terça-feira, 23 de janeiro de 2018

Supercoach ou vamos lá agora fazer a transposição

               


Imaginem que a vossa entidade patronal- figura de autoridade- acha que vocês precisavam de orientação/coaching para melhorarem o vosso desempenho profissional.

Que até são bons tecnicamente mas que são- na visão soberana da vossa chefia directa- uma nódoa na gestão das vossas emoções, nas vossas competências sociais.

Imaginem que quando entraram na empresa, até assinaram uma cedência de direito de imagem.

Imaginem que entra um "Super-coach", completamente desconhecido, pela vossa empresa que tem como briefing único sobre vocês a opinião e os relatos da vossa cheia directa. 

Imaginem que ele fica ali, de cão de guarda, de braços cruzados, a observar-vos, a abanar com a cabeça, a arquear as sobrancelhas.

Imaginem que ele começa a falar com a vossa chefia e a dar palpites sobre o vosso comportamento. Que dá instruções sobre si à sua chefia à sua frente. Que continua a dar instruções sobre si à sua chefia depois da sua hora de saída, à porta fechada no gabinete dele. 

Imaginem que ele primeiro até leva um arsenal de câmaras e técnicos de som e aparato para filmar isto tudo, sempre com o objectivo pedagógico e o enquadramento da preocupação pela melhoria do seu comportamento.  Mas como vocês são adulto e tal e conhecem as normas de desejabilidade social e têm um super ego um bocadinho mais trabalhado comportam-se de acordo com o que é espectável. Mas imaginem que para terem acesso aos vossos comportamentos mais "crus" se instalam cãmaras ocultas ali, no vossos trabalho, onde é suposto estarem todos os dias sem fazer cerimónias e vos filmam nos vossos momentos de tensão, stress e melt down, muitas vezes provocados pela mesma chefia directa que precisa de mostrar ao supercoach a vossa essência para que eleo consiga ajudar a geri-lo a si. 

Imagine que, neste processo, até vos apontam algumas estratégias, jogos pedagógicos e dinâmicas de grupo para trabalharem as vossas competências sociais mas que nunca o super coach teve um momento para vos ouvir sozinhos a vocês , em privado, para conhecer, através da vossa voz, a vossa história , necessidades, receios e ansiedades. 

Imaginem que estas imagens todas são seleccionadas criteriosamente por produtores para serem emitidos na intranet do grupo todo ao qual pertencem as vossas pequenas empresas, tendo como foco a eficácia do supercoach, a preocupação e a capacidade de pedir ajuda da vossa chefia directa e o sucesso do método que vos tornou, aos olhos de todos, menos insuportáveis. 

Imaginem que publicam estas imagens na intranet à noite e ainda enviam para todos os vossos colegas, clientes, fornecedores, contactos profissionais diversos e stakeholders vários. Ah, mas vocês até assinaram autorização de cedência de imagem. Portanto até é legal. Agora e moral: é?

Amanhã, apetece-vos ir trabalhar? Mais importante: como se sentem?

A filha que fui e a mãe que sou.



A minha mãe adora fotografias. Tenho centenas (milhares?) delas que testemunham toda a minha infância: fotografias de festas de aniversário, de dias de Carnaval, de férias de Verão, de brincadeiras no quintal com a minha prima, das colónias de férias, da primeira comunhão, do lançamento dos livros, de Natais. Tenho também fotografias de internamentos no hospital (passava por lá temporadas de meses) a brincar com barbies em tabuleiros sentada na cama articulada, a apanhar sol à porta do Alcoitão deitada de barriga para baixo na maca à espera que me cicatrizassem os calcanhares e a passear de cadeira de rodas com os dois pés engessados no regresso a casa. Esta última empunhando um raminho de flores amarelas, as chamadas azedas. Em todas elas estou feliz. A sorrir e feliz, independentemente das circunstâncias.

Nunca se lembrou a minha mãe de me retratar a berrar ( e eu também fazia birras), triste, com dores de corpo ou de alma, zangada ou frustrada, em "melt downs" ou em situação de descontrolo de emoções. E acredito que tal decisão não se deveu, propriamente, ao preço dos rolos porque também não consta nos meus álbuns a fotografia típica dos anos 80 onde jaz o bebé gordo e nu numa banheira de plástico, a fotografia mais temida por todos os meus amigos quando as respectivas mães faziam questão de exibir os seus álbuns de fotos. A minha mãe sempre me retratou feliz, mesmo que a ocasião não o fosse.

Agradeço-lhe hoje por isso.

A minha mãe também me fazia outras mil coisas para me proteger: tapava-me à noite antes de eu dormir, caminhava sempre comigo de mão dada do lado de dentro do passeio, garantia que eu ia limpa, penteada e bem vestida para a escola,  tentava que eu não me expusesse gratuitamente e, já crescida, quando eu comecei a tentar negociar utilizava o argumento final, quando todas as argumentações já tinham falhado: "eu sou a tua mãe e eu sei o que é melhor para ti, portanto, é assim e acabou. Um dia vais-me agradecer!"

Lembro-me de ser criança. Nunca me esqueço. Consigo fechar os olhos e quase sentir na língua o sabor do gelado pézinho, cor-de-rosa e cremoso. Sinto o coração a bater sempre que me recordo dos momentos que antecediam a visita do pai Natal a minha casa. Lembro-me do abraço que me deu quando chegou a correr ao hospital e me viu, sozinha, na sala de espera, depois de ser transportada de ambulância após um desmaio na escola. Lembro-me de todos usarem tanga para ir para a praia, que era mais prático, que dava mais jeito e dela perceber que eu não queria e nunca, mas nunca, discutir comigo o uso de fato de banho, mesmo que eu tivesse três anos. Lembro-me das pessoas lhe perguntarem porque não me obrigava a usar saias, que estupidez estar a alimentar as minhas manias e complexos e dela sempre defender a minha voz sobre o meu corpo. Lembro-me de tudo, especialmente das emoções. E lembro-me que ela me protegia sempre e de- ainda hoje- sempre que estou em aflição ser por ela que chamo.

Nos anos 80 nós não levantávamos muito a garimpa aos nossos pais. Eles eram crianças no tempo da ditadura e a disciplina vinha contextualizada, de raíz, de uma forma diferente mas com uma lufada de ar fresco trazida pelas novas correntes de pensamento e pela democracia. Eles eram pais diferentes dos pais dele, esforçavam-se para isso, tentavam mudar o que não tinham, como filhos, compreendido, aceite, incorporado. Nos pais da minha geração havia gritos, havia "deixa o teu pai chegar do trabalho que logo conversamos" e muitas ameaças do "em casa conversamos" e havia chineladas, palmadas e estalos e estaladas (oh yeah, são coisas diferentes). Já não havia vergastadas com cintos nem as "tareias de meia noite" que nos contavam que tinha sido sopa no tempo em que eles próprios eram crianças. Eles estavam a tentar dar o seu melhor, a imprimir nos seus eus de pais as mudanças que urgiam os seus eus de filhos. Agarrados a dogmas do passado, demasiado normalizados e perpetuados como a "palmada" e a confusão entre medo/respeito e poder/autoridade eles, contudo, já não queriam usar o cinto, já recusavam métodos pedagógicos.
Dizia eu que, nos anos 80, nós não levantávamos muito a garimpa aos nossos pais mas não deixávamos de fazer birras, de gritar, de tentar negociar, de espernear, bater com portas na adolescência, revirar os olhos, de chorar e de manifestar todas as emoções.
Não éramos, por isso- lamento desiludir-vos- mais bem educados, menos birrentos, mais "maduros" e fáceis de educar: éramos crianças com emoções e que manifestávamos essas emoções com os recursos emocionais que tínhamos ao nosso dispor. Eu também. 

A minha mãe era disciplinadora, não pensem. Rigorosa e rígida, pouco complacente e sem grande margem para mimimis. Gritou-me muito, perdeu amiúde a paciência e bateu-me algumas vezes. Dirá ela, ainda hoje que "foram todas merecidas e que não me fizeram mal nenhum" que até sou uma miúda decente. Mudou muita coisa em relação aos pais dela, não me obrigava a trata-la por "você", teve comigo as conversas todas sem tabus "como se fazem os bebés", a menstruação, a prevenção da gravidez adolescente, levava-me à discoteca, abriu-me o jogo de que se eu quisesse fumar poderia fazê-lo mas teria que lhe pedir dinheiro a ela e nunca aceitar cigarros de estranhos, nunca me deu nenhuma "tareia", era afectuosa e não se coibia de o mostrar. Fez diferente, fez melhor com os recursos que tinha de vantagem face aos que tinham os meus avós.

