quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Último post de 2015 em 3,2,1...*

Um minuto de silencio para todos os que escrevem que "vêm aí mais 365 novas oportunidades para seres feliz: aproveita!" .



 2016 é um ano bissexto.




(*a partir de agora 2015 só no Instagram)

Casal quadripolar a treinar para logo à noite




Só para não dizerem que eu não avisei

No Aldi estão à venda chinese cookies.




Não vale a pena irem ao da Amoreira (Cascais) nem ao do Linhó (Sintra): esgotei o stock. 

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

E agora um post detox para este blog



Definição de diva: Aretha Franklin aos 73 anos.

God save the Queen.

Um 2016 melhor que 2015 para ...

... os comentadores de notícias online. Para as pessoas que escrevem "anciosas" em vez de "ansiosas". Para as pessoas que respondem " e também lava a loiça?" quando ouvem falar da Bimby. Para as mulheres adultas que compram lingerie da Hello Kitty, Para as mães que obrigam as filhas a usarem meia até ao joelho em vez de collants em pleno Inverno. Para as fundamentalistas das questões da maternidade. Para quem vai a grupos de mães perguntar protocolos clínicos antes de ligar para o pediatra. Para condutores a 60Km/h na faixa do meio da auto-estrada. Para as pessoas que fazem like nos próprios status de facebook. Para as pessoas que tentam fazer-nos acreditar que um pequeno almoço de sementes e bagas é mais saboroso que um croissant misto e um galão.Para os condutores que não sabem circular em rotundas. Para os que continuam a jogar Candy Crush e a enviarem-me convites dia após dias. Para as pessoas que partilham no facebook frases da Chiado Editora. Para todos aqueles que lêem PCF. E MRP. Para as pitas que tiram selfies com cara de parvas. Para quem não se sente ridículo a usar paus de selfie. Para todos os que RIPam com muito pesar os mortos no facebook, Para os que acreditam que o Cesar Milan e o Gordon Ramsey morreram. Para os homens que dizem que sempre foram adeptos de uma equipa de futebol estrangeira qualquer que jogue com um clube de futebol português rival dos seus. Para todos os vegetarianos que chagam a cabeça aos carnívoros. Para todos os carnívoros que não deixam em paz os vegetarianos. Para gente que se leva demasiado a sério.

Que venha 2016 e outro marco decisivo: eu aguento!

Anos bissextos: Nasci. Fiz uma cirurgia decisiva. Os meus pais separaram-se. Lancei dois livros. Escolhi a minha área. Passou o milénio. Vivi um amor proibido. O meu avô morreu. Separei-me. Fui mãe. 



Sobre o post do Rui Sinel de Cordes



Quem?

Estou à procura de lingerie para a noite de reveillon. De cor azul.

Sinto-me a estrunfina.

O melhor vídeo de desejo de feliz ano novo de que há memória

Tirem-me aqui uma dúvida:

O fondue de carne está para o reveillon como o bacalhau cozido com batatas e couves está para o Natal, né?

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

O Mundo divide-se entre...# especial revelhão 2

... as pessoas que sobem a uma cadeira segurando uma nota ao bater das 12 badaladas e as outras.

O Mundo divide-se entre...# especial revelhão

... quem veste roupa interior azul na passagem de ano e os outros. 

Estamos as duas de férias de Natal em casa: eu e a Ana

Vou escrever uma carta ao Papa Francisco a propor a canonização da educadora da minha filha. 

Agoooora?

E só agora vejo isto? Agora que passou o Natal?




A propósito disto

http://www.huffingtonpost.com/2014/08/14/lucy-hilmer_n_5669508.html?utm_hp_ref=arts

Ainda sobre a "Lei do piropo" umas últimas considerações avulso

Ilustração: Sinhemingway


1- Reduzir a importunação sexual à palavra "piropo" (armadilha em que eu própria caí no meu post) tira força ao tema e dá alvo a falsas interpretações, até. A lei está por todo o lado escarrapachada nas redes sociais: é saber lê-la! (Mais uma vez: "Crime de importunação sexual: "Quem importunar outra PESSOA, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal." E, sim, o piropo como o conhecemos cabe, na maioria dos casos, nesta forma de importunação sexual. 


2- "Se esta lei é para todos porquê o discurso feminista?" Porque as mulheres são mais alvo deste tipo de importunação que os homens: é simples (é pensar em quantas mulheres já ouviram pérolas como "lambia-te essa cona toda!" e em quantos homens que ouviram um "lambia-te esse bacamarte todo!"
"Ah e tal, acho muita graça quando fazem isto: "Somos todos pela igualdade das pessoas, mas as mulheres merecem mais atenção!" Somos todos pela igualdade das pessoas mas- infelizmente, caso não tenhas reparado- as pessoas não são todas tratadas de forma igual. É do restabelecimento do tratamento igualitário que se trata esta conversa. É simples. Mais simples não há.

3- "Ah, ouviu "bocas" e "piropos" na adolescência e sobreviveu! Porque é que acha que a sua filha não irá sobreviver também tendo o seu exemplo de "mulher bem resolvida" em casa? Eu até acho que geração da sua filha está a ser muito mais bem preparada e alertada no respeita a estas questões! Hoje em dia é fixe ser-se adolescente e idealista, ter "causas"! E já existe educação sexual, pais e filhos já deixaram de ter tanto pudor em falar sobre sexualidade!" A questão é que a minha filha, por ter nascido mulher, não tem que ser obrigada a levar com isto quando sair à rua sem que a Lei do país onde ela vive não a tente, pelo menos tente, defender. Terei que ensinar, à medida que a Ana cresça, a que ela se defenda de uma série de questões mas gostava de não ter que a ensinar a comer e calar, a desviar os olhos ao passar no meio de um grupo de seres humanos do sexo oposto ao dela, a ter vergonha do seu corpo, vontade de o esconder ou tapar só porque existe quem ache bonito humilhá-la em via pública à conta dela ter pernas, rabo e maminhas. Mas se sempre se lavou roupa em tanque para que é que agora usa a máquina de lavar roupa, senhora? Não sobrevivia? Bora perpetuar crimes sexuais e comportamentos bacocos porque nós sobrevivemos a eles? Bora não evoluir?


 4- "Eu gostava que as pessoas não mandassem "piropos" porque isso é incorrecto, não por terem medo de irem para a prisão!"Eu também gostava que as pessoas usassem cinto de segurança sempre por consciência cívica e não com medo das multas, que não andassem em excesso de velocidade por estarem sensibilizados para a questão da segurança rodoviária e não porque têm receio que os radares as detectem, que nunca tivesse saído uma lei a proibir que se fumasse em lugares fechados porque seria tão básico os efeitos nocivos para todos que era escusado legislar-se. Pois sim, "se cá nevasse fazia-se cá sky". Só que não.
As leis servem para regular normas de convivência social. Aparentemente, existem porque nem toda a gente tem o mesmo entendimento acerca do que é aceitável ou não aceitável na vida em sociedade. Quem já é educado não precisará desta lei para nada. Ainda bem. Mas garanto-te que esta lei servirá para muita gente que, não agindo sob a batuta do respeito, a fará pela do medo e ainda bem, que assim ganharemos todas com isso.
Os valores podemos ensiná-los aos nossos filhos. podemos educá-los a saberem respeitar o outro, não violando o seu espaço, não o importunando, não o limitando na sua liberdade de existir. Não é de incutir valores à sociedade por decreto-lei que aqui se fala: é de punir quem não os tem e, repetidamente, faz uso da sua liberdade contra a liberdade do outro, é de punir quem pratica de forma gravosa, não consentida e contínua importunação sexual sobre outrém. A Mariana explica isto melhor que eu aqui


5- A quem me perguntou se esta Lei não vai reduzir o espaço à sedução... a Lei é precisamente para quem confunde amba! Importunação sexual nunca será sedução.


