segunda-feira, 2 de março de 2020

Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização




"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...

De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD

Beijinhos quadripolares radioactivos

Ana C."


Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!

[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Papoilas e amor




Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se chama #sóquenão, ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou tal como eu não gosto, ensinei-lhe que borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos, ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar, ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância. 

Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou que foi e é sempre tudo sobre o amor.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Deus é sereia

Quando chegámos à Fuzeta olhaste para a areia com os olhos muito esbugalhados: taaaaantas conchas, mãe! 

Eu sorri e convidei-te a descalçares-te e começaste a explicar-me que as sereias só visitam as praias com areias cheias de conchas. Que são estas conchas as jóias que as sereias já não querem usar e assim as disponibilizam aos humanos. E a cada concha que apanhavas havia uma expressão de espanto: olha esta toda riscada, olha esta com tantas cores de arco-íris por dentro, olha este búzio que enroladinho. 

O gáudio de te ver durante mais de uma hora a maravilhares-te com pedaços do mar da cor dos teus olhos. 

E quando o sol começou a mergulhar no horizonte sentaste-te, cansada e em silêncio, e encostaste-te a mim, sentadas à chinês no areal. E eu levantei-me, enfim, e enquanto virava as costas para irmos beber um chocolate quente ali no borda d’água e tu um chá de limão e aquecermo-nos, comecei a ouvir um barulho repentino da maré a encher, a água a subir inesperadamente, o mar há um minuto parado e quieto, agora, de repente, a manifestar-se. 

Olhei para trás e estavas estarrecida: “mãe, shiiiiuuu! Ouve as sereias a abanarem as caudas debaixo do mar e a dizerem-nos adeus!” 

E depois um sussurro: “adeus, sereias! Adeus!” 

E ensinaste-me neste fim de tarde, Ana, tudo o que é importante saber sobre fé e amor, crença e sonho. Deus pode ter cabelos de algas e cauda de sereia. 

Obrigada por trazeres até mim esse segredo sem filtros, como esta fotografia, como tu, querida Ana, meu grande amor.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A primeira quadripolarização do come back





"Olá Pólo Norte. 

Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt. Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar! Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos. 

 Beijinhos"

Obrigada, Matilde! Grande beijinho.

Conheça todos os países já quadripolarizados aqui.

O Mundo divide-se ...

... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O amor é uma caixa de velocidades

Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.


Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados. 


Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.


Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for. 


O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.

sábado, 24 de agosto de 2019

Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)




Só há uma forma de amar: cuidando.

 Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.

 E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.

 E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.

 Só há uma forma de amar: cuidando.

 A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.

E juntei-me a eles no refrão. 

 “Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

Uma espécie de Oásis (Cueva del Gato)


Já estávamos cansados e já tínhamos 17 Pueblos Blancos no passaporte das nossas memórias.

 Já tínhamos muitos quilómetros de alcatrão acumulados, muitas montanhas com sol a nascer e a pôr-se decoradas nas retinas, muitas aldeias e vilas feitas noivas, alvas, brancas e puras cravadas em tudo o que vivemos, como se tivéssemos apanhado 17 bouquets sucessivamente que nos dessem acesso ao novo Pueblo, que fôssemos os próximos a que os barqueiros de lagoas, rios, ribeiras e barragens deixassem passar.

 Já tínhamos jamon, tapas em restaurantes e esplanadas, tintos de verano em varandas de hotéis e pensões em noites a dois enquanto a Ana já dormia, já tínhamos granizados, pão estrafegado em tomate, gaspacho frio, queijos e azeitonas compradas à beira da estrada e um desprezo enorme pela dieta durante todo o trilho.

 Já tínhamos o calor da cidade, o borrifar dos aspersores nas ruas de Mérida e o fresco de tantas fontes e fontanelas tatuados na pele. Já tínhamos o cheiro aos olivais e às árvores da serra, ao pó da terra árida e às dezenas de pássaros que voavam conosco sob o mesmo céu, abutres até. Já tínhamos casas brancas, azuis e a memória de uma cor terracota que marcou toda a viagem como os abanicos encarnados com bolas porque os clichês são para se perpetuarem.

 Já tínhamos a Carolina Deslandes, o Jorge Palma e a Luísa Sobral mais o Sérgio Godinho e a Mariza a tocarem na pen do carro e o Despacito na Radiolé e outras estações espanholas com ritmos de verão, pelo menos para nós. Já tínhamos noites estreladas em vales profundos e noites dormidas os três em camas apertadas e manhãs de lutas de almofadas só porque sim.

Faltáva-nos um oásis, daqueles à filme, um presente fresco numa longa travessia num deserto que não é metafórico, pois há muito que não nos sentíamos tão selva.

 Encontrámo-lo, perdidos na serra de Grazalema, e mergulhámos, enfim, nas águas geladas da Cueva del Gato.

