quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Memória das minhas "putas" tristes # 3

Todas as mulheres pressentem-no. O ponto "f" dos homens. Ainda que estejamos extremamente atraídas, embeiçadas ou, pior até, já apaixonadas há sempre um segundinho de alerta que teimamos em desprezar mas que está lá. Não se consegue escapar à intuição.
A minha amiga Maria já teve um namorado que era professor e não tinha um único livro em casa. A Vanessa teve um que só conseguia pinar em sítios públicos e quando estavam num sítio privado "brochava".
No meu caso ele era da Falagueira. Perguntam-me vocês: "Onde raio é a Falagueira?" Falagueira. Damaia. Amadora.
Oh, o João. O primeiro João da minha vida. O João do sinal sexy em cima do lábio, o João que me comprava Pinta-Línguas e me oferecia, o João da colónia de férias na praia da Gala, o João com quem dancei o primeiro slow, o João do "Sleeping in  my car" dos Roxette, embora com 14 anos não tivéssemos carro e tudo o que não nos apetecia era dormir.
Mamãe interveio. "Sugadita com as hormonas, miúda, não vês que o miúdo não é boa rés?" O drama, o horror, a tragédia. O meu João dos pólos às riscas das Amarras, o meu João que repetia pela 3ª vez o 5º ano porque chumbava sempre por faltas, o meu João que beijava com a língua tão macia, o meu João que traficava droga com 14 anos..."Tu és uma velhaca, mãe! O João não é cá desses! Odeio-te!!!"
Ficou um amargo de boca. Finda a colónia de férias, Cascais ficava a uma eternidade da Falagueira. Mãe não me passava as chamadas que o João me fazia da cabine telefónica e na casa do João não havia telefone fixo. O João dava muitos erros e não gostava de escrever cartas. E ficou a nostalgia do João, nome que cada vez que era pronunciado provocava na minha progenitora um ataque de nervos.
O alerta do factor "f" deu-se anos depois. Trabalhava eu no Estabelecimento Prisional de Lisboa. Seguia num corredor do "pavilhão da metadona" e oiço um: "Pólooooooooooooooooooooo!".  Pólo em sobressalto, olha para o polícia que lhe fazia sombra e pensa "Porra, eu sou o Zé dos Plásticos e conheço toda a gente, mas... até aqui na prisão? Oh Deus, quem é aquele?"
O João aproximou-se. O mesmo sinal nos lábios, agora com cicatrizes. E quando se virou para mim, com um ar muito despachado e admirado e me perguntou com os melhores modos "O que caralho fazes aqui?", eu retorqui: "Olha que porra, isso pergunto-te eu, tu é que estás preso, caramba!". O João revirou os olhos com aquele ar de "dahhhh!" e respondeu um- para ele- óbvio "Dahhh, tráfico de droga!". Continuou a olhar para mim à espera da minha resposta. Revirei os olhos com a mesma atitude e respondi no mesmo tom" Dahhhhh, psicologia!".
Confirma-se, mais uma vez,  que, no meu caso, a paixão não é cega. É autista.
E que as mães, às vezes, acabam por ter razão. Mesmo a minha.

Neste post era para escrever sobre as "memórias das minhas putas tristes# 3"

Mas lembrei-me que um dos homens da minha vida (foram 3) usava Fahrenheit e, de repente, já se me parecem todos a mesma merda coisa.

Como amolecer uma ursa?- Exemplo 1








"Querida Pólo, 
venho partilhar contigo uma fotografia que tirei este fim de semana, em Matosinhos, num passeio com os meus pais e a história por detrás dela.
Neste registo não se entende, mas esta grande ursa polar era robotizada e tinha no seu colo uma cria, e as duas, executavam um enternecedor, perfeito e aconchegante abraço. Sem nunca se separarem neste movimento, repetido. E eu, quando olhei para elas, fui assolada pelo pensamento "Sou eu e a Pólo" e comovi-me. Pode parecer estúpido, mas é a mais pura das verdades. E, colada neste sentimento, só ouvi a minha mãe, "Então?! Mas o que é que estás a fazer?". E enquanto corria, depois de captar este miserável registo, disse-lhe que estava a tirar uma fotografia para te enviar. "Mas o que é isso dos blogues?". E eu expliquei-lhe, com a mesma, repetida, elucidação que era uma página na internet onde as pessoas escreviam sobre o que lhes apetecia, podendo os temas variar, consoante os seus interesses, e onde podiam colocar vídeos, músicas. Depois existiam outras pessoas que o liam e comentavam. Mas na verdade, podia ter precisado a explicação e ter-lhe dito que os blogues não são isso. Os blogues começam por ser isso e, dentro do universo dos blogues, há aqueles que se tornam especiais. O teu blogue é o exemplo perfeito disso. Comecei a ler-te de forma esporádica e, depois, foste conquistando-me. Devagarinho, como nas melhores relações. E por uma vontade maior, quando no final de 2010 tive de deixar os meus pais, amigos e cidade e perder-me, literalmente, numa outra nova, a minha relação contigo, começou a mudar. Assim, como tinha (e tenho) de falar pelo menos 3 vezes com os meus pais ao telefone, como tinha (e tenho) de mandar mensagens aos meus amigos, tinha (e tenho) de te visitar várias vezes ao dia. Porque a distância e as saudades fazem-nos ter necessidade de sentir perto aqueles de quem gostamos muito. E tu foste (e és), sem o saberes, até hoje, um dos meus maiores confortos e, não menos vezes, inspirações nesta jornada díficil que decidi (acho que loucamente, às vezes) ser a minha. És aquela ursa polar, confiante, que me afaga os sentidos e me abraça nos meus piores momentos e potencia a felicidade dos melhores. 
Tomada por esta avalanche, que te pode soar tola, decidi que te ia escrever o que aconteceu quando me deparei com esta montra e enviar a fotografia. Queria fazê-lo logo no Sábado, quando a tirei, mas tinha o cabo do telemóvel em Lisboa (a nova cidade), por isso, só quando chegasse seria capaz de ta enviar. 
Quando no Domingo vi a maravilhosa notícia de que está para chegar um Baby Bear, pensei, "Nem de propósito". E fui a correr ter com a minha mãe, super feliz, “espalhar a notícia.” "Lembras-te da fotografia para o blogue de ontem? Vem aí uma cria polar, como a do robot!!". E a minha mãe, depois de nova explicação sobre blogues, retribuiu-me assim "É sempre bom mais bebés neste mundo. Mas eu não entendo como é que tu ficas tão feliz com essa notícia.". Sabes mãe, há coisas que não se entendem. Sentem-se.
E isto pode parecer tudo uma grande “balela”, mas foi escrito num dos meus maioresmaiores actos de espontaneidade e é aquilo que eu sinto. E posso parecer uma tola, mas se não aproveitasse esta onda de coragem que me assaltou sábado, ficarias sempre sem ter saber o duplo sentido desta imagem. 
Quero só dizer-te Pólo, que estou feliz por ti, como fiquei por todos aqueles que na minha família já partilharam notícias semelhantes, como fico com as grandes vitórias dos meus amigos e com a genuína felicidade dos meus. Desejo-te, do fundo do coração, as maiores felicidades para ti e para o teu baby bear e acredito que serás uma Ursa Mãe mais que à altura. Porque se à distância és capaz de tudo isto, nem imagino o efeito pertinho da tua cria! 
Beijinho grande Pólo!
Maria Lima Costa"

