me sempre as coisas, mãe! Explica-me porquê? Tu dizes sempre que “não” não é resposta. Então porquê?!” 

Porque não, Ana. 


“Mas porque é que não podemos levar chupas de pilinhas de presente para a avó e a tia? Porquê?” ...

Férias nas Caldas # I acto

 

O meu nome é Pólo Norte, estou a passar férias próximo das Caldas da Raínha e a minha filha não quer trazer nada de recuerdo para além de um pénis com as cores de arco-íris e uma coroa no topo.

Obrigada, artesãos das Caldas!
...

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

#deusétuga | Ai, eu estive quase morta no deserto e Santarém aqui tão perto

 A música é com Porto e a voz profunda do Sérgio Godinho mas "perto" é mais que um state of mind: é uma dimensão física também. E o distrito vizinho é Santarém e tirando a capital do Gótico, o lavar de vistinhas com os agro-betos da Feira do Cavalo da Golegã, um namorado que tive em Almeirim e que me apresentou as caralhotas (é um pão regional,tá? Mas é também uma chalaça brejeira e a pessoa completou 40 anos mas continua uma adolescente que se ri com piadas parvas: aguentem-me!), a paixão platónica que tenho com a cidade de Tomar e um torricado que me ficou para sempre na memória comido com a minha amiga Clarisse em Benavente, nunca me tinha dedicado a explorar as entranhas do distrito de Santarém. Posto isto, para efeitos de estilo literário o título do post faz muito sentido, sim?

Alcanena: a capital da pele

Fomos directos a Alcanena. Não sabíamos nada de Alcanena mas queríamos ir ao Centro de Ciência Viva da Foz do Alviela, pelo que, metemo-nos a caminho e chegámos num dia especialmente duro. Na verdade é especialmente "mal-cheiroso" mas "duro" fica menos ofensivo para o alcanenenses. Percebemos que a culpa é da indústria dos curtumes aliada ao mau funcionamento da estação de tratamento de águas fluviais, segundo nos contou um senhor com quem metemos conversa num café. Demos uma volta pela cidade e descobrimos que em Minde, uma localidade pertencente ao concelho, há uma língua própria: o minderico e ficámos com mais curiosidade de explorar "a capital da pele" mas num dia com menos calor e odor. 

Seguimos, então, para o nosso destino programado: o Centro de Ciência Viva da Nascente do Alviela, também conhecido por Carsoscópio. Comprámos bilhete para este centro (erradamente, como viríamos a descobrir depois mas lá chegaremos) e começámos a visita. O tema principal do centro aborda as nascentes dos rios, as águas subterrâneas, o impacto da poluição e... os morcegos. O que prova que karma is a bat, tendo em conta a minha experiência traumática com morcegos há uns anos (não chamem o SOS animal que o crime já prescreveu, por Deus! E eu já sou uma mulher crescida e madura: se fosse hoje surtava sem reação mesmo.) A Ana adorou o simulador gigante (embora eu e mámen consideremos que a linguagem devesse estar mais adaptada ao público infantil), colocar óculos 3D para assistir ao filme e fazer todas as experiências sobre o impacto da poluição nas águas subterrâneas e depois foi o delírio com toda a informação sobre morcegos. Para mim foi bom porque oscilei entre a náusea e a vontade de bolsar e fiquei sem apetite até ao jantar, o que dá jeito para a dieta.

Saímos do CCV que fica mesmo ao lado da praia fluvial de Olhos d´Água (sim, confesso: o Toy fez um concerto na minha cabeça o tempo todo!) e ... mergulhámos. E que spot fantástico, caramba! Adorei, adorei, adorei! Água limpíssima e fresquíssima, peixes a passarem entre nós, gente civilizada e a respeitar a distância social, casas de banho e acessos dignos e bar de suporte e staff disponível. Não só recomendamos como queremos voltar antes do Verão acabar!


Olhos d'Água (o Toy é um sábio!)

Tancos, Almourol, Vila Nova da Barquinha e Constância

Chegámos a Tancos e não resisti à piadola de que deveriam ter por lá à venda t-shirts a dizer "I went to Tancos and all I didn't get was a lousy military weapon" mas, ironias à parte, Tancos é um lugar super arranjado e bonitinho. Mas o nosso objectivo era ali ao lado: Almourol. Estacionámos o carro e fomos a correr para a pequena embarcação que nos ia levar até ao Castelo (4€ por bilhete de adulto e a Ana não pagou. O bilhete inclui a travessia de barco que demora uns 4 minutos e a entrada no castelo. Há um acesso por terra mas, pelo que percebi, é proibido chegar de outra forma que não seja via rio). 

Mega "ohhhhhh" à aproximação do barco ao castelo, numa vista tão bonita como instagramável. Tudo lindo. Quarenta e cinco minutos dentro das muralhas e de visita ao castelo e voltámos para terra. Constatámos, nesta altura, que tínhamos deixado o carro aberto, com o cartão-chave lá dentro e que não tinha sido sequer tocado por nenhum transeunte. Tenho, agora, um belíssimo contra-argumento para sempre que o meu marido quiser armar-se em recalcado e referir-se ao carro como "a minha bomba" explicar-lhe que se calhar não e bem assim, já que fomos a Tancos e nem por misericórdia lhe roubaram o bote... (desculpem! Eu sei...)

Era hora de almoço e alguém nos tinha recomendado a Tasquinha da Adélia, em Vila Nova da Barquinha. E que excelente sugestão! Comemos imenso os três - por um preço obsceno de barato (16€) - grelhada mista no ponto, bebidas, sobremesas e cafés. Demos uma volta pela zona ribeirinha (que bonita!) que tem um parque verde muito giro com vista para o Tejo e seguimos para Constância

Constância (que antigamente se chamava Punhete!) é muito catita de um determinado ângulo. Só que depois há o ângulo das indústrias que descaracterizam aquilo tudo e a vista da ponte é tão bonita e uma pessoa vai ali tão feliz quando, de repente, leva um chapadão de realidade ao ver milhares de troncos no chão e as chaminés altas das fábricas de celulose e produção de pasta de eucalipto. Glup!


Acho que se percebe de onde vem o nome original...
Acho que se percebe de onde surgiu o nome original...


