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domingo, 21 de outubro de 2018

Perna de pau



Foi assim durante 4 anos. O Rui Monteiro inventou o mimo: "perna de pau". Apontava para as minhas botas ortopédicas, aparelhos de ferro até aos joelhos, presilha de velcro a prender as talas e gritava "perna de pau! perna de pau!".
Havia dias em que me custava ir para a escola, logo a mim, que sempre adorei estudar. Havia dias em que não me apetecia sair para o recreio, logo a mim, que sempre fui sociável e popular, brincalhona e gaiteira. Havia dias em que tinha saudades da escola do hospital, com a educadora Fernanda e outros meninos a terem aulas deitados em macas, todos em reabilitação naquele Alcoitão.
Sempre que, em convalescença de uma das inúmeras cirurgias o absentismo me tocava à porta meses seguidos, suspirava por voltar para junto da professora Emília e das minhas melhores amigas Joana e Sofia. Tinha também saudades do Hugo, minha paixoneta e do Bruno que batia em toda a gente que se metesse comigo. E voltava feliz com as conquistas físicas que a minha ausência me recompensava e com a possibilidade de voltar ao lugar onde pertencia. Mas, dias depois, a vontade morria com o eco das palavras gritadas no recreio "perna de pau! perna de pau!"
Nunca me importei com a minha diferença. Nascer e crescer com uma deficiência física nunca me perturbou. A minha realidade, desde sempre, era aquela, o meu conceito de "normalidade" era aquele, estava bem, tranquila, em paz com quem era, como era e como me sentia acerca disso. Aparentemente, só o Rui Monteiro se importava com a minha diferença, gritando alto aquele "perna de pau" todos os intervalos, todos os dias, todos os anos lectivos. Eu fingia não me importar, nunca verbalizei o quanto acreditava que aquela maldade intencional é que me fazia diferente, aquelas palavras a ecoarem no intervalo, a entrarem nos ouvidos dos outros meninos em jeito de um: "reparem, reparem, ela tem botas ortopédicas e anda de forma diferente!". 
Não era eu que me sentia diferente, era o Rui Monteiro que fazia questão que eu me sentisse. Não eram as minhas pernas encarceradas naquelas botas, magoadas pelos vincos dos aparelhos de ferro que me lembravam da minha diferença, era a voz cantada em jeito trocista daquele rapazinho, franzino e inseguro, que me usava como bode expiatório para desviar as atenções da sua gaguez, da sua dislexia, das suas dificuldades de aprendizagem, da sua própria diferença. 
Passei os quatro primeiros anos de escola sem tocar num gelado "perna de pau". 
Eu não tinha qualquer problema com a minha diferença, eu acreditava no poder da diversidade, eu era bem sucedida nas aulas, uma das melhores alunas da professora Emília, tinha a Joana e a Sofia para brincar nos recreios e o Bruno a dar sovas a todos os que não me queriam incluir a jogar "ao mata", Rui Monteiro incluído. Mas, ainda assim, havia dias em que me apetecia ficar em casa, aninhada no colo do meu avô, a comer o pão com manteiga aquecida nos bicos do fogão da minha avó. 
O problema nunca foi meu: era dele, do Rui Monteiro. Um dia percebi isso. Era Verão e estávamos nas férias grandes e na colónia de férias a Guida pediu-me que segurasse no seu gelado enquanto apertava os ténis. O Perna de Pau derretia e ela gritou-me que o impedisse: provei o gelado! Oh céus, o que andava a perder nos últimos 4 anos, eu, que era uma boa menina, que merecia coisas boas, era eu que perdia a alegria de ir para a escola, a deleite de comer perna de paus, a felicidade de crescer sem fantasmas. Era eu, que não tinha qualquer problema com a minha diferença, que estava a perder. 
O Rui Monteiro lá continuava, cheio de problemas acerca das minhas pernas, a verbalizar isso com ofensas, a correr feliz no recreio, a jogar futebol, a assobiar no caminho para a escola, a comer perna de paus. Não era justo. Nesse dia, percebi isso. 
Desejei regressar à escola rápido, mostrar que não fazia mal, que as minhas pernas não eram bonitas mas que andavam e me levavam para tantos sítios, que as minhas botas eram bastante mais feias que os sapatos de verniz da Cátia mas que, ainda assim, me permitiam dançar, que se a minha diferença não me afectava, não me condicionava, não era mais forte que eu, logo, nenhuma voz maldosa o poderia ser. 
O Rui Monteiro avistou-me, naquele primeiro dia de aulas da quarta classe, "Perna de Pau! Perna de Pau!" Sorri, vitoriosa, olhando-o bem fundo nos olhos! Já não me sentia envergonhada, já não temia ouvir em voz alta o mimo, já não lhe dava qualquer poder sobre mim. Tinha 9 anos e foi, esse dia comum de escola, um dos mais importantes da minha vida.
Eu tinha provado o gelado. E nunca mais abriria mão de me deliciar em dias quentes de Verão com aquele sabor de nata e morango com aquela pequena folha de chocolate por cima só para desenjoar. Eu sabia quem era, assumia a minha diferença e escolhia viver bem com ela. Quando me chamou de perna de pau, nesse dia, senti-o como um elogio, de frescura e sabor: era a minha mente que mandava em mim,  no que sentia, não a voz maldosa do Rui Monteiro. 
Hoje, 25 anos depois, coordeno um projecto de combate ao bullying em crianças com deficiência e hoje, dia internacional da pessoa com deficiência, coordenei uma actividade com 100 crianças da mesma idade que eu e o Rui Monteiro tinhamos naquela altura, falei sobre diferenças mas, acima de tudo, sobre semelhanças, celebrei a diversidade e preconizei aquilo em que mais acredito: todos diferentes e não todos iguais: todos diferentes e ainda bem! Porque ser diferente é ser único e isso é o que torna, cada um de nós, especial. 
Assumir quem somos sem medo de ser único e diferente e fazer disso uma bandeira, a bandeira da diversidade. A minha desenho-a de cor branca, encarnada e um bocadinho de castanho. Da cor dos pernas de paus que deixei por comer naqueles quase quatro anos da minha infância, da cor do perna de pau que a Guida me passou para a mão para eu lhe segurar enquanto apertava os atacadores, da cor das meias que calçava debaixo das botas, nos vincos que os aparelhos me causavam e do couro das botas ortopédicas que me ajudaram a que hoje corra o Mundo pelos meus próprios pés. A que viva, segura, condicionando a MINHA acção e a MINHA vida pela MINHA realidade, não pela opinião dos outros.
Obrigada, Rui Monteiro: não imaginas o quanto fizeste por mim!

quinta-feira, 21 de junho de 2018

A importância de me chamar Liliana



A mudança sentia-a cá dentro,a  instalar-se devagarinho e silenciosa como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos.  Sempre fui crítica, sarcástica (no sentido verdadeiro da coisa e não no eufemismo hipócrita de quem é verdadeiramente mau e maldoso de génese e se quer esconder sob o manto do sarcasmo [mygas, isso não pega, nem que vocês fossem o Harry Potter sob o manto da Invisibilidade, tá?) ]) e irónica, sem medo de dizer o que sinto mesmo que o que sentisse pudesse ferir susceptibilidades, abrir feridas, magoar. A verdade: a minha fidelidade, lealdade e obediência cega à verdade acima de tudo. Tão mas tão errada que estava. 

O momento de clivagem foi a  minha  maternidade. é um cliché- aguentem, também tenho a minha quota para gastar e vou usá-la até ao fim!- e perceber, há quase seis anos a que agora não era apenas eu: era a Ana, eu na Ana, o meu exemplo para a Ana, o reflexo de mim na Ana. Não mudei logo, tipo sacaram-me a miúda do bucho, coseram-me aqui a barriga com o mesmo jeito com que coso os botões da bata da escola dela, e desceu em mim a nossa senhora da sabedoria maternal, da sensibilidade absoluta e da consciência universal. Não, já disse. Veio devagarinho como a puta da celulite nas coxas depois dos 30 anos e foi a Ana que me ensinou. 

Não tenho a certeza se nasci para ser mãe nem se tenho um jeito espectacular para isto mas de uma coisa tenho absoluta certeza: a Ana nasceu para ser filha- a minha filha- e tem um talento único e genial para isto. Agradeço-lhe todos os dias o que muda, devagarinho, em mim.

Eu tinha tudo para ser uma pessoa insegura. Tudo. Nasci com uma deficiência, passei anos da minha infância internada, usei botas ortopédicas até à adolescência, talas para dormir até ser adulta e já namorar, o meu pai é o maior flop da história dos pais e deu à sola quando eu tinha oito anos e deixou-me a mim e à minha mãe em muito maus lençóis, na puberdade fui vítima de bullying por ter uma deficiência e ainda tinha o desplante de sempre ser boa aluna e até marrona do género que vai à escola para estudar e não para ser da malta (nunca tive necessidade de ser da malta nem gosto de papar grupos)- até um bocadinho "croma" do género que fica de rastos quando trazia um 98% num teste para casa e nunca fui para a rua nem tive uma falta disciplinar- à conta do divórcio dos meus pais tivemos que ir viver com os meus avós maternos que não tinham grandes posses económicas e nada- absolutamente nada na minha vida- foi fácil de conquistar. Foi tudo suado até à última gota, custoso e tirado a ferros. 

