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sexta-feira, 10 de maio de 2013

Crónicas de um baptizado: e foi baptizada para sempre. Ou talvez não.

Segunda-feira, dia da partida. O plano era ficar um dia em São Miguel e voltar para Lisboa no dia seguinte-terça. 
Como adormecemos exaustos no domingo, na manhã de segunda foi fazer as malas à pressa e ir buscar a minha amiga Rosa à casa onde estava a pernoitar. Cheios de pressa, estacionámos o carro, onde fiquei com a Ana, enquanto mámen foi bater à porta para que avisar a minha amiga que chegáramos e darmos todos à sola. De dentro do carro começo a ver mámen armado em parvinho a falar para a porta e... nada de Rosa sair de casa! "Maaaauuuu. Mas apanhou chuva na moleirinha ou quê?"
De repente, vejo-o voltar ao carro, com ar stressadíssimo. Mr. Prezado, que ficaria um dia mais em São Jorge, saira de manhã de casa (onde estava com a Rosa) e, convencido que nós já teríamos embarcado, fechou a porta à chave. A porta e a Rosa que, sem rede de telemóvel não pudera pedir ajuda. As janelas do rés-do-chão da casa davam todas para o lado oposto ao da porta e... para o mar! Brilhante!
Como também nós não tínhamos rede naquela zona carregámos no turbo e vai de procurar Mr. Prezado algures em Las Velas, quando demos pelo estupor tranquilamente sentado numa esplanada no outro lado da vila. Agarrar na chave na operação da PJ "Free Rosa!" e dar de frosques para o aeroporto. 
A caminho do aeroporto vemos o avião a chegar. Deixem-me relembrar que estávamos numa ilha e que o mesmo avião que aterra e faz descarregar passageiros e mercadorias é o mesmo que em poucos minutos descola levando novos passageiros e mercadorias. Nós e as nossas malas, portanto. 
Numa viagem à Faísca McQuenn lá chegámos ao aeroporto, com o check in a fechar. O que vale é que a senhora do check in vinha a ser prima do vizinho do primo de mámen e lá nos fez o favor de despachar a nossa bagagem. Mas... onde estava o meu cartão de cidadão? Malas outra vez para trás na passadeira rolante, medalhinhas de ouro para um lado, saco da roupa suja para outro, nada de cartão de cidadão. Na sala de embarque, ali ao lado e separada por um vidro, toooodos os passageiros me deitavam um olhar de raiva pelo atraso que eu estava a causar. Finalmente, a Rosa saca, não sei de onde, do cabrão do cartão e voamos para a sala de embarque onde, como resposta ao olhar de ódio profundo dos restantes passageiros, decidi pegar na miúda ao colo e evocar a minha prioridade, acabando por ser a primeira de todos a embarcar. Pronto, agora odeiem com razão!
São Miguel é, oficialmente, a minha ilha do coração (se alguém souber de um emprego para mim em São Miguel, mudo-me já, sem pestanejar!). O tempo estava bonito, alugámos um carro catita, visitámos todos os spots: furnas, lagoa das furnas, fábrica do chá Gorreana, lagoa do fogo e lagoa das sete cidades. Tudo tão perfeito que, assim que abanquei nas Portas do Mar para jantar e beber a minha última kima de maracujá, comentei que estava a correr tão bem que parecia mentira. E era.
O meu querido penso do pé começou a ficar muito babado e era inevitável ir até ao hospital Faltava-me mais alguma coisa do que acabar as férias nas urgências?
No hospital com mámen a amparar-me dei de caras com um enfermeiro giro, giro, na triagem. Mas tão giro que eu já não via um homem assim tão giro ao vivo há uns bons meses. A dor do pé até aliviou um bocadinho com aquele consolo visual. E ainda por cima, simpático. Como era a primeira vez que estava no hospital era necessário preencher uma ficha. E perguntam vocês qual a primeira pergunta que o enfermeiro giro, giro, me faz? Bem que deixei escorregar a manita esquerda mas mámen deitou-me um olhar fulminante e lá tive que responder "casada" à pergunta idiota sobre o meu estado civil. Mas qual era a pertinência daquela questão para a terapêutica do meu pé, caramba?
A noite foi terminada em casa da minha amiga Susana com a trupe da querida Almofariza, que nos emprestou uma casa chiquíssima em Porto Formoso para pernoitarmos. Bebemos, comemos e rimo-nos muito. Era o que precisava para dar o mote "tudo está bem quando acaba bem" às férias atribuladas.
Deitámo-nos e eram 5 da manhã acordámos para estarmos no aeroporto sem precalços para o check in. Muito vento, a casa a abanar, candeeiros a dar a dar. Uns pensaram que estavam meio tontos, outros que raio de Porto Formoso vinha a ser aquele com tanta ventania, outros (eu) que o pai da Almofariza nos tinha vindo acordar para não chegarmos tarde ao check-in e que tinha feito uma chinfranzeira de barulho descomunal e outros (que eu não acuso mámen nem que me cortem o pescoço) continuaram a ressonar "só mais um bocadinho, já vou, vai tu à casa de banho primeiro".
No aeroporto a primeira pergunta foi: "assustaram-se muito com o sismo?". Desatei a rir que nem louca. Era só mesmo isto que nos faltava.
A resposta  dou-vos agora :"falando mesmo a sério, a parte menos tétrica de todas as férias foi, precisamente, a do tremor de terra".
Tarefa cumprida: temos miúda baptizada.
Pela primeira vez. Que vamos organizar um segundo baptismo no Continente, para celebrarmos termos sobrevivido para contar as peripécias aos amigos de cá. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Crónicas de um baptizado: karaoke, chacina de um pé e, finalmente, a luz. Ou a falta dela, vá.

