Estava uma pacata (cof! cof!) mãe de família (cof! cof!) sentada à espera que chovesse hate mail proveniente de testemunhas de Jeová (avé, amigos, que eu sou do bem, leio a revista "Despertai!" no comboio se ma oferecem à porta da estação e tudo, só não resisto a uma piada fácil!) e, vai na volta, e alguns leitores ofendem-se por eu achar que os postais de Natal pintados com a boca por tetraplégicos, regra geral com temas de flores e naturezas mortas, são feios que dão dó. Não há condições!
Ora vamos lá por partes, que não quero deixar ninguém confuso.
Aqui estão as principais críticas ao post e respectivos esclarecimentos, para facilitar a leitura da coisa:
CRÍTICA 1- "A Pólo Norte por vezes parece desconhecer a realidade, roçando a desumanidade".
Ora beinhe, se há gente que conhece a realidade de fazer postais de Natal cujas receitas revertem para associações, sou eu. Ah, pois, com esta não contavam, né?
Pis bem, tendo eu uma deficiência congénita, e tendo pertencido durante décadas à associação que representa os afectados da mesma, fui convidada, natais a fio para desenhar postais. Enviava sempre uns 5 ou 6 desenhos para serem escolhidos e seguirem para a gráfica e adivinhem só qual era, regra geral, escolhido? O mais feioso, pois está claro!
PREMISSA 1- As pessoas que escolhem desenhos feitos por deficientes para postais de Natal têm sempre mau gosto.
Quando cresci e comecei a fazer desenhos mais giros era-me pedido que assinasse os postais com letra de escola primária para que eles parecessem genialmente feitos por uma criança de menor idade que a minha real.
PREMISSA 2- As pessoas que escolhem desenhos feitos por deficientes para postais de Natal gostam sempre de postais o mais infantilóides e toscos possíveis.
Se eu tenho jeito para desenho? Nenhum. Se eu fazia, ano após ano, os malditos desenhos? Sim.
PREMISSA 3- Os deficientes que desenham para postais de natal, muitas vezes, fazem-nos por pena das pessoas que lhes pedem os ditos e naquela de ajudarem as instituições. Há muitos deficientes autores de postais de Natal que gostam tanto de desenhar como eu de aturar gente sem sentido de humor.
CRÍTICA 2- "Não é por ser pintado com a boca por um tetraplégico que um postal de Natal tem que ser necessariamente feio"
CONTRAPOSIÇÃO 1- Não é por se ser tetraplégico que tem que se ter jeito para pintar.
CONTRAPOSIÇÃO 2- Infelizmente, não é o esforço empreendido para se pintar com a boca que dá origem a postais bonitos.
CRÍTICA 3- "Não és dona do conceito de estética!"
Pois não. E vamos lá a ver: nem tu! :D O que eu disse no post anterior é que EU os achava me-do-nhos. Repito, regra geral, são feios que doem. E agora? No meu conceito de estética nunca vi um que achasse bonito. Vou para o Inferno? Vou? Vou?
CRÍTICA 4- "A tua popularidade, mais que merecida, porque tens um sentido de humor fantástico e por teres organizado (tal como eu já organizei na minha cidade -e não ando a gritá-la aos sete ventos- uma campanha de angariação para doadores de medúla óssea), não te dá o direito de dizeres tudo, ok??? Porque não conheces o mundo todo!!! Ou talvez conheças, não sei!"
Ai que andamos "confusadas"! Então eu tenho "uma popularidade merecida" e não posso usar o meu blog para promover uma acção de solidariedade que existe porque as pessoas que fazem o meu blog "ter uma popularidade merecida" se identificaram com a causa e querem mover-se? Hummm.
Então, mas se o meu blog tem uma "popularidade merecida" não é aproveitá-la para fazer chegar a ideia das brigadas distritais de possíveis dadores de medula óssea ao maior número de gente? Hummm.
Então, queres lá ver que eu, no pós 25 de Abril, no meu próprio blog, não tenho direito de dizer tudo o que me vai na real gana? Hummm.
Lamento, mas tenho Tal como tu tens o direito de discordar e de o dizer no teu blog. Tal como tu tens o direito de deixar comentário no meu blog com o link de um post no teu blog em que permites comentários que me ofendem. E, óbvio, tal como eu tenho direito de não o publicar e, ainda, na loucura, o enviar para a caixa de spam.
Direitos? Ah, filha, direitos temo-los todos e eu ainda tenho o de reiterar, todas as vezes que me apetecer, que não gosto de postais pintados pela boca por tetraplégicos. NÃO GOSTO! E agora? Fazes queixa ao provedor da blogosfera?