Acontece esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor: a minha mãe e a minha família nuclear (avós, tios e prima) sempre me souberam amar e fazer sentir amada, protegida e cuidada da melhor forma imaginável e isso fez de mim, provavelmente, a pessoa mais auto-consciente, resiliente e segura que possam imaginar.

"Ah se és tão segura porque tens essa necessidade de o apregoar?" Não tenho. Mas também não tenho que o esconder sob o manto da falsa modéstia que nunca terei. Sei exactamente quem sou, o caminho que já percorri e as merdas que já fiz (oh, e se já fiz muitas, tantas, imensas!) e as probabilidades infinitas de voltar a cometer argoladas na minha vida. Mas também sei todas as conquistas que consegui, todas as improbabilidades e impossibilidades que contornei e alcancei e quais os meus pontos fortes. Sei, exactamente, quem sou e sinto-me amada. É apenas essa a chave para se ser segura: sentir-se bem amada como me sinto. Como sempre me senti. Pelas pessoas certas, pelas pessoas que me importam e as que me fazem falta e a diferença na vida, da forma de amor que reconheço como o que me faz falta e o que chega para me fazer uma pessoa feliz. 

Por não ser consensual e politicamente correcta (o que é isso de se ser politicamente correcta? É ser-se sensato e pensar no que se diz e escreve antes de vomitar palavras pela boca e pelos teclados sem medir o efeito que isso pode causar nos outros? É reler o que se escreve e reflectir se estamos a criticar ações e atitudes ou direccionadamente pessoas específicas, no matter what, só por serem elas? Se sim, pronto, anseio ser essa pessoa sensata e sensível ao efeito que causo nos outros, quero ser uma pessoa politicamente correcta, então!) sempre suscitei reacções nas pessoas: ou adoravam-me ou odiavam-me, sendo que as que me odiavam era mesmo a sério, nunca me esquecendo da hater de estimação que era stalker, enviava emails para a minha família, colocava as minhas fotografias na net numa altura em que eu escolhi ser anónima na blogosfera, criava blogs "sarcásticos" para os quais convidada amigas minhas pessoais para colaborar porque lá está, era sarcasmo, e não podiam haver "vacas sagradas", criou o maior sururu dentro do bicho que ela própria criara e acabou terrivelmente sozinha e triste no twitter, até que mudou de estratégia e espero eu que tenha sido feliz para sempre (gente feliz, não chateia!).

Havia (há) um padrão nas haters deste blog (ou "nas minhas haters", como queiram, não me dou essa importância): pessoas que se tentaram aproximar de mim, criar relação comigo, ser próximas à força, quererem privar, entrar na minha rotina, partilhar momentos de intimidade, implorarem que lhes aprovasse comentários de escárrnio com o pretexto de que partilhávamos do mesmo estilo "sarcástico", frequentarem (algumas até de forma muito activa) eventos blogosféricos dinamizados por mim, estarem lá, quererem ver de perto, perguntarem se podiam pegar na minha filha ao colo, comprarem produtos de uma loja online que cheguei a criar, combinarem sítios públicos para os apanhar em mãos mas, perante o meu recuo de não querer dar logo a confiança desejada, partilhar a cumplicidade unidireccional sentida, alinhar em merdas que não lembram ao menino Jesus, desiludi-las por não corresponder às expectativas que tinham criado acerca de mim (que vem a ser uma coisa diferente do que eu sou e difere de pessoa para pessoa) ou, simplesmente, não aprovar comentários de novos blogs com nick names a colarem-se aos das bloggers famosas e não permitir que através da minha plataforma servissem de isco para as pequeninas piranhas que por aí gravitam na blogosfera, pequeninas para serem tubarões e comer mas suficientemente rápidas, ágeis e com tempo para farejar sangue e rabearem nas caixas de comentários Esse é o perfil das pessoas a quem eu irrito na blogosfera e estes são 99% dos motivos que servem de motor para me passaram a dedicar um tempo de  desamor extraordinário. Sempre o mesmo perfil: o perfil de quem se sente rejeitada, não importada, ignorada ou simplesmente não notada, como se ser notado por uma pessoa que escreve um blog fosse um caso de vida ou morte, um boost na auto-estima, um propósito de vida. Ou talvez apenas a única forma viável para estas pessoas se fazerem também notar, parasitas ou alpinistas de um montanha tão insiginificante e efémera. Talvez um dia perceberão. 

A história das haters lembra-me sempre a da terceira fada da Bela Adormecida que, percebendo que era a única não convidada para a festa (por esquecimento, lembram-se?) terá pensado: "Se não me querem, também não vos vou deixarem esquecer-me..." e vai de largar a porra do feitiço-karma na vida da pobre da Bela Adormecida. Como se quisessem afirmar: "Pela confusão que crio, pelo diz que disse que semeio, pelas meias palavras e metáforas direccionadas e farpas que espeto, pela porcaria que sou e que faço é que eu existo e é esta a única forma que conheço para repararem em mim e não ser esquecida!"

Claro que na atitude dos outros acabamos por rever as nossas e quantas vezes, no passado, poderemos ter caído nessa mesma tentação de criticar só por criticar, atingir as pessoas só por serem as pessoas e não aquelas ações específicas? Faz-se rewind na cabeça e vem-nos à memória aquele post em que se criticou o workshop tolo criado por um blogger, se reagiu de cabeça quente à hater que nos pespegou as fotografias nossas e da nossa família inteira na net  ou que nos difamava diariamente, com a sonsice que conseguiu enganar amigos pessoais pelo caminho, num blog "satírico" que visava ser uma "passadeira vermelha" da blogosfera mas que eia apenas um monólogo da Cláudia Ramos da blogosfera direccionado a mim e do post inflamado com que a desmascarei e gerou uma onda de solidariedade única ou daquela vez em que achámos que, enough era enough, e tínhamos que dizer publicamente que a Presidente do nosso clube de anti-fãs era uma pessoa sem quaisquer escrúpulos, que nos comentários públicos do nosso blog oferecia-se para emprestar uma máquina de aerossóis à nossa filha aflita com uma infecção respiratória, cheia de boa fé e sentimentos de solidariedade, a quem tínhamos permitido constar nos nossos contactos de facebook privado porque nos parecia essa pessoa cheia de boas intenções e que, em paralelo, alimentava um hate-blog em que a special guest era eu.  

Não sou uma santa, não pensem. Mas nunca prejudiquei a vida pessoal de ninguém. Nuca meti famílias ou trabalhos ao barulho nas tricas da blogosfera e sempre agi reactivamente e em defesa. Claro que ao longo destes anos, fiz muita porcaria e  escrevi, no passado, muitas coisas de que me arrependo neste blog. O manto do anonimato, tal como o mando de invisibilidade do Harry Potter, é confortável e dá muito jeito, isenta-nos de uma certa responsabilidade e de uma necessidade de se pensar duas vezes antes de se carregar no botão "publicar".  É confortável porque podemos falar das nossa batalhas com a nossa sogra porque a nossa sogra é uma personagem abstracta e ninguém sabe que é a Dona X. ou podemos contar destrambelhices da nossa mãe sem que ninguém saiba que é a pessoa Y. mas pensando apenas que é a mãe abstracta de uma personagem blogosférica abstracta. 

Nunca gastei energias a ser gratuitamente má para ninguém e sempre que me prejudicaram não me deixei toldar pela raiva. Escolho bem as minhas batalhas e só dedico energia nas que valem realmente a pena. E depois da Ana nascer- lá está- decidi que só gasto energia em batalhas positivas, em situações de justiça ou a melhorar a vida de alguém. Não roubo tempo de qualidade que posso dedicar à minha filha em cusquices ou tricas que não têm qualquer interesse. Uso o meu tempo e a minha energia onde sinto que a minha voz faça uma diferença para o bem. Tudo o resto não me interessa. Não me importa, verdadeiramente.  

Fui eu que decidi, racionalmente, prescindir do anonimato deste blog, mesmo que por causa disso tenha sido prejudicada em várias áreas, inclusive, na profissional, com os nomes das empresas onde trabalhei a serem expostas maldosamente em caixas de comentarios, com posts meus enviados para CEOs, posts sobre a minha sogra enviados para as caixas de mensagens do facebook da senhora e coisas que não lembram ao menino Jesus e olhem que eu sou muito criativa.

Prescindi do anonimato no dia em que percebi que esse acto poderia salvar a vida de uma criança e fá-lo-ia novamente de olhos fechados mil e uma vezes again  (mesmo que não tenha sido atingido o propósito e o Rodrigo tenha morrido primeiro, e depois a Bia ). Ter-me-ia sido, especialmente naquela fase, muito mais confortável ter assobiado para o lado e mantido o anonimato, continuar a escrever chalaças da minha vida pessoal e profissional, não ter que colocar filtro no conteúdo dos posts e este blog continuar o  propósito que me fez criá-lo: ser uma catarse divertida da vida de uma miúda que gosta de escrever, altamente crítica e com um humor auto-depreciativo, observadora e mordaz, impulsiva e que escreve o que pensa sem meias medidas e que "what you see is what you get!".