Estou certa que terá tido, ao longo dos 25 anos em que coabitámos, inúmeros momentos de insegurança e ansiedade (ainda mais somos uma família monoparental). Nunca agarrou na máquina fotográfica ou, mais tarde, na velha câmara de filmar, para registar os meus momentos de descontrolo. Mesmo sob o pretexto de os querer usar para mostrar à minha médica, para lhe pedir aconselhamento, partilha de estratégias ou apoio na gestão de momentos de crise. Não havia internet mas lia livros da área (avé Clube dos Leitores!), partilhava com as amigas as suas ansiedades e com a minha médica sempre par a par, recorreu à psicóloga da Junta de Freguesia quando achou que era altura de uma intervenção mais séria e protegeu-me. Sempre.

A maioria das vezes, agora que sou crescida, empatizo com a minha mãe. Reproduzo muitas das suas estratégias, oiço as suas sugestões. Mas também faço muitas coisas diferentes, não sei se melhores, mas diferentes. Não percebo as pessoas do "no meu tempo levava nos cornos e não me fez mal nenhum". No meu tempo a minha mãe lavava roupa e loiça à mão e as fraldas eram de pano, senhores! Vamos começar a dar aos nós dos dedos que não nos faz mal nenhum, boa?
Os tempos e os contextos são diferentes, as circunstâncias são diferentes e os recursos que tenho ao meu dispor são diferentes. A minha mãe fez o melhor que sabia com os recursos que tinha. Eu faço o melhor que sei com os recursos que tenho. A minha mãe aboliu o "você", o "cinto" e o "medo pela autoridade". Por exemplo, eu, e contrariamente ao que sempre acreditei antes de ser mãe, nunca bati à Ana. Nem conto, alguma vez na vida, fazê-lo.

Dizia eu, a maioria de nós, depois de parir, empatiza com as próprias mães. É uma tendência que nós todas temos e acho que até há uma frase feita daquelas populares que diz isso mesmo, que uma pessoa cresce e dá valor à mãe. Eu dou. A maternidade aproximou-me em muitas coisas da minha mãe mas, curiosamente, a minha infância foi tão estruturante e significativa que tem um peso muito mais importante de aproximação à infância da minha filha.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Top 5 de lendas de Portugal

5- Lenda das Sete Cidades

4- Lenda do Galo de Barcelos

3- Lenda do Milagre das Rosas

2- Lenda de Dom Sebastião

1- Lenda da existência real, comprovada e funcional de Wi-Fi nos comboios de longo curso da CP

It's just another manic Monday, I wish it was Sunday

Fim de semana do caraças: sábado lá bati com os costados outra vez nas urgências, ao que parece os rins não estão a gostar muito de tantos anti-inflamatórios, uma pessoa não morre do mal, morre da cura e puta que pariu isto tudo. A miúda teve três festas de aniversário num só dia e uma pessoa fica a pensar que a vida social da pequena de 5 anos dá 10 a zero à sua, para este ano nem um casamento, logo nós, que gostamos de casamentos. Mámen diz que sabemos que ficamos velhos quando passamos Verões sem ir a nenhum casamento, já está tudo casado, divorciado, amantizado ou só cansado, agora festas é que pastel.
Mámen perdeu o cartão multibanco, finalmente a EDP se decidiu a arranjar a minha máquina de lavar loiça, pus em dia a cozinha, a semana passado foi tão intensa que nem vi o episódio do "This is us" e só dei conta disso agora de manhã. Nos últimos dias- ontem especialmente- estive rodeada das minhas amigas, nem sempre consigo estar com elas mas sempre que preciso delas- e preciso muitas vezes- elas vêm sem que as chame, cheias de vontade e risos, ferramentas e mangas arregaçadas, gargalhadas e colos não físicos que elas sabem que não sou uma pessoa de  colos apertados. Sou uma gaja de sorte.
Às vezes páro e impressiono-me com a capacidade que meia dúzia de pessoas que conheço têm de mudar o Mundo, uma espécie de esquadrão do bem e sinto-me afortunada, não fosse esta dor constante e fininha, parece que já não é da hérnia extrusa, parece que não é da ciática, tenho uma ressonância magnética para fazer e a lista de espera do SNS é de um ano e meto mais um comprimido para o bucho. Penso em alternativas: vou mudar a alimentação, cortar de vez os lacticínios, pensar antes de comer sem pensar, vou arranjar um exercício de que goste- e eu acho que não gosto de nenhum. Suspiro e colo um transact na perna.
O boicote à "Super nanny" soube-me pela vida e, às tantas, nem teve efeito nenhum nas audiências, nos sharings e nessas coisas que medem o sucesso dos programas. Teve em mim que gosto de saber que não compactuo, que não me importo de remar contra a maré, que não sou de largar os remos. Teve em muitas pessoas à minha volta e isso é o melhor de tudo: saberes que não podes limpar o oceano mas não desistires de limpar a tua praia, a praia onde se banham os teus filhos e os teus amigos e os filhos dos teus amigos, as pessoas com quem convives e com quem partilhas o areal, estares certa que contribuíste para a mudança daquele bocadinho de mar, aquele pedacinho de areia. A Corine de Farme retirou o patrocínio ao programa e a ´minha amiga Patrícia, companheira de luta e de inconformismo, diz que retirar valor ao programa é um indicador de que os protestos de quem não compactua surtem efeito.  Fazer a tua parte é sempre uma forma de mudares o Mundo.
Saio de casa de táxi e são sete da manhã. O taxista queixa-se do PS, que é tudo à larga, dão tudo a toda a gente, repuseram tudo, só não contrariaram o PSD naquilo de agora se pedir factura para tudo, queixa-se do Professor Beijinhos e do que ele já gastou em viagens, conta-me que no sábado foi a Loures fazer aquela coisa do furinho na orelha para deixar de fumar e que no domingo foi ao Pingo Doce com a  mulher e ainda não eram nove da manhã e já não se podiam ver um ao outro e vai daí, fumaram 5 cigarros, "ó doutora" - e eu nem tenho cara de doutora- "um gajo sabe que era para não fumar mais nenhum, que larguei 80 biscas naquilo mas no primeiro dia fumei cinco em vez de quarenta, até nem é mau, pois não?" e conta-me que também lhe mandaram cortar no café e álccol e "ó doutora"- e onde é que terá ele ido buscar esta coisa do doutora?- "eu e a minha mulher não dispensamos um copinho de vinho ao almoço, vá e uma amêndoa amarga para digestivo, até a minha mais pequena, a que tem 14 anos que a outra já abalou para o Porto para estudar, mas dizia eu, a que tem 14 anos também dá um golinho, a minha irmã fica danada da vida quando vê mas olhe, eu cá sou sincero, antes ela provar amêndoa amarga comigo que com os amigos e também um golinho por dia não é a morte do artista, nós nem temos genética para vícios".
Deixei o meu cartão multibanco com mámen e enquanto me vestia de manhã ele foi ao ATM levantar-me dinheiro. Chego à Estação do Oriente e percebo que tenho uma nota de cem euros, o taxista não tem troco, saio para tentar destrocar a puta da nota e não me safo em lado nenhum, a fila na bilheteira é imensa. Entro num café e peço uns 20 euros em comida, só há coisas desgraçadas à venda, trago pães de Deus mistos, coxinhas de frango, pão de queijo e ice-teas e- foda-se- hoje é segunda feira e tinha prometido começar a comer diferente. Volto ao táxi, pago a corrida e peço factura,noto uma "amarguinha " de boca e a esta hora o senhor pode passar a distribuir o ódio entre o PS e o Passos Coelho, assim com'assim distribui-se o mal pelas aldeias.
Corro para o comboio e percebo que fico sem dados nem saldo no telemóvel. O bilhete é electrónico e não consigo sacá-lo. Não tenho multibanco para carregar que deixei o cartão com o estupor do meu marido e respiro fundo. A cinco minutos de chegar ao comboio estou no apoio ao cliente e explico a situação que, sim senhor, me imprimem ali o bilhete, basta eu apresentar o meu cartão de cidadão.
Que ficou esquecido nas urgências do hospital anteontem.


Uma boa segunda para todos. Que a santa padroeira dos piretes me proteja.



domingo, 21 de janeiro de 2018

#nannyboicote ou a sociedade civil somos todos nós



Apesar de uma semana de trabalho ímpar o assunto não me saiu da cabeça por um minuto: ora porque pessoas me abordavam na rua a falar sobre o post que escrevi sobre o assunto e que teve um alcance único na história deste blog, ou porque outras técnicos com quem trabalho quiseram trazer à luz a discussão à volta de mesas de trabalho, de refeição e de café, ou porque inúmeros leitores me enviaram os seus comentários, mensagens, e-mails, troca de argumentos nos comentários das minhas redes sociais, enfim.