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A ursa com raivinha dos dentes da pigmeu, e vai-se a ver e também já tem um canal!!!

Efeito secundário nº1 de uma prenhice

Aqui
Tanque

A interpretação da minha mãe acerca da minha gravidez: o polvo.

Cenário: dia de ecografia, telemóvel em silêncio, 36758 chamadas não atendidas quando saio do consultório médico, retomo a chamada. Mãe em linha:

Pólo Norte: Olha, já vimos o teu neto/a!
Mãe: Viste o nariz?
Pólo Norte: Sim.
Mãe: Viste os bracinhos?
Pólo Norte: Sim.
Mãe (cada vez mais entusiasmada): E as pernas todas?
Pólo Norte (confusa): Hummm, duas...
Mãe (ainda mais confusa): Duas?

...

Pólo Norte: Mas tu achas que eu estou grávida de um polvo ou quê?

Charada: como saber a profissão de dois progenitores de uma assentada só sem lhes perguntar directamente?

Aqui

Os leitores deste blog são melhores que os dos vossos #2

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Porque hoje é dia 26 de Fevereiro

Escolheste-me um dia para ser tua amiga. E depois foste crescendo de mansinho em mim: partilhando momentos, histórias, experiências, memórias, vivências, vida. 
O tempo foi passando e nunca percebemos que a amizade também se faz de tempo, espaço, distância, saudades, reencontros. E, quando demos por nós, parece que sempre morámos na vida uma da outra e é lá que nos sentimos em casa, são os sorrisos uma da outra que nos fazem ir à soleira e apanhar sol na alma e são as lágrimas partilhadas que nos fazem recolher no escuro dos quartos do coração e acreditar que um dia a luz voltará. 
O sentimento foi crescendo porque uma amizade assim é o amor no seu estado mais puro, quem diz o contrário é tolo. Sabes? Eu sei que permanecerás, com a certeza que só se tem com meia-dúzia de pessoas ao longo da vida. E que te podes descalçar na minha vida e pisares o chão e sentires-te em casa, como eu o faço na tua.
E porque te quero mais perto, mais próxima, mais ligada, mais parte de mim (de nós) e porque já és a minha mana do coração, a minha melhor amiga, agora serás minha comadre, madrinha de um sonho maior, "a tia", porque como diz a terceira mosqueteira: "o sangue é gosma". Porque se, um dia, nós morressemos, sei que seria a ti que deixaria uma herança maior. Prova de uma confiança cega e de uma amizade de sangue, de alma, de vida. Hoje, escolho-te a ti. 
Gosto muito, tanto, desmesuradamente de ti. 
Feliz Ano Novo, Catarina! 

Hoje é domingo no Mundo e tudo bate certo nem que por um segundo



Espalhem a notícia
do mistério da delícia
desse ventre
Espalhem a notícia
do que é quente e se parece
com o que é firme e com o que é vago
esse ventre que eu afago
que eu bebia de um só trago
se pudesse

Divulguem o encanto
o ventre de que canto
que hoje toco
a pele onde à tardinha desemboco
tão cansado
esse ventre vagabundo
que foi rente e foi fecundo
que eu bebia até ao fundo
saciado

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

A terra tremeu ontem
não mais do que anteontem
pressenti-o
O ventre de que falo como um rio
transbordou
e o tremor que anunciava
era fogo e era lava
era a terra que abalava
no que sou

Depois de entre os escombros
ergueram-se dois ombros
num murmúrio
e o sol, como é costume, foi um augúrio
de bonança
sãos e salvos, felizmente
e como o riso vem ao ventre
assim veio de repente
uma criança

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo de mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

Falei-vos desse ventre
quem quiser que acrescente
da sua lavra
que a bom entendedor meia palavra
basta, é só
adivinhar o que há mais
os segredos dos locais
que no fundo são iguais
em todos nós

Eu fui ao fim do mundo
eu vou ao fundo do mim
vou ao fundo do mar
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher
vou ao fundo do mar
no corpo de uma mulher

Sérgio Godinho

sábado, 25 de fevereiro de 2012

[Passou o dói-dói # 2]

[Certo dia, agarrei numa faca e, sem querer, abri um lanho num dedo. Sangrou demasiado para um corte involuntário e sem pretensões. Enquanto corria pela casa, em silêncio, à procura de uma torneira para colocar o dedo debaixo de água fria, o rasto de sangue vermelho lembrava-me que estou viva (também graças a ti).
A água e o sangue misturavam-se e quando consegui estancar a ferida, tapei-a com um penso rápido que não funcionou rapidamente como seria expectável. O penso- rapidamente- se ensanguentou e eu não percebia porque não parava de sangrar a porra do dedo (porque estou viva, sei agora).
Discuti, internamente, se depois do sangue parar de jorrar taparia o corte inestético com outro penso ou devê-lo-ia deixar cicatrizar ao ar.
Decidi-me pela última alternativa e olhei durante meses, anos talvez, todos os dias de manhã, para o dedo magoado à espera do dia em que nos (re)encontrássemos para te apontar a fenda sísmica que me rasgava a pele, e te pedir, como a menina que sempre serei, que me beijasses o dói-dói. Passou tempo e ar e sol e a ferida cicatrizou.
Mas o esquecimento do corte, o enterro interno da imagem do sangue, o olhar para o dedo sem rasto de dor só aconteceu quando voltaste a morar na minha vida. Um dia beijaste-me, de mansinho, a mão e os teus olhos-mar confirmaram que o sismo da dor já, há muito, havia passado.E que o tempo é de (re)construção.]