De nada.

Principal reflexão de 2015

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Pólo Norte, a cortar o barato de status profundos desde 2009


E depois, depois há homens que são mais claros ainda. E bastante mais concisos.

"Quem pensa que tudo isto é um exagero e que não passa da merda de comunistas aburguesadas, mal fodidas e ressabiadas, decerto que não se importará com um "Lambia-te essa cona toda" dirigido à própria mãe, irmã, mulher ou filha. 

 É só."

Marco Neves, no facebook do Quadripolaridades

Porque há quem explique melhor (muito melhor) que eu




“Desenvolvi uma maneira de andar no metro que não tem nada a ver comigo, tipo rapaz [assume uma postura abrutalhada para exemplificar]. Porque a minha atitude física determina a dos outros. Já me senti muito mal em transportes públicos e muito assustada e com medo, tenho mesmo medo, e desenvolvi esta forma de me mexer e de falar com as pessoas. Fisicamente enjoa-me e enoja-me honestamente o tipo de situações a que somos submetidas. Porque sinto-me muito fraca, e odeio sentir isso.”
Isto é de 2015. Dito por uma aluna do liceu Camões, de Lisboa, numa entrevista colectiva ao DN para o dia internacional da mulher. O nome dela é Inês. Tem 17 anos. É uma miúda como as outras, nem mais bonita nem mais feia. Exactamente como as outras todas. Todas as que passam pelo mesmo, que são todas as miúdas que saem à rua neste país da Europa ocidental neste ano 15 do século XXI.
A Cátia, 16 anos, por exemplo: “Vejo isto acontecer, e passo por isto e preocupa-me porque tenho uma irmã com dez anos. Vejo miúdas de 12 a ouvirem piropos. E isso é horrível. É normal, isto, de um homem com 30 anos mandar um piropo a uma criança com 10?” Respira fundo. “Queria contar isto que me aconteceu em novembro no autocarro. Um senhor veio a viagem toda atrás de mim no autocarro a dizer ‘és toda boa’. E quando eu ia a sair apalpou-me. Não acho justo. E não me sinto minimamente confortável para no meio de um autocarro ter uma atitude agressiva para aquilo que o senhor me estava a dizer, por tenho medo.”
Medo. É normal as meninas e raparigas deste país da Europa ocidental, neste ano 15 do século XXI, terem medo de sair à rua? Digam-lhes isso que costumam dizer: digam que elas estão a exagerar. Que é só “brincadeira”. Que é só “sedução”. Que penalizar isso a que costumam chamar piropo é um “atentado à liberdade de expressão”. Expliquem-lhes que por serem mulheres têm de aprender que a rua não é delas, que de cada vez que saem de casa sem escolta masculina se habilitam. Que é de pequenas, tão pequenas quanto 10, 11, 12 anos, que têm de aprender a lidar com a ideia de que antes de mais valem pelo aspecto e que todos os homens se sentem no direito de lhes dizer o que acham delas, do corpo delas, do rabo delas, das maminhas delas, das pernas delas, dos lábios delas, dos cabelos delas, da cara delas. Que podem dizer-lhes se gostam ou não gostam, o que lhes fariam ou não fariam, se elas prestam ou não para alguma coisa.
Têm de aprender que faz parte de ser mulher ser agredida, insultada, escarnecida, diariamente, por desconhecidos que as tratam por tu. E que, se lhes responderem, o mais certo é tornarem-se ainda mais agressivos. Porque estão no domínio deles, a rua, o espaço público. Enquanto elas estão fora do seu – porque é isso que aprendem de crianças, que o espaço público não é delas, que aventurar-se nele é isso mesmo, uma aventura, e arriscada. Que ao longo da vida, de cada vez que derem um passo em frente na rua, no palco, no púlpito, na TV, nos jornais, vão antes de mais ser julgadas pelo aspecto, apreciadas “como mulheres”. Que antes de alguém saber quem são e o que têm a dizer vão comentar “é bonita; é feia; é nova; é velha; é gorda; é magra.” Que se habituarão a avaliar-se a si próprias e às outras mulheres antes de mais com base nessa mais ou menos valia. Que se habituarão a que faz parte da vida.
Rita, 17 anos, explica: “Faz-me lembrar um artigo que li num blogue que era ‘as 10 coisas que as mulheres não fazem com medo de ser assediadas’. Por exemplo tentar não passar em frente de um grupo de indivíduos, ir para o outro lado da rua... Não acho que um indivíduo tenha o direito de se virar para mim ou para qualquer outra rapariga ou mulher e mandar bocas tipo ‘estás toda boa’. Isso é um desrespeito. Mais do que por mim, pelo meu sexo. Parece que o objectivo da mulher é servir de objecto sexual. Quando ando na rua sinto-me um objecto.”
A quem argumenta que isto é exagero, que as mulheres não precisam de proteção da lei porque são muito bem capazes de se defender; a quem proclama que penalizar o assédio sexual de rua é “acabar com a possibilidade de sedução” (como se sedução fosse tratar por tu desconhecidas no meio da rua em ‘comia-te toda’, ‘dava-te três sem tirar’ e outros clássicos intemporais), a quem -- e tantas mulheres o afirmam, incrivelmente – repete “nunca me aconteceu” peço, exijo, que explique à Inês, à Cátia, à Rita porque têm de passar por isto e ainda achar normal, salutar, giro. Que explique como explica que o Estado português, o qual criminaliza a injúria, o qual criminaliza quem “falte ao respeito devido aos mortos”, o qual criminaliza a “perturbação da vida privada” por parte de quem, “com intenção de perturbar a vida privada, a paz e o sossego de outra pessoa, telefonar para a sua habitação ou para o seu telemóvel”, acha que perturbar a paz e o sossego de uma mulher, só por ser mulher, com clara intenção de perturbação, não tem problema nenhum desde que em vez de ocorrer por telefone e para casa ocorra na rua e de viva voz.
Expliquem por favor à Inês, à Cátia e à Rita que “é divertido” e até “bonito” fazerem-lhes medo, fazê-las sentir desde crianças que por serem mulheres sé em casa estão em segurança. Expliquem-lhes que o direito à “liberdade de expressão” de qualquer homem é infinitamente mais importante que o delas de circular livremente no espaço público; que o direito delas ao espaço público vale menos, ou mesmo nada.
Expliquem-lhes que isto nada tem a ver com os países muçulmanos que obrigam as mulheres a andar tapadas na rua sob pena de violação e alegação de que a rua é dos homens e elas devem abster-se de a frequentar sem tutela masculina; expliquem-lhes que estamos num país em que as mulheres têm direitos iguais aos dos homens e que podem fazer tudo o que eles fazem – e que isto de serem repetidamente lembradas na rua de que valem menos ou nada, ou que valem apenas e só o que os homens acharem por bem, não tem importância nenhuma.
E depois não se esqueçam de exprimir uma enorme surpresa e preocupação com a violência de género que mata , com a violência no namoro, com o bullying nas escolas (que só é preocupante nas escolas, claro) e com a estranha falta de participação das mulheres, apesar da sua formação superior, na esfera da representação política e em tudo o que implique evidenciarem-se e exporem-se, ou seja, aventurarem-se no espaço público.
Não se esqueçam, por favor, de repetir que “o piropo é um elogio e todas as mulheres gostam de ser elogiadas.”E que isto, esta preocupação, esta fúria, é de gente histérica, feia e mal amada, frustrada e, não esquecer porque é fundamental, que “odeia os homens”.
Porque, naturalmente, é preciso“odiar os homens” para perceber que o que todos os dias sucede nas rua sportuguesas com as mulheres e meninas -- minhas e vossas filhas, netas, irmãs, sobrinhas, mães, avós -- é um odioso e odiento espectáculo de violência, uma formação intensiva para o medo e a menoridade, uma afirmação ostensiva do poder dos homens sobre as mulheres. É preciso “odiar os homens” para perceber que o assédio sexual de rua é uma tremendamente eficaz educação para a violência, banalizada, mascarada de “normalidade” e até de “cavalheirismo” e “sedução”. Que esta educação educa tanto as mulheres para serem objecto de violência como os homens para a exercer; que os miúdos são tanto vítimas dela como as miúdas.
É, numa coisa têm razão os que verberam quem como eu defende a penalização do assédio sexual de rua: tenho ,temos um problema. Não conseguimos aceitar que isto seja aceitável. Não queremos que a Inês, a Cátia e a Rita sejam mais convencidas de que ter medo é o seu destino. Chega. "