Foi criada uma petição por pessoas que percebem da poda, foi emitido parecer pela Comissão Nacional de Promoção dos Direitos e Proteção das Crianças e Jovens (CNPDPCJ), foi feita denúncia à ERC pelo Instituto de Apoio à Criança (IAC), a Unicef pronunciou-se , o Ministério Público está a analisar todas as possibilidades legais de intervenção, a Entidade Reguladora para a Comunicação Socia-  ERC confirma (mas não tomou, até agora, nenhuma posição) a entrada de participações/preocupações subscritas por diferentes cidadãos visando o programa “Supernanny” emitido na SIC,  a CPCJ da área de actuação da família participante no primeiro episódio, em articulação com o Ministério Público, ordenou à SIC que retirasse do ar as imagens do primeiro episódio nacional, alguns especialistas reconhecidos da praça deram o seu parecer público e, ainda assim, parece que nada travará a emissora de emitir na noite de hoje o segundo episódio do programa. 

Quanto a mim, fiz - também- tudo o que estava ao meu alcance: assinei petições, fiz denúncias à ERC, ao Ministério Público, exposição à CNPDPCJ, usei a visibilidade que este blog tem para expôr argumentos. Aparentemente, tudo o que está ao meu alcance. 

Ontem, falava com o meu marido sobre esta frustração de veres que uma coisa está tão errada, activares todos os meios legais, racionais e objectivos para travar a perpetuação do erro e daí não sair nenhuma pérola. "Se houver um acidente de auto-estrada grave, não podes fazer muito para impedir que haja o acidente, que o sangue esteja exposto aos olhos de quem passa, podes não conseguir que se cortem as duas vias da auto-estrada porque isso maça a vida das pessoas e tal e a maioria até se está a borrifar para quem está ali de entranhas expostas, mas podes escolher não ver, podes escolher fazer marcha-atrás e ir por uma estrada nacional, desimpedindo o trânsito, fazendo a tua parte, protegendo a tua filha de olhar pela janela do banco traseiro, avisar os teus amigos que seguem nos carros atrás para fazerem, também, eles inversão de marcha: podes fazer a tua micro-parte!"

Assim farei. E assim apelo a que todos os que acreditam veementemente o façam. Avanço com duas propostas

1- Enviar um email ou comentário de protesto à patrocinadora: a marca Corine de Farme. Não consigo encontrar no site a missão da marca mas acredito que terá, certamente, que ver com proteger crianças, cuidar delas e das suas necessidades, priorizá-las e fazê-las felizes. Mas consigo encontrar a equipa que pode ter alguma palavra na estratégia de marketing da marca, que pode ser decisora, que pode recuar no apoio financeiro à transmissão dos próximos episódios e, por isso, pôr cobro a isto. 
O contacto de email da Corine de Farme é corinedefarme.geral@sarbec.pt  e o facebook da marca  é este. Just do it!

2- Hoje, à hora do programa, todos os que se quiserem juntar a um boicote colectivo publicarem nas suas redes sociais uma fotografia da sua televisão sintonizada noutro canal, de si mesmos a fazerem programas alternativos (ler um livro, fazer um bolo, contar uma história aos filhos antes de dormir, ver um filme noutro canal), ou seja,  vale tudo menos assistir ao programa, vale tudo para mostrar que nós não, nós não quereemos ver acidentes de auto-estrada na televisão generalista usando o hashtag #nannyboicote. 

Percebo que haja uma certa atracção para a desgraça, uma coisa meio irracional e sádica, por outro lado uma necessidade de pertença para amanhã podermos participar nas conversas de café, dar o nosso bitaite. Mas- infelizmente e à custa da Margarida- já sabemos ao que vamos e já sabemos que não queremos ir. 

É que sem audiências, a sociedade civil é capaz de ser mais soberana que todas as outras entidades. 

E- caramba!- a sociedade civil somos todos nós.



sábado, 20 de janeiro de 2018

Imagine que está de férias no Cazaquistão...

Sente-se mal, muito mal.
No hotel chamam um táxi que o leva até ao hospital.
No hospital você quer explicar porque se sente tão mal.
 Explica em português e respondem-lhe em cazaque.


 Imagine, agora, que você é surdo(a).
Vive em Portugal.
Sente-se mal, muito mal.
Consegue chegar ao hospital e é como se estivesse no Cazaquistão.
Explica porque se sente tão mal.
Ninguém percebe.




A fé que as 'ssoas têm em mim!


Os leitores deste blog são melhores que os dos vossos #21

Uma espécie de santo graal ou o quarto segredo de Fátima versão capilar:


Obrigada, miúdas!

A vingança das "desganipadas"


Afinal, há vida para além dos rabos-de-cavalo-de-hospedeiras "dajoutras": obrigada, Santander Totta!

Pergunta que ocorre a uma pessoa que quando faz um rabo de cavalo fica cheia de ganipas nas gadelhas

Há um módulo só de como fazer rabos-de-cavalo deslumbrantes no curso de hospedeiras, não há?

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Cooking and Nature- (not so) Emotional Hotel

As expectativas eram altas porque uma pessoa já anda nisto há algum tempo e vai conhecendo sítios e vai lendo críticas e vai sendo "marketinguizada" diariamente com todos os testemunhos que lê e as fotografias de instagram que vê e yada e yada.

Todos os anos existem duas datas importantes e imperativas para "escapadinhas" cá em casa: a do aniversário de namoro (13 de Janeiro) e a de casamento (3 de Setembro). Regra geral tiramos um fim-de-semana a dois mas este ano decidimos levar a miúda e ainda bem, caso contrário ainda teria correspondido menos às expectativas. Mas já lá iremos. 

Em Setembro quando visitámos o Luz Houses (tinha quase a certeza de que tinha escrito um post sobre a experiência mas não o encontro), também ali perto de Fátima, íamos ao desconhecido. Fomos surpreendidos por um conceito que, na altura, achámos diferenciado e único e passámos um fim-de-semana a dois com tudo o que tínhamos direito: inspiração, serenidade, emoção, descoberta e até aventura.  O conceito Luz Houses tinha sentido estético, uma atenção ao detalhe irrepreensível, um despretensiosismo meio fabricado mas ainda assim que encaixava, a "novidade" importada dos "Honesty Bar", uma piscina tosca, uma pequena capela magistralmente improvisada e encaixada no espaço exterior, uma pequena "mercearia" inspirada no conceito de "A Vida Portuguesa" de Catarina Portas, amostra de produtos tradicionais e- mais importante!- um exímio trabalho de relação entre o hotel e os clientes, presente nas pequenas coisas: nos detalhes da recepção com a oferta de um welcome drink (uma inesquecível xangria) e de uma fatia de bolo , na personalização das tábuas de lousa de boas vindas, no atendimento personalizado e na despedida em que se pedia um testemunho escrito em pequenos corações, a partir da nossa saída expostos para sempre numa árvore no lobby. Como se tivéssemos gravado a nossa experiência a canivete num tronco de árvore para sempre. Adorámos e prometemos voltar.

Este aniversário mámen quis arriscar no "Cooking and Nature- Emotional Hotel", também perto de Fátima, num pequeno vale à beira de Porto Mós. Depois de "Luz Houses" e tendo em conta que se tratam de ofertas de hotelaria da mesma gama e com o mesmo segmento de mercado, confesso que as expectativas eram altas. Aliava-se o facto de no site do "Cooking and Nature" revelarem que o hotel era "kids friendly" e de estarmos no Inverno, pretexto ideal para ver como se portam estes hotéis de charme muito orgânicos e  inspirados em conceitos "nature" em estações do ano menos "sexy".




O "Cooking and Nature" é, inequivocamente, bonito. Não tem o tom mignon do "Luz Houses" mas a arquitectura e a decoração dos espaços comuns são muito bem conseguidas e muito "instragramáveis" como aliás podem verificar na minha conta de IG e que me parece, pelo que vi nos restantes hóspedes que por ali andavam, um dos requisitos essenciais nos dias que correm. Se, por um lado, o edifício se enquadra na paisagem exterior envolvente e a decoração cheia de pequenos detalhes encanta os hóspedes, à medida que a simpática empregada nos ia fazendo as "honras da casa" íamos tendo uma sensação de dejá vu: a igual oferta de uma welcome drink (mas, desta feita. um chá nem quente nem frio, cujo bule e chávenas nos foram  apontados para que nos servíssemos sem que nos convidassem a sentar e a sentirmo-nos em casa), um honesty bar (checked!), uma pequena "mercearia" de amostra de produtos regionais (checked!) e uma árvore no lobby com os mesmos corações de papel onde, no fim da estadia, somos convidados a deixar o nosso testemunho (checked!). Ah e a sala publicitada como "kids friendly" estava estrategicamente posicionada no centro do espaço comum, toda ela (bem) envidraçada para nunca perdermos os miúdos de vista enquanto circulamos por ali mas... não era mais que uma sala asséptica com jogos dentro de armários, pouco vivida, pouco humanizada, pouco apelativa para os miúdos.


