sexta-feira, 20 de março de 2020
O mundo divide-se entre... (edição quarentena)
... os casados que dentro de nove meses serão pais e os que serão divorciados.
quarta-feira, 11 de março de 2020
terça-feira, 3 de março de 2020
segunda-feira, 2 de março de 2020
Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização
"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...
De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD
Beijinhos quadripolares radioactivos
Ana C."
Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!
[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]
[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020
Papoilas e amor
Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando
apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos
mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se
chama #sóquenão,
ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e
descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o
jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou
tal como eu não gosto, ensinei-lhe que
borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela
saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e
perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e
que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a
diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as
caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e
a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a
fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que
as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe
o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que
para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma
das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do
orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos,
ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e
que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar,
ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio
dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância.
Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou
que foi e é sempre tudo sobre o amor.
sexta-feira, 17 de janeiro de 2020
Deus é sereia
Quando chegámos à Fuzeta olhaste para a areia com os olhos muito esbugalhados: taaaaantas conchas, mãe!
Eu sorri e convidei-te a descalçares-te e começaste a explicar-me que as sereias só visitam as praias com areias cheias de conchas. Que são estas conchas as jóias que as sereias já não querem usar e assim as disponibilizam aos humanos. E a cada concha que apanhavas havia uma expressão de espanto: olha esta toda riscada, olha esta com tantas cores de arco-íris por dentro, olha este búzio que enroladinho.
O gáudio de te ver durante mais de uma hora a maravilhares-te com pedaços do mar da cor dos teus olhos.
E quando o sol começou a mergulhar no horizonte sentaste-te, cansada e em silêncio, e encostaste-te a mim, sentadas à chinês no areal. E eu levantei-me, enfim, e enquanto virava as costas para irmos beber um chocolate quente ali no borda d’água e tu um chá de limão e aquecermo-nos, comecei a ouvir um barulho repentino da maré a encher, a água a subir inesperadamente, o mar há um minuto parado e quieto, agora, de repente, a manifestar-se.
Olhei para trás e estavas estarrecida: “mãe, shiiiiuuu! Ouve as sereias a abanarem as caudas debaixo do mar e a dizerem-nos adeus!”
E depois um sussurro: “adeus, sereias! Adeus!”
E ensinaste-me neste fim de tarde, Ana, tudo o que é importante saber sobre fé e amor, crença e sonho. Deus pode ter cabelos de algas e cauda de sereia.
Obrigada por trazeres até mim esse segredo sem filtros, como esta fotografia, como tu, querida Ana, meu grande amor.
quarta-feira, 20 de novembro de 2019
A primeira quadripolarização do come back
"Olá Pólo Norte.
Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt.
Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar!
Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos.
Beijinhos"
O Mundo divide-se ...
... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.
terça-feira, 3 de setembro de 2019
O amor é uma caixa de velocidades
Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.
Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados.
Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.
Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for.
O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.
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Dia 13
sábado, 24 de agosto de 2019
Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)
Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.
E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.
E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.
Só há uma forma de amar: cuidando.
A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.
E juntei-me a eles no refrão.
“Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.
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