Terminada a cerimónia religiosa era altura de atravessar a rua e ir para o Império onde iria decorrer a festa. A Ana estava bem-disposta, risonha e glamourosa, para isso contribuiu a água benta quentinha, cortesia da Irmã Filomena, que levou emprestado o jarro eléctrico do convento para fazer o miminho à pequenina.
O menu tradicional açoriano era composto por sopas do espírito santo, alcatra e arroz doce, para além de outras iguarias secundárias como queijo-ilha, massa sovada e uma mesa de doces invejável. Estávamos no conduto (sim, eu digo conduto, não me chateiem!) quando chegam os senhores do karaoke para montar a pandega toda para o convívio a seguir ao repasto. A minha sogra queria ter convidado a banda filarmónica, eu queria um grupo de blues de outra ilha e mámen não queria nada pois dizia que em S. Jorge as pessoas não gostam de bailarico a seguir às cerimónias religiosas. O meu cunhado resolveu a coisa oferecendo os préstimos de um karaokeiro amigo. 
Depois dos doces, da Angelica e do bolo de baptizado, das 7 molduras de prata,  3 "polseiras" de ouro,12 faqueiros de prata e das medalhas várias, veio um casal agradecer a festa e bazou. Logo a seguir uma família inteira, que tinham que ir ordenhar vacas (juro!). Aos poucos e poucos, antes do karaoke boy ter tempo de ligar todos os fios, os convidados açorianos escafoderam-se todos. Pum! Estávamos nós, a família mais próxima e os convidados continentais que, graças à SATA, eram meia dúzia de gatos pingados.
Mámen fez-me aquele encolher de ombros de "eu bem te avisei" e, face ao meu ar desconsolado, o sogro entrou em cena, inaugurando o karaoke com a música "Hey Rosinha!", personificando o arrastar de asas constante com que teve que levar a minha amiga Rosa. Nesta altura sogra amuou e ficou com cara de sabonete de alcatrão, bem feita!
Depois disto ninguém mais conseguiu arrancar o microgaitas das mãos do senhor meu sogro que nos brindou com um repertório que passou pelas cartas de amor, pelo o Chico da nora a esperar a Maria na encruzilhada até ao "tenho uma lágrima no canto do olho". Estava eu a comentar com uma amiga de mámen que quem tinha lágrimas era eu por estar a sangrar dos ouvidos por ter que sofrer com ele a cantar, quando ela me responde que não, não estava coisa nenhuma a sangrar dos ouvidos. Era mazé do pé. Olho para baixo e o sapato estava todos encharcado em sangue. Tinha rebentado os pontos da cirurgia!
Fui a correr para o centro de saúde e as dores atenuaram. Ahhhh, o silêncio maravilhoso e a ausência das cantorias do meu sogro, que bom!
Voltei de pé ligado passadas duas horas, desesperada por atender aos pedidos, literais, de "Socorro!" que Prezado e Rosa Maria me enviavam por sms. Resgatei-os e fomos, em silêncio, para casa. O silêncio naquela altura era, literalmente, de ouro.
Sentámos-nos no sofá, arroxados, sem trocarmos uma palavra quando, de repente, falta a luz. Soubemos depois que em toda a ilha, para coroar um fim de dia em cheio. Nenhum de nós comentou a falha de luz, nem praguejou com o facto de ali não haver rede de telemóvel, nada. Apatia total.
Quando mámen (que tinha entretanto voltado para arrancar o microfone do pai, sem necessidade, que quando a luz morre, morre para todos), regressou para me apanhar, estavamos todos a dormir profundamente: eu de pé ao alto, Prezado depois de 3 dias retido em não sei quantas ilhas e Rosa, desde essa manhã, minha comadre,
Na palhaçada, soltou um "Ehhhh, Rosinha" e diz que nunca mais se esquecerá do olhar esgaziado que todos lhe deitámos. Afinal, à custa da voz de rouxinol do meu sogro, temos uma ligeira impressão que sabemos a razão para toda a gente ter desertado da festa quando viu entrar o homem do karaoke.
É que já vi gatos com o cio mais afinados do que o avô da minha filha.
Pobre miúda, finalmente filha de Deus mas muito enteada em questões de genética!