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

"Super Nanny": qual o nosso papel?

Infelizmente, no meu ponto de vista, não valerá de nada reportar-se a situação à Ordem dos Psicólogos por duas razões:

1- O título do programa é  A super-nanny" e isso configura o papel da técnica no mesmo;

2 - O disclaimer final, que aqui reproduzo, e a escolha da palavra "educadora," não é ingénuo e protege a técnica.





Sugiro que quem queira demonstrar a sua indignação face a esta assunto o faça pelas seguintes vias:

  • Pedido de intervenção junto da CNPDPCJ  (ninguém quer nem deseja que a Margarida seja retirada do seu contexto familiar, atenção aos preconceitos que se fazem relativamente à missão das CPCJs deste país. Mas urge que uma equipa técnica e profissional, credível e validade, de uma CPCJ possa acompanhar estes pais de forma séria de forma a ajudá-los na gestão das suas competências parentais e que se pronunciem de forma exemplar de forma a balizar a protecção e os direitos que as crianças devem receber dos seus pais na gestão das suas educações). 
Exemplo de pedido de intervenção: 

"Bom dia,



Ontem a SIC estreou um programa em horário nobre, chamado «The Nanny». O mesmo é um «reality show» em que os protagonistas são uma criança indisciplinada e uma nanny/psicóloga que está lá para a corrigir e apaziguar o ambiente familiar.
Assisti a um breve trecho do programa e em apenas 5 minutos tive a oportunidade de observar várias violações aos direitos da criança, nomeadamente: 1 - O direito à imagem;
Num tempo em que os pais recebem constantes avisos sobre a necessidade de proteger os seus filhos - limitando, por exemplo, a sua exposição nas redes sociais -, este programa aparece completamente em contra-ciclo e, principalmente, expõe uma criança que não deu o seu consentimento para tal e que ao longo do programa, por várias vezes, manifestou o seu desagrado com as várias situações que foram expostas. Uma criança que hoje vai ter de ir à escola e que será certamente confrontada pelos colegas com todas as situações em que o pior de si foi transmitido pela televisão, para todo o país.
2 - O direito à reserva da intimidade da vida privada (por exemplo, foi-lhe imposto que tomasse banho diante de uma estranha e com uma câmara de televisão presente). 3 - O direito à proteção pela pessoa em quem confia

Peço-vos o favor de verem o programa e de agirem de imediato - é necessário impedir que mais crianças sejam maltratadas desta forma. Muito obrigada pela vossa atenção.



É importante reiterar que as crianças não pertencem a ninguém.: as crianças são sujeitos de direitos e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados a zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir.

E o Estado somos todos nós. 

A Super Nanny ou "Kid Whisperer"




Comecemos pelo título: " a super nanny" que afinal não é nanny, que em português significa "ama" ou- se formos aos antigamentes- "perceptora", que supostamente baralha aqui um bocadinho o papel de uma psicóloga que é o que é a protagonista do programa. Urge perceber que são coisas diferentes, só naquela de começarmos a chamar os bois pelos nomes.

Quando comecei a assistir aos spots publicitários do programa os meus olhos começaram a tremelicar mas aprendi que, nestas coisas, não se pode julgar um livro pela capa e aguardei pelo programa para emitir juízos de valor com conhecimento de causa. De facto estava enganada: foi pior que o que imaginei.

E assim começou o programa com o anúncio de que "A "Super Nanny" já está a caminho" no seu mini amarelo, tal bombeiro tinoni-tinoni que vai acudir a um acidente mas na missão de "tornar as famílias portuguesas mais felizes", de indumentária de perceptora-secretária-de-óculos-de-massa-sexy. Ufa, fiquei muito mais descansada! Só que não.

Vamos colocar aqui uns sons para tornar a coisa mais tcharam e filmar algumas expressões visuais de desaprovação da "nanny" para tornar a coisa mais emotiva: checked.

Não conheço esta mãe e não a quero julgar. Conheço o que transmitiram dela na televisão e o que os produtores do programa seleccionaram para que eu e todos os telespectadores pudéssemos fazer um guião na nossa cabeça sobre as suas competências parentais. Não o quero aqui fazer, nomeadamente, no que concerne à capacidade de reagir e gerir as emoções da filha que demonstrou no programa (embora ali denote muitos dos clichés dos pais portugueses, a maioria tão- mal- enraizados que nem se consegue ter um sentido crítico sobre eles, desde argumentos que se refugiam em figuras externas de autoridade para impôr regras que devem ser impostas pelos próprios pais como o famoso "se não comeres vou chamar o polícia" ou "se não te portares bem vou dizer ao pai Natal" ou mesmo "vem o papão/homem do saco/ASAE/Ministro das Finanças",ou, no caso desta mãe, o famoso "vou telefonar para o teu pai", também muito em voga em famílias monoparentais, em que é confortável que o bad cop seja o progenitor ausente durante a situação e, por isso, impossibilitado de gerir a situação; às típicas atribuições causais externas do "a minha mãe estraga-a!").

A esta altura, depois de ouvir o nome da "Margarida" umas 252432 vezes, depois de ver a imagem da Margarida umas 23262829 vezes comecei a ficar zangada com esta mãe. Não pela forma como geria bem ou mal ou não geria ou não ajudava a gerir o comportamento e as emoções da filha mas pelo facto de a desproteger e expôr desta forma.

A birra é uma estratégia da criança expressar o que quer ou não quer, as suas emoções, zangas e frustrações e, especialmente, as suas necessidades (de atenção, de compreensão da situação específica, de se fazer ouvir). A birra faz parte do desenvolvimento sócio-emocional da criança, constituindo manifestações/ reacções da criança ao Mundo quando ainda não se encontra na posse de outras ferramentas, estratégias ou estadios emocionais que lhe permitam exteriorizar a sua frustração face aos acontecimentos que lhe sucedem. 

A criança é apenas criança, alguém que está a estruturar a sua personalidade, a organizar os seus pensamentos, valores e as suas atitudes, e que por isso tenta perceber, interpretar e dominar o ambiente onde se insere. E incluir-se nele. Posicionar-se no Mundo. E faz parte deste processo de apropriação o colocar em causa as regras estabelecidas, o negociar, o lutar pela prevalência das suas vontades e desejos (até porque as crianças são inatamente egocêntricas), num constante desafio face aos adultos que lhe são próximos. 

O problema é que generalizamos, muitas vezes, birras e catalogamo-las de má educação, quando nem sempre isso é verdade. Quando ouvimos este comentário, era importante questionar sobre o que é ser mal educado. É desafiar regras impostas? É lutar pela satisfação das suas necessidades imediatas? É manifestar-se emocionalmente face a situações que não vão de encontro aos seus desejos? 

 Mas a verdade é que os pais são constantemente desafiados. E os grandes desafiadores não são os seus filhos mas os outros adultos, num mundo onde a informação está à distância de uma actualização de uma página de rede social, onde tudo acontece no imediato e onde os “crescidos” deixaram de saber esperar, também.

Margarida fez muitas "birras" durante o programa. Margarida não queria ir para a cama depois da mãe utilizar como estratégia cansá-la a assistir a desenhos animados antes de a mandar dormir. Cansou-a, de facto, mas não a fartou: excitou-a, expô-la a uma série de estímulos visuais e sonoros que a excitaram, quando a altura era de a acalmar e relaxar, preparando-a para o sono que se seguiria. Depois de uma espiral de choro e birra face a recusa em ir para a cama, a inflexibilidade de a mandar para o banco do castigo e a recusa da criança naquele: "Vai para o banquinho", quando estava cansada dos estímulos dos desenhos animados e da hora avançada e exausta de tanto chorar e gritar. E foi. Num estado emocional de profundo descontrolo às dez da noite e na preparação para adormecer. Pior, a má da fita foi quem? A Margarida. 