Mas decidimos explorar a vila e começámos pelo Jardim Horto de Camões (1,5€/entrada por adulto). Uma senhora simpática tratou de nos cobrar a entrada e logo se afastou para podar algumas das trepadeiras do jardim, deixando-nos explorar à nossa vontade. Regra geral apreciamos esta liberdade mas desta vez foi estranho porque nos sentimos perdidos e não havia uma narrativa explícita e congruente que nos fizesse viajar pela epopeia do filho mais famoso da terra e de toda aquela flora que representava essa viagem. Claro que aproveitámos para falar de Camões à Ana mas sentimos que havia tanto potencial e estava um bocadinho mal explorado. Valeu-nos o canteiro com uma coleção imensa de trevos de quatro folhas que fez as delícias da miúda. 

Seguimos para o Centro de Ciência Viva- Parque de Astronomia que estava fechado para o almoço e só voltaria a abrir passadas duas horas, o que nos fez desistir mas prometer que aqui voltaríamos. O borboletário tropical era ali ao lado e estava também no nosso roteiro. Só que não: está fechado temporariamente por causa da covid e tivemos que nos contentar com uma actividade sobre insectos na ecoteca pública, que estava um bocadinho confusa. A esta altura estávamos um bocadinho desiludidos com a "vila -poema"(sim, o tejo e o zêzere abraçam-se mas estava tuuudo fechado!) e decidimos, num impulso, ir refrescar as ideias ao açude de Santa Margarida ali ao lado mas ficámos pelo caminho e tratámos de chafurdar num tanque público ali ao lado. Foi genial!

Estávamos "auguados" de rios e barragens e águinha em geral e ... Ferreira do Zêzere e barragem de Castelo de Bode. Mega wow! A Ana já não queria ir embora ("e se dormissemos no carro, mamã?") e foi a muuuuuito custo que a arrastámos para o nosso próximo destino, só depois de prometermos que vamos passar um fim-de-semana a Castelo de Bode mais para a frente. 

Acabámos uma das tardes na Praia Fluvial da Ortiga e, meus amigos: fabulosa! Pouca gente, super limpinha, sem confusão. Super mas super mesmo recomendamos!

E no caminho para um novo distrito despedimo-nos do distrito de Santarém com a visão, até então, da vila mais bela de Portugal: Dornes (é de mim ou tem nome de terra de Game of Thrones?). O que é aquilo senhores? Tanta mas tanta mas tanta mas tanta mas tanta beleza! Já disse tanta beleza? Agora era eu que já perguntava a mámen se podíamos dormir no carro e ficar ali mais dois ou três dias ou o resto das férias, vá...O homem não cedeu, mesmo que eu lhe tivesse acenado com a ideia de pintar a torre templária pentagonal e a igreja maravilhosa e para isso ele precisaria de algum tempo, mas mesmo assim resistiu e eu fiquei como a santa padroeira de Dornes: num pranto. Agora só penso em voltar!

Seguimos viagem para o distrito de Castelo Branco com a certeza de que somos uns totós e não exploramos como deve ser lugares deslumbrantes que temos mesmo aqui no distrito vizinho e a certeza reconfortante de que identificámos lugares que queremos voltar e explorar como destino principal durante escapadinhas de fim-de-semana. Voltaremos: é uma promessa. 


Almourol


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Top do distrito de Santarém:

Pólo Norte- Dornes

Mámen- Ferreira do Zêzere

Ana- Ólhos d'Água


[Fotografias, dicas, segredos e detalhes do nosso #giroquadripolar é no instagram.com/quadripolaridades: batam à porta, sim?]

#deusétuga: prelúdio

 

                   


Etapa 1 | Lisboa- Évora- Santarém- Portalegre- Castelo Branco- Guarda- Bragança- Vila Real- Viana do Castelo-Braga- Porto- Aveiro- Coimbra e Leiria (os outros quatro serão picados antes do final do ano)


Havia muitos planos para as férias deste ano: eu faria 40 anos, a festa seria de arromba, estaria obviamente mais magra porque estaria focada na dieta, na Páscoa teríamos ido à feira de Sevilha com a Ana e agora em Julho receberia o subsídio de férias depois de quase um ano num trabalho tranquilo e do qual gosto muito e partiríamos- os três- para Nova Iorque abraçar a minha soul sister Eileen. Depois road 66 e seria um Verão inesquecível. 

Mas veio a pandemia e lá se foram os planos. 

Eu tenho muita resistência à frustração (aliás, frustro pouco porque nunca dou nada por certo e garantido: sou das que nunca compra bilhete de ida e volta) e não planeei mais nada. Logo se vê. 

Então ele propôs-me, até ao final do ano, darmos um giro quadripolar, uma espécie de volta a portugal de bólide e mostrarmos todos os distritos do país à miúda, uma road trip como adoramos, com improviso e aventura mas em Portugal. Começaríamos em força agora no Verão a cumprir 14 distritos do total de 18 (a esta hora, de certeza que estão a dizer baixinho o nome de todos).

Pensei que era fixe a título de prémio de consolação mas, afinal, a ideia pareceu-me cada vez mais emocionante. 

No instagram do Quadripolaridades criei umas stories com o esqueleto do percurso que planeávamos percorrer e fomos pedindo e anotando as centenas (foram mesmo centenas) de sugestões que as pessoas que vivem ou conhecem bem cada sítio por onde iríamos passar nos iam dando. Ou seja, a excitação começou ainda antes de apertarmos os cintos. 

Planear uma viagem é sonhar no plural. Eu recolhi todas recomendações, ele anotou e organizou e a Ana projectou tudo no mapa, que lhe comprámos na Bertrand. Mapa em papel: a loucura. Eu ouvi pessoas, ele estruturou os dias, ela tornou tudo realidade.

E, logo após o meu aniversário partimos. Foram um quase 2000 Km percorridos, muitos dias na estrada, muitas aventuras, muitas stories, diretos e posts de partilha no instagram e agora, na recta final da road trip e já a curtir o descanso dos guerreiros, arranjo tempo para deixar aqui tudo registado. Para quem quiser aproveitar algumas das dicas mas, sobretudo, para que eu não me esqueça. 

Para a Ana construímos um diário de bordo com o roteiro detalhado, as histórias todas, com aguarelas dos sítios pintadas pelo pai e cartas escritas à mão por mim. Acho que lhe oferecemos um pequeno tesouro que resume a herança maior que lhe queremos deixar: mundo vivido. 

Apertem os cintos: a saga quadripolar #deusétuga vai começar. 