terça-feira, 7 de maio de 2013

Crónicas de um baptizado: as fodas-madrinhas

Domingo, dia do baptizado. Levei a Ana para a casa onde a minha mãe (ainda de asa ao peito, coitadinha!) e resto da família estavam hospedadas. Seria com elas os preparativos da Ana (tinha de as compensar de tantas tropelias): o banhinho matinal, vestirem-na e mimarem-na antes da cerimónia religiosa. 
Fui a correr para a casa onde a minha amiga Rosa ( a única que me tinha restado) estava hospedada e começámos os nossos preparativos: secar o cabelo, esticá-lo, maquilhagem, vestidos em riste, mamas de fora... Ups, era isso mesmo: os nossos vestidos estavam demasiado decotados, como é que só agora tínhamos reparado? Estaríamos com a visão já toldada pelas normas vigentes na ilha? Portanro o ritual foi mais ou menos: secar o cabelo, esticá-lo, maquilhagem, vestidos em riste, mamas de fora, colares a taparem os decotes, chamar o mano para dar feedback ("estamos lindas, não estamos?") e mámen nunca mais chegava para nos apanhar de carro.
De repente ouve-se o som do avião. Parecíamos o anãozinho da "Ilha da Fantasia" a gritar "It's a plane! It´s a plane". O avião trazia o meu amigo Prezado, a meia hora de começar o baptizado, o único resistente de todos os meus amigos desertores. O timming era perfeito porque o namorado da minha mãe tinha ido tentar ver se o avião vinha para conseguir comprar jornais do dia e estava no aeroporto, podendo dar boleia ao meu amigo. 
Estávamos no outro lado de Las Velas, num lugar conhecido por "entre os morros" quando, a dez minutos da cerimónia, mámen nunca mais chegava para nos apanhar de carro. "Entre os morros" consegue ser, provavelmente, o único sítio de Las Velas onde não há rede de telemóvel, claro está, nem podia ser de outra maneira. 
No entanto, lá chega o pai da criança e, armado em racer, larga Rosa, mano e (entretanto) Prezado à porta da igreja e vem comigo buscar a Ana à minha mãe. Ana - linda, linda!- no seu vestido glamouroso, touquinha na cabeça, parecia uma boneca. De repente reparo que se esqueceram de lhe retirar o babete e, já estacionados, numa manobra enquanto a retirava do ovo da parte de trás do carro e a trazia para a frente para lhe poder sacar do babete, pumbas!- a miúda dá um safanão e bate com a fronte no tablier. Foi um toque de nada mas- já se sabe!- a miúda vem a ser minha filha, logo, por inerência, drama queen. Parecia que a tinham mutilado e foi ao som de Ana, a artista que nunca chora, numa brilhante actuação de berreiro em dó maior, que entrámos na bendita igreja. 
Assim que acalmei a criança, respirei fundo: sabia o guião desta cerimónia, já fui madrinha duas vezes e olhei para a igreja cheia de pessoas a querem o bem à Ana. Estava a sorrir, meia anestesiada, a olhar para a igreja em todo o seu esplendor quando os meus olhos batem naquele adereço cénico: um jarro eléctrico em cima do altar. 
Faço um cerrar de sobrancelhas interrogativo e aponto com a cabeça para o objecto para mámen que me abriu os olhos pela enésima vez com uma cara de "Shiuuuu!". Chega a altura de acender a vela e o padre chama os padrinhos, olhando de soslaio para a imagem do santo ali ao lado, que eu bem o topei. 
Na plateia olho para a minha tia, a pessoa- a par da minha mãe- que mais me ajuda com a Ana, que mais a mima, que mais lhe quer bem. Fiz-lhe sinal com a cabeça. A outra escolha era fácil, ali à boca da urna, ou melhor, ao sopé do altar: a minha amiga Rosa, a única amiga resistente, a que me restou por obra divina, a que na véspera tinha estado quase em directa comigo a preparar a sala, a ultimar os detalhes, com quem escolhi, há muitos anos atrás, o meu vestido de casamento. 
Caramba, o baptizado podia estar enguiçado mas a miúda teria as madrinhas. Sim, foi foda, mas a miúda tinha finalmente madrinhas: a minha tia e a minha amiga Rosa, que se portaram à altura e cumpriram todos os rituais da cerimónia como se assim tivesse sido escrito, ensaiado e treinado desde sempre. 
E a Ana, nossa filha, tem assim as melhoras foda-madrinhas de toda a história dos baptizados nos Açores. 
Isso e um pequeníssimo galo na testa, que o cabrão do babete tinha que empecilhar tudo...