Podemos falar no "banquinho"?  A criança só consegue pensar de forma crítica e reflexiva acerca dos seus actos, compreendendo, de facto, as questões valorativas e morais das regras. O castigo tem que ter uma relação de causa-efeito com o erro das crianças. Imaginemos a seguinte situação: a Margarida atira comida para o chão de propósito e recusa-se a apanhar, fazendo uma birra enorme quando insistimos e sabendo, claramente, que está a fazer um disparate. Mandar para o "banquinho", ir pensar no disparate que acabou de fazer não serve para nada, para além de dar tempo à mãe para respirar fundo e descansar a cabeça (ou seja, não é um castigo para a criança, é apenas um escape para o adulto). A estratégia tem sempre que relacionar numa lógica causa-feito o erro com a consequência, ou seja, "sujaste o chão, agora limpas, não há outra alternativa que não essa" (mesmo que limpe mal e que a mãe tenha que limpar melhor a seguir, sem que ele perceba, mas tem que limpar).  Mais ainda, o castigo não pode ser atribuído sem que seja dada à criança a oportunidade de o corrigir ou minimizar, responsabilizando-se pelos seus actos e agindo sobre eles. Isto quer dizer que se a Margarida dá uma palmada à mãe, de forma zangada e deliberada (o que não sucedeu, o que eu assisti foram apenas reacções de impulso à frustração) após ser contrariada ou numa situação de confronto, deve ser orientada pela mesma acerca do reconhecimento e gestão da emoção bem como da razão do erro, tendo a oportunidade de gerir as consequências que a sua acção causou ("Podes vir conversar comigo, para eu te explicar o que sinto quando me bates e pedir-me desculpa porque me magoaste?!). Ou seja, não é convidando a criança a isolar-se num canto a pensar no seu erro que ela o vai assimilar, assumir e tentar corrigir ou minimizar. É mostrando-lhe as consequências directas do seu acto e a forma de as tentar resolver de forma directa e participativa. Nenhuma criança pequena vai, efectivamente, reflectir acerca das consequências dos seus erros virada para uma parede sozinha. Nenhuma. Nem há qualquer função pedagógica nesta prática e se não mostrar ao seu filho o que pode fazer para corrigir ou minimizar o erro ele nunca terá hipóteses de alterar o seu comportamento porque não conhece alternativa e não percebe as consequências directas do disparate que acabou de fazer. E ninguém aprende sem compreender a realidade. E a realidade não se aprende virado para um canto de uma parede a pensar na morte da bezerra. Portanto, metam o "banquinho" num sítio que eu cá sei. 

Margarida não queria tomar banho na presença de uma estranha que acabara de conhecer e que lhe entrara pela casa adentro, violando o seu espaço e tempo de privacidade e intimidade, pedindo-lhe "beijinhos" de forma demasiado "nanny" e "pouco psicóloga" (ai esta coisa dos adultos precisarem do afecto das crianças e sugerirem-lhes contacto físico para se sentirem queridos e respeitados...). Margarida gritou: "Tu não mandas em mim!". Ah, abençoada, Margarida: a esta altura até a mim me apetecia berrar. 

 "Eu quero ir para o teu quarto" (fuga à situação de exposição com a câmara de filmar à frente), "Eu quero colo" (necessidade de conforto), "Eu não quero ir para o banco, quero ir para a cama" (fuga à humilhação)", ""Quero colo, Mãe!" (necessidade preemente de afecto e pedido de protecção) e "Eu quero dormir no teu quarto"- ouvia-se amiúde. Margarida queria acabar com aquele suplício.

Margarida gritava por socorro nesta peça, não gritava porque fazer birras era fixe. Margarida queria pôr fim aquele ciclo de violação da intimidade (ainda por cima permitida e validade pela mãe, uma das pessoas em que mais deveria confiar e a mais deveria proteger), de pressão para se comportar de forma autómata ("Toma lá o sapinho e obedece, se faz favor!"- Pavlov explica), de corresponder às expectativas dos adultos e de intromissão nas relações bidireccionais entre os diferentes membros da família (e na minha cabeça, novamente, a imagem da  "nanny" a pedir beijinho assim que conhece a criança, "a nanny" a assistir ao banho, num total desrespeito pelos limites da privacidade e do corpo da criança, a "nanny" a mandar a mãe dar um beijinho à avô, ah esperem- se calhar está certo é mesmo "nanny", não estou certa que esta senhora perceba assim tanto de Psicologia...). 

""Ela não dá valor nenhum à mãe" - dizia a mãe e eu já nem me lembro do nome da mãe, para que se veja como todo o foco e o ónus destas questões ficaram sobre os ombros de uma criança de sete anos.

A mãe de Margarida está cansada. E precisa de ajuda, talvez muito para além das questões parentais. A valorizar-se a ela mesma e a sentir-se valorizada e não colocar essa responsabilidade na filha. 
Talvez, em primeiro lugar, se deva ajudar a mãe da Margarida, não a Margarida. Deve ajudar-se a mãe da Margarida em contexto psicoterapêutico, respeitando o seu direito à confidencialidade e privacidade, treinado com ela competências de gestão das próprias emoções, ensinando-lhe ferramentas e estratégias, acompanhando o seu percurso. No que diz respeito às competências parentais, deve envolver-se o pai neste processo, quem sabe em terapia familiar (se for caso disso) porque a Margarida é filha de um casal e a ambos compete delinear  gerir o projecto de vida da filha comum, e que é completamente alheio às questões da conjugalidade. Com regras, com ética, com respeito pela individualidade desta mãe.

Da forma que ela deveria ter feito com a sua própria filha.  

As crianças não pertencem a ninguém.: as crianças são sujeitos de direitos e não objecto de direitos (como -ainda- são os animais). Os pais são tutores e, em todas as decisões que tomam, estão obrigados a zelar pelo melhor interesse da criança. Se não o fizerem, o Estado pode e deve intervir. Exemplo: se por convicção religiosa ou outra os pais recusam tratamento médico necessário (seja uma transfusão, seja outro simples tratamento), o Estado, via tribunal de menores, pode determinar seja prestado o tratamento. Caso exista um risco iminente para a vida da criança, os médicos podem tomar a decisão de tratar, antes ainda de expressa determinação do tribunal. 

Em suma, os pais não têm o direito de expôr publicamente os filhos. Têm é o dever de os proteger.

"Ah, a Margarida começou- finalmente!- a dormir no próprio quarto depois de muitas zangas"- declarou, vitoriosa, a mãe no fim da peça. Claro, cansaram-na, tornaram-na exausta, fizeram-na desistir. Não foi uma vitória, foi um fracasso.
Margarida desistiu, entregou-se, sem perceber porquê. 
Talvez volte ao mesmo quando as câmaras se desligarem e perceber que a mãe precisou de uma testa de ferro para a educar, que a mãe tem dificuldade em estabelecer, ela própria, as suas regras, suas, próprias, com o recurso a algumas figuras de confiança e de referência mas, efectivamente, as suas regras.  Quando a regra não é a nossa,temos que a incorporar em nós. Ninguém sabe ou pode educar os seus filhos com maior preparação que os próprios pais. Porque se as regras para educar não são suas, mas dos especialistas, dos gurus da psicologia ou da educação ou da saúde infantil- das nanny, que seja!-  e não as incorporam; se são as regras do pediatra, da psicóloga, da internet ou da amiga, não estão interiorizadas e são externas, os pais perdem o seu papel enquanto figuras de autoridade.

De todos os erros da mãe da Margarida- que eu não queria esmiuçar mas que acabei por fazer: mea culpa- , este foi claramente o pior: expôr brutalmente as emoções da filha, como se delas fosse proprietária. Transmitir,  em formato de reality show- como vemos fazer as senhoras da Casa dos Segredos aos gritos ou nunca nos esqueceremos da Gisela do Masterplan num melt down à beira Tejo- as emoções de uma criança que hoje, segunda feira, irá à escola.
Onde será "famosa" não pelas melhores razões, onde será exposta a comentários, e muito provavelmente, apontada, talvez gozada ou ridicularizada, O bullying entre pares nesta idade é esmagador e a Margarida precisa de amor, não de machadadas na sua auto-estima e no seu auto-conceito, promovidas e validadas pela sua figura de referência maternal. Aquela em quem mais deveria confiar no Mundo.

E- infelizmente- vaticino que para minimizar o impacto disto não seja preciso uma "nanny" nem uma "educadora" mas uma psicóloga a sério. Das que não coagem ao beijinho, das que se constrangem face a assistir a banhos de crianças que não as suas, das que não forçam mãe e avó a cumprimentarem-se com o afecto que a câmara de filmar reclama. Das que não usam banquinhos.

À SIC recomendo que adoptem para Portugal o formato "dog whisperer" já que este "kid whisperer" não funcionará. É que aqui não bastam biscoitos de recompensa em formato de sapos com íman nem passear as crianças enquanto se faz jogging pelo bairro para as cansarem. Aqui é preciso respeitar o direito a ser-se pessoa na infância. 

Um abraço solidário, querida Margarida. Pudesse eu dar-te colo. 

sábado, 13 de janeiro de 2018

Porque hoje é dia 13

             

E (hoje) cada post meu será para te dizer que eu sei que vou-te amar por toda a minha vida. 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Ana, a todo o terreno

- "Avó, há uma menina na minha escola que tem gesso na perna e anda de canadianas ."