Nunca balizei ou condicionei o que eu escrevo neste blog por causa das pessoas que não gostam de mim, do que escrevo ou de ambas as coisas. É real. Não tenho a mínima curiosidade em visitar blogs (não visito mesmo, até por uma questão de amor-próprio: não dou visualizações a gente idiota!) que se dedicam à dissertação sobre os blogs alheios (também não vejo esse tipo de programas na televisão para não lhes dar audiência nem compro revistas de fofocas para não contribuir para a tiragem ou clico em links de revistas inúteis digitais para aumentar o número de visualizações), não tenho a mínima curiosidade em saber o que pensam de mim as haters deste estaminé, nunca fui consensual nem tive intenções de o ser, vivo bem com o facto de haver quem não goste de mim ou do que escrevo (às vezes também não gosto do que já escrevi, é assim a vida, crescer em treze anos de blog implica mudar muito e nem sou daquelas que diz que não se arrepende de nada do que fez e que antes fazer e arrepender-se do que não ter feito e ficar a pensar "e se"...) e esta é a mais real das verdades, que pode ser confirmada pelas pessoas que me conhecem e que sabem da minha relação com isto dos blogs.

Mas a perda do anonimato trouxe uma responsabilidade para além da de eu assumir o que escrevo enquanto Liliana e já não enquanto Pólo Norte ou ursa. É que a Liliana é filha da Ana, nora da mãe do Rui, mulher do Rui, prima da Daniela, trabalhadora na ASBIHP e mãe da Ana. E aí tudo muda de figura. Eu não posso continuar a escrever trivialidades que para mim não têm importância quando corro o risco de com isso magoar a minha mãe, fragilizar a minha filha ou fazer com que as pessoas confundam o meu lado profissional (que não conhecem) e fazer juízos de valor sobre o meu trabalho quando isso pode ter repercussões na vida da associação. Não posso continuar a fazer chalaças sobre o guru da auto-ajuda quando descubro que ele é irmão do marido de uma colega que adoro e com isso posso magoá-los ou que posso mandar uma boca com farpa para a figura política que esteve mal numa declaração numa rede social quando é pai de uma pessoa de quem gosto e que é inexcedível na ajuda que me dá em todos os projectos sociais onde me meto, portanto,que foi criada por esse mesmo pai com valores que não só admiro como confirmo de perto. Não posso partilhar desabafos humorísticos sobre reuniões de pais quando os pais dos colegas da Ana sabem que a Ana é a colega dos filhos deles nem colocar conteúdos e matérias hilariantes do meu dia-a-dia que envolvem outras pessoas e que, sem qualquer hesitação, colocaria no passado quando até a senhora do café e a minha gestora de conta do banco sabem ambas que eu sou a autora deste blog. 

Portanto, ao longo dos últimos tempos este blog passou por essa crise de identidade: de eu gostar dele como ele sempre foi, de ter um efeito catártico que me faz tanta falta mas de haver uma necessidade imperativa de mudar, não por via das críticas de quem não gosta dele ou de mim mas para poder preservar e não magoar as pessoas da minha vida real de quem gosto e que gostam de mim.
E porque eu cresci, o blog cresceu, o advento das redes sociais deu-lhe uma visibilidade que ainda continuo a ter dificuldade em imaginar e porque este blog já não é o da ursa, o da Pólo Norte: é o da Liliana.

Acredito que tenha perdido muita da sua espontaneidade e, com ela, muita da sua graça natural, destrambelhice e falta de filtro. É um preço que não me importo de pagar se isso não magoar ou melindrar as pessoas de quem gosto. As melhores histórias (ou as mais hilariantes) são, agora, contadas em privado, em jantares com amigos (muitos que foram trazidos por este blog) à volta da mesa, com gargalhadas reais em vez de lols. 

O blog, necessariamente, mudou.

Durante anos escrevi religiosamente todos os dias sem excepção até a uma altura em que mudei de trabalho (que distava a 170 km) de minha casa e fiquei sem tempo nem energia. Quando alguns meses depois constatei a minha incapacidade de fazer 340 km por dia e estar menos de uma hora por dia com a minha filha e aceitei um projeto em Lisboa estava sem ritmo de escrita e com tanta coisa para recuperar e viver que ficar sentada em frente a um pc me parecia um desperdício de tempo. Desde então- porque vivo muito mais no tempo que não uso para me sentar a escrever- tenho tido mil assuntos dignos de serem escritos e tenho tido saudades de me sentar e escrever como forma de arrumar muitas das ideias que nunca deixaram de me fervilhar e de partilhar tantas coisas giras que tenho descoberto. Mas, por outro lado, não me revejo no novo paradigma da blogosfera dos famosos que decidiram todos querer ser bloggers com equipas de ghost writters a escrever por eles e eles apenas a darem os nomes às plataformas. Também não me revejo no novo paradigma da blogosfera de escrutínio da vida de quem escreve ao invés do que é, efectivamente, escrito e que deveria ser o tema das salutares discussões de ideias. Também já é sobejamente conhecido que não me revejo no poder que publicidade ganhou na blogosfera e não me apetece ser carne para canhão de departamentos de marketing a troco de feijões .

No entanto, continuo a gostar muito de escrever, de conhecer gente fixe por causa do blog (e que dificilmente conheceria doutra forma) e de usar a minha escrita para fazer coisas fixes e ter um alcance que de outra forma nunca poderia almejar. Feito o balanço este blog já virou mundos e fundos, já mudou para melhor a vida de muitas pessoas, tem uma voz de grande alcance e sendo um misto entre destrambelhice e coisas sérias, fait divers e indignações, divagações trágico-cómicas, partilha de momentos kafkianos que não lembram ao Bruno de Carvalho e capacidade de mobilização de massas em torno de causas sociais que, sem o mínimo de modéstia, não reconheço em nenhum outro blog; feito o balanço este blog tem trazido mais ganhos que perdas.

Orgulho-me dele e do que com ele já foi possível alcançar. Dos feitos que ele proporcionou. Das pessoas a quem ele mudou perspectivas de vida, obrigou a pensar diferente, mudou a vida. E do efeito que teve em mim, mais do que em todos os outros, tornando-me numa pessoa melhor. 

Durante muitos meses, nesta indefinição, tive saudades do meu blog e não me coibi de o dizer em voz alta que e que ele era único e não há outro igual. Prometi a mim mesma que em Setembro do ano passado voltaria a pegar nisto a sério, até porque Setembro é forte em new seasons e até começava também o This is us e o GOT,a miúda retomaria a escola após as férias grandes e o trabalho acalma sempre depois dos campos de treino no Verão. Era em Setembro.

Mas acontece que fiquei doente. Gravemente doente E as palavras secaram-me. Literalmente, Com dores de agonia não há paciência para sentar e escrever. Sentia-me muito mal e, em muitos momentos, com verdadeira auto-comiseração. Frágil,doente e vulnerável. E-vocês sabem- eu nem tenho medo de mostrar a minha fragilidade ou a minha vulnerabilidade. Mas para além de não ter força anímica achei que era a altura de me proteger e não me expor. Tinha que gerir as dores, a Ana a deprimir por me ver sempre a piorar e acamada, o meu marido a velar-me todas as noites sem dormir oito horas seguidas durante meses. A minha mãe desorientada. Não me queria expor e permitir que as filhas das putas das aves agoirentas que por aí andam, sem qualquer empatia ou sentido de oportunidade e humanidade, aproveitassem este momento para me atacarem. Não por mim, que já disse, não leio mesmo. Nem pelo Rui que quase nem o meu blog lê, quanto mais os de abutres. Mas pela minha mãe que, nas suas navegações pela internet, não merecia ver nesta altura específica comentários maldosos ou só "satíricos" sobre a filha para quem ela tinha lutado toda a vida para ter mobilidade ser falada nesses antros e em caixas de comentários numa altura em que a filha tinha deixado de andar. Nenhuma mãe merece ter que se cruzar com comentários maldosos e gratuitos sobre os seus filhos, especialmente numa altura em que os seus filhos não têm energia nem força anímica para as serenar e explicar que não importa, que não é para legitimar, que não é para dar credibilidade porque ambas sabemos que eu sou.


Mas depois escrevi o post.

E voltou a acontecer esse milagre de que, apesar de todas as contingências e circunstâncias, sou bafejada com a sorte de ter um forte referencial de amor e aparecem, em número avassalador, as "lovers" em antagonia às "haters".

A primeira- e a mais importante e decisiva em todo este processo- foi a Daniela. Leitora antiga do blog a quem eu nunca tinha posto os olhos em cima e... médica. Foi ela que se importou comigo. Que quis saber. Que me deu a medicação certa para serenar a agonia (já não eram dores, era agonia) e que me reencaminhou para a  equipa clínica certa, a que não desiste de mim, a que me ajudou a estar hoje aqui a escrever, sem dores nem incómodo, como se um milagre tivesse acontecido. A Daniela, a quem devo a qualidade de vida que recuperei, a minha filha a voltar a ir feliz para a escola e a não continuar na escalada de uma depressão aos cinco anos por me ver sempre com dores, a chorar e acamada e o meu marido a conseguir descansar uma noite seguida sem me estar a velar. A Daniela a quem devo a recuperação da minha vida de volta. 

Depois a Patrícia, também ela blogger e médica, que soube falar com a pessoa certa para se tentar encontrar o diagnóstico certo. Que pediu favores em meu nome, que se incomodou, que quis sempre saber. E a Cláudia, leitora antiga, que coagiu o cunhado neurocirurgião a dar-me uma segunda opinião de borla. E a Sofia, enfermeira, que não conseguiu ficar indiferente à minha descrição da dor e marcou consulta em tempo record pedindo favor ao médico com quem trabalha, para eu poder ter um plano b.