(Pergunta para queijinho: para que servia o jarro eléctrico?)

Crónicas de um baptizado: as quase-madrinhas e o padrinho santinho do pau oco

Sábado, depois de não sei quantas noites retidos e espalhados pelas ilhas, todos os meus amigos convergiram na ilha Terceira, a vinte minutos de avião e a oito horas de barco de São Jorge. 
De manhã fomos ter com o padre e rasurar o formulário que tínhamos preenchido com os dados da baptizada e que, entretanto, já tinha sido devidamente transcrito para um livro eclesiástico qualquer. 
O cenário estava feio e percebemos, a meio da manhã, que o voo tinha sido, mais uma vez, cancelado nesse dia. A minha amiga Xana, grávida de sete meses e de barrigão, não tinha escolha senão desistir e voltar. A espera pelo dia seguinte não seria compatível com o voo de regresso para o Luxemburgo, onde vive. 
A minha prima, em stress, fez-lhe companhia. E a minha amiga Cláudia, não foi de modas, e voltou para Lisboa no mesmo avião. Prezado, o resistente, decidiu que iria usufruir de férias de borla custeadas pela SATA e foi o único a permanecer na Terceira, numa espera sem data prevista de término. 
Estava eu a rasurar o nome da minha amiga Catarina no campo "madrinhas" e a terminar de escrever o nome da Xana, quando me apercebo disto. Aproveitei e rasurei o nome da minha prima e olhei, com um ar meio vazio, para o padre: "posso preencher isto amanhã, que ainda não sei ao certo quem serão as madrinhas da miúda?". Catarina rasurada, Xana rasurada, minha prima rasurada e estava ali um bonito serviço...
Ali estava eu, numa sala de aulas onde o padre ia dar uma aula de Religião e;moral, numa ilha no meio do Atlântico, a olhar para o livro de uma igreja rasurado umas 500 vezes, uma porcaria que em caso e auditoria de qualidade do Vaticano, daria água pelas barbas ao senhor padre: que chavascal que para ali ia. 
Véspera do baptizado e eu sem madrinhas. Comecei a rir-me. Sou assim, dá-me para rir com as cenas inusitadas da minha vida. 
Mas a gargalhada maior veio quando o padre, com tom muito sério, me pergunta: "e se colocasses o São Pedro ou São Jorge como padrinho da menina? Por aqui é muito comum que os santos apadrinhem os bebés..."
"São Pedro?"- guinchei eu. "Que o pariu, que ele percebe..."- respondi, dois segundos antes de mámen me arrastar dali para fora, com pedidos de desculpas vários ("Sabes como é, é muito stress...") e um abrir de olhos monumental.