Fernanda Câncio, Jornalista e colunista do Diário de Notícias



Dicas para não perder a cabeça nos saldos

1- Verifique se tem cabeça
2-  Verifique se tem dinheiro na conta
3- Não vá a shoppings

Eu também já fui idiota*

Escrevi aqui, algures, em 2013 um texto trocista acerca da legislação do piropo. Já escrevi muita porcaria neste blog mas poucas me provam mais que cresci do que este post.
Crescer tem destas coisas. Não crescer em altura ou ver os dias somarem-se e formarem tempo passado. Crescer convivendo com pessoas mais inteligentes que nós, mais informadas ou com outras experiências, crescer assumindo que não se sabe tudo e tendo a humildade de ouvir e querer aprender, conhecer outros pontos de vistas, outras abordagens e perspectivas. Crescer não nos fechando num mundo de certezas absolutas, de ideias muito convictas e irredutíveis como se a maturidade (mais que a inteligência) se provasse com ideias muito firmes e inabaláveis, argumentos muito sólidos e rígidos, não dar o braço a torcer, não repensar, não aprender.



Foi a tia Beta com o seu exemplo na luta pelos direitos das mulheres, a Luna em jantares regados de vinho bom com conversas gentis, a Helena neste comentário aqui, a Sofia Vieira, a Madalena Vidal, a Rititi, a Teresa Cardoso e a Inês Sampaio Antunes em discussões de facebook e o meu próprio marido todos os dias (e ainda neste post) que me mostraram o outro lado do feminismo, para além do básico e à mão de semear dos Niltons desta vida. O feminismo que luta contra "mulheres sérias não têm ouvidos" e "os meninos não choram".

Por isso hoje, dois anos depois, assumo a mea culpa e congratulo-me com uma lei que pune quem praticar actos de carácter exibicionista, importunando e formulando propostas de teor sexual sobre outrem.  

Multiplicam-se os comentários bacocos nas redes sociais. Que não tem lógica punir um tipo porque ele é simplesmente rude e mal educado. Pois que tem, tem a lógica de um idiota não proferir um piropo que assenta na sexualização do corpo da mulher, sem seu consentimento, só porque sim. Tem a lógica de, talvez, fazer o idiota pensar antes de falar. Tem a lógica de uma mulher poder andar na rua com o mesmo à vontade de um homem, sem receio de passar por obras ou por grupos de homens no meio da rua, sem, por causa disso, ter que desviar o olhos, baixar a cabeça, andar mais depressa, mudar de lado do passeio, escolher outro caminho para o chão. Tem a lógica de se deixar de perpetuar a ideia passada pelas nossas avós de que "mulher séria não tem ouvidos", "com essa saia estavas mesma o pedi-las", "aprende e para a próxima não voltes a sair com esse decote desavergonhado". Tem a lógica da mulher poder circular nos espaços públicos e comuns sem medo, sem constrangimento e com liberdade, sem se sentirem inseguras, ameaçadas, desconfortáveis ou com uma sensação esmagadora de invasão. Tem toda a lógica. 

O piropo é, de facto, invasivo e merece ser punido. É simples como isso. E é disso que se trata esta lei:  do "fazia-te uma espanholada" ou " comia-te toda", da objectificação da mulher à tesão do homem.  Do "fazia-te um pijaminha de cuspo", do "posso fazer-te cócegas na barriga mas por dentro"  ou "Tens um cu que parece uma cebola: é de comer e chorar por mais" ser nojento e merecer de castigo, de eu, por ser mulher, não ter que me sujeitar a ouvir isto, ignorando, comendo e  calando, defendendo-me, fingindo não ouvir, ou tendo que entrar numa escalada de ofensas. É simplesmente eu não ter que ser obrigada a levar com isto, porque isto é invasivo, abusivo e deve ser alvo de sanção legal, claramente. 

Mais, a lei defende este tipo de ofensas a "pessoas". Estamos a falar de mulheres por serem o alvo mais corrente mas a lei defende que 

""Crime de importunação sexual: "Quem importunar outra PESSOA, praticando perante ela atos de carácter exibicionista, formulando propostas de teor sexual ou constrangendo-a a contacto de natureza sexual, é punido com pena de prisão até 1 ano ou com pena de multa até 120 dias, se pena mais grave lhe não couber por força de outra disposição legal." 

Esta é a nova redação do artigo 170.º do Código Penal e defende o cidadão comum que não tem que levar com as merdas do próximo, das tentativas de alguém se fazer engraçado perto dos amigos usando o corpo de outra pessoa como alibi, dos recalcamentos sexuais de estranhos, do acto abusado e consciente de objectificarem o outro a seu bel prazer.

A Lei é esta. Não sei se é perfeita. Não sei como se fará cumprir. Mas a mim dá-me, pelo menos, a certeza de que estamos a começar uma importante reflexão sobre os direitos básicos das pessoas não terem que comer e calar quando estão sujeitas a isto, que não tenho que ensinar à minha filha que "mulher séria não tem ouvidos" e que, talvez, as coisas comecem a mudar e que ela, por ter nascido mulher, não tenha que baixar a cabeça quando passa por um bando de homens estúpidos e mal educados e que a sociedade não acha aceitável que a liberdade de expressão deles vale mais que a liberdade de circulação dela. 

E não, meninos defensores do piropo - lamento!- o piropo não faz nada pela auto-estima das mulheres. É o respeito que faz.  E é desse respeito que trata esta lei.

Mais, rapazes, se acham que tem tanta piada, comecem a mandar piropos uns aos outros, para verem como é bom.



(*e ainda sou numa série de outras matérias. Nesta, já não.)

E foi-se o Natal. Venha o Ano Novo!