CRÍTICA 5- "A Pólo Norte organiza acções de brincar à caridadezinha."
A Pólo Norte manda-vos para a puta caridosa que vos pariu ou para o real e caridoso caralhinho?
CRÍTICA 6- " Tenho pena que o objectivo ultimo de quem organiza as campanhas NACIONAIS, seja o da sua autopromoção pessoal e que tenha a necessidade de estar sempre aos gritos que é muito caridosa... "
Outra vez confusos, tss, tsss! Vamos lá a entendermos-nos: ou se chega à conclusão que eu tenho necessidade de me acharem caridosa ou se chega à conclusão que eu sou uma puta insensível que goza com postais ranhosos pintados por tetraplégicos. Em que ficamos? Quero ser conhecida por ser caridosa e depois digo que não gosto de postais de naturezas mortas e cores desmaiadas pintados com a boca? Não faz muito sentido? Ou será de mim?
Auto-promoção? Sim, sim. Aliás, eu vivo da popularidade deste blog. Ajudar a organizar brigadas de recolha de possíveis dadores de medula óssea é uma forma de captar clientes, digo eu. Ah pois, mas eu não vendo nada nem recebo patrocínios nem me associo a marcas e até tenho uma profissão que nada tem que ver com o blog. Hummm. Será que me agendaram uma tour e ninguém me avisou? Vou cantar com esta voz rouca ou dançar a coxear? Irei servir de mulher-bala no circo? Ou mulher barbuda? Avisem-me para parar de tirar o buço, sff!
CRÍTICA 7- "O curioso é que pessoas assim, que no mesmo blog misturam porcaria como este post com a maternidade, são idolatradas...pergunto porquê, uma pessoa que pensa assim será um exemplo para alguém? "
Se eu quisesse ser exemplo para alguém teria concorrido a Miss Mundo. Ah, espera lá não tenho 45 Kg nem 1, 75 m. Hum, e mesmo que tivesse não sou do género paz no Mundo e na Cova da Moura. Pois... Pior, não gosto de pirilampos mágicos feiosos, que acumulam pó e que só ficam kitsh nos tabliers dos taxistas. Exemplo? Sim, sim, o que eu mais ambiciono na vida é ser exemplo para alguém.
Ah, e qual a relação entre o post dos postais feiosos e a minha maternidade? Deixem experimentar espetar um pincel na boca da miúda e já vos conto.
CRÍTICA 8- "Os acidentes acontecem a qualquer momento, esperemos que essa estúpida nunca tenha que lidar com estupidez semelhante acerca de um trabalho seu ou de um familiar"
Deixo aqui expresso, na posse das minhas (limitadas) faculdades mentais que se um dia ficar tetraplégica NÃO autorizo a que ninguém me enfie um pincel pela boca abaixo. E, ainda que na altura, me queira expressar pintando, peço encarecidamente que me vedem o acesso a qualquer tipo de arte plástica porque se isto com as mãos já é a bosta que é, com um capacete com um pincel incorporado, o Magritte e o Matisse ficarão a auto-flagelarem-se nos túmulos, ok?
CRÍTICA 9- "Há assuntos com os quais não se brinca!"
Falso. Neste blog brinca-se com tudo. Neste blog ri-se de tudo.
Neste blog conta-se que no casamento da sua autora estiveram presentes imensas pessoas de cadeira de rodas e canadianas e que se gozou com o assunto dizendo que todos tinham tido um acidente de viação numa camionete de Barraqueiro a caminho do copo d'água.
Neste blog gargalha-se ao lembrar-se do dia em que o meu amigo Luis, bi-amputado, sacou das duas próteses numa gincana nocturna e depois andou-se à procura das "pernas" dele, desenfreadamente. O mesmo Luis que desencaixou uma prótese enquanto dançava numa discoteca e toda a gente pensou que tinha feito uma fractura exposta, enquanto eu me ria até ir às lágrimas.
Ou daquela vez que o Rui, também bi-amputado, me respondeu de forma gozona "são minhas" quando , numa colónia de férias, deixaram umas meias mal cheirosas espalhadas pela camarata e eu procurava o badalhoco do dono.
Neste blog ri-se de tudo, brinca-se com tudo. Porque neste blog acredita-se na igualdade de tratamento.
E se um postal é feio é feio, e não é por ser um tetraplégico o seu autor que eu passo a achá-lo bonito.
Venham, agora, as testemunhas de Jeová!