(Ainda estou a remoer na ideia peregrina de São Pedro, esse santinho do caralho... do pau oco! )

segunda-feira, 6 de maio de 2013

sábado, 4 de maio de 2013

Crónicas do baptizado: o braço da avó, o ar verde do tio e o mau tempo no canal

A minha mãe, respectivo namorado e filho deste bem como a minha amiga Rosa voaram para o Faial. No Verão, a travessia Faial-São Jorge demora 45 minutos. Vêem-se golfinhos no canal, na maioria das vezes. É um regalo para os olhos. 
Desta feita a minha mãe sabia que enfrentaria uma viagem de duas horas no canal, com duas paragens no Pico, antes de chegar a Las Velas. Tudo o que vos vou contar de seguida é da responsabilidade da minha amiga Rosa, que estava incumbida de me contar os pormenores mais macabros da viagem para aqui os registar. Nunca imaginámos é que fossem tantos pormenores. E tão macabros. 
A minha mãe iniciou a viagem cheia de moral. Como era véspera do baptizado ia já penteadinha do Faial, linda e fresca. Começou a viagem a dizer que não costumava enjoar e que a viagem ia passar num instante, a tentar animar o resto da trupe. 
Relembro que os voos das minhas amigas tinham sido, nesse dia, todos cancelados. Devido ao mau tempo. 
A minha trupe achou que o mau tempo era só no ar, só pode. Quando a minha mãe encheu o primeiro saco de vómito, olhou para a minha amiga Rosa e, sem querer dar parte fraca, afirmou: "epá, já enchi um", com gargalhadas. O bom humor passou-lhe, depois do quarto saco cheio. 
As ondas estavam bravas e perceberam, finalmente, porque é que o Nemésio deu o título "Mau tempo no canal" à porra do livro.  De repente, com os nervos, começou a doer a barriga à minha mãe e urgia ir à casa de banho. Estavam na parte de trás do barco e o homenzinho anão que andava por lá a dar assistência (isto é, a distribuir sacos de vómito como quem parte cartas de um baralho e as dá numa mesa de jogo do casino) alertou-a para evitar sair de onde estava. Todavia, entre acontecer uma tragédia escatológica e vomitar pela 24242  vez, a minha mãe arriscou. Erro crasso, a meio do caminho em direcção à casa de banho caiu. E andou aos solavancos no barco. O filho do namorado dela- que a adora!- correu a ajudá-la. Caiu com ela e juntou-se aos trambolhões. Nisto, o homenzinho anão também quis ajudar. Também ficou a focinhar no chão. A minha amiga Rosa, narradora desta história, conta que ela e o namorado da minha mãe permaneceram imóveis. Primeiro divertidos com a cena a que assistiam, depois assustados mas conscientes que se se levantassem eram mais dois elementos para o malhanço colectivo a bordo. 
Quando mámen foi buscar a trupe do Faial ao cais, permaneceu 5 minutos à espera. Os suficientes para se chegar à minha beira que nem um pintainho ensopado. Trazia a reboque o meu mano pálido, verde, a coxear. O namorada da minha mãe com um ar de quem tudo lhe passou ao lado, como se nada fosse. A minha amiga Rosa com uma praia na cabeça, fruta da visita ao vulcão dos Capelinhos no Faial e da água das ondas que salpicaram o barco. A minha mãe, coitadinha, vinha pálida. De asa ao peito. 
Imaginam como estava o cabelo, meticulosamente penteado para o baptizado da neta, no dia seguinte?

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Crónicas do baptizado: as madrinhas, as malas perdidas e o adiamento da coisa