(É o #2 porque há uns anos escreveu-se este aqui)

O Mundo divide-se entre... # 60

... as pessoas que conhecem a praia da Vagueira e as outras.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Coração de Belém

O Belenenses não é um clube, O Belenenses é uma (estranha) forma de vida.
Percebo-o quando reparo que ninguém diz mal do clube, como se fosse uma espécie de religião zen, não fundamentalista, uma religião estranhamento consensual..
Não há benfiquistas, sportinguistas ou portistas que se ralem muito se o seu clube empatar com o Belenenses porque, bolas, afinal é com o Belenenses, como se o clube fosse um amigo com quem se joga uma sueca ou às damas só pelo prazer de uns minutos de partilha de jogo. 
Percebi-o quando o Sr. António morreu, ex-jogador e sócio nº 5 ou 6 do Belém, e lá estavam os colegas de balneário, os ex dirigentes, sócios que nunca privaram com o senhor mas que por ele nutriam simpatia e um mar de gente azul a prestar a última homenagem, lágrimas em riste perante a bandeira do clube a tapar o caixão: "o orgulho de ser Belém até morrer".
Percebo-o quando a minha amiga Xana, a viver no Luxemburgo, me confidencia que pagou uma  pipa de massa para garantir que as suas quotas estavam em dia, mesmo não podendo assistir a jogo nenhum. Diz ela que "Cada um tem direito à sua irracionalidadezita, né?". O Belenenses é a sua.
E percebi-o ontem, na festa do 50º aniversário da minha amiga Ana, filha do senhor António, quando o presidente do Belenenses se sentou ao lado da aniversariante a jantar, e sorriu de forma genuína ao ver o bolo de aniversário com o símbolo do clube do coração de ambos.
Porque quando se fala do Belenenses é de coração que se trata.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Memória das minhas "putas" tristes #2

Todas as mulheres pressentem-no. O ponto "f" dos homens. Ainda que estejamos extremamente atraídas, embeiçadas ou, pior até, já apaixonadas há sempre um segundinho de alerta que teimamos em desprezar mas que está lá. Não se consegue escapar à intuição.
A minha amiga Joana tinha um gajo que uivava na cama. Assim: "auuuuuuuuuuuuuuuu". A Cátia diz que teve um namorado que conduzia com os joelhos, como o Toy. Cada qual com a sua cruz, enfim.
No meu caso- oh, meu Deus, e eu fui como os marinheiros- ele era do Algarve. "Do Algarve nem bons ventos nem bons casamentos"- já me dizia a minha avó minhota. "Algarvio, cagalhão esguio"- dizia-me a minha madrinha, também ela algarvia, e avessa aos homens da sua terra. E, claro, a já célebre "Os Algarvios comem na gaveta". E eu ligava lá aos ditados populares?!
Conheci o rapaz no Big One numas famigeradas férias de Verão da minha adolescência. Era nadador salvador e está visto que o meu discernimento andava afectado por muitas "Marés Vivas" vistas a fio. Tinha uns olhos lindos de morrer e... ouvia Allanis Morissette. Tinha um sorriso lindo e perfilado e uma unhaca mais comprida no dedo mindinho direito. Dizia que era para abrir latas melhor...E o fiozito de ouro com mega crucifixo ao peito? No comments.Já para não falar na generosidade e hospitalidade da minha sogra da altura que cada vez que me recebia em sua casa me oferecia" Queres um copinho de água, filha?". E água del cano me servia e não digas que vais daqui.
Namorámos dois anos. Dois anos da minha vida naquilo. Mas eu insistia: ele "é tãooooo lindo! E tem um corpo tããããõ bonito! E gosta taaanto de mim".
O alerta do factor "f" deu-se no dia em que pinámos pela primeira vez. O homem roncava enquanto praticávamos o sexo louco e desenfreado e, como tinha ascendência emigro-francesa, deu-lhe para elogiar a minha prestação sexual com um "potent". Ora, eu percebo tanto de francês como de dançar a polka e sou dura de ouvido pelo que ouvi um "puta". O caldo ficou entornado.
Há coisas que nem uns olhos verdes e um pack-seis abdominal compensam. E quando, passados uns anos, com ele já semi-careca,  nos reencontrámos e ele me confidenciou o nome do primogénito percebi que éramos tão compatíveis como sushi com coiratos. Enzo Berardo, chama-se assim a criatura de Deus.
Confirma-se, mais uma vez,  que, no meu caso, a paixão não é cega. É autista.

[Giz]

[Durante anos gravava em mim o nome das pessoas de que gostava, como quem esculpe na pedra.Talhava de forma quase irreversível as pessoas em mim com a certeza de quem se tatua sem medo de arrependimentos. Com a certeza de quem acha que as pessoas quando chegam ao terminal das nossas vidas só trazem bilhete de vinda e não quererão comprar volta.
O tempo passou e percebi que há pessoas que vêm mas que voltam para o lugar de onde vieram, fora das nossas vidas, noutro Mundo longe do nosso.
E que depois custava horrores lixar os nomes das pessoas do nosso coração para as apagar. Doíam-me os braços e, no fim, o coração ficava gasto. Limpo mas gasto.
Desde então decidi que não há nomes definitivos gravados em mim. Pinto-os a cal e todos os Verões sento-me à soleira da minha vida, contemplando cada pessoa com a preocupação de quem quer renovar as pinturas que valem a pena.
No terminal onde me encontro chegam e partem viajantes. Alguns chegam, contam-me histórias dos sítios de onde vêm. Outros partem e levam histórias de mim. Outros ficam, e fazem a história cá dentro, comigo. E vão permanecendo em mim, sem ser preciso cravar o escopro na pedra. 
Comprei, enfim, paus de giz.]

À S* (podia dar-me para meter os dedos numa tomada ou roer roupa suja...)

"No fundo, não há bons nem maus.
Há apenas os que sentem prazer
em fazer o bem
E os que sentem prazer
em fazer o mal.