- "Pois,deve ter caído e partiu a perna..."

-"Ai avó, eu também gostava de partir... mas era para andar de cadeira de rodas eléctrica! "


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I love IKEA!

            

Quando o marketing se supera!

A CONHECER | O restaurante onde o polvo é rei

As expectativas eram altas: se por um lado adoooooro polvo; por outro- o lado mais importante- a "Confraria do Polvo", inaugurada há 15 dias, trazia para bem pertinho de mim o génio do chef. Artur Gomes, um jovem cozinheiro muito talentoso que já passou pelo Oitavos, pelo Belcanto, pelo Celler de Can Roca, em Girona (3 estrelas Michelin e melhor restaurante do mundo por duas vezes), Relae,  em Copenhaga e o Monte Rei, no Algarve mas, mais relevante de tudo neste brilhante currículo:  filho da minha grande amiga Fátima Agostinho.
Tenho acompanhado a trajectória do Artur pelos relatos babados e orgulhosos da mãe e a vontade de me sentar numa mesa com pratos servidos por ele estava a ser há demasiado tempo adiada quando percebi que o Artur acabara de ser contratado pela "Confraria do Polvo", ali em Oeiras, para espalhar magia. 
À vontade juntou-se uma certa curiosidade matreira: "como é que um cozinheiro, habituado a trabalhar com os melhores, em restaurantes de estrelas Michelin, com recursos e produtos de primeira, conseguirá redimensionar a sua arte para trabalhar num restaurante despretensioso, low cost e de rua e, em particular, tendo em conta que a sua criatividade terá que convergir num produto específico: o polvo?"
Foi esta a pergunta que fiz pessoalmente ao Artur, na última quarta feira, depois de lhe ter aparecido de surpresa num restaurante ainda com cheiro a novo.  A resposta veio em forma de desafio: "senta-te que eu mostro-te." 
Assim, dispensei a carta e fiz o truque que aprendi há muitos anos a ler o livro "Em Portugal não se come nada mal", de Miguel Esteves Cardoso: deixei o menu por conta do chefe, com uma única advertência: a Ana não gosta de batatas, tudo o resto era à vontade do cozinheiro. E assim foi.
Começámos com uma entrada de salada de polvo, temperada magistralmente, sem demasiado azeite a afogar o pobre do polvo, erro tantas vezes cometido noutros restaurantes,  e com um toque a cebola roxa, pimento verde, pimento vermelho, salsa, vinagre balsâmico e vinagre de cidra, que tornaram-na, oficialmente, na melhor salada de polvo do Mundo. E- oh senhores!- se eu sou especialista em saladas de polvo!
Seguiu-se, para mim, o melhor prato do repasto: polvo frito com massa tempura e molho tártaro, numa combinação leve e fresca e que nos levou ao paraíso! A Ana, nesta fase, deliciava-se com um rissol de polvo, que a Ana é dos salgados, dos rissóis e das chamuças, estava na sua "praia". A esta altura toda a família se desgraçava na maravilhosa arte de lamber os dedos. 


Para refeição principal um caril de polvo como não há memória e um segredo desvendado que tem que ser aqui partilhado: quando lhe perguntei o truque para o polvo ser tão tenrinho que quase se desfazia na boca, uma delícia há muito não provada, o chef Artur explicou-me que antes de se cozer o polvo pode fazer-se uma marinada com o polvo e kiwis por cima, uma vez que os kiwis contêm um aminoácido que desfaz a proteína do polvo e o torna mais tenro. Viver para aprender!
As sobremesas não surpreenderam: para mámen um arroz doce e para mim um bolo de bolacha (feito com manteiga que eu não gosto de bolo de bolacha com natas). A Ana não gosta de doces. Mas não precisávamos, estávamos a rebentar de polvo-deleite!
Para acompanhar sumos para as meninas pois estou a tomar medicação e não pude acompanhar mámen num copo de vinho. Depois dos cafés, a conta: trinta e seis euros, uma verdadeira pechincha face à frescura do polvo, à qualidade dos produtos, ao espaço clean do restaurante e à mestria do cozinheiro, comprovadamente, o maior trunfo deste restaurante. 
Vaticino, claramente, o maior sucesso desta Confraria do Polvo, pelo que, recomendo que lá vão nos próximos tempos, enquanto ainda é demasiado novo e desconhecido, enquanto ainda não precisam de marcar mesa nem de esperar em filas, enquanto as "massas" não descobrem este achado. É que o futuro deste restaurante promete!


Conhecer o paraíso dos amantes de polvo

Quem? Restaurante "Confraria do Polvo"
Onde? Rua Cândido dos Reis, 168,  2780-212 Oeiras
Contacto: 21 586 9064
Saber mais? Aqui 

Ainda sobre séries

As outras pessoas a comentarem séries:


"Holy Kinder Surpresa, o Tyler partiu o pescoço ao Dr. Culber." "Foram os extraterrestres! Eles andam aí!" "Afinal a tarte não foi roubada, mas deitada no lixo." "A Lea vai partir o coração ao Shaun..." "A Penny vai ser a maid of honor da Amy." "O Lip vai dormir com a Sierra" "O Joel vai descobrir que a Midge faz comédia e é muito melhor que ele, de longeeee melhor! " A Ofrred vai engravidar do motorista. " Linda morreu num acidente de helicóptero e não teve uma homenagem como deve de ser" "O assassino é o advogado dos principais suspeitos (minoria étnica)" "Como castigo, por ter perdido as provas do dia, Joe, vestido de marinheiro "pin up", é enfiado dentro de um daqueles bolos gigantes e dá por si a ter que discursar e dançar para um grupo sisudo de veteranos de guerra" " O Carl vai morrer." "Foi tudo um sonho do cão."



Eu a comentar séries:

O Falcão Traça é o pai do Adrien, não é? O pai da Vampirinha parece o João Melo dos Fúria do Açúcar, não achas? Não percebo porque é que na Patrulha Pata em 4 cães só há uma fêmea... E, lá está, nos PJ Masks porque é que também só há uma representante do sexo feminino? Porque é que a mãe da Dra. Brinquedos a trata por "doutora"? A Miranda, mãe da princesa Sofia irrita-me para camandro... Já não aguento o Hotel Transylvania, camandro! Fino-me a rir com as histórias infantis abreviadas e contadas nas Histórias da Masha...Estamos em pulgas para que estreie os Puppy Dog Pals!

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This is us ou Freud explica mesmo tudo



So far, so good o meu episódio preferido de sempre. Como já tive oportunidade de aqui escrever, eu e mámen, ambos psicólogos, passamos a vida a analisar as personagens e a fazer analogias com as nossas próprias histórias ou com as histórias de pessoas que conhecemos. 

Claramente que Kevin se sente o patinho feio da família desde o primeiro episódio em que se percebe, claramente, uma relação mais estreita entre Randall e a mãe (e avançamos com a teoria da compensação da Rebecca que não criou vinculação imediata com o filho adoptivo ainda no hospital no momento da adopção e com o facto do Randall ter assumido um comportamento facilitador desde sempre como forma insconsciente de corresponder às expectativas dos pais, como uma forma macabra do inconsciente de mostrar gratidão) e Jack ter em Kate o seu maior foco de atenção (well, aqui Electra explica). 

Kevin creceu sem ser "a pessoa" de ninguém, mentira, é a pessoa de Kate que acabou por se parentificar na sua relação com o irmão gémeo e de ser, de caras, a sua figura de referência feminina. Mas... todos precisamos de uma figura de referência, de amor, de atenção parental. Todos desejamos ser o "menino dos olhos" da mãe, do pai, do avô ou da avô, o preferido da madrinha ou o "buddy" do tio, figuras adultas ascendentes e que sentimos que estão lá para nos amar, proteger e preferir de olhos fechados. 

Claro que esta análise é a minha e nesta fase meramente subjectiva, não é uma verdade absoluta e assumo já que está claramente toldada pela minha experiência pessoal. Ser filha única é muito reconfortante neste aspecto (e, sim, eu sei que para a maioria das pessoas que tem irmãos não trocariam isso por nada e que esta minha visão é meio incompreensível e pode encaixar no estereotipo de egoísta, tudo bem, aceito, dou o corpo às balas).