Éramos dez à volta da mesa. Já não éramos de desde 2008, no primeiro Natal em que deixei de ser a menina do meu avô. Na véspera eu e a minha tia tínhamos cozinhado a aletria (sem ovos e com um pudim chinês a fazer-lhe a vez e- juro-vos!- é o melhor truque de sempre para a aletria não ficar seca e dura) e os mexidos. Não larguei o fogão enquanto fazia os mexidos nem por um minuto. Não sou uma cozinheira exímia, por isso não queria arriscar. Na minha cabeça todos os passos que a minha avó seguia de cor: a água a cozer os pinhões, as nozes, as amêndoas e as avelãs, os paus de canela a boiarem e o mel a rodos, acrescentar o pão reservado e o cálice do vinho do Porto e corrigir, a gosto, mel e canela em pós até ficar a saber a ela, à minha avó. Em mim toda a segurança do Mundo, passei os últimos anos de vida da minha avó a preparar os mexidos sob o comando da sua voz, a mesma que me guiou ali, neste Natal. A minha tia a acabar de costurar o vestido da Ana, a Ana tão linda no seu novo vestido.
Na véspera todos a chegarem, devagarinho. Na mesa não há lugares marcados, só havia em tempos o do meu avô. Ouvem-se risos e gargalhadas. Novos elementos que adoptámos. A Ana a ser a razão de tantos olhos brilharem mais e nós felizes, todos serenos e felizes. O desfile do manjar natalício com raízes no Minho e nos Açores, bacalhau e polvo, bolo-rei e bolo de Natal, mexidos, aletria e espécies e donas amélias, angelica nos copos. A prima divertida, o novo primo calimero, a minha mãe e a Ana sempre no despique, os tios a desejarem que o novo ano traga mais saúde, a tia a parecer a minha avó, nós felizes, eu e ele, e esta família que é gruta e albergue, espaço contentor de amor e segurança.
A discussão surgiu uns dias antes: algum de nós se fantasiaria de Pai Natal como no meu tempo o meu pai fazia ou faríamos o festim sem o estímulo visual? Decidimos pelo último. A Ana subiu ao primeiro andar, ao colo da sua Tidinha chamou pelo Pai Natal à janela, ouviu-se um "oh oh oh" e viram-se luzes, a Ana diz que as renas tinham luzes como os carros para verem melhor o caminho do céu, ouviu-se um sino e foi o tempo de descer até à porta da entrada, onde tantos presentes a esperavam, o prato com as bolachas já comidas que ali deixáramos entretanto, as cenouras mordiscadas pelas renas, a Ana em êxtase a dizer adeus para o céu: "Obrigada, Pai Natal! Obrigada!"
Desembrulhámos presentes e amor, estivemos juntos como dez dedos das mãos, rimos com a alegria da Ana, agradecemos os presentes de quem se lembrou de nós não por obrigação ou cortesia mas porque gosta de nos ver felizes. A lareira ainda estava acesa antes de voltarmos para casa, os três, com o carro a abarrotar de brinquedos. 
Nesta noite de Natal a Ana juntou-se a nós na cama. Estávamos quentinhos e felizes. antes de adormecer abraçou-nos: "Mas viste mesmo o Pai Natal, Ana?"- cutucámos. "Vi! Era lindo e grande e voava nas renas com luz". 
Este foi um Natal maravilhoso, cheio de magia e de luz. Ninguém se vestiu de Pai Natal mas, ainda assim, a minha filha viu o velho. Oh, se viu!

Nós também. 

Que caras de quadripolarização vêm a ser estas, garotas?





"Pólo, tu quadripolarizaste a nossa alma, nós retribuímos ao quadripolarizar o melhor de nós: a nossa terra, Cinfães!
Faz-nos uma visita e acrescenta momentos e memorias felizes à tua vida. 
Beijinhos,
Sonia Miranda e Liliana Vasconcelos"


Eu irei a Cinfães. A medo, à custa das vossas expressões, ah, mas irei! Me aguarrrdem!

domingo, 27 de dezembro de 2015

And so this is (still) Christmas



"Natal?
É a altura em que somos melhores como pessoas. E não, não acho que isto seja uma hipocrisia. Esta época e tudo o que ela representa traz ao de cima o que há de bom nas pessoas, cristãs ou não. É impossível não ser contaminado pela magia, pela boa-vontade que paira. Quem passa por isto impunemente não é boa pessoa, não pode ser, se nada vem ao de cima com este estímulo. No resto do ano andamos ocupados demais com problemas, chatices, contas para pagar, política, etc. Nesta altura não, limpamos o que há de mau e egoísta e mesquinho e focamo-nos no que há de bom e generoso e no que podemos fazer de bom por quem cruza o nosso caminho. Não só pela família, mas por todos. Somos mais atentos a um vizinho antipático (nem há uma hora desejei, sorridente e completamente sincera (juro!), Boas Festas a um vizinho que detesto; é o zeitgeist, não duvidem, também presente no facto de ele me sorrir de volta, ainda que hesitante, e desejar-me o mesmo). Isto é o Natal. Depois passa, chocamos de frente com a vida e tudo volta ao normal, ao equilíbrio entre o mau e o bom dos dias. Mas isto é o Natal. Devia durar para sempre, mas amanhã passa.
Mas ainda não passou."

Da sempre certeira Madalena Vidal 
(que tanta falta faz à blogosfera) na sua página de perfil de facebook
smile emoticon

A CONHECER | Instagram de Baddie Winkle

Baddie Winkle, tem 87 anos e é a avó mais famosa do Instagram, com quase 2 milhões de seguidores.

Ora espreitem o porquê de tamanho sucesso aqui. , 


Plano para 2016: não me acostumar

"Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma."


Marina Colasant, 1972

sábado, 26 de dezembro de 2015

Diálogos quadripolar-natalícios # 4

Depois de comer entrada de morcela com ananás, perú com alecrim e laranja, vinho, aletria, mexidos, azevias de grão, coscorões, duas Donas Amélias e uma espécie a acompanhar o café:

- Credo, que dor de estômago. O café anda-me a cair mesmo mal...


Pólo Norte, ao segundo dia após o Natal de 2015


Luzes, luzes e acção!

Bicicleta do Frozen com campainha e rotativos. Écran mágico. Elsa gigante. Nenuco doente. Mala de médica da Dra. Brinquedos. Mala de veterinária da Dra. Brinquedos. Lego do Mickey Mouse. Casa de bonecas. Lego da Dra. Brinquedos. Lupa com luz. Lupa sem luz. Perfumes do Frozen. Vernizes do Frozen. Nova trotinete. Livrinhos da Dra. Brinquedos. Livros sem fim. Puzles. Quadro para escrever. Material de pintura a rodos. Roupa sem fim. Castelo dos Pinipons. Mais uns 3426 Pinipons.

Do que é que a Ana gostou mais?

De uma lanterna. Do Frozen, é certo. Mas de uma lan-ter-na.




(Está certo...)

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Diálogos quadripolar-natalícios #3

"Tenho uma palavra que resolve a tua crise amorosa"
"Qual?"


"Tinder"

Diálogos quadripolar-natalícios #2

"Então, primo, e a namorada?"
"Acabámos!"
"A sério e olha que já estávamos juntos há 4 meses..."
"Então mas o que é que se passou?"
"Não sei, parecia que estava tudo bem, eu já lhe tinha dito o nome que eu gostava para quando tivessemos uma filha e tudo..."
"Quantos meses?"
"Quatro"
"Ah, já percebi!"

Diálogos quadripolar-natalícios #1

"Dói-me a vesícula"
"Como, se já não tens vesícula?"
"Dói-me a vesícula e não me contraries..."

Evidência única de que o Pai Natal existe

O vestido da Ana assentava-lhe que nem uma luva. A morcela estava bem temperada e o ananás maduro no ponto certo. Os queijos estavam óptimos e o queijo-ilha na cura ideal. O polvo tenro e o bacalhau bem demolhado. O vinho na temperatura certa. Sobrou a quantidade ideal nas travessas para amanhã termos roupa-velha para o almoço. Acertámos na cozedura da aletria e os mexidos pareciam (quase) os da minha avó. As azevias de grão estavam per-fei-tas, os coscorões desfaziam-se na boca da mesma forma que o molotof, a lampreia de ovos doce q.b. e as pêras bêbedas fresquinhas. Os meus tios bem humorados e a minha mãe zen. O primo que adoptámos integrado. A Ana a acreditar no Pai Natal. As bolachas comidas por ele e as cenouras pelas renas. Presentes toooodos apreciados. Lareira acesa e casa aconchegada. Risos. Gente serena e feliz.


Primeiro desejo pós meia-noite

Água das Pedras.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Ana no Natal das maravilhas


Um beijinho de Feliz Natal a todos os que nos querem bem. heart emoticon
Que o novo ano vos traga a Alice que mora em cada um de vós: energia, curiosidade, fantasia e muito amor! E que o coelho do tempo desacelere para podemos aproveitar cada momento bom de 2016.
São os votos da família quadripolar

Créditos da fotografia: Tales of Light

O Mundo divide-se... especial Natal #2

... entre as pessoas que comem bolo-rei e as que comem bolo de Natal*.