Tudo é volúpia..."

[Mario Quintana]

Charada (parece uma anedota mas é mesmo verdade)

A minha sobrinha Mariana conta, com muita graça, que o pai da amiga dela é DJ. A amiga da Mariana chama-se Sara Matos. O pai da amiga da Mariana chama-se António.

Alguém adivinha o nome artístico do senhor?

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Como mandar a crise foder-se em três actos? # 1

Como mandar a crise foder-se em três actos?

Quem adivinhar como mandei foder a crise em três actos ganha um prémio!

Pólo Norte loves MEC.

Amiga-mãe? Não, obrigada!

Eu e a minha mãe temos 20 anos de diferença. Talvez devido a isso muitas vezes nos diziam irmãs, ao ponto de, por vezes, nós próprias tendermos a confundir os papéis. 
Para além disso, e talvez consequência da sua própria educação, a minha mãe insistiu durante anos que para além de mãe, queria também ser minha amiga: a minha melhor amiga. Numa de mãe moderna, mãe liberal, mãe open minded. 
Foi conversa recorrente durante a minha adolescência a questão da sexualidade. A minha mãe- de seu cognome "a modernaça"- apregoava que quando eu quisesse perder a virgindade, deveria comunicar-lhe para ela me poder acompanhar ao ginecologista e garantir o início de uma vida sexual protegida e consciente. Disse-o tantas vezes que eu acreditei. 
Chegada a hora dei corda aos sapatos e abordei o tema com a subtileza que sempre me caracterizou: "Mãe, quero perder a virgindade, podes levar-me à ginecologista?". 
E minha mãe- "A Modernaça"- teve um ataque de histeria: o drama, o horror, a tragédia. "Ai que só me dás desgostos.", "Mas ainda és tão nova, tens lá idade para isso?!", "Namoras à meia dúzia de meses e queres perder a virgindade com esse rapazola?", "Mas tu ainda és uma criança e queres-te armar em crescida?" e, claro, o célebre, "Se te concentrasses nos estudos em vez de nessas porcarias, é que eras esperta".
Em suma: meti a viola no saco, arrependi-me amargamente de ter confiado nas profecias teórico-conceptuais dela e pinei sem que ela me levasse ao ginecologista. 
Ontem à noite voltámos a falar desse episódio. A minha mãe diz que, na teoria, queria que eu a visse como uma amiga. Que sabia que na adolescência o grupo de pares levava vantagem aos pais e queria que eu confiasse nela como numa amiga. E que achava que estaria preparada para responder como uma amiga. Mas que, chegada a hora "s", percebeu que não era verdade. Que não tinha distanciamento emocional nem racionalidade suficiente para olhar para mim como uma pessoa. Uma jovem mulher. E que, ainda hoje, em muitas ocasiões tem dificuldade em fazê-lo: não me imagina a tomar as decisões que sabe que eu tomo em contexto profissional, não me confere legitimidade numa séria de opiniões que lhe dou tendo por base a minha formação académica e que, quando me viu vestida de noiva, por segundos, me imaginou mascarada como num dia de carnaval da minha infância. 
Que por mais que eu cresça serei sempre a "miúda", a menina dela. Concluiu que, por mais livros que tenha lido, a verdade é que não acredita que existam mães que acompanhem serenamente o crescimento dos filhos sem os cristalizarem um bocadinho no tempo. Que, hoje, sabe que nunca me deveria ter dito que queria ser minha amiga. Pelo menos não "amiga" substantivo, mas "amiga" adjectivo.
Porque os papéis são distintos e assim têm que o ser. As mães têm um papel educador e o grupo de pares um papel de partilha de experiências no mesmo registo, tempo e espaço. E que isso nenhuma mãe consegue acompanhar. Ainda que apenas 20 anos de diferença os separem.
E eu percebi bem que a minha mãe é muito minha amiga mas que nunca conseguiu ser uma amiga-mãe. 
E ainda bem.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O Mundo divide-se entre... # 59

... as pessoas que bebem Sagres e as que preferem Super Bock.

Agora que penso nisso, se fosse de nazarena também não me queixaria

Ou sevilhana.
Ou Pierrot.
Ou noiva do Minho.
Ou Baiana.
Ou Odalisca.

(Porra, tantas opções e a minha mãe obrigou-me a descer ao nível do "Combatente do Ultramar"...)

O Carnaval, as projecções psicanalíticas e os recalcamentos que me provocou a minha mãe


Acho que tudo começou no Carnaval desta fotografia. É o primeiro Carnaval de que me lembro, deveria ter uns 3 ou 4 anos, já não sei bem. Ao meu lado a minha educadora Teresa, de quem sinto umas saudades doidas até hoje.
Recordo-me que me queria mascarar de princesa. A minha mãe não assentiu: "Olha que giro que é este fatinho de criada". Não tive hipóteses e fui de criada, mesmo.
No ano seguinte o mesmo filme: de princesa, queria mesmo vestir-me de princesa. Fui de Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo, uma máscara de tal forma caprichada, que a minha mãe se deu ao trabalho de montar um sistema dentro das minhas tranças com arames, que quando eu puxava um arame, as tranças levantavam. Um susto, portanto.
E o pedido vinha todos os anos: eu só queria mascarar-me de princesa. E a minha mãe assobiava para o lado. Mascarou-me de chinesa (com as botas ortopédicas fica creepy), de árvore de Natal (don't ask, até estrelinha pespegada no alto da pinha eu tinha...), de mosca (com um penico cheio de mousse de chocolate para compor o boneco), de balde da roupa suja (...), de viúva Porcina e fantasias afins. O grito de Ipiranga veio quando me mascarou de "combatente do Ultramar": fato verde tropa, boina, tatuagem de "amor de mãe" e... bigode! Bigode em mim- imagine-se!- que era a miúda mais feminina que se possa imaginar e que só queria ser princesa por um dia. 
No ano seguinte berrei, esperneei e teimei na fantasia de princesa. Negociámos uma "dama antiga". Não reclamei, teria um fato comprido e tule e folhos, de certezinha. O que a minha mãe não me explicou, e vim a descobrir apenas no próprio dia, é que a sua interpretação de dama antiga era "dama antiga dos cabarets": saia curta, ligas, luvas de renda, ar coquete e boquilha com cigarrilha em punho. Na prática, puta dos anos 40. Sem folhos, nem saias a arrastar pelo chão, sem cabelos aos cachos nem mantos. Nada.Na-di-nha.
Continuo a achar que a minha mãe condicionou a minha projecção no futuro. Criada. Checked. A ideia serviu para me fazer estudar o suficiente para não ter que servir ninguém. Árvore de Natal. Checked. Não sou de fios, nem de pulseiras, nem de berloques. Less is more. Combatente do Ultramar. Checked. Sou voluntária da Amnistia Internacional e a pessoa mais anti-guerra que se possa imaginar.
Os traumas resultaram perfeitamente em mim. Até acho que. à custa das minhas experiências carnavalescas, me tornei uma pessoa criativa e nada ressabiada. Mas garanto-vos, que um dia que a minha mãe seja velha e esteja num lar, irei fazer questão de participar nas actividades de Carnaval dos velhotes. 
E mascará-la-ei de princesa. Só por causa das tosses.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Das memórias a longo-prazo