[É escusado dizer que custeámos esta viagem porque, como sempre, a nossa opinião não está à venda. Assim sendo, estamos à vontade para dizer o que gostámos e o que nem por isso, sítios mesmo imperdíveis e outros que benza-a-Deus. Agora não é uma realidade absoluta: é a nossa opinião. Mas, como sempre, é uma opinião livre. ]

domingo, 9 de agosto de 2020

Aos 9 de Agosto de 2020, à Ana por ocasião do seu 8º aniversário

Sabes, Ana, este era um aniversário que eu ansiava. Oito anos é uma idade importante para mim e não é pelos melhores motivos. Mas sabes que te conto sempre a verdade do Mundo, mesmo que a verdade doa. Tinha 8 anos quando eles se separaram. Sei que não me ouves falar do meu pai mas eu gostava muito dele antes de desgostar isto tudo que desgosto. É estranho desgostarmos de um pai, não é? Percebo-te bem na medida em que tens o melhor e mais dedicado pai do Mundo. Dizia-te eu que tenho gravados os meus 8 anos como o ano em que os meus pais se separaram mas, na verdade, o que conta é que esse foi o ano em que me senti desamada pela primeira vez. Talvez por isso ansiava que chegassem os teus 8 anos, felizes e tranquilos, seguros e, especialmente, amados, cuidados e queridos incondicionalmente, por todos. Como se pudesse, através de ti, dar colo à menina de 8 anos que fui, dar-lhe beijinhos nas esfoladelas da alma, apagar o desamor sentido à estreia. A psicologia explica e um dia posso-te explicar tudo, vantagem de quem tem pais psicólogos, né? Crescer dói sempre, filha. Porque implica escolher e aceitar escolhas circunstanciais que a vida nos atira sem que peçamos. E todas as escolhas implicam um ganho do que se escolheu mas também uma perda do que se deixou por escolher. Aceitar e viver bem com isto é o maior desafio da nossa existência. Assim que perceberes que é assim que funciona tudo será mais fácil. Não te posso spoilar a vida, Ana, porque isto é absolutamente imprevisível e dinâmico. Essa também é a parte que tem graça. Desejo que cresças forte e segura. Não segura de ideias, que elas evoluem. Nem de dogmas ou convicções. Nem sequer de quem tu és porque vamos sendo diferentes pessoas ao longo da vida. Mas segura incondicionalmente de que és amada por nós e que nunca sairemos de perto de ti. Nunca será o último aniversário que, por nossa escolha, passaremos contigo. Como foi o meu oitavo, o último em que desconheci o desamor. Não aches que isto não é um final feliz porque sou tua mãe e tu consertaste, célula a célula da minha vida, a forma como vivo o amor. Como amo e sou amada. Eu ensino-te a verdade do Mundo mas tu retribuis-me com toda a verdade sobre o amor.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Feliz Ano Novo, Marta!




A Marta celebrou o seu aniversário em quarentena.

A Marta tem um coração bonito com raízes profundas de valores e afectos e ramos que são abraços que nos dá com os olhos, o sorriso grande e também os braços.

 Um coração bonito onde podemos fazer ninho e voar de lá e voltar sem cobranças nem exigências porque a Marta é toda ela Primavera, como o é o mês que escolheu para nascer.

A Marta fez anos e ele dedicou-lhe a primeira aguarela que pintou em muitos anos porque a Marta tem coração de flores.

E a sua amizade cheira a tulipas, borboletas, andorinhas e sol.

É para verem a fé que estes canastrões têm em mim

Eu: a pessoa que informa no facebook que descobriu uma app de troca de casas durante as férias e cujos amigos mandam links complementares via mp de mais apps de trocas de CASAIS durante as férias.


Tá bonito.

Ana, a precisar de relaxar

"Ai, mãe, preciso mesmo de um banhinho de impressão".

segunda-feira, 25 de maio de 2020

"Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco, e depois morre"




“Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco, e depois morre” - in “as velas ardem até ao fim”. 
 Nos últimos meses aprendi tanto, cresci tanto, aprendi tanto sobre mim e sobre o Mundo, abriram-se tantas luzes, desfizeram-se tantos nós. Tem sido um processo tranquilo e sereno ao contrário de todas as outras vezes em que cresci à força, puxada por episódios marcantes específicos: a separação dos meus pais, a morte dos meus avós, o nascimento de Ana, a morte do meu tio. 

 Desta vez é diferente, é de dentro que o crescimento vem, não é nada externo, consigo projectar-me,pensar mais fundo como quem inspira, sentir melhor. 

 Faço quarenta anos dentro de dois meses, o equador da vida e já não me sinto a envelhecer, como se fosse uma coisa pesada e fatídica, sinto-me só finalmente a crescer sem ser à bruta, à força, com estaladas da vida e abanões do destino. Crescer como cresce uma planta já depois de ter caule e folhas e flores, crescer para os lados, tornar-me mais robusta e forte, melhor. Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco. Pouco a pouco, é mesmo assim. Para compreender tudo bem. Tudo certo e melhor.

 E depois poder, enfim, morrer como quem (se) apaga (n)uma estrela.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

segunda-feira, 6 de abril de 2020

Ana, a mercenária

A Ana decidiu ocupar o tempo de quarentena criando pequenos caça.-sonhos. Vende-os (obviamente!) às minhas amigas, numa de juntar dinheiro para as férias (foi assim que no ano passado pagou as entradas de toda a família na Isla Mágica). É a pessoa mais poupada do Mundo.

É, também, super empreendedora e orientada para a tarefa.

Acabou uma série de caça-sonhos e decidiu publicá-los na sua conta de instagram. Uma seguidora decide fazer o quebra-gelo.

Apreciem:


Juro que sou mãe dela!


Tarefa do dia da Ana: transformar a sua biblioteca da sala num arco-íris. 

Não sei o que me mais espera mas tenho medo...

O mundo divide-se entre...

... quem organiza os livros na estante por tamanho dos livros e quem organiza por ordem alfabética de autores.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Covifado

Depois do incrível samba da quarentena do Brasil e da fabulosa ópera da quarentena de Itália, temo o faduncho colectivo de homenagem à luta pela Covid-19.

sábado, 28 de março de 2020

quinta-feira, 26 de março de 2020

O meu nome é Pólo Norte e sou vítima de cozinho-bullying

Mámen e Ana voluntariam-se, muito diligentes e solícitos, para fazer o jantar (idiotas!).

Ouço-os aos risinhos na cozinha.

Abeiro-me e a Ana pergunta-me, muito séria: "Sabes qual foi o último filme de terror que eu e o pai vimos, mamã?"

Aceno que não.

Responde-me com ar de gozo: "Chovem almôndegas!"



Estão há vinte minutos a rirem-se da minha cara.