(* sim, açorianos, vocês estão do outro lado do Mundo!)

Nem a terra do Pai Natal escapa. E pela segunda vez!








"Missão: (mandar) quadripolarizar o Pólo Norte 

Passo 1: Emília, amiga finlandesa, vai à Lapónia

Passo 2: verificar que o Pólo Norte ainda não foi quadripolarizado

Passo 3: esclarecer a amiga sobre "ser quadripolar" e "quadripolarizar"

Passo 4: missão aceite. aguardar quadripolarização


De qualquer forma, o Pólo Norte está duplamente quadripolarizado! No nosso caso, por uma finlandesa de gema!!

Beijinhos da Casa Azul,

Carla"

Obrigada, manas da Casa Azul!

O mundo divide-se... especial Natal #1

... entre as pessoas que, na ceia de Natal, têm como tradição comer bacalhau e as que têm como tradição comer polvo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Ah, somos o que comemos, não é?

Só para avisar que acabei de comer isto:


Quando os comentários são melhores que um post

"Para quem acha que os médicos têm parte da culpa, porque podia e deviam trabalhar fora do seu horário (que actualmente, se não me engano, é de 40 horas semanais, mais bancos), ao preço que lhes queiram pagar, ou deviam ter sido chamados porque era uma emergência: os médicos não estão de serviço 24 horas por dia, nem o dever de estar sempre disponíveis. Têm horário e escalas de urgência. O trabalho extra deve e tem de ser pago. Quem organiza os turnos tem de contar com uma cobertura total de todas as especialidades, todos os dias. Os médicos não têm de trabalhar de graça, lamento. São pessoas como nós, com direito à família e tempos livres. Estudam que nem uns condenados para entrar em medicina, passam seis anos de estudo e trabalho intenso na faculdade, fazem internato e especialização, são trabalhadores muito diferenciados e merecem consideração. E parte dessa consideração é reconhecer o direito à remuneração condigna pelo trabalho que prestam, em condições que fariam muitos de nós desistir ao primeiro dia. O que um médico do SNS ganha não paga, nem de longe, o valor que tem, os anos que investiu a aprender, o trabalho que desenvolve. Por isso, não, a culpa não é dos médicos. Como a culpa não é dos professores, quando os vossos filhos chumbam, nem a culpa é da câmara, quando há lixo no chão, é do porcalhão que o jogou. Vamos parar de apontar o dedo uns aos outros e reconhecer que o problema é o desinvestimento no SNS, que está a ser, calma e paulatinamente, desmantelado. Um dia vamos ter muitas saudades dos médicos do SNS. quando o plafond do seguro acabar e virem pessoas a morrer porque não podem pagar tratamento." 

 da Isabel no facebook do Quadripolaridades

David e o Golias do SNS

Estou em brasa com o que tenho lido por aí. Face à morte inconsequente, prematura e (possivelmente) evitável de um jovem procuram-se culpas e apuram-se responsabilidades. Já li de tudo: que o rapaz morreria na mesma à custa do aneurisma (e descobri que há imensos neurocirurgiões de bancada de facebook), que a culpa era do Hospital de Santarém, do de Santa Maria e que a culpa era dos médicos que se tornaram mercenários e que ignoraram o seu juramento de Hipócrates. 
Imaginem que um empreiteiro tem que fazer uma casa mas decide, para poupar uns trocos, que ao invés de 10 pedreiros e serventes  mete lá um pedreiro e um servente, muito bons, muito competentes, mas um décimo das necessidades daquela obra. Imaginem que o prazo da obra não pode resvalar e o empreiteiro chico-esperto aperta com o pedreiro e o servente, que eles têm que trabalhar com maior eficiência e que não podem falhar. Imaginem, ainda, que o mesmo empreiteiro decide que tem que se poupar no material de construção e que decide substituir o que estava projectado por um de mais fraca qualidade. Imaginem que, concluída a casa no tempo previsto, o proprietário se muda e, logo no primeiro dia, a casa cai e ele morre. A culpa é do pedreiro e do servente, senhores? É?
só que não recorre a um hospital público, só quem já não vai a um balcão de urgências desde há mil anos pode apontar a culpa aos médicos. Os mesmos que são tratados, pelo actual estado, como autênticas máquinas de produtividade, com rácios de doentes que têm que atender, como se os casos fossem todos casos tipo, os diagnósticos chapa quatro e uma consulta devesse ter sistema de senhas à entrada como quando vamos ao talho e um gongo como tinha a amiga Olga quando o tempo de atendimento deixa de ser considerado razoável. 
A culpa não é dos médicos que são humanos e precisam de ter dias de descanso, férias e tempos em que desempenhem os seus papéis para além do de profissional. Não é culpa dos médicos que não estavam no São José nesse dia porque estavam a desempenhar os seus papéis de pais, maridos, filhos, pessoas. A culpa é de quem não providencia recursos humanos em número que garanta o funcionamento de urgências hospitalares de uma determinada especialidade clínica porque prefere canalizar recursos financeiros para salvar bancos. 
A culpa é de um Golias chamado SNS que, desta vez, deitou o David por terra. Mas dos médicos- ah senhores, não me fodam!- dos médicos é que não!

Aproveitando enquanto a Ana ainda não sabe ler nem aceder à net para vos desvendar o presente de Natal que a espera amanhã


É só a casa de bonecas mais querida de sempre.

(Comprada numa das lojas mais giras do Mundo: A Venda)

Filhoses, coscorões, azevias: tudo despachado!

Sou uma excelente cozinheira.














































(Mentira! Encomendei tudo.)

Ouro, incenso e mirra para quê?


Se os reis magos fossem rainhas é que tinha sido de valor....

Ah, o espírito natalício que me assola...


Tento ligar umas 3426 vezes para uma colega e atende-me sempre a recepcionista que, por mais voltas que eu dê, responde-me sempre como se fosse uma gravação: 

"Portaria, bom dia, tenha a bondade!"
"Queria falar com a Dra. X"
"Não se encontra disponível"
"Sabe se está ausente do gabinete ou se está mesmo de férias de Natal?"
"Não se encontra disponível"
"Mas diga-me uma coisa, consegue ter uma ideia de a partir de que horas conseguirei apanhá-la?"
"Pois... não se encontra disponível"
"Mas oiça: vale a pena voltar a insistir durante o dia de hoje ou já não vou conseguir chegar mesmo ao contacto?"
"Não se encontra disponível!"
"Pronto, Obrigada, sim? Bom Natal para si e para os seus!"
"Mais alguma coisa? Bom dia, tenha a bondade!"

Envio um email à minha colega:

 "Liguei e atendeu-me um robot da portaria Se ela aspirar bem embulha-ma que é mesmo isso que eu quero para o Natal: um robot aspirador! Beijinhos"