Não me lembro do meu 1º dia de escola. Memória está ligada a sensações.

Post de Carnaval

Se vocêêê fossi sincera, óóóó Aurora. Ó careca, ó careca, tira a boina. Você pensa qui cachaça é água, cachaça não é água não, cachaça vem do alambiqui, e a água vem do ribeirão. Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil, cidades maravilhosa, coração do meu Brasil. Mamãe eu quero, mãmãe eu quero, mamãe eu quero mamar, dá-lhe a chupeta, dá-lhe a chupeta, dá-lhe a chupeta, dá-lhe a chupeta para o bebé não chorar. Ei, você aí! Me dá um dinheiro aí!Me dá um dinheiro aí! Você abuuuuuusou....

É Carnaval e todos levam a mal (nova expressão popular)

"A vida são dois dias e o Carnaval são três...
          

                                                                                ... se tirarem o dia de terça-feira de férias"

A afectoesfera

Para mim não há pessoas na blogosfera. Não lhes imagino as caras, as vidas, as profissões nem os nomes próprios. Mesmo que eu saiba que a X. se chama Vanessa ou a Y. Maria Antónia, isso para mim não muda, absolutamente, nada. 
Acredito piamente que o facto de não relevar as pessoas por detrás das identidades bogosféricas torna a minha relação com a blogosfera mais lúcida. Leio textos em blogs e gosto dos textos. Leio experiências reais ou não, pensamentos, episódios, pontos de vista com os quais me identifico ou reflexões inusitadas e que me fazem repensar e questionar-me sobre outras perspectivas de ver o Mundo e sinto mesmo que retiro prazer do tempo que passo a ler blogs.
Acho que se na blogosfera os posts não fossem atribuídos a nenhum blogger e os posts que gosto me aparecessem de enfiada no Google Reader sem indicação de autor seria, exactamente, a mesma coisa. Não amo nem odeio nenhuma identidade blogosférica. Gosto ou não gosto da escrita e dos temas dos posts e leio ou não leio os respectivos blogs. 
Há meia dúzia de excepções de blogs que leio de forma não isenta, mas tratam-se dos blogs dos meus amigos. Blogs que deixam de pertencer à categoria dos blogs e passam, exactamente, a ser os textos dos meus amigos, das pessoas. 
Há uma outra excepção, de um blog de alguém que não conheço. Um blog que, talvez por ter um nome e uma cara, me faz ter a sensação estranha de que estou a ler o blog de uma amiga. Já aqui uma vez falei dela e tenho que assumir que é a única blogger que, inexplicavelmente, me desperta uma ternura tonta.
E a Concha teve um bebé e hoje ao ver a fotografia do Rodrigo esbocei um sorriso de afecto, de calor e senti-me um bocadinho totó. Mas feliz pela pessoa para além da blogger. E é estranho.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Feliz ano novo, à minha futura ex-caçula!

Há 22 anos estava deitada na cama dos meus avós. Era noite e dormitava no meio deles, quentinha e ansiosa. A minha tia tinha ido para o hospital. Com ela, o meu tio e a a minha mãe. A minha avó não pregou olho e o meu avô, nesse dia, nem ressonava. Era um sono leve o meu, um sono ansioso por ser acordado, um sono quase não sono, expectante.
Há 22 anos, eram exactamente meia noite e vinte e três, quando ela nasceu. A uns 5 Km daquele quarto dos meus avós, onde esperávamos que nos anunciassem a sua chegada, nasceu a minha caçula. E quando o telefone preto antigo tocou, aquele triiim eram palavras sobre ela e aqueles minutos em que nos sentámos os dois na cama (eu e o meu avô), de olhos arregalados, atentos aos sinais não verbais da minha avó que falava ao telefone, foram dos mais emocionantes das nossas vidas. Porque há 22 anos ela nasceu e a nossa família só aí começou a fazer sentido, como se o lugar dela estivesse marcado há muito tempo e a promessa da sua chegada a tivesse feito existir em nós ainda antes da sua real existência.
Há 22 anos, senti um amor maior, um amor irmão, um amor protector, um amor cuidador, um amor incondicional. Daqueles que perdurará sempre, mesmo que a morte nos separe. 
Porque eu fiquei muito mais completa com a chegada dela e a minha existência não se concebe sem saber que ela existe e é parte de mim, como são aqueles que amamos mais do que a nós próprios.
Há 22 anos, nasceu a minha caçula e eu renasci.

Março, a tristeza, os meus amigos e a aldeia global

Março será  o mês em que não terei a minha avó por perto pela primeira vez no seu próprio aniversário.
Março será o mês em que estarei a beber chocolate quente no Centro da Europa com a minha melhor amiga que vive no Luxemburgo.
Março será o mês em que irei tirar um fim-de-semana daqueles com a minha melhor amiga que vive na Guiné.
Março será o mês que o longe se fará perto.
Venha Março!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Rimas polares

Comprei farinha "Predilecta".
Mamãe arregalou os olhos e ficou em êxtase.

Mãe: Pólo Norte, lembras-te do anúncio da Predilecta?! Lembras-te? Lembras-te?
Pólo Norte (a medo): "Predilecta, é bom para o pé de atleta?"

(Pela cara dela, parece que não acertei. Alguém se lembra, caramba?!)