Petit noms fofinhos que mámen me chama

O meu excelso esposo brinda-me, regularmente, com uma lista imensa de petit noms fofinhos.


Vale tudo: Li, Lilica, Licas, Lica, Lilicosa, Grunguinha, Grungui, Grungosa e, quando eu estou furibunda, sai-lhe sempre uma interjeição que eu oiço como Jumarruá, e cuja origem nunca percebi nem nunca lhe perguntei porque, enfim, quando ele me chama isso eu estou sempre puta da vida.

Hoje à hora de almoço, depois da cena das almôndegas e de eu ter usado a cartada do "vocês são uns ingratos, eu dou o meu melhor, beca beca", ele virou-se para a Ana e disse "não cutuques a Jumarruá" e eu voltei atrás e esclareci, de uma vez por todas, onde raio tinha ele desencantado aquele petit nom fofinho.




É Juma Marruá.

Preferia ter-me mantido na ignorância. [Cabrão!]



Ana, a ingrata quase vegetariana

Tenho sobras de frango e quero aproveitá-las de alguma maneira. Tenho a ideia peregrina de fazer almôndegas de frango. Não ficam, propriamente, geniais (que toda a gente sabe que não fui bafejada com o talento da mão para a cozinha). 

Ponho o almoço na mesa. 

Mámen dá uma garfada, arregala os olhos e continua a comer em silêncio, para não me cutucar. 

Ana mete a primeira almôndega de frango à boca, mastiga durante muito tempo, enrola a comida na boca e, finalmente, engole, fazendo uma expressão de puro enjoo. 

Arregalo-lhe eu os olhos. 

Defende-se de imediato: "Tens noção que morreu uma galinha para isto, mãe?"


...


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quarta-feira, 25 de março de 2020

Ana, a sopeira católica

Mámen e Ana a fazerem o jantar.


Sopa na bimby a terminar. Apita a bimby e mámen destapa a tampa e verifica, com uma concha, a consistência da sopa, verificando a necessidade de juntar mais água para diluir a dita. Vira-se para a Ana e estende-lhe um copo, instruindo-a:

"Vai ali buscar água para baptizar um bocadinho a sopa"

Ana, olha confusa para o copo, destapa outra vez a bimby, olha muito séria para a sopa e arrisca:

"Eu te baptizo em nome do pai, do filho e do espírito santo. "






Estamos há uma hora a chorar a rir.

Hino de todas nós

Todas cabras

Já recebi de outra a dizer "Suplente de primeiiiras".


...

As minhas amigas prestam menos que as vossas

Depois de ler o meu último post aqui uma das minhas melhores amigas envia-me uma mensagem de whatsapp. 

"Se isso do mámen passar a ficar disponível em breve for para a frente, digo já: Primeiiiiiras".













 Putas.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quem não tem cão, caça com unicórnio

Mamen não sabe onde meteu a embalagem e começa à procura de uma máscara para sair à rua. 

 Sugestão da Ana, muito séria e solicita : “se não encontrares podes usar a minha máscara de unicórnio..."


Relembro:




sexta-feira, 20 de março de 2020

quarta-feira, 18 de março de 2020

Coping em tempos de cólera


Há pessoas que quando estão assustadas, com medo, ansiosas ou frágeis congelam. Ficam ali a cismar, sem conseguir agir, enterradas nas preocupações, com insónias e falta de apetite. A maioria das pessoas que conheço ficam assim e acho que, por serem a maioria, se considera que esta é a forma socialmente desejável de se sentir (mostrar?) sofrimento. 

Já eu quando estou triste, angustiada, preocupada, perdida ou ansiosa tenho duas respostas: primeiro começo a ser hiperactiva e exploro todas as opções que consigo controlar de forma desenfreada até as esgotar; segundo não dispenso nenhuma gota extra de energia sobre coisas que não controlo. E durmo, muito, como se o meu cérebro se quisesse poupar, numa espécie de reboot e armazenar energia para quando ela for mesmo útil. As pessoas não são muito empáticas por quem não se mostra down, na merda e - muito menos- por quem dorme durante o caos. 

Eu durmo. 

Pensei que seria essa a minha resposta a este stress que o vírus trouxe à vida de todos mas, Maslow existe, e fiquei doente ( e não foi somático: fiquei mesmo doente). E por isso (e por ser grupo de risco) estou em isolamento e numa serenidade que complica a maioria das pessoas que conheço. As estratégias de coping são as respostas de cada pessoa para lidar com situações extremas de stress externas ou internas. 

Não há estratégias padrão ou universais para lidar com o stress. Tal como há diferentes formas para se fazer bolos. 

Não julguemos quem se orienta para a regulação da emoção como não julguemos quem adopta estratégias de resolução do problema. É, mais que nunca, a altura de aproveitarmos o período de isolamento para nos conhecermos melhor uns aos outros, com o tempo que o dia a dia, o trânsito, os relógios e o que fazemos para jantar, não nos permite. 

Mas, sobretudo, aproveitemos este tempo para nos conhecermos melhor. A nós próprios. 

E seja qual for a forma que tenhamos disponível para nos auto-regularmos e pormos o bolo no forno. Há poucas coisas melhoras na vida que o cheirinho a bolo quente a sair do forno. E a certeza de que somos capazes de ultrapassar o stress e sairmos ilesos disto. E comermos o bolo sem culpa. Com o prazer de estar vivos. 

Estaremos.

terça-feira, 17 de março de 2020

Nobody sait it was easy but caralho, men!






Há uma semana fomos almoçar ovos rotos ao rubro e eu ofereci às minhas amigas os presentes de Natal  atrasados:  umas canecas tolas feitas por mim. Adiamos encontros, andamos sempre de agendas desencontradas e damos por garantidas novas oportunidades de estarmos juntas, de nos abraçarmos, de partilharmos comida na mesma mesa, de rirmos cara a cara. 

No dia seguinte voltámos a estar juntas num momento tristíssimo de uma de nós e mais uma vez suspendemos todos os planos e priorizámo-nos. 

Eu, que não acredito em premonições, olho para as mensagens toscas que escolhi para cada uma delas. e para o facto de uma fatalidade nos ter juntado um dia depois, como um prenúncio dos tempos que, hoje, vivemos. Vai passar.

 Nobody said it was easy (But caralho, men), vamos ter que gritar namastoda-se muitas vezes, mas enfim, sobreviveremos porque, no fim de contas, somos todos paleolitic survivers. Não vai ser fácil mas vamos superar. Vamos ter que viver dentro de casa, experimentar big brothers familiares duros e vamos ficar insuportáveis. Mas vivos, que é o que se quer. 