A seguir vieram os pobres dos meus amigos, desesperados por eu já não atender telefonemas nem responder a mensagens a perceber pelo blog o estado da nação e a finalmente conseguirem agir à revelia da pior doente de sempre: a Xana a exigir que eu lhe passassse o meu NIB para me depositar o valor da ressonância magnética que o SNS só me garantia para finais de 2019, a Ana Margarida e o Paulo sempre presentes, a Rita a fazer grandes pesquisas e revisões de literatura, a sacar-me artigos e abstracts que nos pudessem apontar um diagnostico, a Ana Luisa a dizer sempre "presente", a contactar sempre com mámen, a reiterar sempre a presença e o apoio e a reencaminhar-me para a melhor osteopata cumulativamente fisioterapeuta do Mundo. E a Eileen que fez escala em Portugal numa viagem intercontinental só para sair do aeroporto a correr e me deixar um abraço e um beijo. 

E depois os amigos que apoiaram sempre e transversalmente:a Rosália e o Andrea a emprestarem-nos durante meses o carro depois do nosso ter avariado para sempre para garantir que a Ana era todos os dias levada confortavelmente à escola sem ter que andar a pé dois quilómetros com o pai a segurar-lhe no guarda-chuva e que eu pudesse comparecer a todas as consultas sem ter que ir de ambulância ou transportes públicos, a MEP a tratar-me de processos legais para os quais eu não tinha qualquer força anímica e que eram de extrema relevância e não podiam ser negligenciados, a Patrícia do BNP Paribas e o Miguel da Fujitsu a garantirem-me a continuidade de projectos de trabalho para o qual eu tinha lançado sementes mas que agora não tinha saúde para colher e acompanhar (e a com isso garantirem que as pessoas para quem trabalho não fossem prejudicadas pelas minha baixa médica); a trupe inteira que se juntou em Janeiro a fazer a minha vez a acarretar móveis e a mobilar um anexo de raiz para garantir que uma mãe e um bebé com Spina Bífida vindos dos PALOPs pudessem sair do abrigo temporário para o qual tinham prazo de saída e pudessem ter um tecto digno para dormir (nunca vos conseguirei agradecer, foi uma verdadeira linha de montagem quando eu já nem conseguia segurar num banco com as dores a serem disfarçadas, minha Paula, comadre Rosa, Leonor, Marta Guerra, Rosa Santos,  Susana e Andreia, e um beijo especial à minha tia Custódia!); a Andreia e a tia Maria Francisco a agilizarem-nos contactos privilegiados para a compra do novo carro em tempo record e a Marta a fazer magia junto do nosso banco para que nos aprovassem o crédito e nos libertassem o valor necessário em tempo record para o podermos adquirir.

Nunca me esquecerei de um momento particular em que estava a agoniar de dores em casa e apareceu-me aqui uma amiga de infância que está emigrada e me vinha pedir apoio porque era vítima de violência doméstica, ao mesmo tempo que uma mãe e um bebé com Spina Bífida me ligam do Hospital Dona Estefânia às onze da noite porque tiveram alta mas não tinham dinheiro para regressar a casa (e o  bebé não comia há horas porque a mãe só fala crioulo e não sabia pedir comida nem tinha dinheiro com ela para resgatar um pacote de bolachas da máquina de vending) e eu com a minha amiga a chorar no sofá, com dores de pura agonia a tentar disfarçar e, de repente, salva por um grupo de póletes que agarrou num carro velho que nem pode circular no Centro de Lisboa e foi resgatar mãe e bebé e os levou, em segurança a casa. A fazer a minha vez.

Tanta gente boa a segurar-me as pontas. A garantir que os meus projectos profissionais não caiam por eu estar de baixa, que o facto de estar acamada e incapacitada para pedir subsídios e apoios para sustentarem estes projectos não era impedimentos deles verem a luz do dia, gente que contribuiu monetariamente, com trabalho, com tempo,com energia. Tanta gente a fazer a minha vez quando eu não podia fazer a minha vez.  Tanta gente que esteve silenciosa durante anos de blog a sair da toca, a mandar mensagens de apoio, sugestões de médicos, partilha de casos, emails de força e energia positiva. Amor. Tanto mas tanto amor. 

Talvez este blog tivesse mesmo que mudar.



domingo, 17 de junho de 2018

O retiro que foi tudo menos um retiro



O Retiro para mim não era mais que o parque urbano principal de Madrid. Sou uma pessoa estranha: entusiasmo-me com coisas novas mas tenho uma alma velha e não me consigo desprender do passado, como se quando o fizesse o estivesse a atraiçoar não só a ele, enquanto passado, mas também à pessoa que fui e que não quero que lá fique mas que continue. É difícil esta gestão de querer uma certa constância, duma lealdade ao percurso sem cair no erro de me tornar rígida face à mudança. Tenho um sentido de justiça old fashioned e sou de uma lealdade canina. 

O que mais ambiciono na vida é a liberdade de viver sem preconceitos, de ser verdadeiramente flexível e open minded. Não fazer juízos de valor nem generalizações abusivas, de não criar rótulos nas pessoas e de respeitar as diferenças de todas elas. 
Participar no retiro estava na minha lista de dez grandes preconceitos (a par das cenas zen das meditações, do poder  curativo das maratonas, da Hello Kitty e dos livros da Margarida Rebelo Pinto mas já não digo que desta água não beberei...) até porque Gustavo Santos, life coaches e uma série de gente oportunista a tentar fazer dinheiro com as emoções e fragilidades das pessoas depois de tirar cursos de 2 meses sobre PNL e Eneagramas sem qualquer background de estudo de ciências do comportamento ou sociais, não ajudam muito a dar credibilidade às coisas. 

A última década foi difícil e dura, talvez crescer implique esta dureza, esta dor, esta confusão e tentativa de conciliação entre quem fomos e em quem, todos os dias, nos vamos tornando. Foi a década mais importante da minha vida com dois momentos verdadeiramente transformadores: a estreia da morte na minha vida (e a luta incessável em gerir o luto) e a estreia da vida na minha vida, com a Ana a mudar tudo para melhor. A perda e o ganho, na mesma linha temporal. O meu marido partilhou, recentemente, um texto que encontrou por acaso e que, de repente, resumiu aquilo que eu precisava tanto de incorporar: "“Tudo que tu amas, tu eventualmente perderás, mas, no fim, o amor voltará numa forma diferente”. Foi esse o mote.

Tenho mil esferas na minha vida e sou muito desorganizada, quer com o tempo, quer com o espaço, quer com a energia que dispendo em todo este processo. Organização só no meu pensamento e nas minhas emoções: sinto que sou boa nisto do sentir e do pensar, mas extremamente caótica na parte do concretizar. 


Passei os últimos sete meses doente- organicamente doente- e tive tempo para uma auto-análise profunda, para tentar discernir o que é um desafio a superar, no que quero investir, no que quero largar e deixar ir porque cria entropia, nas minhas oportunidades de melhoria e nos pontos fortes que tenho que potencializar. Tem estado aqui tudo, na minha cabeça mas era preciso dizer alto para o tornar real, ter testemunhos para me obrigar ao compromisso, ter apoio de quem confio em que me ajuda a questionar-me ainda mais, a percorrer becos que não arrisco a visitar por negação ou evitação, a encarar falhas, fendas e vulnerabilidades. 

Começámos por ser um grupo informal de sete psicólogos que se juntou por via da internet. Todos a querermos trabalhar melhor e de forma mais eficaz e preparada as emoções das pessoas com quem trabalhamos, a querermos trocar estratégias e ferramentas, a investir na troca e partilha de boas práticas. Eu sabia que queria trabalhar nesta área da dinamização de grupos de auto-ajuda com os pais e as famílias de crianças com deficiência, com pessoas com dores crónicas, orgânicas ou emocionais e com pessoas com dificuldades em conciliar alguma das esferas das suas vidas. Eram estes os três grupos de pessoas com quem eu queria trabalhar, são estas as pessoas para quem acho que posso constituir uma mais-valia e fazer a diferença. Outros dos meus colegas queriam trabalhar com outros grupos vulneráveis: mulheres vítimas de violência doméstica, adolescentes, crianças em risco, pessoas com adições, casais e famílias...

Durante três meses criámos um grupo secreto de partilha no facebook: cada um de nós propôs uma atividade, reflexão, ação para o grupo inteiro preparar, de forma a termos um portfolio de sete exercícios de reflexão para poderem servir de base de trabalho no encontro presencial que, entretanto, se configurava como óbvio. O público-alvo: nós mesmos, trabalharmos os nossos issues, pormos a nú as nossas fragilidades, dar o flanco publicamente perante estranhos (é sempre mais fácil perante estranhos), passarmos por todo o processo porque só desta forma poderíamos criar empatia com quem pudéssemos vir a trabalhar no futuro numa metodologia semelhante, mas apropriada e moldada ao perfil de cada um de nós.

Foi duro. Houve muitos dados de anamnese trabalhados e rimo-nos muito sempre que alguém, com um discurso vencido e conformista, lá dizia que, sim senhor, Freud explica (e explica mesmo muitas coisas). 