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O molho de tomate da minha avó

ilustração: João Vaz de Carvalho


A minha avó não era uma avó muito prendada. Não tinha pachorra para fazer croché e quando fazia não saia nada assim por aí além. A minha avó não usava xailes, lenços nem vestia luto por ninguém. A minha avó não era o estereótipo da avó mas foi ela que moldou no meu entendimento o modelo do que se é ser avó. Também não era uma avó exímia na arte de cozinhar, uma excelente fazedora de bolos nem tinha nenhuma especialidade daquelas que passa de geração em geração, com truques e receitas cheias de segredos. Para além dos mexidos e da aletria anuais em época natalícia, a minha avó fazia muito bem três coisas muito pouco requintadas: pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão, batatas aquecidas (aproveitamento de batatas cozidas que depois eram fritas em azeite com muuuuuita cebola) e um esplêndido molho de tomate. 
Faz hoje quatro anos que o meu tio me bateu à porta de casa, com muita força, de manhã, eram umas sete horas, talvez menos, a gritar "a avó está morta, a avó morreu!". Eu sou uma autómata nestas situações (aconteceu-me duas vezes, esta e a da morte do meu avô): fico com um ar muito sério, visto-me e vou ao encontro da cena, volto a casa com um pretexto qualquer, tomo banho e choro (choro muito) enquanto a água corre, seco-me, visto-me, limpo as lágrimas e vou fazer o que tem que ser feito, rituais públicos que abomino mas que desempenho com a maior das dignidades para honrar quem se importa com lutos, velórios e funerais. 
Foi a dois dias do Natal, há quatro anos, que a minha avó adormeceu para a morte e nunca mais acordou. No meu ventre estava já a Ana, esta Ana que, numa espécie de isostasia veio equilibrar as contas do meu amor. 
Pensei que não conseguiria viver sem a minha avó (e antes sem o meu avô) mas, na verdade, o ser humano adapta-se a tudo, até ao vazio que deixam as pessoas que eram as nossas raízes e tronco, os alicerces da nossa alma, a estrutura do nosso ser. Escrevi, há quatro anos, que "A morte é uma puta" e tive medo de nunca mais ver luz no Natal, de ter um Natal feliz. 
Hoje, quatro anos depois, com esta nova Ana, matrioska da que partiu, fazem-me, finalmente, sentido as palavras do meu amigo Prezado naquela caixa de comentários "Só mudou o molde, a felicidade é sempre possível. Mas diferente. É uma merda, é.".
A felicidade é possível, não é plena porque não consigo que coexistam no mesmo tempo e espaço o meu passado, o meu presente e o meu futuro, as mãos enrugadas da minha avó, as mãos quentes da minha mãe e as mãos novinhas em folha da minha filha mas, sim, a felicidade é possível.
Hoje não quero relembrar a data da sua morte, quero celebrar o facto de a ter tido, para mim, 31 anos inteirinhos, com pronúncia do Minho, pés aquecidos em noites frias de Inverno no meio das suas próprias pernas, embalo no corpo e palmadinhas ritmadas nas costas nos dias em que as dores dos aparelhos me arrancavam lágrimas, sorrisos sempre que trazia as notas da escola e corridas até aos portões das vizinhas para as exibir, orgulhosa, dinheiro sacado do porta moedas guardado junto ao peito para o meu lanche da escola, despertar bem disposto e fresco. A minha avó era mesmo, mesmo, a melhor avó que me podia ter calhado na sorte. 
Hoje para jantar fiz molho de tomate. E pela primeira vez, em mil anos, soube-me à minha avó. 

Porque hoje o dia é dela


Parabéns, querida Luna! :)

Já éramos!

Eu e mámen no carro a falarmos um com o outro das nossas bodas de prata que se completarão daqui a alguns anos (ainda muitos) e a constatarmos que a Ana já será maior de idade quando tal acontecer. 

Ana em silêncio até essa parte da conversa interrompe-nos da sua cadeirinha no banco traseiro:

- "Yey, eu não tenho dinheiro, tá?"

Dúvidas que me consomem

Porque carga de água os bancos são privados quando dão lucro e passam a ser públicos quando dão prejuízo?

O meu presente de Natal



Revi-o recentemente. Estava em falta com ele. Eu, eu era apenas mais uma pessoa que não conseguia cumprir o seu único desejo, o único meio que o podia conseguir aproximar do sonho de um dia conseguir cozinhar: aprender a ler. 
Não interessa as razões que o trouxeram aqui, à adolescência sem letras, sem histórias de dragões lidas antes de adormecer, sem livros de aventuras devorados, sem companhia de livros com cheiro a livros e a imaginação. Tem 16 anos e não sabe ler. E, não fosse o amor pela cozinha, talvez nunca verbalizasse essa vontade que eu sei que vai esmorecer face ao trabalho que o espera, à dedicação que é necessária, ao esforço de decorar letras, juntá-las até formarem palavras e textos com significado. Mas verbaliza. Várias vezes. A última naquele dia em que o revi e me olhou nos olhos e perguntou-me, sem cobranças, mas com um olhar profundo: "tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". Eu, apenas mais uma igual a tantas que se importaram mas que não concretizaram, a tantas que se comoveram instantaneamente e depois foram-se esquecendo da promessa com o passar pesado dos dias e dos afazeres. Eu a ser mais uma , apenas mais uma, a não conseguir fazer qualquer diferença.
É sempre uma questão de ego. Não acredito no altruísmo, já aqui o disse, no verdadeiro altruísmo sem não se receber nada em troca. Claro que me comovi com um adolescente a quem não foi dada a oportunidade de aprender a ler. Guardei essa comoção uns meses, tentei arranjar solução mas acabei por desistir à força de tantos obstáculos e dificuldades. Não foi o rapaz que me fez mexer. Foram aquelas palavras embrulhadas no olhar escuro e profundo "tu também". Eu não queria ser aquela pessoa, não queria ser mais uma, outra igual a tantas, eu não queria aquele "também". Foi isso que me moveu. 
Depois os astros alinharam-se. Uma pessoa queria oferecer um presente solidário ao homem que mais ama e contactaram-me. O input era: "um presente que fizesse a diferença na vida de alguém". Eu, a medo, falei dele, dos seus olhos pretos como azeitonas e do seu desejo de aprender a ler. E a ideia de oferecer ao rapaz a oportunidade de aprender a ler, de um dia poder ler receitas e cozinhar ganhou forma e jeito de se concretizar. Depois apareceu a pessoa certa para o poder ensinar e, neste Natal ganhámos todos: ele, que em 2016 irá aprender a ler, a mulher que oferecerá ao marido um life makeover como não há memória, o marido que terá a oportunidade de mudar a vida de alguém e eu, especialmente eu, que já não serei também mais uma pessoa que tem pena mas não resolve, que se comove e segue em frente, que pára mas não age, que gostava muito mas não concretiza. 
Eu sou apenas um meio, uma ponte mas não sou, claramente, a pessoa que há dias olhou para ele sem resposta quando ele lhe perguntou: ""tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". 
Vamos ajudar, sim, meu querido. Obrigada por me trazeres, assim, este presente de Natal. Para o ano escreves-me os postais. :)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Querida Ana...


Ups!

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Sandra (do Clube VII) (31)