Enquanto escrevo este post olho para a caneca que ficou por entregar à querida MEP e sorrio. A caneca que reza assim “Jesus ama-te porque não convive contigo”. Que com este convívio não nos deixemos de amar. Pelo contrário: que sobrevivamos com mais amor, mais sentido de urgência no amor, menos adiamentos de planos, de afectos, de beijos, abraços, olhos nos olhos e gargalhadas ao vivo que nunca mais daremos por garantidas. 

A vida dá-nos sempre hipóteses de fazermos melhor. 
Faremos.

quinta-feira, 12 de março de 2020

Ana, a confusa

"Ai mãe, a minha vida é uma confusão: como a catequese e o yoga são um dia a seguir ao outro nunca sei quando é que é para dizer ámen ou namaste"

...

quarta-feira, 11 de março de 2020

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que sabem o que significa quarentena e os estúpidos.

Ana, aos sete anos e bué dias



Chamo a Ana para tomar banho.

"Ó mãe, agora não dá! Estou no meu momento."

Volto a chamar, segunda vez.

"Deixa-me lá momentar mais um bocadinho, vá!"

Zango-me e começo a contar 1,2,2 e meio já para a banheira e ela segue à minha frente, injustiçada:

"Estás a ser momentosa!"

...

segunda-feira, 9 de março de 2020

Ana, a literal

 A professora da miúda reuniu a turma e fez uma brilhante e apaziguadora explicação sobre o Coronovirus, terminando com a recomendação mais inteligente de todas: o importante é lavar as mãos e bem e sem ser a despachar. 

Para ilustrar isto, deu como referência que eles devem lavar as mãos enquanto cantam duas vezes a canção dos "Parabéns a você". 

A modos que cheira-me que não há coronovirus que se cole à Ana pois, para além dela cantar desde a primeira estrofe do "Parabéns a você" até à última "uma salva de palmas", continua sempre com o "Obrigada, meus amigos, do fundo do coração, por me terem cantado esta linda canção", faz a onomatopeia dos aplausos, do sopro da vela olhando- se no espelho e no, fim, já a secar as mãos, reclama sempre com um "devíamos pôr uma vela aqui ao pé do lavatório para pedir um desejo quando acabo de lavar as mãos, não achas, mãe?"

São só 27538 minutos a lavar as mãos, coisa pouca. 

...

A minha vida é um prato de ovos rotos.




Uma espécie de metáfora da minha vida: batatas fritas alinhadas, presunto do melhor, o ovo no ponto certo mas o que mais queres na vida é desmanchar a gema do ovo, remexeres em todos os ingredientes, desalinhares todo o prato e chafurdares-te. 

A minha vida é um prato de ovos rotos.

sexta-feira, 6 de março de 2020

Calma



Aos 20 anos a gente quer arrumar a vida: introduzir sonhos em Excel, somar conquistas, acumular experiências, encontrar as fórmulas certas para cada operação e que no final as contas todas batam certo. Se pudermos introduzir gráficos que provem que não há margem de erro é tratar, analisar e discutir os dados, tanto melhor. Não queremos que haja dúvidas de que estamos certos. 

Esperamos aos trinta anos termos a folha de Excel imaculada e depois percebemos que a matemática não depende só de nós: há falhas de electricidade, vírus nos computadores da vida, actualizações no próprio Excel de versão 1.1 e quando passamos a dominá-la, já vai na 7.1. e estamos sempre atrasados, desactualizados, perdidos. Errados nas contas. Irremediavelmente errados. São as primeiras pessoas significativas que nos morrem, as casas que não conseguimos comprar, as rendas de aluguer que aumentam, as viagens que sonhámos fazer para as quais o dinheiro não chega, a vida que desgasta as relações, os empregos que já não são para a vida e a consciência plena de que há muitas coisas que dependem dos nossos conhecimentos em Excel mas há a sorte, o mundo, o acaso e tudo aquilo que não controlamos. A electricidade que falha. 


Aos 30 fechamos as macros e as folhas e de repente somos mães e dizem-nos que a vida vai mudar e romantizam e é um paint irreal e ultrapassado. De Excel a paint- imagine-se o fail. E vendem-nos as aguarelas de que vamos tomar conta dos filhos e de repente são os filhos que tomam conta de nós, do nosso tempo, energia e planos. É duríssimo. “A maternidade é um esvaziar-se que transborda tudo”- li algures. É isto.



Aos 40 a gente até quer desarrumar a vida. Para os 40 quero um word onde possa escrever e deletar, activar o corrector automático e ignorar as sugestões, mudar estilos e números de fontes, contar palavras e arriscar em negritos, itálicos e sublinhados naquilo que importa. Construir a minha história. A minha. Mesmo que tenha -rev01 ou _rev100 na extensão dos nomes dos ficheiros guardados. Não preciso de contas nem cores. Só da história contada de forma corrida. A minha história.


Se tudo falhar que não me falte papel e caneta. 

Nunca me esqueci de como é bom escrever à mão. O difícil é recomeçar. 

quarta-feira, 4 de março de 2020

A parábola que se transformou numa metáfora e a morte de uma das principais figuras de estilo

Há exactamente sete anos andava fascinada com esta história. Contei-a aqui mas posso voltar a resumi-la:

"Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de um lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver.

Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ulay chegou sem que ela soubesse... e foi assim." 

  

Ulay morreu esta semana.

Dei por mim, triste e melancólica, a pensar em tudo o que poderia ter sido se se abraçassem e tivessem caminhado juntos na mesma direcção da Muralha da China. Teriam só conhecido uma margem- a mesma- os dois ao invés de cada um conhecer cada pedacinho do lado oposto. Teriam perdido Mundo? Teriam ganho Mundo?

Terá acontecido o mesmo com eles? Digo isto no sentido de acontecer de forma interna. Em que se tornaram no caminho individual? No que se poderiam ter tornado no plural?

O amor pode, não resistindo, persistir? E quando a vida e o amor são coisas diferentes? E todas as possibilidades que não passaram disso? E toda a história que se concretizou sobre uma não concretização?

Muitas vezes, o amor é uma coisa e a vida é outra e isso é, simultaneamente triste e belo de tão triste que é.  Uma contradição absolutamente estúpida. 

Ulay morreu esta semana e com ele morreu tudo o que poderia ter acontecido. 

terça-feira, 3 de março de 2020

Sistema de senhas prioritárias para o Coronovirus atribuídas a...