O Mundo divide-se entre... # 58

... as pessoas que dizem guarda-fatos e as que dizem roupeiro.

Olha que coisa mais... fofa?! :S

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O Namorado do Dia

O Namorado do Dia é o que fez o jantar: bifes recheados com farinheira no forno. Que abriu o vinho certo e deixou-o respirar. Que colocou velas na mesa. Música ambiente. Que preparou leite creme e queimou o caramelo com um ferro específico com a forma pirosa de um coração.Que escreveu o postal certo e deixou-o por debaixo do guardanapo. E escreveu outro. E mais outro. E soltou muitas gargalhadas. Tantas que chegou a contorcer-se de risos e a ir às lágrimas. "Para fazer as vezes"...

O Namorado do Dia foi o que abriu a porta de casa e recebeu a namorada com um abraço. E as amigas solteiras da namorada num... "group hug"!

O choque # 2

Ontem a minha mãe passa pela minha casa à noite e diz-me que foi jantar fora.
"Com quem?"- perguntei, sem ponta de ironia.
"PARECE QUE É PARVA, COM QUEM É QUE HAVIA DE SER? Com o meu namorado".

Depois disto, percebo que o senhor também comemora o Dia dos Namorados. A seguir o que virá? Ainda me vão dizer que têm uma vida sexual activa, querem lá ver?

Post sádico a propósito do Dia dos Namorados

Espero que as actuais namoradas dos meus ex tenham tido um excelente Dia dos Namorados.

(gargalhada sádica)

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Love is # 10

Love is # 9

Love is # 8

Love is # 7

Love is # 6

Love is # 5

Love is # 4

Love is # 3

Love is # 2

Love is # 1

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Que dia é amanhã mesmo?

Ah, terça-feira.

Porque hoje é dia 13...

Troika nutricionista

Troika anuncia que o feriado de Carnaval deixa de ser feriado e muda de nome: passa a ser terça-feira magra em vez de gorda.

Desafio polar

Este chama-se: "A montra da minha rua é mais pirosa do que a da tua."

Do que estão à espera? É fotografar montras a propósito do Valentino e enviar para quadripolaridades@hotmail.com.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Coisas que a morte da Whitney Houston me fazem concluir

Quando eu morrer toda a gente me vai recordar como a melhor blogger de todos os tempos.

Espero que a Mariah Carrey se redima dos seus pecados e vá para o céu quando quinar: eu já não tenho emenda e se se juntam as duas no Inferno, nunca mais terei um segundo de descanso.

As drogas não fazem mal: a culpa é sempre das banheiras. Acabaram-se os banhos de imersão nesta casa.

Coisas que me fazem temer a morte

Quando eu chegar ao Inferno terei lá a Whitney Houston a berrar ao vivo?!

Houston, we have a problem!

Mas a Whitney Houston ainda era viva?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

The mad February

Pólo Norte
s. f.
1. Ursa rodeada de aquarianos por todos os lados.  


Olh'ó piegas!

O choque

Chocou-me a separação do Seal e da Heidinha. Chocou-me saber que houve uma tempestade de areia em Bissau que impediu a navegação aérea por dois dias. Chocou-me o primeiro ministro, que tirou o curso aos 40 anos, e só fez carreira numa Jota, chamar-me de piegas. Chocou-me o frio polar e as temperaturas tão baixas em Portugal. Chocou-me o aumento de preço no Marginalíssimo. Chocou-me oferecerem-me um porquinho e tirarem-me a vontade de gamar coisas. 
Mas nada me chocou mais que ontem, ao entrar no carro do namorado da minha mãe, constatar que o tipo sintoniza a rádio na Orbital.

O crime não compensa


Uma pessoa pede o doce da casa e vem nesta tijelinha-porquinho.
Uma pessoa rapa até quase gastar o barro a sobremesa, na expectativa de, finda a mesma, poder "roubar" a tijelinha.
Uma pessoa começa a abrir a mala para desviar a taça lá para dentro.
Uma pessoa começa a ver a sua mãe a abrir muito os olhos e resmungar que não quer acreditar que criou uma "filha ladra" (oh, so drama queen!).
E, no fim, vem o empregado e traz uma tijelinha limpinha num saco bonitinho para cada um dos convivas...
Uma pessoa é obrigada a devolver o porquinho que jazia na mala porque fica cheia de vergonha na cara. 
Mas agora até o prazer de roubar coisas em restaurantes tiram a uma pessoa, é? Bah!

Depois de anos a chagar a minha melhor amiga da Guiné Bissau...

... que era inadmissível a Guiné ainda não estar quadripolarizada e isto e aquilo. Toma lá disto:


Mantanhas com sabor a mancarra ao Banjai!

A minha mãe e os caminhos mais longos

 Cenário: Nove da noite dentro do carro do namorado da mãe, lotação esgotada e todos apertadinhos cá atrás. Só a mãe ia à larga no banco da frente.

Mãe da Pólo Norte: Hoje vamos jantar leitão!Apetece-me taaanto!
Pólo Norte: Boa! Boa!
Namorado da mãe: Vamos onde, afinal?
Mãe: Mealhada?

(Olhares de horror dos três passageiros: um cheio de fome, outro que é tão alto que estava numa posição de contorcionista e a outra que era eu e que estava tão apertada entre os dois marmanjos que me sentia uma "sande de coirato".)

Mãe: Hummmm. Negrais?


(Viva a linguagem não verbal!)