Dois anos depois e a Ana passou para a piscina dos crescidos. Bateu uma nostalgia da última vez que ela nadou na piscina dos pequeninos, onde aprendeu a esbracejar, a dispensar a chucha enquanto brincava na água, a chapinhar, a bater os pés, a mergulhar sem dedo no nariz. A Ana foi muito feliz na piscina dos pequeninos, ela e a sua professora Tânia, cúmplices semana após semana, uma das pessoas de quem a Ana sente saudades (e a educadora, com quem está todos os dias, ainda não alcançou tamanho feito).
Gostamos, todas as semanas mais, do Clube VII. Porque há um cuidado com os nosso filhos para além do mero ensino de uma modalidade desportiva: o porteiro esboça sempre um sorriso quando constata que todas as semanas deixamos o cartão de acesso em casa e já sabe o nome da Ana de cor, a Tânia recebe sempre a Ana na piscina como uma mãe que abre a porta de casa a um filho e quando acaba a aula e corremos para o balneário para dar banho à Ana lá está sempre a Sandra (e antes a D. Fernanda, de quem não nos chegámos a despedir e de quem guardamos a melhor das impressões e a mais profunda estima). 
A Sandra pertence à empresa de limpezas que dá apoio ao Clube VII mas isso não faz da Sandra a empregada de limpezas do Clube VII. A Sandra, todas as semanas, à mesma hora que nós saímos da aula, vai arrumar toalhas para o nosso balneário. E dá um beijo à Ana, e conta-lhe histórias e deita-lhe um olhinho se eu tenho que me afastar da banheira para ir buscar qualquer coisa e às vezes (não contem a ninguém!) seca o cabelo à Ana, não porque eu peça mas para me ajudar a despachar. 
A Sandra não é apenas uma das empregadas de limpeza do sítio onde a Ana pratica natação, tal como a Tânia não é apenas a professora. São as pessoas que fazem do lugar aquilo que ele é: um ponto de encontro de gente com boa onda, gente com alma e boa vontade, alegria e, especialmente, amor. 
Dá-se a situação que a Sandra vai deixar de trabalhar no Clube VII e eu vou deixar de ter, semana após semana, alguém à nossa espera com o pretexto de que o balneário precisa de uma "geral". A Ana vai deixar de ter quem lhe dê um beijinho repenicado e a ajude a tirar a touca, quem lhe ensine novas canções e a ajude a secar o cabelo. E eu vou deixar de ter em quem confiar para me deitar um olho à miúda se for preciso naqueles instantes, sempre em correria, sempre a despachar, entre a aula de natação e o tempo de chegar a casa e fazer o jantar a um dia de semana. 
Por isso, aqui vai um beijinho público de agradecimento à Sandra, por ela ter sido em dias de chuva e de preguiça o motivo que me fez não cancelar aulas, sabendo-a lá, às vezes a entrar um bocadinho mais cedo só para nos apanhar, mas sempre à nossa espera, semana após semana, com um sorriso sempre franco, sempre amigo, sempre verdadeiro.
Obrigada à Sandra por não se ter limitado, apenas, a cumprir a sua tarefa, a desempenhar a sua função, a fornecer-nos apenas um serviço: obrigada pela amizade discreta e pelo amor com que brindou, semana após semana, a minha filha. 
Sandrinha, já estamos com saudades.  Um beijinho meu e outro, lambuzado, da Ana.

(E, sim, o Clube VII tem a melhor equipa do Mundo para o ensino de natação aos mais pequenos. Conheçam-nos aqui.)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

"Querido menino Jesus, nascido nas raspadinhas deitado" ou uma espécie de wishlist para o Natal # 5


(Sou uma sopeira, serei sempre uma sopeira mas tudo o que eu quero neste Natal é este bichinho fofinho e mais nenhum!)

Habemus presente de Natal para mamãe!

Fiz o luto do projecto mais giro ever neste âmbito  (RIP Limetree!) e tinha que resolver as necessidades da senhora minha mãe de esvaziar o telemóvel, o tablet e tudo o que capta memórias visuais e áudio da neta (e acreditem, se há avó que tira fotografias à neta, a minha mãe está em primeiro lugar no ranking!), sem medo de perder informação, sem medo de que as pens e os discos externos encalacrem e com  à vontadex para tirar 1000 takes da mesma expressão por minuto à Ana.

MEO cloud, se prepare que mamãe lhe vai usar!



Sim, sim, sou uma pessoa muito racional!

Eu alegaria que lhe tinha capado a farfalota pimpinela quando tropecei umas 50 vezes com uma faca de talhante que tinha ali à mão para me coçar as costas. Era limpinho.

Natal dos Hospitais

Talvez um dia o Natal dos Hospitais termine. Espero que não. Mas talvez um dia à luz das audiências, dos shares e dos ratings televisivos alguém na RTP decida que já não faz sentido. Espero que não. O Hospital dos Hospitais é o único programa televisiva de fora para dentro, não é feito para os telespectadores, não é feito para as donas de casa que gostam de ver as máquinas da verdade da Fátima Lopes a dizerem que não senhor, que o Carlos Costa, seja lá ele quem for, mente. 
O Natal dos Hospitais é uma festa para quem está ali, in loco, a participar no Natal dos Hospitais. Não é apenas o dia em que em casa se vê- pela enésima vez desde que há programas clonados aos domingos à tarde- cantores populares mais o Coro de Santo Amaro de Oeiras e ainda os participantes do Festival da Canção que ninguém sabe bem quem são.
O Natal dos Hospitais é uma festa, agora talvez menos impactante, pois os skypes fazem a vez destas tardes que na minha infância serviam para que colegas minhas, internadas no Alcoitão durante meses seguidos- numa altura em que não havia telemóveis nem skype, poucas auto-estradas e salários pequeninos- se vestiam para aparecer na televisão onde os pais, em Freixo de Espada à Cinta, Vila Real de Santo António ou Funchal, que tinham deixado as filhas doentes, durante meses, em reabilitação no Alcoitão e só as reveriam nas próximas férias, poderiam matar saudades, de forma unidireccional, das suas meninas. Continua a ser uma festa. 
O Natal dos Hospitais é uma festa , é o dia em que vale a pena despir o pijama do Hospital e vestir uma roupa bonita, sair do quarto  e empurrar as rodas da cadeira, tirar o elástico do rabo de cavalo confortável e prático e soltar os cabelos para ficar mais bonita na televisão. 
 É o Dia em que se leva o verdadeiro espírito do Natal aos hospitais: o da partilha, da alegria, do brilho e da festa a quem não pode passar esse dia em família. 
O Natal dos Hospitais não é um programa para audiências, shares e ratings. Não é um programa para oferecer dinheiro em cartão a quem ligar nem para desmascarar participantes da Casa dos Segredos e "dar canal". Talvez não seja um programa espectacular para quem assiste. Para mim, a memória desses dias, mais, muito mais do que um desfile de músicas, símbolo de um dia de encontro e de matar saudades de quem está longe, oportunidade de festejar quem não tem o mais importante para celebrar: a saúde.
O Natal dos Hospitais é um programa para quem o faz, com pijamas despidos, mãos a empurrarem cadeiras de rodas, cabelos soltos e motivação renascida para se sair dos quartos, brilhos nos olhos. Não é, com certeza, um programa top de audiências e talvez esteja até a ficar demodé. Talvez por isso, talvez um dia o Natal dos Hospitais termine. Espero que não.
Porque é o verdadeiro serviço público de um canal de televisão. E é sempre, mas sempre festa. 
 É o verdadeiro Natal.


(Amanhã, na RTP1, descubram caras conhecidas deste blog por lá! ;)

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Questões estruturantes para a Humanidade

E as previsão de 2016 para o signo de caranguejo, han?

"Querido papá"

Uma em cada três mulheres será, ao longo da sua vida, vítima de abuso físico ou sexual segundo a World Health Organisation.
A campanha " Querido papá, protege-me porque nasci rapariga" da Care Norway" pretende sensibilizar para que todos os homens não aceitem, desculpabilizem ou perpetuem qualquer forma de violência de homens sobre mulheres, em qualquer etapa das suas vidas.
O filme aqui está. Brutal.

        

Hoje

Vou fazer uma pessoa feliz.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

A história de Natal mais fofa de sempre

Único desejo para 2016

Ser uma fazedora.
Passar dos sonhos à realidade. Do papel para a vida. Das ideias às concretizações.
Não dispersar. Não facilitar. Dizer mais vezes que não. Ter uma agenda, Organizar melhor o tempo e aplicar criteriosamente a energia. Não apagar fogos. Fazer listas. Riscar itens em listas. Não procrastinar. Usar o Pânico de última hora para afinar ao invés de para criar. Ter mais tempo para não fazer nada. 
Concretizar é a palavra que quero que me comande no próximo ano. 
Ser uma fazedora é o meu foco para 2016.

Cartaz genial, da autoria da Mariana Barbosa, que gostaria de ter impresso como as adolescentes têm dos seus ídolos nos quartos.

Smell it gooooooo!

- "Mudaste de perfume?"

- "Mudei!"

- "Epá: esse é muita bom!"

- "Pois."

- "Qual é esse? Não é o que te ofereci no teu aniversário, pois não?"