  • Pessoas que escrevem "-mos" em verbos conjugados na primeira pessoal do plural 
  • Pessoas que escrevem "estives-te" 
  • Pessoas que dizem "as alterações climáticas são uma treta, é tudo para ganhar dinheiro" e depois queixam-se que chove muito no verão ou que faz calor no inverno 
  • Machistas, racistas, xenófobos, fanáticos religiosos, políticos e clubisticos.
  • Pessoas que não distinguem o “à” do “há” 
  • Malta que cutuca no nosso braço enquanto falamos 
  • Pessoas que dizem "ha-des" e eles "idem"
  • Pessoas que dizem 'colocar' em vez de 'pôr' 
  • Pessoas que escrevem "fodasse" 
  • Gente que partilha imagens motivacionais da treta 
  • AVentesma
  • Pessoas que dizem ouvistes, falastes, Hades, Tufone, Pugrama... 
  • Pessoas que estacionam no lugar reservado a pessoas de mobilidade condicionada 
  • Homens que dizem “a minha Maria” quando se referem às mulheres 
  • Locutores de rádio super bem dispostos e felizes e a rir imenso logo às 8 da manhã. 
  • Malta que escreve "voçês" 
  • Toureiros e todos os que contribuem para isso 
  • Gente que diz "prontos" 
  • Pessoas que dizem “eu não sou racista mas"
  •  Pessoas que ainda têm jerricans cheios em casa
  • Fachos 
  • Mulheres que usam unhas de gel pontiagudas 
  • Terraplanistas 
  • Pessoas que começam a frase por "- Epá, estás mais gordo..." 
  • Pessoas que frequentaram a “universidade da vida” 
  • Pessoas que embarcam no medo e espalham rumores e fake news sem sequer tentar verificar idoneidade da informação 
  • Anti-vaxs
  •  Pessoas que lêem Pedro Chagas Freitas e Margarida Rebelo Pinto
  • Pessoas que usam 's como plural e desconhecem o uso do genitivo 
  •  Malta que diz sande e téni 
  • Pessoas que atendem o telemóvel durante espetáculos ou no cinema 
  •  Coachs da vida 
  •  Pessoas que mandam indirectas no Facebook 
  • Pessoas que tentam meter-se na frente dos outros na fila do supermercado 
  • Condutores de fim-de-semana 
  • Aquele youtuber que acabou com a namorada num vídeo 
  •  Homofóbicos e misóginos 
  • Pessoas que publicam fotos suas, acompanhadas de grandes pensamentos filosóficos (#sóquenão) e terminam os textos com "e mais não digo..." 
  • Os "arquitectos" que projectam WC públicos com menos de 1 m2, onde tens que encostar as pernas à sanita para conseguir entrar e fechar a porta! Ah!! E quem se lembra de instalar os sensores de luz, como se tivéssemos todos uma antena de meio metro na cabeça, para fazer aquilo disparar e não ficarmos de rabo para o ar a esbracejar! 
  • Homens que fazer mansplaining 
  • Pessoas que têm tanta pressa de entrar no elevador que bloqueiam a passagem de quem tem de sair para lhes dar lugar
  •  Gente de claques de futebol 
  • Pessoas que dizem "ele até diz umas verdades!" e esquecem as barbaridades políticas associadas 
  • Pessoas que compraram todas as máscaras e deixaram os imunodeprimidos a ver navios 
  • Quem diz "Amarei-te" e afins! 
  •  Epidemiologistas de sofá.

 (aceito mais sugestões na caixa de comentários)

O Mundo divide-se entre...

... as pessoas que usam o relógio no pulso direito e as outras.

Pertenço ao grupo de risco do coronovírus

Se quinar não me vão "atravessadas" na garganta as pessoas a quem não disse que amava nem as pessoas a quem me falta pedir desculpas: vão todas aquelas a quem não mandei para aquele sítio cabeludo.

Ana, a mercenária

Com toda a timidez que a caracteriza, a Ana tem uma característica improvável: adora trocas comerciais, é empreendedora e inventa sempre novas formas de ganhar dinheiro. Há uns tempos andou a vender receitas do seu fantástico bolo de cenoura, no Verão montou com a melhor amiga uma banca de limonada, já fez pulseiras de linha para vender às amigas e por aí fora. 

Vai que, recentemente, começou a separar, ela mesmo, as roupas e os brinquedos que já não usa e a vendê-los em segunda mão, estando- obviamente!- a juntar o dinheiro todo. 

No fim-de-semana, depois de ter açambarcado uma quantia simpática na Kid to Kid a vender roupa, virou-se para mim e para o pai, muito séria, e informou:

"Sabem, a minha palavra preferida no Mundo é... "dinheiro"!

O pai, a fingir-se ofendido: "Dinheiro? Tens a certeza?"

"Pronto, "dinheiro" e logo a seguir "grátis". Também gosto muito da palavra "grátis". 

Eu e o pai olhamos um para o outro, chocados e ela encaram-me:

"Não precisas de ficar com essa cara, que a minha terceira palavra preferida, logo a seguir a "dinheiro" e grátis", é "mãe", tá?

...

segunda-feira, 2 de março de 2020

Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização




"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...

De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD

Beijinhos quadripolares radioactivos

Ana C."


Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!

[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]

Despedidas à porta da escola: uma análise histórica da minha curta vida como mãe



No pré-escolar: 

Beijinhos, vá. Tem um bom dia, meu amor. Brinca muito. Porta-te bem. A mãe ama-te muito. 

No início da escola primária: 

Não dispas o casaco no recreio, ouviste? Toma atenção nas aulas! Não te esqueças da lancheira. Beijinhos, vá. A mãe ama-te muito.

Há dois meses:  

Não dispas o casaco no intervalo. Estás cheia de cieiro: não te esqueças de pôr o batom nos lábios. Come tudo o que vai na lancheira, ok? Muita atenção nas aulas, ouviste? Beijinhos, vá. A mãe ama-te muito. 

Há um mês:

A mãe ama-te muito, querida. Tem um dia feliz mas NÃO ENCOSTES A CABEÇA AOS MENINOS QUE ESTIVEREM A COÇAR MUITO O CABELO, OUVISTE? Beijinhos, tá?

Há uma semana:

A mãe ama-te muito MAS o coronovirus existe e estás proibida de dar abraços e beijinhos a quem quer que seja, ESTÁ BEM? 