Quarta-feira. Liga-me a minha amiga Catarina. A greve na SATA continuava e a TAP, sem qualquer pré-aviso, juntava-se solidariamente à greve da companhia açoriana. Esclarecimento para quem não sabe: só estas duas companhias voam para os Açores, sendo que a SATA detém o monopólio dos voos inter-ilhas, pelo que, é a única a voar para São Jorge. Mantive-me calma, a acreditar que a TAP recuaria até que a minha amiga Rosa me confirmou o mesmo e me informou, também, do seu atraso e chegada apenas na sexta-feira, véspera do baptizado. 
Respirei fundo, contei até mil e passei o telemóvel a mámen para que fosse ele a ouvir o que já esperávamos: a minha amiga Catarina, uma das madrinhas da Ana, tinha vindo de Bissau para o baptizado mas tinha usado milhas acumuladas da TAP para adquirir o seu bilhete para os Açores a um preço mais simpático. Ora, a cancelar voos por onde começou a TAP a desmarcar? Precisamente pelas pessoas que compraram bilhetes com milhas. 
A alternativa que apresentavam à Catarina era para a segunda seguinte ou, na melhor das hipóteses, para sábado de manhã, destino Faial. Ora, o problema é que no sábado de manhã- dia do baptizado- não havia ligação de barco entre o Faial e São Jorge a tempo útil da madrinha chegar ao baptizado. 
Comecei a perceber porque é que mámen é assim tão calmo e usa expressões como "O mar é já ali" e "O que não tem remédio, remediado está!"
Eu, que não sou uma pessoa de remoer problemas mas sim de procurar soluções, pensei logo numa alternativa: a minha amiga Xana vinha do Luxemburgo e podia ser madrinha da Ana. Ufa, problema resolvido e sem grandes consequências pois ser a Catarina ou a Xana era mais ou menos a mesma coisa, pois são ambas as minhas melhores amigas. 
Ligo para o padre e aviso-o para alterar o nome de uma das madrinhas no papel que tínhamos preenchido nessa manhã. 
Nisto começa a chover torrencialmente. E a fazer um vento dos diabos. E chega um primo de mámen a dizer que, ainda com a greve na SATA, estavam previstos voos de serviços mínimos e que, nesse dia, até esses estavam cancelados devidos ao mau tempo. Optimista que sou acreditei que era uma coisa circunstancial e que, sexta-feira, dia em que chegaria a maior parte dos nossos amigos e já sem greve, não seria o tempo a estragar a festa. Como estava enganada. 
Sexta-feira estive a manhã toda ao telemóvel e no facebook a receber actualizações dos meus amigos. Xana (madrinha de reserva) e Prezado em São Miguel. Minha prima (a outra madrinha oficial) e minha amiga Cláudia na Terceira. Mãe, namorado da mãe, mano e amiga Rosa no Faial. Basicamente, as minhas pessoas estavam espalhadas por todas as ilhas dos Açores, excepto na ilha onde deviam estar, em São Jorge. 
Começou a dar-se a tragédia. Primeiro a minha prima e a Cláudia viram o voo de ligação entre Terceira e São Jorge ser cancelado. Uma absolutamente histérica, a chorar, a praguejar e a agarrar nos colarinhos (literalmente) do senhor da SATA que, calmamente, as avisava que não havia previsão de reposição dos voos. A outra cheia de dores nas costas e apática, a levar com a histeria da minha prima, a recalcar o stress. Estava montado o circo. 
Mámen liga para um contacto na SATA da Terceira. resposta: "Ah, tu é que és o xpto contra quem as  duas meninas alteradas praguejam no balcão das reclamações da SATA? Já ninguém as pode aturar, já ponderámos enviá-las num foguete, pá!"
Ligo para a trupe em São Miguel. Xana e Prezado também com voos cancelados. Nesta altura só pensava na Xana, grávida do mesmo número de semanas com que eu pari a Ana, e na incapacidade do Prezado a ajudar a parir, caso se desse um parto prematuro, que eu já estava por tudo e era só mesmo o que faltava acontecer. 
À tarde as malas dos meus tios ainda não tinham chegado (por conseguinte, nem o vestido da Ana) e o comércio local em Las Velas é de bradar aos céus. Fomos aos Chineses e eu e a minha tia começámos a rir que nem maluquinhas: não havia uma porra que se aproveitasse, nem para a miúda nem para a minha tia ou o meu tio, que também precisavam de um plano B para as suas próprias indumentarias. 
Pensei no espírito da coisa: eu não queria um baptizado campestre? Vestiria a Ana com um vestidinho que trazia na mala com florinhas e pronto, ficaríamos as duas em modo primaveril, lindas e fofas. Mais uma vez caí na realidade: ainda era precoce levar a miúda para concursos de vestidos molhados, tendo em conta o temporal que se estava a vivenciar. Nisto toca o telefone: a SATA tinha trazido as malas dos meus tios de barco do Faial. Yes! 
Malas todas molhadas assim que chegámos a casa e eu deixei de intelectualizar. Na sala ao lado mámen confirmava, agarrado ao telemóvel, que os nossos amigos da Terceira e de São Miguel não chegariam sábado atempadamente. Restava-nos adiar o baptizado. 
E agora, o que faria eu com as 83 medalhinhas de ouro que os convidados já tinham mandado entregar lá a casa como prenda de baptizado da Ana? 
E porque raios se lembraram eles de gravar a data do baptizado nas putas das medalhas? 
E desta forma a Ana, de agora em diante chamada de Ana Zé das Medalhas, ficou de uma assentada só sem madrinha Catarina, com um vestido outrora encharcado a secar no varão da banheira, com medalhas de outro gravadas com uma data que nunca o chegou a ser e, claro, com o anúncio do adiamento do seu baptizado a ser anunciado de uma vez só na Rádio Lumena-"A Voz de São Jorge".
Porque se fosse eu a anunciar por telefone, chamada a chamada, às quase 70 pessoas, com os palavrões que diria, não haveria padre católico que me baptizasse a miúda.  