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Coisas que sempre odiei na minha mãe (por ocasião do seu 52º aniversário)

Odiava os teus olhos abertos e pontapés por debaixo da mesa quando eu era inconveniente. 
Que limpasses alguma sujidade que eu guardasse no rosto com um lenço de papel molhado com a tua saliva.
Odiava que me dissesses que quando chegássemos a casa "conversávamos",.
Que me medisses a febre com os lábios e nunca usasses o termómetro. 
Odiava que após cada reunião de encarregados de educação, depois de um aproveitamento excelente, voltasses sempre para casa com um ar zangado porque não suportavas as queixas de que eu era muito faladora e irrequieta, 
E que, também, tu, sem moral nenhuma, fosses faladora e irrequieta. 
Odiava que me dissesses que não podia falar contigo com determinados modos porque "não estás a falar com as tuas amigas".
Quando gostavas de me exibir e pedias que declamasse poesia. E, perante as minhas recusas, que acabasses amuada comigo. 
Odiava que não me passasses a mão pelo pêlo e só dissesses bem de mim nas minhas costas.
Que mostrasses às visitas os dossiers com todos os recortes de textos meus que saiam na Teenager Testemunhos. 
Odiava a fotografia que nunca chegaste a tirar da carteira e onde estou gorda e cabeçuda, e que fazes questão de mostrar de vez em quando. 
Que, quando me levavas à escola, mesmo perante o meu ar independente e autónomo, com a mania que era adulta e desprendida, fizesses questão de me dar sempre um beijinho à frente dos meus colegas. 
Odiava teres-me mentido e dito que os pais da Heidi tinham emigrado e, por isso, ainda hoje ser gozada pelos meus amigos mais próximos. 
Que nunca me desculpasses falhas e erros quando sabias que não era por incapacidade mas por desleixo ou negligência.
Odiava que nunca me deixasses comer "gelados de água" mas só de leite. Nem pirâmides, porque eram feitas com os "restos dos bolos". Nem soprar com a palhinha para dentro do sumo, fazendo bolhinhas de ar.
Odiei aquele dia em que me ofereci como voluntária para ser partner de um atirador de setas no circo e me foste buscar ao palco com um puxão de orelhas. Tendo acabado por ficares lá tu, no meu lugar. 
Que não fosses uma mãe que faz bolinhos e é uma boa dona de casa mas que me preferia acompanhar a saltar de pára-quedas. 
Odiei cada vez em que alguém se lembrava de dizer que parecíamos irmãs. E de te encontrar, ocasionalmente, com o teu grupo de amigas, nas mesmas discotecas que eu frequentava. 
Que cada vez que acabava a hora da visita no hospital fizesses um ar desprendido e rijo e não sucumbisses às minhas chantagens emocionais. Mesmo que agora saiba que ias a chorar sozinha durante todo o caminho de regresso a casa. 
Odiava que quando não tinhas argumentos de negociação comigo me ordenasses que te obedecesse "porque sim". E, em última instância, "porque eu sou a tua mãe e eu é que mando". 
Que sempre me tratasses pelo primeiro nome, sem diminutivos nem usando a expressão "filha". Porque dizias que me tinhas dado uma identidade e que não ias renegá-la. 
Odiava a tua personalidade crítica, exigente e insatisfeita. Que as minhas vitórias nunca te fossem, aparentemente, suficientes. 
Mas sei, agora, que a pessoa que sou hoje é fruto de tudo aquilo que, ao longo da minha vida, fui odiando em ti. 
E estou certa que irei reproduzir tudo o que odeio em ti. Porque só assim poderei vir a ser a melhor mãe do Mundo. Ou a segunda, vá. Logo, logo, a seguir a ti. 
Parabéns, mãe!

A EXPERIMENTAR | Marginalíssimo

... o Marginalíssimo aumentou o preçário.

(Mas continua a ser o melhor restaurante de fondue da cidade e cada tostão que se paga é tãããão bem empregue.)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O ano passado foi assim...



Este ano o bolo ficou a cargo da minha amiga Violet e a coisa promete...

Do amor (para sempre entre parentesis, que é como se eu dissesse baixinho)

O nosso amor não é perfeito. O nosso amor é uma trapalhada, até. Mas, vai na volta, e tem uma coisa única, um adn especial: é meu e teu, e isso faz dele único como só os amores reais conseguem ser. 
O nosso amor teve altos e baixos, sucessos e fracassos, comunhões e apartamentos.O nosso amor já foi uma grande treta mas conseguiu reinventar-se (e o bem que sabe?). O nosso amor teve flores e frutos, chegou a murchar e a apodrecer, nasceram-lhe sementes e, hoje, cresce com um tronco que nenhuma intempérie conseguirá derrubar.
A única coisa que o nosso amor tem de especial é ser nosso: meu e teu. E ter tornado a palavra "nós" uma entidade singular, única, sem nunca deixarmos de saber que 1+1=3. 
Não sei se o nosso amor será para sempre (eu sinto que sim, mas digo-o baixinho, que entre nós a incerteza do futuro sempre resultou tão bem). Mas sei que serás para sempre o meu amor. O meu grande amor.
Prometi que não falaria de ti no blog. És demasiado importante e íntimo para te expor publicamente. És demasiado parte do mais profundo de mim para partilhar palavras sobre ti, que nunca conseguiriam traduzir o que significas para mim.
Mas hoje o dia começou de uma forma única e especial e, porque é o teu aniversário, hoje este post é para ti: Feliz Ano Novo, grunguinho. 
'Bora viver o nosso final feliz?

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Sabes que tens potencial para um dia vires ser uma blog-star quando...

... passas a ser visada em cada novo hate blog (ou tentativa de hate blog) que pulula.

Oh, I'm getting so famous!!! (pose apoquentada de drama queen)

Psicólogas ou psicólogos solidárias/os?

Tenho uma amiga que dirige esta equipa
Ora, a equipa precisa de um psicólogo. Não se trata de voluntariado. Trata-se de trabalho técnico pró-bono. Não há cá paninhos quentes. 
E eu acredito que algum dos meus leitores é quadripolar o suficiente para aceitar este desafio!
Alguém?

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O dia em que eu recebi uma declaração de amizade (e que reforcei a convicção do bom que é ter este blog)

"Querida Polo Norte Rute,

Estou há que tempos para te escrever. Já me deste muitas razões para ter vontade de o fazer. A tua preferência pela Kima de Maracujá, uma referência à empresa onde trabalho, o post sobre a tua avó e a derradeira: a foto da malta da Ribeira Grande, onde estudei (a Maia da Almofariza é a minha Maia.)

Entrei tarde nesta lida dos blogs, através da inevitável Pipoca e companhia. Até que encontrei o Norte. Tornaste-te na minha preferida. Naquela de quem me apetece ser amiga. Aquela com quem não consigo implicar (tirado a assumida petulância relativamente à Margem Sul, para onde fui viver quando cheguei ao Continente).
Tenho mesmo a sensação de que te conheço ou que temos amigos comuns (além do pessoal de S. Miguel). Há muitas referências na tua vida que me são familiares.