The Secret Diary of Pólo Norte, Aged 39¾

Tens que fazer dieta que depois dos 40 não é fácil emagrecer. Se te desleixas ele arranja outra mais nova, que os homens a partir de uma certa idade, dá-lhes para isto. Não mudes de trabalho porque depois estás velha para encontrar um novo. Olha, que tens uma filha para criar. Não vais dar um irmão à miúda? Olha que é agora ou nunca! Já ouviste falar de menopausa precoce? Sabes que o útero tem um prazo de validade? Não pintes esses cabelos brancos não, que não é preciso. As tuas maminhas também já começam a acusar o peso da gravidade? Não podes comprar outra casa que já nenhum banco empresta dinheiro a trinta anos a pessoas de quarenta, né? Oh, uma pena ficares só por uma filha, que um não é nada mas também, ser mãe aos 40, só se fosse para seres avó da criança. Mudar de cidade? Nesta idade? Tu ganha juízo. Sabias que a outra fez uma plástica: podias seguir-lhe o exemplo. Credo, gabo-te a energia. Já não tens idade para usar esse decote. Não sejas tão impulsiva. Já não tens idade para dizeres palavrões que és uma senhora. Vais fazer uma festa de 40 anos com o tema dos anos 20? Podias usar uma maquilhagem básica para disfarçar essas manchas na pele. Já fizeste a mamografia? Já fizeste a ecografia mamária? Oh, tu também tens pés de galinha? Na tua idade é melhor assumires de vez o fato de banho, que já não tens corpo para bikini. Podias correr: na tua idade o que está a dar é fazer corridinhas. Ganha juízo e deixa-te estar como estás. Fazer uma tatuagem: olha para o que te havia de dar agora... Tens que ter mais pudor com o que escreves que não podes envergonhar a tua filha. Nem a tua mãe. O teu marido não se chateia que saias à noite com um amigo? Moderninhos, han? O Boom não é para gente da tua idade. Tu estima bem o teu marido que ele faz tudo em casa e homens desses não se arranja por aí. Estás gordinha, pá! Todas as tuas amigas estão na segunda ronda de bebés, tens a certeza que não? Uma corzinha nas unhas, vá, faz lá um esforço! Um gelinho? Bebe muita água que assim ficas sem fome. Fica tão feio uma senhora beber cerveja pela garrafa. Não percebo como não te interessas por moda. Estás a ficar uma simplória. Andas desleixada. Quanto é que te pesas, se não é indiscrição? Já não tens idade para falar de sexo assim, parece vulgar. Devias cuidar mais de ti. Como assim trocaste os recursos humanos por psicologia social? Queres ver que o dinheiro não te faz falta. Não tens saudade de ser bem sucedida? Vais ao revenge of the 80's? Estás gorda, já nem te conhecia. Já trocavas esses relógiozinhos da Swatsch por relógios de gente crescida, han? Como assim não és louca por malas e sapatos? Vais à neve? Tens a certeza que não vais mesmo dar um irmão à Ana? A melhor prenda que se pode dar a uma criança é um irmão. Ah, desculpa, se calhar não podes ter mais, não é? A tua vida é fantástica: não estragues tudo. As pessoas da tua idade... No teu tempo... Olha, quase, quase a entrar na ternura dos 40, han?


Ide-vos foder. 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

Coração em tempos de cólera

O meu coração é um freguês do Lidl que passeia naqueles corredores centrais cheios de bugigangas à espera de aparecer uma quinquilharia que nunca me ocorreria que viesse a precisar mas que, a partir daquele momento, não consigo imaginar a minha vida sem tal inutilidade. E embora tenha tudo em casa, domine os sítios onde está tudo guardado, tenha moldado o sofá e as almofadas ao meu corpo e os tapetes e os chinelos aos meus pés deformados, o meu coração vai sempre lembrar-se que precisa de uma máquina de cortar pelos do nariz. Colorida, embora a cor não faça falta para nada e com certificação iso9001 e tudo.
Só que a verdade, verdadinha, é que eu nem sequer tenho pêlos no nariz.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Ana, a maravilhosa introvertida



Sou extrovertida, animada, barulhenta, divertida e popular. Ocupo muito espaço nas relações (o que, na maioria das vezes, nem sequer é uma coisa boa), sou impulsiva, impaciente e hiperactiva, gosto de estar no centro das atenções e posso parecer “over” em tantas e tantas outras situações. Por outro lado sou a rainha das festas: conto piadas, distribuo temas de conversa, lanço os foguetes e apanho a cana. 
As pessoas sentem-se, geralmente, animadas na minha presença. Sou muito auto-confiante nas relações interpessoais e altamente empática. 

 Em todas as procuras de emprego, depois de passar a triagem curricular, safei-me sempre nas entrevistas presenciais, muito mais pelas minhas competências sociais do que pelas hard skills. Ser extrovertida abre muitas portas. O mundo está feito para os extrovertidos e se colocarmos uma conotação positiva/negativa nestes traços de personalidade, a extroversão será sempre encarada, no senso comum, como o o traço de personalidade positivo. As pessoas adoram os miúdos descarados e fala-baratos, os mais comunicativos e sem medo de se exporem, os que gostam de palco. Os miúdos extrovertidos arrancam gargalhadas, dão pica e conversa e fazem os adultos sentirem-se divertidos e felizes. 

 Daí que quando engravidei projectei a Ana assim, barulhenta, divertida e destrambelhada, ruidosa e sociável como eu. A Ana sempre foi uma bebé tranquila, chorava quando precisava de alguma coisa, aninhava-se no meu colo e ali aguentava muito tempo feliz e contemplativa e nunca gostou de andar de colo em colo- "ai que a menina estranha toda a gente!"- só no meu, do pai, da avó e da tia. Nunca foi uma miúda que sorrisse indiscriminadamente nem uma criança “dada”, e não fosse ser factualmente uma bebé Nestlé, não era uma bebé que apetecesse, que cativasse. 

 Um dia no colégio, tinha três anos, vi-a a brincar sozinha e inquiri a educadora: que aquele era um comportamento regular, que odiava ambientes de grupo confusos e de disputa, que não tinha paciência para negociar brinquedos e que não precisava da aprovação dos pares nem cedia à pressão social . Fiquei com o coração apertado, se me visse sozinha aos três anos na creche, sentir-me-ia perdida e abandonada e ai minha rica filha. 