"Organização só no meu pensamento e nas minhas emoções: sinto que sou boa nisto do sentir e do pensar, mas extremamente caótica na parte do concretizar." Pois que sim. Mas venho muito mais arrumada por dentro, destralhei issues, deitei irremediavelmente fora tantas coisas que estavam cheia de pó e bolor na minha vida, que eu já nunca mais iria usar, que só estavam a ocupar espaço e a estorvar a circulação. Pessoas também, as tóxicas, as que não acrescentam, as que não ajudam e só atrapalham. Trago planos escritos, em papel, tornados concretos e com prazos escritos também para agir, tratar de coisas, concretizar planos, sonhos, desejos, tentar mudar sem medo, tentar não ter medo de mudar por respeito ao passado que passou, deitar abaixo paredes velhas e pedir ajuda para remover os escombros, construir de novo, arriscar em novos planos e pedir ajuda, aquilo em que eu sou melhor quando se trata para os outros e pior no que a mim própria diz respeito.

Em Outubro porei em prática tantas coisas que aprendi, vivi e acredito que poderão ajudar outras pessoas no primeiro retiro "Sentir, pensar, agir" com pais e cuidadores de pessoas com deficiência. Estou entusiasmada e expectante que venham esses dias.
Entretanto vou por um x na extensa lista de "to do" que trago para mim mesma. Com espírito de compromisso e responsabilidade. E com o suporte de seis pessoas que se juntaram ao acaso e que partilharam cinco dias de vida intensos e inesquecíveis. O grupo continuará no facebook e talvez para o próximo ano faremos uma segunda edição, como aqueles grupos de ex-combatentes do Ultramar que se juntam uma vez por ano para lembrarem tempos difíceis de guerra em tempos de paz. Nós também mas cá dentro. Houve revolução em cada um de nós.  

Antes de voltar a casa passei por uma florista e trouxe um ramo de malmequeres. Desta vez, apesar de brancos, cravos encarnados em mim.

[Em Setembro uma colega do grupo dinamizará seu primeiro projecto de grupo de auto-ajuda em contexto residencial (concordámos todos que a palavra retiro tem uma carga que não queremos dar a isto). Será destinado a pessoas que se sentem assoberbadas e em processo de quase burn-out. Interessados podem enviar um email para quadripolaridades@hotmail.com que reencaminho. Eu, para já, tenho em vista o feriado grande de Outubro para preparar o melhor fim-de-semana possível para um grupo de cuidadores que precisa de ser cuidado.]

[De resto, nada temais. Não venho zen-parva nem com clichés e a achar que descobri a luz. E continua a acreditar no poder curativo de um bom palavrão].

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Todos nós podemos ter Bourdain na voz



As pessoas acham que conhecem as pessoas. Cruzam-se com elas, tomam café, às vezes ouvem-nas com ouvidos de escutar, seguem a sua vida, correm e cumprem horários, picam pontos, suspiram nas filas de trânsito mas as pessoas conhecem muito pouco as outras pessoas, embora jurem que as conhecem. 

As pessoas fazem associações diretas, usam mecanismos de poupança cognitiva: é popular é feliz, tem energia é ativo, comunica bem é extrovertido, gosta de comer e beber é um bon vivant.

Se há um ano, casa nova acabada de comprar, trabalho que me realizava milhões, marido espetacular e filha feliz e saudável me dissessem que passado um ano, sem quase nada mudar para além de um mísero músculo, eu estaria a bater no fundo, rir-me-ia alto e a bom som.

Eu sou a pessoa que faz rir, a bem disposta, a que faz o quebra-gelo num grupo de estranhos, a extrovertida, a cheia de lata, a optimista, a de bem com a vida. Não é fabricado nem ensaiado: esta sou eu sempre. Ou na maioria das vezes.  Sempre fui, faz parte da minha essência. 

Um dia, em Novembro, sei agora precisamente o dia e o momento, o meu músculo piramidal saiu do sítio. Foi num sábado. Na segunda não conseguia andar e pedi à minha amiga enfermeira que me desse uma injecção de Relmus com Voltaren. Fui trabalhar cheia de dores mas a tentar ignorá-las: eu não sou a pessoa que cede a dores de corpo. Nessa mesma semana, viajei em trabalho até Estocolmo e as dificuldades de locomoção eram cada vez mais e maiores. Culpei o cabrão do frio, lá está, e os suecos e as almôndegas do IKEA, que se é para culpar, culpa-se com dignidade. 

Dezembro foi todo com dores, o Natal cá em casa com prendas compradas à pressão porque andar mais de cinquenta metros no shopping era uma tortura e quando a passagem de ano chegou, decidi ficar em casa, sentadinha sem sair do lugar a jogar jogos de tabuleiro. Era a perna, eram as costas, era tudo, as dores não melhoravam. 

"O que vale é que nunca te falta a boa disposição!"- diziam-me as pessoas, como se a minha essência fosse automaticamente prevalecer sobre a minha energia, o meu estado anímico, as dores reais no corpo, na matéria, nos ossos da anca, na lombar onde eu carregava o peso das costas vergadas, nos glúteos que doíam de forma agoniante, na perna que não cumpria a sua função. 

"Ah, já passaste por bem pior e passou, tens é que ter paciência e ânimo que isso se vai resolver"! Vais ver!" - Não via. Não se estava a resolver. Não se descobria a causa da dor. O neurocirurgião descobriu uma hérnia mas a descrição das dores não se podia dever a isso. A cirurgia não iria resolver o problema, que ele não sabia de onde vinha, só sabia de onde não vinha e não era da poda dele. Deu-me alta, com as mesmas dores, as dores a piorarem, as insónias a sucederem-se, a privação de sono porque virar-me na cama era espetar facas no glúteo, mexer-me era queimarem-me a coxa. 

Mudei de especialidade. O ortopedista que me dizia que percebia era de joelhos, encaminhou-me para o outro que era especialista em pés e já, se sabe, aquilo não era dos pés nem dos joelhos e o terceiro, numa consulta épica, olhou para um raio-x e gabou-me os ossos da anca: alinhadíssimos e perfeitos. Deu-me alta. Deram-me todos. Um a um, como quem decompõe o meu corpo em bocados e analisa pequeno orgão a orgão, função a função, esquecendo-se que o todo é mais que a soma das partes. A esta altura eu vivia em agonia. Não dormia com dores, não falava com dores, não tinha paciência para interagir com dores, não fazia nada em casa com dores. Acordava com um único objectivo: encontrar uma posição minimamente não-invasiva que me permitisse sobreviver mais um dia, sem me apetecer bater com a cabeça nas paredes e querer desaparecer. 

A esta altura as pessoas não me viam, por isso, não diziam aquelas coisas parvas que dizem as pessoas que acham que conhecem as pessoas, que eu tenho boa disposição, e que vai passar, e que já lidei com pior e sobrevivi e o caralhinho com toda a gente: eu estava a agonizar de dores. O meu marido não dormia porque eu tinha dois estados nocturnos: ou chorava com dores ou pedia mais um medicamente para S.O.S., um copo de água, uma massagem para aliviar a dor ou um abraço para poder chorar no colo dele sem vergonhas.Sempre baixinho, para não acordar a Ana. 


Não queria preocupar a minha mãe, que me dizia aquelas coisas que as mães dizem quando estão cheias de miaúfa mas não podem mostrar o flanco aos filhos: "Vá, endireita-te!", "Procura outro médico!", "Não te podes entregar a essa dor: tenta andar, tenta contrariar, vai ao fisioterapeuta, ao osteopata, à acupuntura, ao fisiatra!". E eu não dizia nada, que às mães não podemos dizer que não nos conhecem bem, a minha conhece e sabe que eu costumo reagir a esses "Call to action" mas agora era diferente.

Agora eu voltava, um dia, da neurologista que me respondeu que, na ausência de uma resposta conclusiva, eu teria dor neuropática e que teria que me acostumar à ideia, que iria ser sempre assim, uns comprimidos até ao resto da vida e a assimilação de que ficaria com menos mobilidade de forma progressiva. Agora eu chegava a casa a chorar e a minha mãe não sabia o que mais me dizer (disse mal da médica, o que ajuda sempre, a minha mãe é muito boa nas soluções de alívio paradoxais!), agora eu estava apática, agora eu estava parada, agora ela não sabia quem era aquela parte de mim. Nem eu. 

A minha filha começou a somatizar. Saía para a escola de manhã e eu estava a dormir, só conseguia encontrar uma posição e adormecer já de madrugada, o meu marido não me acordava para o ajudar nas manhãs, levava-a sempre a dar-me um beijo de leve, para não me acordar e eu sentia-o e sorria sem abrir os olhos. Voltava da escola e eu estava deitada no sofá, olhos inchados de chorar, olhar perdido de quem não sabe para onde vai, desconsolo de quem não encontra alternativas, se quem não se reconhece naquela carcaça dorida e apática, desanimada e em agonia física. Tentava mostrar-me igual mas ninguém nos conhece melhor que os nossos filhos, que nos conhecem de dentro, do tintino e da intuição. A meio do período a educadora enviou-me um email: a Ana andava triste e cabisbaixa, passara a desenhar-me sempre de cama e num período em que o tema das emoções fora o escolhido, lá vinha à baila o que os fazia tristes, felizes, zangados. As respostas da Ana giravam sempre à volta do mesmo: o que a fazia triste era a mãe estar doente, o que fazia feliz era a mãe não ter dores, o que preocupava era a mãe não poder voltar a andar, o que a frustrava era a mãe não lhe poder dar a mão por causa das canadianas e o que a zangava era os médicos não curarem a perna da mãe. Nós já suspeitávamos, conhecemos bem a nossa filha, mas, por outro lado, ninguém com dor crónica e sem encontrar medicação adequada consegue manter uma fachada para proteger os filhos. Nem eu, que sempre fui a pessoa que faz rir, a bem disposta, a que faz o quebra-gelo num grupo de estranhos, a extrovertida, a cheia de lata, a optimista, a de bem com a vida. Nem eu, que sempre fui a mãe optimista e energética, hiperactiva e feliz só por ela existir. 

