Nesta casa somos pelo "Pão por Deus". Nesta casa somos por acordar cedo e agarrar no taleigo, humidade no ar, taleigo numa mão, na outra uma luva, um chapéu de chuva, amanhã um porta-moedas catita, o que for.
Nesta casa somos por bater às portas dos vizinhos, batermos nos pesados batentes das portas, truz-truz: "Pão por Deeeeeeuuus!".
Nesta casa somos por acelerar o passo para percorrermos o maior número de casas durante a manhã ("Querem um doce ou uma moeda?" antes da sirene dos bombeiros anunciar o meio-dia ("As duas coisas menina Glória! Ó mãe não me belisques! Porque é que chamamos sempre meninas às senhoras da idade da avó?), hora do fim do Pão por Deus, depois disso recolher obrigatório, saco despejado em cima da mesa, separar doces, rebuçados para um lado, línguas de gato à parte, nozes e castanhas para outro, figos secos para outro, chupa-chupas melados colados ao saco, pastilhas gorila lá no meio. Beijinhos de açúcar: ahhhh, adoramos beijinhos de açúcar!
Nesta casa somos por contar as moedas, preferir muitas e mais pequenas que poucochinhas e maiores, a infância não tem lógica valorativa só quantitativa. Somos por desdobrar as notas dobradas meticulosamente pelas "meninas", tiradas do meio dos seios fartos, dos porta-moedas antigos, encher o bucho ao "migalheiro"
Nesta casa somos pelo "Pão por Deus" e, ainda que nos tirem o feriado, amanhã haverá pão taleigo para a Ana, carteirinha tosca e primeiras palavras ensaiadas "Pãããdêês?"
Nesta casa, amanhã, a Ana terá quem a leve, já pela mão, formosa e segura ao seu segundo Pão por Deus.
