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Crónicas de um baptizado: os tios

Segunda-feira chegariam os meus tios. Sim, o uso do verbo no condicional diz tudo: chegariam. Greve da SATA obrigou-os a ficar retidos em São Miguel um dia. Mas um dia muito especial: o dia em que o nevoeiro estava de tal forma que estiveram sempre à coca para ver se avistavam o D. Sebastião. Montado num carro de rallye, claro está.
No dia seguinte, lá chegaram ao Aeroporto Internacional de São Jorge. Primeiro dia, de três, de greve anunciada na SATA e, ainda assim, os meus tios chegaram, Uau! Estava tudo a correr lindamente!
No entanto, chegaram sem bagagem, que ainda tinha ficado em São Miguel. Ou em Lisboa.Ou no meio do oceano Atlântico. Ninguém sabia bem ao certo. E também não havia forma de saber que a adesão à greve foi de tal forma que ninguém respondia às chamadas telefónicas da assistente de terra de São Jorge. A mesma que, naquela altura, já ouvia o meu tio gritar "quero uma indemnização de cinco mil euros" e que, sem nunca perder a compostura, adiantava: "Os senhores agora vão para casa, lá para sexta- se tudo correr bem- depois da greve acabar, entregamos as malas na morada que indicaram, ok?". 
A esta altura o meu tio já se tinha calado porque a minha tia entrara em histeria: era ela que trazia o vestido de baptizado da Ana e demais apetrechos. Na mala perdida. E o baptizado seria sábado, pelo que, na pior das hipóteses a miúda podia não ter vestido de baptizado. Oh, fuck SATA!
Eu e mámen- sempre calmos, juro!- decidimos cravar o carro velho do meu cunhado para dar uma volta a uma ponta da ilha com os meus tios, naquela de desanuviamos. Claro que o meu sogro se colou, usando argumentos racionais para com o filho como "as placas tectónicas mudaram a orientação da ilha e tu já não conheces nada!", ao que o filho cedeu para não ter que o ouvir.
Não satisfeito, decidiu ser ele a tomar o comando do carro e conduzir. Já disse como o meu sogro é uma pessoa concentrada e focada, não já?
O destino era o Farol de Rosais

                            

e o caminho, depois de muita chuva, não está propriamente como se vê nesta fotografia. Chegados à parte Nordeste da ilha, o meu tio que ia no lugar do pendura, usualmente muito falador e extrovertido, começa a ficar muito calado. A minha tia agarra-se à pega com força e o meu sogro continua a sua condução maravilhosa ignorando indirectas como "Nós não roubámos nada para irmos a esta velocidade" ou "90 Km/hora é uma velocidade boazinha na auto-estrada mas não no meio de estradas cheias de calhaus". Deixem-me rectificar: o meu sogro não só ignorava as nossas súplicas como acrescentava dados importantes da ilha como "estão a ver estes coelhos que se atravessam à nossa frente aqui na estrada? É uma epidemia aqui na ilha, Eu quando quero fazer um coelhinho à caçador não os caço com chumbo mas sim com umas panadas com o carro que assim ficam mais saborosos e não sabem a chumbo!".
Et voilá, nesta fase estávamos já todos no mais profundo silêncio, apenas interrompido quando o carro começou a fumegar mais ou menos entre lado nenhum e fim do Mundo. O meu sogro começa a praguejar, mámen a gritar com ele para o impedir de abrir o reservatório de água de dentro do capot e não levar com uma rajada de água a ferver na tromba, o meu tio ainda não tinha apagado um cigarro e já estava a acender outro, a minha tia em apoplexia por verificar que não tínhamos rede de telemóvel  naquele lado da ilha e eu aos gritos a gritar "SOCOOOOORRRROOO!" feita maluquinha, pois não se avistava vivalma num raio de 2535387 pastos no horizonte. 
Uma hora depois o carro arrefeceu e voltámos à carga de volta às Velas, terra de mámen, e de agora em diante designada por "Las Velas". O meu tio estava pálido e sugeriu que fossemos atestar o depósito, para evitar mais incidentes. Assim o fizemos. 
Já mais aliviados, estamos a dar uma voltinha final à vila quando o carro pára. Desta vez sem fumo, sem nada. Pára, simplesmente. Os meus tios estavam desfigurados. Não era suposto esta voltinha ser para desanuviar? Pois então. 
Capot aberto pela trigésima vez, mámen e tio já sem cigarros no maço, tia com olhar vago meio esquizóide e ninguém sabia o que tinha o carro desta vez. Olho para trás e vejo um rasto de líquido azul pelas ruas de Las Velas. Tanto solavanco e calhaus a baterem na parte de baixo do bólide tinham feito um tubo qualquer rebentar e era gasolina por toda a parte. 40 euros de gasolina, para ser mais precisa.
Eu e minha tia fomos para casa ver Las Velas quase a arder. Quase, porque antes os homens acabaram o dia a empurrar o machibombo ruas acima, chuvinha na tola, enquanto os bombeiros, de mangueira em riste, impediam a catástrofe primeira do baptizado da Ana. 