Era tudo duro demais e agora ainda mais, com a Ana a sentir-se assim, a querer parentificar-se, aos 5 anos, a perguntar se quero que o pai traga o comprimido y ou a cápsula z enquanto ela traz o copo de água, a fazer-me cafuné e a beijar-me: “já vai passar, mamã!”

Veio a culpa de estar doente e a frustração de não ser a mãe ágil, saudável e enérgica que os 5 anos da Ana precisam. O meu marido estava exausto. A minha mãe estava perdida e confusa, sem saber o que fazer. A minha filha profundamente preocupada e triste Não atendia as chamadas dos meus amigos. Não abria janelas de chat no facebook. Não me apeteciam visitas nem socializar. Sair à rua era um suplício dantesco. Um dia, dei por mim a pensar que se eu morresse seria um alívio para mim, que viver assim sempre com dores e agonia era uma merda, que viver assim sem ser uma mais valia para a minha família, a dar trabalho, a provocar preocupação e angústia, a não corresponder aos requisitos de mãe que a minha filha merece. 

Procurei ajuda. Para as dores de corpo e de alma. 

Ainda não estou boa mas estou sem dores. Pelo menos de corpo (as de alma estão a acompanhar, devagarinho, as pequenas conquistas: largar as canadianas de vez e poder voltar a andar de mãos dadas com o meu marido, conseguir estar sentada e suportar o peso da minha filha num abraço no meu colo, dormir uma noite inteira sem dores). 

Valeu-me uma médica de Medicina interna, aquela especialidade que não goza de nenhum status quo, sem o ego boost dos neurocirurgiões que me foram dando alta e nunca me mandaram despir para ver onde era a dor, chegava a ressonância magnética e a TAC, não carece de se deitar na marquesa; sem a especialidade da especialidade dos ortopedistas que só percebem de ossos, ou joelhos ou ancas e que nunca me mandaram despir para ver onde era a dor, chega o raio x e a ecografia, apalpar a zona para quê, perguntou-me um deles,meio ofendido. Uma médica de Medicina interna que me ouviu, perguntou, deixou eu explicar, tratou das dores para eu poder sossegar e tratar do diagnóstico, reencaminhou-me para uma médica de medicina física e reabilitação que me viu de lágrimas nos olhos quando a primeira coisa que me sugeriu foi que me deitasse na marquesa para ela poder olhar o meu corpo, tocar nos músculos, nos ossos, na pele e na carne, procurar- finalmente- a dor!

Ainda não estou boa mas estou no processo de encontrar e resolver a causa, com um exame e um procedimento clínico específico, assim o SNS me encurte o tempo de espera. Ainda ando a medicação cavalar, os sonos ainda se trocam, às vezes fico desmemoriada e com menos rapidez de raciocínio. As curas têm efeitos colaterais. 
No caminho, um rasto de destruição: a dor continuada (ou crónica, como a queiram chamar) mata por dentro, dá cabo da cabeça, da energia. do estado anímico, da boa disposição e do optimismo, corrói a essência como traças na roupa, deixa-nos com buracos por dentro, vazios e ocos. E eu também. E a mim também. 

Agora estou a tratar de mim por dentro da matéria. Porque, no meu caso, a dor orgânica contagiou a dor na alma, na cabeça, nas emoções. Deixou-me de rastos e uma sombra da pessoa que, há um ano, se riria se lhe dissessem que estaria com sintomas depressivos. Eu não era uma pessoa com esse perfil. A mim nunca me faltava a boa disposição. Já tinha passado por pior, e tinha sempre sobrevivido. 

Na maioria das vezes somos os piores inquilinos das nossas próprias casas: somos exímios em tratar da fachada, pintamo-la para que a casa fique bonita para quem passe: abrimos as janelas, sacudimos os tapetes, a seguir tratamos de estender a roupa no estendal, pôr as peças brancas a corar, deixar o sol entrar por todo o lado. Lá dentro limpamos o pó, varremos e passamos uma esfregona. Se alguma coisa se estraga mandamo-la consertar na medida da importância da funcionalidade ou do incomodo que o estrago nos causa. O mesmo connosco: tratamos mais depressa uma dor de dentes aguda ou uma gripe que até é viral e sabemos que passados x dias passa que uma tristeza e uma melancolia que se pode arrastar anos, como uma pequena cárie emocional que devagarinho vai apodrecendo ou tornando oco o sentir.

Não queremos saber, evitamos pensar nisso, não priorizamos, não é urgente, deixamos para depois, quase sempre para quando um abcesso feio não nos deixa dormir e já não há nada a fazer ao dente senão arrancá-lo. O problema é que a alma, as emoções não se podem arrancar e colocar implantes ou próteses nos seus lugares. Tal como numa casa em que deixamos tudo num brinco mas nunca conseguimos dedicar tempo ao que está dentro dos armários, a arrumar as gavetas, a imprimir as fotografias em vez de as deixar reféns nos pcs, a organizar o que está “escondido” dentro de portas ou debaixo do tapete.

Achamos que uma dor de estômago é mais importante que uma dor de alma,

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Mas no dia seguinte ao meu 37º aniversário escrevi assim..



[37 anos e um dia. 
Já penso na minha própria morte (durante mais de duas décadas não pensei nela), na minha mortalidade e finitude. 
O futuro está sempre na sombra e no encalço do presente. Li um dia que somos velhos quando temos mais memórias que sonhos, mais recordações do que projectos e planos, mais lá atrás, caminhos e estradas velhos conhecidos que atalhos desconhecidos por explorar. Estou cheia de sonhos simples e concretizáveis e guardo com alfazema num canto do meu coração todas as memórias de afectos e amor. Tudo o resto não tem espaço em mim, nem o rancor nem o ódio, nem coisas tóxicas nem nada que não me tenha acrescentado. O meu coração tem apenas memória RAM para o passado bom e o futuro de paz e leveza, que é isso que espero enquanto for envelhecendo. Dizem aos mortos "que a terra te seja leve" mas eu acho que deviam dizer aos vivos que o ar lhes seja leve para que o pensamento, os sonhos e os planos voem livres como o vento. Um céu leve. 
Deixei de saber só o que não quero e passei a ter uma clara e nítida noção do que quero. Quero a saúde minha e dos que amo, quero quem me quer bem por perto, a intimidade reservada para as gargalhadas de quem me ama na mesma proporção do que eu os amo. Quero reciprocidade e merecimento. Quero relações fáceis e simples, sem cobranças nem julgamentos, sem truques na manga nem agendas secretas, sem cerimônias nem formalidades. Quero ser eu, sem pensar no que dizem os outros. E quero só quem me quer assim, quem goste de mim como sou e não me queira, projecte ou fantasie diferente ou à sua medida. O meu molde é torto e único e nunca me conseguirei encaixar. 
 Quero sentar-me com as pernas à chinês no passeio se estiver cansada, não me importar com maneiras socialmente impostas, dizer vernáculos e rir alto, usar decotes e não fazer fretes e quando me disserem que já não tenho idade para isto, poder fazer um pirete e cagar-me para o facto da idade não me perdoar. 
A vida não é um juiz do certo ou do errado, não traz reguada incorporada e no fim morremos todos. Quero fazer o que sempre fiz: o que me dá na real telha, o que me faz sentir-me fiel aos meus valores e leal às minhas crenças. 
Quero morrer livre. Sempre livre.]