- "Nop"

(silêncio)


- "Chato, pá! Mas porque é que foi a mim que me calhou um marido atento, han?! Agora não digo..."



A miúda não é invejosa, tá???!

domingo, 13 de dezembro de 2015

100 Quadripolares que vale a pena conhecer # Marta (30)

A Marta não é uma mulher do Norte. Aliás, a Marta é uma mulher do Norte com tudo aquilo que amo e admito nas mulheres do Norte mas uma espécie endémica que só se encontra no Porto com uma pronúncia própria e um jeito mais delicó-doce de dizer palavrões.
A Marta sou eu se tivesse nascido no Porto, crescido com aquele bafo húmido no ar, Douro no horizonte, outros lugares, outras circuntâncias. A Marta sou eu numa versão melhorada, uma espécie de versão 1000.0, tão parecida comigo nas coisas boas, tão melhor que eu nas outras todas. 
A Marta abraçou o Bairro do Amor e agarrou-lhe o leme, chamou marinheiros de água doce e mostrou que os rios, por vezes, podem correr mais depressa que os mares. A Marta amadrinhou e aperfilhou o Bairro do Amor, agarrou numa ideia e moldou-a a seu jeito, aos jeito das gentes que são as suas, da vizinhança que conhece tão bem e tornou-a uma realidade palpável, factos realizados, acções concretizadas, objectivos cumpridos. A Marta é uma fazedora e é isso que mais admiro nela, eu que sou apenas uma idealizadora, uma sonhadora, por isso, um dia quero ser como a Marta. 
A Marta ligou dias seguidos para orgãos municipais, ouviu nãos, ouviu telefones desligados na cara, pessoas que nunca lhe atendiam e lhe davam de volta desculpas esfarrapadas via secretárias, ouviu argumentos trôpegos e tentativas de dissuasão, tropeçou em todos os obstáculos e teria mil razões para desistir mas nunca, sequer, pensou nisso. A Marta recrutou para a ajudar o marido, as vizinhas e as empregadas do café do bairro, as pessoas que gostam dela, convidou as filhas pequenas para meterem mãos à obra e não se desfocalizou nunca com as pessoas que prometeram aparecer e nunca o fizeram, à sombra de desculpas e de imprevistos, de intenções e de falta de sentido de compromisso. A Marta não se importou com quem não estava em sintonia com o ritmo do trabalho, com as necessidades imediatas, com a premência de tarefas. A Marta concentrou-se num fim, numa meta e seguiu em frente, como um pescador que segue a luz de um farol e nunca a perde de vista. Alguns voltaram para trás, tiveram medo do nevoeiro, perderam a  energia de galgar as ondas agitadas mas a Marta, timoneira, deu a voz de comando para que todos remassem ao mesmo tempo, os que fizeram (e que bem aventurados sejam!) questão de levar o barco a bom porto quase todos - estou certa!- inspirados pela formiguinha trabalhadora, de mangas arregaçadas,  olhar curioso, coração D'ouro, mãos calejadas de também ela- principalmente ela- tanto remar. 
A Marta concretizou a primeira Children Street Store do Bairro do Amor e também por causa dela- especialmente por causa dela!-  o Natal chegou mais cedo a 120 crianças desta cidade Invicta e convicta que tem um lugar de destaque neste Bairro cheio, carregadinho, a transbordar de amor. 
A luz mantém-se lá. Estou certa que a Marta nunca a perderá de vista, faroleira de rio, coração de (a)mar. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Tiram-me tuuudo...

"Quando tu eras pequena a avó Fofinha era a tua mãe!"

"Sim, e ainda é!"

"Não, não! Agora é a minha avó!"

Jantar de Natal de amigos quadripolares: estudo comparativo

O que planeámos: Grupo de amigos de dez adultos a celebrar o seu jantar de Natal anual em casa alheia, com cozinha e sala com mesa grande, para fins de forrobodó de cariz gastronómico obrigatoriamente na zona de Lisboa cidade. Um dos amigos a cozinhar. Resto dos amigos em ambiente calmo e reservado com músicas natalícias em instrumental a trocar presentes de amigo secreto.

O que vai acontecer: Grupo de amigos de nove adultos e cinco crianças a celebrar o seu jantar de Natal anual, enquanto troca presentes inúteis, em restaurante... em Alenquer. 


(É isto a minha vida)

Se não fosse ter que aturar crianças seria uma óptima educadora de infância

"Sabes, se eu gostasse de aturar mais que uma criança ao mesmo tempo seria uma óptima educadora de infância: sou criativa, divertida e pouco chata. Não achas que seria uma óptima educadora de infância?"

(silêncio dele)

"Então, não me respondes?"

"Parei naquela parte do  « se eu gostasse de aturar mais que uma criança ao mesmo tempo...»"

...

...

...

Festas de Natal nas escolas: observação de campo

Educadoras eufóricas. Auxiliares a empurrarem os meninos para subirem ao palco. Miúdos a travarem porque não querem. Smartphones e tablets a apontarem para o palco como se estivéssemos num concerto no Sudoeste. Miúdos emburrados. Educadoras a servirem de ponto cá em baixo do palco para os miúdos as imitarem (fizeram-me lembrar as mães do "toddlers and tiaras"). Miúdos  a dançar descoordenados. Avós a baterem palmas de pé. Pais aos gritos: "Kiki, olha aqui o pai e a mãe!". Miúdos a cantar descoordenados.  Miúdos a quererem fazer o que lhes foi incumbido e os pais a desconcentrarem-nos a abanarem os bracinhos e a dizerem-lhes adeus. Miúdos a panicar não por causa da actuação mas porque não conseguem actuar e dizer adeus ao pai num lado do auditório e ao padrasto no outro. Educadoras a cantar alto para abafarem o canto desencontrado dos miúdos. Palmas. Miúdos a terem como plateia smarthphones em vez de sorrisos. Calor. Pais a saírem do auditório à medida que os filhos actuavam em total desrespeito pelos miúdos que ficaram com as actuações do fim. Pais do berçário a actuarem... descoordenados. Educadoras a suspirarem de alívio com o fim da festa: "Agora só em Junho, agora só em Junho!"

Estamos ansiosos pela festa de final do ano. ;)

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Sem lençóis nem cabides passámos a primeira prova de ferro do JI: a farpela tuning para a festa de Natal









Cetim + tule + camisola da Pimark peludinha + asas da Tiger +  uma orla de lantejoulas + uma grinalda de luzes led + bandolete + avó engenhocas + tia habilidosa + cabelos loiros e olhos azuis herdados do pai + feitiozinho herdado da mãe = An(j)a tuning mais fofa do Mundo!

Mais depressa se descobre um descendente de holandês que um coxo!

A Mónica mandou-me mensagem:


"Acho que encontrei o antepassado do teu marido na Holanda.
Era amigo do Van Gogh."


Presente inútil

O conceito é simples: os presentes inúteis de uns podem ser os presentes úteis de outros. Ou melhor, não te sentirás culpado e poderás ver-te livre de um traste, reciclando-o. Ou em bom português "passa a outro e não ao mesmo!"
Amanhã, no nosso jantar de Natal, cada um leva uma porcaria que há muito tempo se queira ver livre e não tenha tido coragem de deitar fora.
Faz-se o sorteio do amigo secreto e ...


Jantar de natal quadripolar amanhã


O vinho está escolhido. 

Temos diva!

Hoje é dia da festa de Natal na escola.

 A Ana acorda e grita do quarto: "Hoje já é sábado?"

Na cozinha a preparar-lhe o pequeno almoço, respondo-lhe que não. Acrescento: "Aliás, hoje é o dia da festa de Natal".

Faz-se silêncio.

Chamo-a para o pequeno almoço, já preparado na cozinha. 

Oiço passos e a Ana espreita à porta da cozinha: "Olha mãe não me apetece comer. Estou nervosa..."

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