 Podem googlar mas o Google nunca vos conseguirá explicar isto assim.

 Isto assim.

Na aldeia azul (Júzcar)


O GPS tinha-nos enganado.

 Nós não stressamos com imprevistos e até sabemos que é dos enganos que muitas vezes se chega a sítios inesperados e ainda melhores. Mas estávamos num trilho terrível, curvas e contra curvas, numa serra que não conhecíamos e num caminho de terra demasiado estreito para o nosso carro com penhascos lá em baixo.

 A Ana cantarolava lá atrás no banco, completamente alheia ao perigo que corríamos. Eu estava em pânico, a ansiedade no pico máximo, com arritmia e completamente descontrolada. Queria parar, voltar a pé, sair do carro e gritar, chorar, ligar para o 112 e pedir socorro, ai que se vem um carro de frente e nós não temos qualquer visibilidade, embatemos, caímos no penhasco e morremos. A Ana continuava a tagarelar, eu estava perdida em orações e a pensar que estava a segundos de ter a primeira crise de ansiedade da minha vida e não podia. Não podia mostrar descontrolo à minha filha, não podia entrar em pânico, tinha que permanecer segura e aparentemente sob controlo. 

Olhei para ele, ali ao lado, pálido e calado, com os maxilares tensos, a transpirar por todos os poros, corpo rígido. Ele estava a conduzir-nos, tinha a vida de nós os três nas mãos, não dizia nada. Não podia mostrar desconfiança na condução do meu marido, tinha que me manter optimista e controlada, tinha que o ajudar a tirar-nos dali.

 Então, respirei fundo-muito fundo- e fui buscar energia, serenidade e gestão das emoções à menina que ficava, aos 5 anos, internada no hospital meses seguidos, a sentir-se sozinha e perdida quando acabava a hora da visita e a minha mãe tinha que sair e a noite chegava e eu só me podia valer a mim mesma. Eu ainda sou essa Liliana, progressivamente segura e controlada, racional e objectiva: tens que ficar, é para teu bem, isto vai passar, não tarda muito tens alta e vais para casa. 

Abri os olhos e comecei a falar com ele: este caminho vai acabar, não sabemos daqui a quanto tempo, mas vai acabar, vamos com calma, somos uma equipa, buzina duas vezes em cada aproximar de curva para que nos ouçam, está quase, vai correr bem. 

Correu. Chegámos à aldeia azul da cor dos olhos deles. Vivos, unos, equipa. Família. Respirei fundo, enfim

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

[ Um grão infinito de mil bocados do Mundo]



Durante muito tempo fui bairrista, regionalista, quase ruista que toda a gente sabe que a minha rua é a mais bonita do Mundo só porque é a minha. 

Nasci em Cascais, mas sou Minho nas raízes, Poiares, Barcelos e Ponte de Lima a palpitarem-me nas veias, sangue do Norte galopante como o ritmo dos acordeãos e dos cavaquinhos. Sou de Aveiro por adopção de verões inteiros a ver os toiros arrastarem as redes de peixe na Vagueira e ovos moles comidos à colherada com vista para as casas piratas da Costa Nova. E sou Açores por afinidade, sou caldeira de Santo Cristo por amor, a Horta por paixão e Ponta Delgada e o pico do Pico porque os afectos de quem nos quer e trata bem passam a fazer parte de nós.

Eu sabia que o meu amor por uma terra que constrói de forma sólida a minha essência encontrava-se entre esta quadratura: Cascais, Minho, Aveiro e Açores, azul e verde na minha alma.

Mas depois cresci e quis mostrar o Mundo à Ana e passámos a ser os caretos de Podence e Trás-os-Montes com danças celtas e nós a pular à volta da fogueira a queimar o Judas. E passámos a ser o Porto e um bairro que habitámos e continua a fazer parte de nós, Francelos e o senhor da Pedra como fundo de gargalhadas bebés. E passámos a ser a Cúria colorida como o papel de parede do Hotel do Parque e barcos a remos e nós lá dentro a sorrir. E passámos a ser Marvão e um picnic sob um tecto de estrelas no castelo nós a rodopiar sob a lua. E passámos a ser Fátima da fé e da renovação de votos de casados como um roteiro de esperança que também se renova. E passámos a ser Tomar porque sim. E passámos a ser o Algarve da casa da meia lua, da prova de amizade sincera, de Cacela velha e corpos bezuntados de areia e pele a saber a sal. 

Talvez deixemos de ser tanto uma ou duas terras e nos vendamos ao Mundo. Talvez deixemos de ter a essência apurada e passemos a ser uma caldeação de sítios que tatuamos nas memórias mas acredito agora no poder libertador de se estar espalhado por tantos sítios e sermos o melhor de cada um deles: um grão infinito de mil bocados do Mundo. 

Sejamos.]
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