[Passei toda a minha vida à bulha com o meu corpo. O que vem sendo irónico porque, enquanto pessoa que nasceu com uma deficiência, deveria ter passado a vida a mimar o meu corpo, frágil e vulnerável, fraco e imperfeito.
Mas não. Passei toda a vida a procurar as pequenas imperfeições como se as grandes e óbvias já não fossem suficientes, como se fosse importante encontrar todos os minúsculos ácaros numa sala com um elefante no meio.
As pessoas- eu também- dão demasiada importância ao corpo, embrulho de células, carcaça de epiderme.
As pessoas olham para a minha filha e dizem-lhe: " que linda que és!" ou "que olhos bonitos que tens!" mas nunca lhe dizem "sabes, Ana, que gentil que foste com a tua mã...e" ou "que bem humorada que és!" ou , ainda, "wow, és tão concentrada e atenta!".
Eu digo-lhe muitas vezes que ela é meiga, inteligente, curiosa ou atenta, que tem uma excelente memória ou que feliz que está, que querida que é por nós que tão bem a queremos para lá da cor do seu globo ocular ou do tom de melanina da sua pele ou dos seus fios capilares.
As pessoas elogiam-te nas suas redes sociais- "que magra que estás!"- mas nunca te dizem que luminoso está o teu sorriso nem te elogiam o ar feliz dos teus olhos.
Passei toda a minha vida à bulha com o meu corpo. Para ficar "perfeita" precisava de umas próteses nas pernas, de uma abdominoplastia (sim, que a gravidez fez das suas), de uma redução mamária, implantes dentários, uma lipoaspiração a todas as gorduras do meu corpo e o mais que viesse. Mesmo que viesse não alcançava a perfeição: os rins não são grande coisa, soubessem vocês a falta que me faz a vesícula, a bexiga nunca foi famosa, falta-me o osso cubóide e tenho defeitos de fabrico desde o dia em que nasci.
Para ficar perfeita teria que morrer e voltar à Terra, noutro corpo, noutra vida.
As pessoas- eu também- dão demasiada importância à perfeição, esquecendo-se que os corpos são só corpos, matéria orgânica e que fazem parte do todo que nós somos- imperfeitos e reais.
Não quero mais andar à bulha com ele. Quero aceitá-lo e celebrá-lo nas suas inúmeras imperfeições, nas imperceptíveis e nas de elefante, não quero saber, carcaça da minha alma.
Eu sou mais que células. Sou maior.]