Olho para este email e acho-o um bocado ridículo, como as cartas de amor. Mas ontem foi dia de Amigas  e decidi que não podia continuar a adiar esta declaração de amizade.

Aqui fica  

Felicidades para ti.

Em casa tenho sempre  Yoçor de Maracujá e Mulatas. Se algum dia passares por Oeiras e quiseres parar, emaila-me.  

Sara"

Todos os blogs deveriam voltar a ter o seu selo. Uma espécie de identidade corporativa.

Dia dos namorados no Quadripolaridades

(a congeminar)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Experimenta desabafares com um amigo designer que sentes saudades da tua vesícula...

Sabes que estás velha quando...

escreves no status do facebook "Vou fazer marmelada" e já ninguém comenta com ícons a piscar o olho mas sim com pedidos de receita.

A todas as minhas amigas e leitoras deste blog, em especial às AÇORIANAS



Brindo com Angelica, Kima ou licor de maracujá do Ezequiel (e são só 10h30 da manhã) e desejo a todas um fantástico, divertido e feliz Dia das Amigas!

(beijinhos especiais à minha Almofariza do meu coração, Marianinha, Susana, Sara, Dina Ponta Garça, Corisca Ruim, Chá Verde, Neni, à Laura do Pico e respectiva filhota, à Denise Almeida, à Gasper e, claro, à querida Mónica Lice).

(Outras açorianas que sejam "da casa" que se acusem!)

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

A família

Quando uma morte te rouba alguém crucial há um receio inconsciente de que nada voltará a ser como dantes (e não volta) e de incerteza face ao futuro sem aquela pessoa. 
No entanto, quando pertences a uma família para quem o conceito de família nuclear engloba dez pessoas e com uma cultura minhota, tipicamente matriarcal, o medo de como se reorganizará a família depois da morte da geração mais velha agudiza-se. 
Quando o meu avô morreu penso que todos sentimos isto. De como ultrapassaríamos a tristeza do lugar vazio à mesa, o silêncio em vez das gargalhadas após cada anedota, o comando parado e a televisão sem zapping. De como passaríamos a gerir a vida sem o "pai de todos", a pessoa que resolvia os problemas maiores, que fazia as coisas acontecerem de uma forma tão natural, que parecia uma espécie de Deus da família, amuleto de todos nós. Penso que, cada um à sua maneira, foi aprendendo a lidar com o vazio e a dor, embora a noção de família nunca estivesse posta em causa, porque havia a avó, estoicamente a mulher das vidas de todos e de cada um de nós, a pessoa que, mesmo velha, continuava a juntar as pessoas, a ligá-las, a servir de porto de abrigo e ponto de encontro para todos nós. 
Com a morte dela, na missa de 7º dia, olhei em redor e tive muito medo de deixarmos de ser a família, orfãos que estávamos de um denominador comum. Olhei para a minha mãe, meus tios e prima e vislumbrei cada um isoladamente e senti um calafrio. O clã estava fragmentado, fragilizado, saqueado do seu bem maior. 
E esta sensação corroeu-me durante dias, semanas. Já não havia um lugar marcado para nos encontrarmos, uma razão para estarmos juntos, uma pessoa que nos fizesse convergir. Cada um passou a dispor do tempo que antes era para todos de uma forma mais isolada e a reorganização da vida de cada um foi feita à medida das necessidades individuais. 
No domingo passado, como diria o Sérgio Godinho, "foi domingo no mundo". Não houve combinações prévias, marcações de hora. Ao acordar, apenas uma saudade imensa do barulho da família, das vozes a sobreporem-se umas às outras, do cheiro dos que são nossos. Telefonei a cada um deles e, a pretexto de umas iscas, à uma da tarde, à volta da minha mesa. lá estávamos todos, sobreviventes de um amor maior. 
Na cozinha, fechei os olhos e ouvi o burburinho. Ao longe reconheci as expressões típicas e adivinhei os tiques e gestos próprios de cada um, enquanto falavam. Ouvi os risos e os planos. Ouvi a alegria de se acreditar que a vida se reinventa. E que há coisas que nunca mudarão.
E senti, com uma paz profunda, que a minha avó fez um bom trabalho. E deixou um legado para sempre: uma família. 

Djaló e o corrector ortográfico

O meu Paquito é redactor num jornal desportivo e enviou-me isto:


Adivinhem que palavra de substituição lhe recomendei?

Portugal precisa de colo (ou em "psicologizês": Portugal precisa de validação interna)

Portugal tem um défice de auto-estima. Portugal quando faz uma coisa bem feita é por "sorte" e usa um mecanismo de atribuição causal externa. E quando faz porcaria," é "claro que já se estava à espera" e "O que é que se podia esperar?", e a causalidade interna impera. 
Nem Freud, neste caso, consegue explicar.  Portugal cresceu na CEE com um sentimento de inferioridade. A história da cauda da Europa deu-nos cabo do auto-conceito europeu. Para além de nunca termos ganho um festival da Eurovisão, mas é melhor nem entrarmos por aí. 
O português confundiu cauda com rabo. E por isso anda calimero. (Aqui só para nós, a situação não melhorou quando a Letónia, a Sérvia e o Azerbeijão ganharam o Festival)
Portugal precisa de festinhas. E colo. E de que as pessoas que cá vivem  atribuam causalidade interna às nossas vitórias e externa às derrotas. Portugal precisa de "mães" e "pais" parciais e tendenciosos, babados e orgulhosos, protectores e defensores do seu país, que achem que "o seu filho é o mais bonito da Europa". 
Só nessa altura, Portugal será a nação valente e imortal que preconiza o hino, confiante e orgulhosa dos seus feitos.
Só nessa altura notícias como esta servirão para confirmarmos o nosso poder como país e povo e não servirão para nos sentirmos insuflados momentaneamente mas, ainda assim, carentes de reforço positivo por parte dos que são nossos. Porque Portugal não precisa de aplausos por parte da plateia. Portugal precisa de actores confiantes. 
De nós, portanto.

Ironias do blogger

Última piada de uma portista sobre a contratação de Djaló para o benfica


A nova primeira dama chegou. 
Mudanças se avizinham: a águia vai ser substituída por uma borboleta, a estátua do Eusébio por um Nenuco preto e o voo da águia Vitória pelas corridas entre bancadas VIP da Lyonce... Viiktórya!
Salvé Luce!
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