Dizia eu, que ser filha única é muito reconfortante neste aspecto (tal como em muitos outros, adianto já): o amor é unidireccional, não há dispersão, o colo não tem que ser disputado nem a atenção repartida, os pais andam menos cansados e muitas vezes mais disponíveis e muitos dos issues que eu assisto em muitas dinâmicas parentais que conheço simplesmente não têm cabimento numa família de filho único. 
Claro que há o outro reverso da medalha, naquela cena final onde Big Three se sentam no banco do jardim  todos juntos, numa bolha de amor que eu não conheço, numa cumplicidade a que  nunca terei acesso, também suspiro com o coração quentinho. Conheço irmãos amantíssimos e fico sempre curiosa de como será ter esta relação que me parece tão diferente das outras, tão reconfortante também e única. 

O que é bom em "This is Us" é esta capacidade de projecção. Olharmos para os nossos próprios pais e vemo-los como filhos e em como isso influencia a sua própria parentalisdade, a que a nós nos diz respeito. Observarmos em como também encaixam naqueles estereótipos de fratria, a minha mãe e o meu tio que foram claramente Kevins, os típicos irmãos do meio, muitos exigentes consigo mesmos, os que não eram os primogénitos como o meu tio que sempre foi o menino da minha avó nem a caçula da família como a minha tia, a menina dos olhos do meu avô.  Sou filha de um Kevin, percebi ontem e fiquei a perceber melhor a minha mãe, muito embora muitas vezes não a perceba (ainda que nisso não belisque um milimetro do amor infinito que lhe dedico). Sou sobrinha de um Randall e de uma Kate, tão parecidos em tantas coisas e como é fácil ser sobrinha deles.

Ser o filho primogénito é um bocadinho ser o filho único, vejo-o pela meu marido, também ele, de caras, um Randall mas só com as partes difíceis: o grau de exigência,a  necessidade de corresponder às expectativas, o ser pioneiro de tudo, a pouca  margem de erro, acrescidos pela necessidade de dar o exemplo. E percebi melhor a relação dele com a minha sogra, toda ela Rebecca com ele, e fiquei a perceber melhor a minha sogra, muito embora muitas vezes não a perceba. Ser Kevin deve ser duro, inseguro e solitário, não se trata de amor, mas de atenção, embora haja toda uma liberdade de actuação, de se poder ter margem de erro, de voar para mais longe, de não ter que corresponder às expectativas que já estão muitas vezes satisfeitas pelo primogénito, esse ser "perfeito" e "exemplar "(coitados, coitados...) e fiquei a perceber melhor o meu cunhado, muito embora muitas vezes não o perceba.

O meu sogro não encaixa nem o meu pai. O meu sogro sem mãe e, afinal, encaixa tudo, quem não teve um modelo de amor maternal tem quase desculpa para tudo, não é bem desculpa, é justificação: só o amor nos ensina a amar. O meu pai teve modelos de amor, foi filho único, nada encaixa, não cabe em nenhuma caixa, modelo, estereotipo. Não compreendo o meu pai, já não faço esforço nenhum por o tentar perceber, aceito como quem aceita uma coisa distante e que não conhece, a vida nos glaciares, o amor nas tribos aborígenes da Oceânia, as relações em Marte.

O meu pai não encaixa mas o "This is Us" ainda há mais episódios pela frente e talvez, um dia, num click, as respostas me venham ali e eu o consiga perceber, muito embora dificilmente o venha a perceber. William, is that you?

E depois como somos nós? Eu um Randall como filha, uma Beth como mulher e uma Rebecca para a Ana, se a Rebecca só fosse mãe de um, coitada, tanta gente para gerir, tanta vida para tomar conta, tanto eu a ficar para trás. Eu escolhi ser mãe de filha única, Rebecca do Randall, só do Randall, Rebecaa deslumbrada e amantíssima, Rebecca da filha fácil, Rebecca sou eu, tantas vezes, nas coisas boas.  Ele, um Jack de corpo, alma, feitio e amor, na devoção e dedicação com que dedica nos dedica, como maruido e como pai, mas um Jack absolutamente perfeito no que diz respeito à Ana, a quem, com graça, chama muitas vezes de "minha Kate". A Electra, sempre a Electra, a Electra explica.

E, de repente, aos nossos olhos, o título da série tão sentido, catártico e inspirador. Caramba: "This is Us".

This is, so fucking, us.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O Mundo divide-se...



#metoo



Não vamos cá de modas:  eu também já estive do outro lado da barricada, defendendo e argumentando que não havia pachorra para a histeriazinha colectiva do politicamente correcto do feminismo.

Depois, deixei de comer gelados com a testa, que é como quem diz provi-me de algum bom senso, pesquisei, fui ler quem percebe da poda, pesquisei artigos sociológicos, assisti a tedTalks, li livros e colunas de opinião, perguntei,  contrapus e rodeei-me de pessoas mais informadas e esclarecidas que eu na matéria, quis conhecer de perto os seus argumentos e motivações e aprendi.

Aprendi que a minha filha não tem que viver numa cultura paternalista em que perguntam ao pai dela (nunca à mãe), assim que anunciámos o seu sexo, ainda na barriga, um "então, já compraste a caçadeira? " como se à Ana estivesse a aguardar um destino de fragilidade e indefesa, de dependência da figura paternal masculina para a defender; em que perpetuam essa ideia quando a "elogiam" com um "ui, com esses olhos e essa carinha vais dar muitas dores de cabeça ao teu pai" como se a beleza fosse uma sentença, como se a beleza fosse um karma de  "ai meus Deus, coitado do teu pai que vai ter que lidar com os impulsos descontrolados e não refreados dos homens que não vão resistir a mandar-te piropos, a tentarem apalpar-te no recreio da escola, a tentarem engatar-te, a mandar-te bocas parvas e piadas sofríveis, que triste sina a tua, a de seres objecto de desejo passivo e indefeso, ainda bem que tens pai, mas coitado, que triste sina a de ser pai de uma rapariga, o trabalho que vai ter contigo...".

Aprendi que a minha filha não tem que levar com os comentários do "esgrima? Mas tu és tão feminina e não praticas um desporto de meninas?";  que não tem que receber diariamente como principal elogio um "és tão bonita, Ana!" invés de "és tão esperta! és tão valente! és tão generosa! és tão corajosa! és tão divertida! és tão rápida a correr""; que "as meninas não se sentam de pernas abertas", que "as meninas não dizem asneiras", que "as meninas não", "as meninas não", repetidamente, "as meninas não" ( e "as meninas não" o caralhinho, tá?); que não tem que ouvir "mulher no volante, perigo constante" quando tirar a carta de condução e achar isso normal; que não tem que mamar com a puta de "a conversa já chegou à cozinha?" sempre que decidir opinar sobre um assunto no meios dos homens, mesmo que a brincar, mesmo que por piada histórica, "mesmo que" (metam estas brincadeiras no olho do cu a fazer caretas!); que não tem que crescer a aceitar que lhe ponham a mão à volta da cintura enquanto lhe abrem a porta tocando-lhe no corpo sem autorização sob o pretexto do cavalheirismo; que não tem que pensar no que deve vestir quando sair à rua sozinha: que não tem que se sentir lisonjeada quando desperta as "atenções masculinas" pelas formas do seu corpo; que não tem que ouvir piropos nojentos e ordinários e calar-se porque "mulher séria não tem ouvidos";  que não tem que ouvir "deve ter subido na horizontal" quando conseguir uma promoção no posto de trabalho; que não tem que ganhar um salário mais baixo que os homens que desempenham a sua categoria profissional só porque nasceu com um pipi; que não deveria ter acesso a cargos de liderança em empresas públicas "por favor" e via cotas ao invés de apenas por competência provada; que não tem que ler nas notícias que uma mulher foi violada porque saiu de mini-saia à noite e embebedou-se e que por isso "estava mesmo a  pedi-las"; que se lhe apetecer viver a sua sexualidade como bem lhe entender não tem que ser chamada de puta;  que não tem que abrir o jornal e todos os dias ler notícias de violência doméstica contra as mulheres; que não tem que se achar com "sorte" porque o homem que escolher para compartilhar a vida a "ajuda" nas tarefas domésticas, como se a agente principal das tarefas domésticas fosse ela por inerência e ele apenas "coadjuvante"; que se se insurgir face a qualquer coisa não tem que ser apelidada de "mal fodida".

Aprendi que a minha filha não tem que viver num Mundo onde "atrás de um grande homem há sempre uma grande mulher", que ela não tem que ficar atrás de ninguém, lado a lado é que se fazem as grandes lutas, muitas vezes sozinha, à frente, em frente, na dianteira; que não tem que ouvir "estás histérica ou quê? estás com o período?" quando estiver irritada/indignada/farta; que não tem que assistir a alguém a dirigir-se ao seu parceiro com um "eh lá, a tua mulher é brava, já estou a ver que é ela quem veste as calças lá em casa"; que não tem que ser refém da cultura do corpo perfeito ou do que quer que seja perfeito; que não tem que adiar a maternidade se quiser ter sucesso profissional ou apenas manter o emprego; que não tem que achar normal aquilo que mulheres ao longo de séculos (eu também) fomos ensinadas a normalizar. 