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Entretanto fiz 37 anos




E não gosto grande coisa disto dos 30, se vos disserem que, sim senhora, a maturidade e o auto-conhecimento e que nos sentimos mais seguras e confiantes pois que pr'ó caralhinho. 
Tenho saudades- muitas!- da frescura dos vinte, da impulsividade e de me borrifar para as consequências, de não ter medo de arriscar e avançar, de não ter a sombra do dever e da obrigação de ter juizinho que tenho filhos para criar- não gosto de ter juizinho nem de ser crescida nem de ser adulta nem do papel social da mãe de família. 
Já vi(vi) demasiadas coisas na vida, já conheço de cor alguns guiões e como acabam uma data de histórias, sinto enfado mais vezes do que gostaria e só não reviro mais vezes os olhos porque já não sou adolescente e tenho auto-percepção e  auto-consciência e um super ego de 37 anos que me manda sorrir e acenar, desligar o cérebro enquanto os outros beca beca e blá blá. Às vezes pareço exausta e cansada e distraída e esquecida mas, na maioria das vezes, desligo porque estou fartinha de clichés em geral e de muitas pessoas em particular. Já consigo adivinhar o perfil das pessoas com que me cruzo, compará-las a outras, saber o que vem a seguir. Poucas coisas me surpreendem, até a mim própria já conheço de cor e salteado e há dias em que mal me aturo e não me consigo desatarrachar. 
A vida é muitas vezes a mesma coisa e uma pessoa habitua-se mas fica sempre na expectativa de que um dia se surpreenderá mas já ninguém se casa com 37 anos, já não há bodas nem copos d'água, o romantismo está pela hora da morte, as crianças não se batizam, os festivais de Verão afiguram-se a muitas máquina de roupa a lavar peças com pó e a conta da electricidade a bombar, praia só nas horas kids friendly, saídas nocturnas ahahahahah e bom bom, mas mesmo bom, é dormir a sesta a seguir às refeições e comer uma refeição quente seguida sem interrupções, sem ajeitar ganchos, sem "come de boca fechada", "vá, a fruta tem mesmo que ser!" e tudo e tudo. 
Estou uma beca esmagada com tantos estímulos visuais e sonoros, e redes sociais por todo o lado e gente a tentar comunicar ao telefone, ao telemóvel, ao whatsapp, por email, sms, mensagens de facebook e directs no instagram e eu bloqueio e não respondo a ninguém, não porque seja antipática- que sou muitas vezes- nem snob nem com a mania mas apenas desorganizada e bloqueada com tantos estímulos vindos de tantos canais e tendo como único alvo receptora eu.
E chamam-me cidadã, filha, mulher, mãe, doutora, psicóloga, contribuinte, eleitora, utente, participante, cliente, artista da cassete pirata e tenho bué saudades de ser só a Liliana e de poder escrever poesia sem me sentir tontinha e pueril e poder dizer bué em voz alta sem parecer ridícula como os trintões da idade da minha mãe que insistiam em dizer muita nice, és um borrachinho e vais à boite.
Não me apetece ir para o Lux de saltos altos e sair à noite com frio é um convite infame- ai que quentinha e feliz que estou no recato do lar, pés confortáveis em meias de lã no Inverno, amigos em casa e conversas noite dentro ao invés de discotecas ruidosas e roles plays de diversão porque é suposto, porque tem que ser, porque é sábado à noite- mas que alegre e eufórica que eu era quando sair à noite com os dedos dos pés num farrapo e música em decibéis ofensivos me parecia o melhor programa de sempre. 
Não me apetecem novos amigos nem relações em que tenha que me esforçar, para me esforçar e forçar já basta a vida, anseio por coisas básicas, pessoas básicas, diálogos básicos, piadas básicas, já percebo as donas-de-casa  de meia idade que curtem o Goucha, os cotas que arranjam miúdas com metade da idade deles e os velhos que jogam dominó e curtem anedotas à Malucos do Riso que para pesada já é a vida, as pessoas a morrerem, a minha mãe que não deixa de fumar, a miúda que anda chateada com o regresso às aulas, a quantidade de trabalho que não vê despacho, o corpo que já não funciona como nos tempos áureos e as estrias na barriga.

Entretanto fiz 37 anos e os 30 não são os novos 20: são os novos 60.

[Sim, sou capaz de estar cansada. Ou de estar mesmo a precisar de enfardar sushi]


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Desejos de pré-aniversário

Que a minha mãe deixe de fumar. Conseguir arranjar trabalho para todos, vá, pelo menos 4 ou 5 com elevado potencial e a quem ninguém dá emprego porque têm uma parte do corpo que não funciona bem. Um jantar lá fora, de carne no carvão e um bolo "Les gourmandises de Sophie" com velas a dizerem 30, não serão 30, serão mais 7 mas a negação é um direito que me assiste. Somersby fresquinhas para brindar. Que a minha mãe deixe de fumar. Arranjar um tatuador que alinhe pro-bono naquela ideia maluca de tatuar próteses ortopédicas. Ou uma empresa que queira personalizar pára-raios de cadeira de rodas. A saúde da Ana, sempre, mais que tudo. Um mergulho nocturno, a dois, na piscina. Uma Nikon como único presente, mesmo que seja em segunda mão (não vale a pena, Canon: não fomos feitas uma para a outra!). Se não puder ser, então um bordado da Andrea ou aquele quadro maravilhoso da Movelvivo. Ou um Manel e uma Maria feitos de crochet lá para os lados de Ponte de Lima. Abraços de quem tenho falta que me abrace. Gargalhadas no ar. Um desenho da minha filha. Uma fotografia bonita de nós os três. Que a minha mãe deixe de fumar. 

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Há um episódio do "This is us"...




... em que é véspera de Natal e a Kate tem que ser operada de urgência. 
A mãe agarra num raminho de pinheiro e coloca-o na mão da filha, reforçando que "nada pode correr mal na véspera de Natal". 
No dia 21 deste mês- dia do aniversário do meu avô- a minha vida podia correr muito mal, o pior que me podia acontecer e olhem que a mim já me aconteceu muita coisa manhosa...
No dia 21 de Junho- dia de aniversário do meu avô- na sala de espera de uma clínica pensei no "This is Us": nada pode correr mal no dia de aniversário do meu avô. 

Não correu. Soube-o ontem, depois de uma semana de insónias, angústias e um aperto no peito nunca antes sentido. 

Ainda que já acreditasse, agora sinto-o com mais força, Sim, acredito em milagres. 


[Obrigada, avô!]

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Manias

Sair de casa só a horas certas. Latas. Comer sempre na mesa da sala de jantar. Estender a roupa com as molas todas emparelhadas por cor. Caderninhos comprados compulsivamente e que nunca tenho coragem de estrear com rabiscos. Ler sempre antes de dormir. Relógios. Cantar sempre que oiço música no carro (mesmo que desconheça por completo a letra). Ter sempre água fresca no frigorífico. Conservar no roupeiro roupa que nunca mais voltará a estar na moda (e que, também, nunca mais me irá servir) por razões emocionais. Comprar frescos em quantidade suficiente que daria para alimentar um exército para os acabar por ver estragar no frigorífico. Descalçar-me assim que chego a casa. Comprar agendas e achar que este ano é que é... e escrever nelas só até fevereiro. Cheirar livros novos. Nunca lhes dobrar páginas. Contas de instagram de casas bonitas. Levar sempre para férias uma mini-farmácia na mala de viagem como se não houvesse farmácias no destino. Ler blogs só de gente de quem gosto. Mergulhar sem conseguir tirar o dedo do nariz. Óculos de sol. Dizer que não tenho qualquer mania.

domingo, 1 de janeiro de 2017

No último ano (adeus 2016)