 A timidez, ou a introversão como lhe chamo eu, não era na altura- como não continua a ser- um problema para a Ana. Custou-me a entender que o estar sozinha não acarreta qualquer sofrimento para a Ana e que não só não evita ,como procura, muitas vezes, ambientes tranquilos e recatados, onde se predispõe a criar, a brincar, a testar e a descobrir o Mundo, sem pressões externas, sem ritmos impostos pelos outros sem negociação.
A Ana não aprecia grandes grupos com muitas interações, não gosta de dispersar, privilegia ter uma amiga ou duas de referência e investe, aprofundadamente, nessas relações ao invés de dispersar tempo, atenção e energia em grupos com mais elementos. Também não gosta de conversas de circunstância, recusa desde sempre a dar beijos a estranhos (e nós nunca a obrigámos) e, se puder, não esboça mais que um sorriso quando se metem com ela. E metem-se muito, o que a incomoda grandemente.

 Ao princípio custou-me empatizar com a Ana e cai no erro de a empurrar para o comportamento esperado e socialmente desejável. Foi para mim durante muito tempo uma espécie de conflito interno, assente num receio inconsciente de que a Ana fosse diferente, se sentisse diferente e que isso lhe trouxesse sofrimento. Que, por ser tímida e reservada, a vida lhe fosse mais difícil. Com base neste medo quase caí no erro de achar que a Ana teria que gostar ou teria que se adaptar a uma maioria, para que não fosse excluída, marginalizada ou apenas desajustada ou inadaptada. Obrigá-la a interações sociais forçadas, insistir no “dá um aperto de mão ao senhor!”, “vai lá brincar com os meninos ali no parque infantil” e colocá-la em contextos desportivos ou artísticos que implicassem interação social: tentei de tudo. 

A Ana continuava a não se sentir confortável. 

A pôr-se debaixo do meu sovaco de cada vez que se queria ver livre de uma situação indesejável, a olhar para o chão e a emburrar. E eu a repreendê-la, quando ficávamos sozinhas, e a instruí-la sobre normas sociais com estranhos que nunca mais veríamos, pessoas com que nos cruzamos mas com quem só temos micro-interações, dizer-lhe que tinha que ser mais simpática.
E a pensar que as pessoas- todas- a achariam mal educada e no fundo era “about me”: uma mãe incompetente que não obriga a filha a ser cativante e fofinha e, por isso, querida e gostada por todos. Popular e cativante. 

 E um dia caiu-me a moeda: eu estava a dar sinais, inconscientes, à minha filha de seis anos, de que tinha deixar de ser ela, de ser como é, para corresponder às expectativas dos outros. Dos outros que não nos interessam grande coisa porque, para os que ela ama e verdadeiramente lhe importam, o comportamento é sempre de profunda proximidade e amor dedicado. Que era mais importante os outros, os estranhos, elogiarem a sua simpatia e validarem em como era um amor de criança do que a fazer sentir-se confortável.
 Quarailho, estava a privilegiar as expectativas dos outros e a aprovação social ao bem estar emocional da minha filha! E passei a adoptar outra estratégia, que era a de deixá-la gerir as relações sociais como entende, sem a repreender ou forçar, mas justificando-a a terceiros, como que a defendê-la de julgamentos alheios e juízos de valor, a pedir que “não a levassem a mal”: “ah, a Ana é tímida, sabe?!” ou “não sai nada a mim que sou uma galhofeira”. A expô-la, portanto. A justificá-la sem qualquer sentido. 

 Até que me fartei: deixei de justificar a introversão da minha filha e abraço-a e celebro-a. 

Sou uma mãe extrovertida e tenho uma filha introvertida. Aprendi, a custo, o importante que é respeitar as características da Ana, não a extrovertoevangilizando e estando sempre a tentar que se adapte a contextos ou comportamentos que pedem extroversão. Da mesma forma que se fosse uma mãe introvertida e tivesse um filho mais extrovertido, também não deveria impedi-lo ou castrá-lo na sua necessidade, igualmente legítima, de socialização. 

Ser extrovertido não é bom da mesma maneira de que ser introvertido não é mau. Introversão e extroversão não são sequer traços de personalidade opostos: fazem parte do mesmo continuum e toda a gente é, simultaneamente, extrovertida e introvertida, sendo apenas um dos traços o dominante e o outro o recessivo. É um espetro, portanto. E que maravilhoso e diverso que isso representa! 

A Ana é criativa e independente. Sensível e bondosa. Não é influenciável nem sente pressão social. Não precisa de agradar ninguém. É obstinada e confiável. Quando escolhe alguém dedica-lhe todo o seu amor e faz tudo por essa pessoa. E não escolhe muita gente, por isso, só pessoas muito especiais entram no mundo da Ana. Não dispersa, é observadora e boa ouvinte, atenta aos detalhes e discreta. Lida bem com a frustração e não valoriza a opinião de terceiros que não legitima. Conhece-se bem e é auto-confiante. É muito subtil e tem um sentido de humor acutilante. Não precisa de palco: tem os aplausos dentro de si e é a criança mais generosa e empática que conheço. É muito dedicada à família. Não é impulsiva e é ponderada na tomada de decisões, tendo uma sensatez fora do normal para a sua idade. É muito perspicaz e óptima a resolver problemas. Aprecia leitura, arte, música. E retira muito prazer em atividades solitárias: gosta mesmo muito da sua própria companhia. Aprecia o silêncio, a organização, ambientes estruturados. Adora escrever, fazer jardinagem e, ainda por cima sendo filha única, tem uma imaginação brutal nas suas brincadeiras. Acredita em fadas e unicórnios e tem estratégias de coping incríveis. É independente e livre. Muito livre. 

 É a timidez da Ana que traz todas estas características fantásticas que fazem dela a miúda espantosa que é. Então da próxima vez que lhe dizerem “então: não falas?” ou “o gato comeu-te a língua” pensem que isso é tão rude como mandar calar um extrovertido. Da próxima vez que lhe disserem “ai és tão bonita mas depois és tão antipatica” ou “aí Ana: és tão bichinho do mato!”: ide para o real caralho.

 Eu aprendo todos os dias com a Ana: a ser mais calma, mais ponderada, melhor ouvinte, mais paciente, a respeitar o tempo e o espaço do outro.A gostar mais de mim e da minha própria companhia. Há muito que aprender com os introvertidos, embora o Mundo esteja feito à medida de nós, os como eu, os extrovertidos, os carismáticos e barulhentos. 

A introversão da Ana não era nada que eu alguma vez projectasse mas, hoje, não a trocava por nada. Porque é ela que faz da minha filha o ser maravilhoso que é.
 Só não a chateiem na rua, tá?
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