quarta-feira, 24 de abril de 2013

Crónicas de um baptizado: a morta

Depois de uma noite na belíssima localidade da Praia da Vitória (pensão Terezinha rules!) voltámos ao aeroporto das Lages.
Na onda da prioridade (obrigada Ana!) lá passamos nós, todos lampeiros, à frente da fila para o embarque. Nós, um rapaz cadeirante e... um caixão com uma senhora morta. Sim, morta. Quinada.
Entro no avião e colocam-nos na última fila do avião. Uma fila à nossa frente o senhor de cadeira de rodas, tetraplégico. Respiro fundo. Imagino que tenham colocado o caixão no porão.
Aperto os cintos (o meu e o da extensão da Ana) e respiro fundo, outra vez.
Muita turbulência. Fico nervosa. Passo a Ana a mámen. Chamo a hospedeira e explico-lhe que tenho problemas renais e, embora haja indicação para conservarmos os cintos apertados, tenho mesmo que usar a casa-de-banho. "Ah, sendo assim, tenha cuidado mas pode servir-se da casa-de-banho aqui já de trás, ok?"- avisa-me a hospedeira, simpática. (Puta!- soube-o depois)
Levanto-me e vou ao wc ali atrás. Bato com os olhos no caixão, ali a 50 cm de onde eu estava sentada, com dois comissários de bordo a "velá-lo". Caixãozinho com morta a bordo. E eu ali estava, descansada, entre respirares fundos de alívio, entre o morto e o paralítico, sentada alegremente. Seria um pronúncio?
Entrei na casa-de banho e só de lá saí quando aterrámos. Passou-me a vontade de fazer xixi num ápice.
Em compensação... "borrei-me" toda de medo!
 
 
Literamente.
 
 

Crónicas de um baptizado: o Chico

Viajar com uma criança é o ticket para o mundo VIP: ele é prioridade nas filas do check in, ele é prioridade nas filas do raio-x, prioridade no embarque, simpatia extra por parte das hospedeiras, diploma de baptismo de voo por parte da SATA com direito a fotografia com o piloto no cockpit, enfim, um rol de mordomias.
A viagem começou a correr bem... até à Terceira. Na Terceira o embarque estava marcado para as 10h15. Eram 11h e nem uma notícia. Às tantas no altifalante: "O atraso verificado deve-se a más condições climatéricas no aeroporto de destino. Daremos notícias dentro de uma hora"- Ao meio-dia nem uma notícia.
Já passada vou ter com um assistente da SATA. "Olhe, desculpe, podía-me dizer quando é que temos notícias?". A mulher suspirou e respondeu-me: "Senhóra, vamos lá ver se não é quando o Chico* vier da areia".
Calo-me para não fazer papel de ignorante. Ali ao lado, mámen cochila com a miúda.
Passada meia hora, impaciente, volto à carga: "Sabe-me dar informações do voo para São Jorge. Acabei de ligar à minha sogra e ela diz-me que está nos em Las Velas." A assistente encolhe os ombros.
Passados uns minutos informação sonora: "O voo para São Jorge foi cancelado. Dirijam-se aos balcões... blablablá"
Incrédula por ter que passar uma noite na Terceira e não chegar a "casa" naquele dia arranco em direcção à mesma assistente: "Mas hoje não há mais voos para São Jorge? Eu espero o que for preciso! Posso esperar?"
- "Ui, senhóra, vai esperar até ao Chico* vir da areia!"
 
Passada, chego-me ao pé de mámen e pergunto-lhe "Quem caralho é o Chico?"
 
Mámen riu-se durante meia hora.
 
 
 
 
 
(* Expressão típica açoriana que significa "esperar ad eternum")
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