Comecei o ano numa festa de garagem. Confirmei a minha paixão pela gastronomia do Médio Oriente. E do Líbano, em particular. Preocupei-me meses seguidos com a saúde da Ana. A Ana mudou de sala e deixou de ficar doente. Fui ao Porto uma vez, duas, dezenas. Rendi-me às evidências que a minha colite e a minha falta de vesícula não se coadunam com francesinhas. Com muita pena minha. Graças à Mónica Lice e a um grupo espectacular de voluntários vi a ASBIHP ser pintada e ficar com uma cara tão limpinha. Voltei à Polícia Judiciária e ajudei a tornar a sala de vítimas de pedofilia um sítio digno e de afectos. Choraminguei ao ver o resultado final. Ajudei a Ana a completar a sua primeira colecção de cromos. Mascarei a Ana de sereia. Aprendi a trabalhar com uma pistola de cola quente. E vi-a muito, muito feliz. Conheci a pessoa mais importante deste ano (a Leonela) e que, em 2016, mudou a vida da Ana Rita, suportando os custos de uma professora que, durante todo o ano, a ensinou a ler. Fui à Serra da Estrela ver neve e não vi um floco sequer. Cantei os parabéns ao meu amor rodeada de estranhos. Voltei ao Grande Hotel das Caldas das Felgueiras e senti-me, como sempre, em casa. Dancei música cubana no Carnaval. Comemorei o dia dos namorados em casa, a três, a comer uma pizza pirosa em forma de coração. Fui ao Teatro São Luiz ver um meu amigo actor no palco. Tive uma paixão platónica pela Catarina Wallenstein. Senti orgulho pela Bairro do Amor ajudar a concretizar o sonho de uma pequena bailarina. Contei com a minha grande amiga Ana Isabel e a sua Móvel Vivo para tornarem as noites da Rita e do Luis mais dignas. Vi a Segurança Social saldar contas comigo. Reuni com a Marta, a Neuza e a Rafaela em Coimbra e sonhámos juntas muitas coisas que se concretizaram no ano que passou. Apaixonei-me pelo Galerias. Parti um dente a comer um caramelo. Recusei 5 convites para ir à televisão. Disse, porém, em directo na televisão nacional que tem dias que sou um bocadinho cabra. Deixei a Marta Tex provar-me que toda a gente- mesmo a com a motricidade fina de uma foca como eu- consegue desenhar. Apanhei erva azeda com a minha filha. Rejubilei com a eleição de Marcelo Rebelo de Sousa como Presidente da República. Ostentei. orgulhosa, a minha pulseira do Bairro do Amor criada pela Fio a Pavio. Instituí, oficialmente, ao sábado de manhã, o pequeno almoço de panquecas. Reabracei os meus amigos Xana e Vitor. Jantei na melhor varanda de Lisboa a melhor comida do Mundo nos Fenícios. Voltei ao Foxtrot. Fui em trabalho aos Açores. Levei a minha filha comigo para rever os avós. Declarei, oficialmente, o Faial como a ilha que mais tem eu ver comigo nos Açores. Lambuzei-me em sopas do Espírito Santo e em alcatra com milho como se não houvesse amanhã. Fiz sempre continência a kima de maracujá. Descobri a CASA e rotulei-a como o melhor spot dos Açores. Brindei com gin no Peter's. Dei entrevistas para alguns de jornais. Ouvi do meu amigo Luis as piores notícias que alguém pode ouvir. Fui portadora das mesmas e dei-as aos meus. Trocei das prendas "úteis" do Dia da Mãe que se fazem nas escolas. Mas adorei a inutilidade que a Ana me ofereceu.  Recebi o honroso convite para falar sobre a minha experiência como autora de um blog na Escola Superior de Comunicação Social de Lisboa. E dei o meu melhor. Emocionei-me com a corrente de amor, de Norte a Sul do país, que se traduziu na organização de tantos eventos solidários para se angariar fundos para o desafio semestral do Bairro do Amor. Dei uma folga às minhas maleitas e comi a  única francesinha do ano na Francesinha Solidária, organizada pelo Bairro do Amor Porto e pela minha querida Marta. Fui sempre bem recebida pela Flávia. Assisti a um karaoke do demo num bar em frente à praia do Senhor da Pedra. Tornei a Casinha, no Porto, num dos meus spots preferidos. Provei o melhor waffle do Mundo pelas mãos do David e da Ana Águas. Fui feliz com o meu casal preferido de todos os tempos na Ericeira. Palmilhei Budapeste a pé de lés a lés, de madrugada. Atravesse a Chain Bridge a namorar. Andei de mãos dadas na Ilha Margarita. Assisti a partidas de futebol da selecção nacional no meio de muitos húngaros. Perdi um voo e desta vez não foi por culpa minha. Acompanhei a minha melhor amiga nas suas aflições de pré-mamã sempre que fui requisitada para tal. Adoptei Papo-Seco- o gato. Conheci Jesus e ele é goês. Vi Portugal consagrar-se campeão europeu de futebol. Subi ao Porto para participar numa renovação de um orfanato muito especial e isso foi, provavelmente, uma das coisas mais bonitas em que já participei na minha vida. Passei o meu aniversário com as minhas pessoas preferidas no Mundo no querido Hotel Golf-Mar. Recebi, pela última vez, uma chamada do meu tio no meu dia de aniversário a desejar-me parabéns. Abracei a minha irmã de outros pais (um xi-coração Xuxi!)  e embebedei-me com ela no Jardim da Parada para comemorar os meus 36 anos de vida. Tive saudades dela muitos dias ao longo do ano. Comovi-me nas bodas de prata e na renovação de votos dos meus amigos Vanda e Paulo. O meu tio morreu comigo à sua cabeceira. Fiquei com uma dívida de gratidão eterna ao meu amigo Luis. Chorei muito, sozinha. Almocei com as minhas bloggers preferidas e senti-me minúscula ao seu lado (beijinhos Mariana, Rita Maria, Luna, São João, Joana, Izzie e Dora). Confiei a minha filha às minhas grandes amigas Rosa e Cláudia e reforcei a certeza de saber com quem posso sempre contar. Fui à Tailândia com a Paula e a São João. Conheci a minha tia Maria Francisco num encontro inesperado. Fui ao mercado todos os sábado de manhã que pude numa rotina que me é tão doce. Conheci a minha sobrinha Lara, acabada de nascer, nos Lusíadas. A Somersby foi minha grande companheira de Verão. Soltei as minhas feras. Organizei uma festa de aniversário de sereias para a Ana com a ajuda da Maria João. Todos os meus amigos acorreram para me mimar na festa de aniversário da minha filha. Fiz a minha filha muito, mas mesmo muito, feliz. Fui ao S&J fazer madeixas e saí com o cabelo todo queimado. Jurei a mim mesma nunca mais ir a um cabeleireiro de shopping.  Contei com a ajuda de muitos amigos para que 30 colonos pudessem desfrutar de uma semana de férias memorável (obrigada a todos, nunca vos conseguirei agradecer o suficiente!). Trabalhámos a questão da imagem e da autoestima e defrontei-me com diferenças notáveis em cada um dos participantes (obrigada Mónica Lice, Ema, Sílvia e Ana Manana!). Mudámos a vida de muita gente.  Assisti a um luau. Vi pessoas com deficiência motora andarem de Harley graças a um conjunto de amigos do meu coração (Tehur, Tiago and whole great family; love you!).  Contei com os braços de amigos (Luis, Hugo, Manelita e Marta: sois os maiores!) para que alguns amigos com deficiência gozassem as únicas idas à praia e saídas nocturnas do seu ano. Contei com a ajuda preciosa e única da minhas Dé, Mep, Ziza e Diana numa semana inteira de voluntariado em versão Big Brother. Apresentei à minha filha a Aldeia José Franco. Comprei-lhe uns binóculos e deslumbrámo-nos na Tapada de Mafra. Fizemos muita praia, quase sempre seguida de pão com chouriço estaladiço ao entardecer. Ouvi as gargalhadas revigorantes da Ana e da sua melhor amiga Laura dentro de bolas gigantes no Clube Vimeiro. E nós os pais juntámo-nos. Tomámos tantos banhos de mar quanto conseguímos. Eu e mámen celebrámos 10 anos de casamento no aldeamento mais bonito de Portugal no Luz Houses. Reencontrei-me com Deus graças ao padre Cruz. Renovámos os nossos votos na igreja do Hospital dosCapuchos, no meio de uma multidão de desconhecidos e foi libertador. Fomos felizes em Tomar. Comemorei os 81 anos do meu tio-avô numa noite encantadora. Li, todas as noites, uma história à minha filha antes de dormir. Estive muito doente. Não corri nenhuma maratona. Participei num fim-de-semana memorável onde pessoas com mobilidade reduzida puderam experimentar desportos radicais. Contei com a minha amiga Sandra para formar cuidadores. Conheci a Sandra. Contei com o Fred e a fabulosa equipa do Instituto de Medicina Tradicional para que utentes e cuidadores tivessem uma experiência memorável. Tive saudades do meu marido, ausente numa viagem de trabalho. Limpei as lágrimas a uma amiga querida numa noite de copos. Avarei o meu pc e, progressivamente, fu tendo menos necessidade de escrever.  Lancei as minhas fichas para que 2017 seja de crescimento profissional. Fui a sítios pela primeira vez: São João da Madeira, Arronches e Monforte. Joguei ao Tragabolas. Desejei voltar a ter uma Nikon. E um quadro bordado por uma instagramer. Reafirmei como minha causa a luta pela celebração da diversidade. Fui ao Algarve muitas vezes mas é sempre como se fosse a primeira vez. Não comecei a correr. Comi a melhor carne do alguidar do Mundo em Ponte de Sor. Deslumbrei-me com os céus carregadinhos de sonhos na 20ª edição do Festival de Balões de Ar Quente. Coleccionei brindes do LIDL para fazer a minha filha feliz. Viciei-me em açaí. Cumprimentei uma Secretária de Estado. Andei de cacilheiro. Comecei a trabalhar com uma equipa como há muito não tinha, de tão boa que é. Delirei com as primeiras frases em Inglês da Ana. Descobri a melhor tasca de sempre numa aldeia perdida da serra de Sintra graças aos meus amigos Ana Luisa e Nuno.  Provei comida indonésia na estufa fria com os meus grandes amigos Ana Margarida e Paulo. Rezaram-me um desconjuro. Percorri milhares de quilómetros. Fui ao Circo.  Ouvi a Ana Rita a ler em Dezembro. Fui uma fazedora. Lutei muito contra todos os preconceitos: meus e dos outros. Ministrei largas dezenas de horas de formação. Tornei-me- orgulhosa- cliente do Novo Banco. Vi passar apenas um mês entre ter visitado a casa dos meus sonhos e a escritura-la. Passei a viver numa casa nossa que adoro. Comovi-me com o dia em que eu e mámen nos vimos unidos pela propriedade de uma imóvel. Vivi mais de seis meses sem telemóvel. Continuei a perder muitos comboios. Chorei a morte de Prince. E a de David Bowie. O Bairro do Amor, os seus voluntários, as suas actividades e as pessoas que dele beneficiaram comoveram-me muitas, muitas vezes.  Não aderi às dietas paleo. Não me tornei vegetariana. Não comecei a correr. Em poucas horas os meus amigos ajudaram-me a angariar dinheiro suficiente para comprar 40 colchões, 40 camas, levar 30 pessoas a uma colónia de férias e presentear com um tablet 60 pessoas que precisam que a comunicação se faça de pontes. Houve guerra na Síria e eu projectei, mil vezes, a minha filha nas crianças dos outros. Nunca deixei de me sentir grata pela vida que tenho.  Dei sangue. Fui prelectora numas jornadas científicas. Fui ao pão por Deus com a Ana. Ainda não aprendi a dançar. Nem a fazer ponpons. Fui abraçar a Catarina ao Festival da Castanha de Marvão. Senti a falta da minha avó e do meu avô todos os dias. Todos. Fiquei chocada quando o Donald Trump ganhou as eleições americanas.A minha Bimby continua avariada (o preço do arranjo é pornográfico!) e já me ajeito minimamente com os tachos e as panelas. Passei a fazer parte de um cooking club. Levámos o Bairro do Amor à televisão. Senti um orgulho imenso e um amor enorme pelo facto do meu marido ter deixado de fumar. Tive medo que a minha mãe morresse.  Todos os dias tive medo. Vi o Bairro do Amor organizar o evento mais espetacular do ano: a Loja do Bairro. Assisti à festa de Natal da minha filha. Comovi-me por a Ana acreditar no Pai Natal. Vi a Calinhas entrar num crematório ao som da música russa que tocava quando ela nasceu. Percebi que o essencial é a saúde e que isso não é um clichê.  Disse "amo-te" à Ana todos os dias. Sem excepção. Senti-me bem na minha pele. Numa tremenda paz. Fui feliz.

2013 foi assim
2012 foi assim

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