A vida encarrega-se de me lembrar, volta e não volta, a sorte que tenho por ter encontrado mámen. Sempre que há uma briga, um arrufo, uma discussão ou, invariavelmente, ele acaba a conversa a fazer-me rir e estraga o momento de tensão com meia dúzia de caretas e expressões indecifráveis em açoriano ou a vida encarrega-se de me pôr os pés no chão e chamar-me à razão.
Foi assim ontem: vi uma fotografia no facebook de um gatinho persa abandonado e lembrei-me que queria adopá-lo. Esqueci-me de um pequeno detalhe: mámen estava a dormir e não o consultei.
Hoje de manhã lancei-lhe a pergunta com uma estratégia igual à que usava com a minha mãe:
"- Vais buscar logo a Ana?"
-"Sim"
- "Levas a mala dela contigo?"
-"Sim"
- "Lembras-te de onde combinámos ir jantar com os nossos amigos à noite?"
- Sim
-"Podemos adoptar um gatinho?"
-"Si...Espera lá, matreira, que estava no embalo e já te ia dizer que sim!"
Disse que não e eu fiquei amuada. Danada. Amarrei a burra.
Cheguei aqui ao trabalho e abri o facebook. Um pedido de amizade novo e revirei os olhos. Não aceito pedidos de amizade de ninguém, todos os meus amigos já estão no meu facebook, não quero cá conhecidos, gente que encontro no café nem os pais dos colegas da natação da Ana . Mas a vida- irónica- lembrou-se de fazer com que o Nuno me encontrasse.
O
Nuno* foi o meu primeiro namorado, o rapaz a quem eu dei o meu primeiro beijo nas dunas da praia da Vagueira. Lembro-me tim-tim por tim-tim de todos os traços fisionómicos do Nuno: as sardas, os óculos, o cabelo escuro. Como teria envelhecido? Como se teria adultizado o meu Nuno, paixão de colónia de férias perdida há 20 anos.
Confesso que fiquei nervoso quando carreguei no link do Nuno para aceitar o convite para o adicionar. Agora percebo que era uma premonição do meu inconsciente.
Está igual o Nuno a quando tinha 14 anos e isso não é bom quando se tem... 35. O mesmo ar imberbe, adolescente seboso, cara de Adrian Mole, t-shirt de uma marca de cerveja na fotografia de capa, cabelo sem corte, o mesmo modelo de óculos, semblante bucólico de quem não espera muito mais da vida do que aprender a tocar na viola os acordes do "Don't you Cry" dos Guns.
Na fotografia de capa: um caniche nhonhó, o que é capaz de dizer muito sobre o Nuno actual, se eu fosse de fazer análises projectivas de perfil de facebook.
Que por acaso até faço.
Então uma pessoa guarda uma memória romântica e doce de um primeiro namorado e depois é isto? Só desgostos? Ar de totó sentadinho num banco com um canito de pilhas a tira-colo? É que nem sequer é um cão a sério, um Pastor Alemão, um Labrador, um Galgo.
É um caniche, caramba! Ainda por cima anão.
De repente a história do gato persa, o arrufo, o amuo deixaram de fazer sentido. O meu primeiro namorado tinha como fotografia de perfil um caniche anão o que prova, mais uma vez, que a paixão na era A.M. (antes de mámen) não era cega: era autista.
Olha se eu fosse daquelas pessoas que casa com os namorados do liceu, para o que eu estaria guardada agora, han?
Ok, (desta vez) ficamos sem gato.