Aprendi que "mulher séria" tem ouvidos. E mãos. E coração. E cabeça para pensar. E voz. 

Agora é a minha vez de ensinar isto à minha filha. Todos os dias da minha vida.

Até que não seja preciso ninguém defender publicamente o seu direito a ter voz. 

This is us? A pergunta que se impõe

Que personagem são vocês neste momento e porquê?


[Neste momento o Kevin. Por razões óbvias.]

Sabes que és grupie quando...

            

 É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!É hoje! É hoje! É hoje! É hoje!É hoje!

Por outro lado, publicidade de valor é publicidade que é serviço público

"Milagre da Multiplicação das Férias: 

 Se quiser optimizar os feriados de 2018 juntos aos fins-de-semana, transforme os habituais 25 dias úteis em 57 dias de férias, divididos por 8 períodos. A saber:

 - de 10 a 18 de Fevereiro -  4 d.u. = 9 dias 
 - de 28 de Março a 1 de Abril - 2 d.u. = 5 dias 
 - de 25 de Abril a 1 de Maio - 3 d.u. = 7 dias 
 - de 30 de Maio a 3 de Junho - 2 d.u. = 5 dias 
 - de 10 a 19 de Agosto - 5 d.u. = 10 dias
 - de 3 a 7 de Outubro - 2 d.u. = 5 dias 
 - de 31 de Outubro a 4 de Novembro - 2 d.u. = 5 dias 
 - de 22 de Dezembro a 2 de Janeiro - 5 d.u. = 11 dias

 Agora é só marcar connosco escapadinhas cá dentro, nos períodos mais curtos, e uma viagem ou duas (ou três) nos períodos mais alargados. "

Email recebido da minha agência de viagem

A propósito do post anterior tirem-me aqui uma teima...



O Silvio Berlusconi agora faz publicidade a frigideiras?

Ainda no tópico publicidade enganosa e tendo em conta que a minha baixa médica me tem permitido mamar com muitas televendas





Só naquela, longe de mim querer agoirar, mas desconfiem sempre de panelas com parafusos  e porcas lá dentro.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Estamos a ficar americanos, tá visto!



Epá- ufa!- ainda bem que avisam.

Aguardo, agora, esclarecimentos públicos semelhantes a outras "campanhas" igualmente credíveis:


"Sabes porque te escrevemos? Há um iPhone à tua espera!"  É peta."

"Foi seleccionado para receber um Tablet Android pela revista Pulgas e Carraças? É treta"

"Mensagem para aumentar gratuitamente o seu pénis? Nem a pagar, quanto mais..."

" You won the lottery? In your dreams mais selvagens, babe!"

"Sabes as mensagens de facebook com fotografias de Mercedes com os laços vermelhos em que te pedem para escolheres a cor de carro que queres quando o ganhares? Rrrr, pois..."

Os leitores deste blog são melhores que os dos vossos #20


A fé que o meu marido tem em mim

Eu: "Estou a pensar comprar uma máscara daquelas pretas que arranca tudo das fuças: borbulhas, pontos negros, brancos e cor-de-rosa, pêlos indesejados e até o mau olhado, sabes?


Mámen (arregalando os olhos, entusiasmado): "Posso filmar?"


[Estúpido, pá!]

Estão a pensar engravidar? Este post é para vocês!




Assinala-se, durante esta semana e a nível Mundial, a semana de consciencialização para a importância do ácido fólico. 

Três em cada quatro malformações congénitas do tubo neural podem evitar-se com um suplemento farmacológico de folatos antes de engravidar (3 a 6 meses antes) e durante os primeiros 3 meses de gravidez (o tubo neural começa a formar-se cerca do 20º dia de gestação). O suplemento de ácido fólico está indicado para todas as mulheres que desejem engravidar e a maioria das mulheres que já engravidou tomando-o reconhece-o com as designações comercial de "Folicil" ou "Folifer", 

 O folato, também denominado como ácido fólico, é um tipo de vitamina B. O ácido fólico encontra-se nos vegetais de folha verde, citrinos, legumes e cereais em grão integral, no entanto, a maioria destes alimentos perde as suas propriedades assim que cozinhado, razão pela qual a introdução da sua forma farmacológica na dieta da futura mãe é a forma mais segura de garantir a sua eficácia.  



First world problems

- "Precisas de alguma coisa?"- pergunta-me ao telefone uma das minhas melhores amigas, que me ligou para se inteirar do meu estado de saúde.

. "Assim de repente de ir arranjar as sobrancelhas para não parecer o Álvaro Cunhal, de pintar o cabelo que está igualzinho ao da Madonna e que não me receitem mais nenhuma injecção de cortisona sob pena de no meu aniversário me confundirem com o Fernando Mendes..."



Quem diz a verdade, não merece castigo.

Zâmbia e Zimbabwe? Checked.




"Bom dia Ursa! Estive de férias na Zâmbia com o meu marido, que trabalha lá, e não podia deixar de contribuir para a cruzada. Aqui vai uma foto das cataratas Vitória, na fronteira com o Zimbabué. Beijinhos, Maria João"


Obrigada, querida Maria João para ti e marido! <3



O planisfério está actualizado aqui e é- prometo!- este ano que eu ponho as quadripolarizações tooooodas em dia.


Se alguém me enviou quadripolarizações que não foram publicadas, a razão tem que ver com a minha falta de organização a gerir a conta de email do blog (que- juro-vos!- é uma coisa impossível). Assim, peço-vos que mas reenviem, please, please, para o email euquadripolarizo@gmail.com. 

Muitas desculpas e renovadas gracias, sim?!

First things first






Ao pequeno almoço:

Mámen: "Não te cheguei a perguntar qual foi o teu principal desejo para 2018..."

Eu: "Que o McDonald's volte a servir sundaes de caramelo com caramelo na base do copo e no topo, ao invés de só no topo..."








terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Sala de espera da consulta de Neurocirurgia, Hospital de São José, 15h23

No desespero, tiro o telemóvel do bolso e constato que existe wi-fi grátis no Hospital. 

Como se fosse salvar o Mundo viro-me para mámen e digo - alto e a bom som para toda a gente ouvir e apanhar a deixa: "Olha: há internet grátis no Hospital!" 

Nem uma reacção. Continuou tudo nos seus desabafos e conversas tétricas de sala de espera de hospital. 



Pérolas a porcos, é o que vos digo. Pérolas a porcos. 


[Lá na França é que é, aposto que se deviam entreter, primeiro mundistas e caladinhos, a ler blogs.]


Sala de espera da consulta de Neurocirurgia, Hospital de São José, 14h23

Entra um senhor e começa a distribuir fotocópias de uma associação que ninguém conhece:

"Boa tarde meus senhores. Estimo as vossas melhoras. Infelizmente tenho que vos dar esta notícia de que sofro de HIV, para os senhores mais velhos SIDA. Nunca me droguei, nunca fiz amor sem camisa de Vénus, foi quando estava na barriga da minha mãe, a placenta rebentou e ela transmitiu-me o vírus. Podem ler esse papel, é com a ajuda de senhores como vocês que este Natal a Associação onde eu trabalho nos pôde dar bacallhau com batatas para a ceia em vez de pescada. Agradeço o  vosso auxílio. É melhor pedir que roubar. Nunca roubei nada a ninguém, agradeço..."

Auxiliar interrompe-o: "Não se pode mendigar na sala de espera. Já estou farta de o avisar todos os dias, não queria ter que chamar o segurança..."

"Ai é? Ai é? Vou mazé roubar. E digo-lhe mais: de cantar não me podem impedir!"- e começa a sacar, de forma agressiva, as fotocópias anteriormente distribuídas das mãos das pessoas da sala de espera, enquanto trauteia em altos decibéis:

"Ai senhor doutor que me dói a testa
Ai senhor doutor lá em baixo é que é a festa
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói a o nariz
Ai senhor doutor lá em baixo é por um triz
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói a boca
Ai senhor doutor lá em baixo é que está louca
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói o pescoço
Ai senhor doutor lá em baixo é que está grosso
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

Ai senhor doutor que me dói o peiro
Ai senhor doutor lá em baixo é que está a jeito
Trás, catrapás, de rabo e canela
Não há quem não conheça a história da Micaela

"Ai senhor doutor que me dói o pipi
Ai senhor doutor páre tudo que é aí
Trás, catrapás, de rabo e canela..."


Auxiliar em fúria: "Vou chamar o segurança!"



[Como não ser fã do SNS?! ]
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