quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A Primavera em nós

 As pessoas perguntam como fazemos para isto durar há uma vida. 

As pessoas não sabem que isto não é uma vida são várias como nos jogos de computador que para passares de nível tens que correr, cair, descobrir truques para passares à próxima etapa, morreres às vezes e não frustrares e desligares a porra toda, insistires e recomeçares tudo certinho para avançares. 

As pessoas não sabem que isto não é uma vida são três: a minha, a tua e a nossa e as três desdobram-se em todas as vidas que já vivemos e as que estão por viver, tudo o que e quem já fomos, o que somos e o que mudamos, quem seremos e a incógnita do que está por vir. 

As pessoas não sabem que o desafio é acompanhar o ritmo da mudança um do outro e de nós e das circunstâncias (e de não as conseguirmos controlar tantas vezes) e no fim crescermos para o mesmo lado e não nos desencontrarmos nos patamares, na direção em que andamos e às vezes eu abrando e tu apressas-te, outras tu paras para eu te conseguir apanhar, às vezes tomamos balanço e avançamos muito e é incrível e se estamos os dois exaustos ou quase a perder-nos sentamo-nos a conversar à sombra da árvore do bem querer, caem folhas de cansaços e chove mas nunca deixámos de ter esperança que a Primavera é cíclica e volta sempre e que devemos esperar pelas flores. 

As pessoas perguntam-nos como fazemos para isto durar há uma vida e não sabemos explicar que nunca pensámos ou decidimos que ia durar todas estas vidas, limitámo-nos a viver, a errar, a falhar e a desejar e querer insistentemente acertar e a descobrir que é na companhia um do outro que as cegonhas fazem ninho no Mundo, as andorinhas regressam sempre e o amor é um pedaço perfeito de sol. 

As vidas mudam, nós mudamos mas, ano após ano, a Primavera nunca deixa de regressar

A mámen, por ocasião do nosso 14º aniversário de casamento, esperando continuar a nunca ter que lhe pedir




"No te voy a pedir que me des un beso. Ni que me pidas perdón cuando creo que lo has hecho mal o que te has equivocado. Tampoco voy a pedirte que me abraces cuando más lo necesito, o que me invites a cenar el día de nuestro aniversario. 

 No te voy a pedir que nos vayamos a recorrer el mundo, a vivir nuevas experiencias, y mucho menos te voy a pedir que me des la mano cuando estemos en mitad de esa ciudad.

 No te voy a pedir que me digas lo guapa que voy, aunque sea mentira, ni que me escribas nada bonito. Tampoco te voy a pedir que me llames para contarme qué tal fue en el día, ni que me digas que me echas de menos. 

 No te voy a pedir que me des las gracias por todo lo que hago por ti, ni que te preocupes por mi cuando mis ánimos están por los suelos, y por supuesto, no te pediré que me apoyes en mis decisiones. Tampoco te voy a pedir que me escuches cuando tengo mil historias que contarte. 

No te voy a pedir que hagas nada, ni siquiera que te quedes a mi lado para siempre. 

 Porque si tengo que pedírtelo, ya no lo quiero. "

Frida Khalo

 Frida Kahlo

terça-feira, 25 de agosto de 2020

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

#deusétuga: prelúdio

 

                   


Etapa 1 | Lisboa- Évora- Santarém- Portalegre- Castelo Branco- Guarda- Bragança- Vila Real- Viana do Castelo-Braga- Porto- Aveiro- Coimbra e Leiria (os outros quatro serão picados antes do final do ano)


Havia muitos planos para as férias deste ano: eu faria 40 anos, a festa seria de arromba, estaria obviamente mais magra porque estaria focada na dieta, na Páscoa teríamos ido à feira de Sevilha com a Ana e agora em Julho receberia o subsídio de férias depois de quase um ano num trabalho tranquilo e do qual gosto muito e partiríamos- os três- para Nova Iorque abraçar a minha soul sister Eileen. Depois road 66 e seria um Verão inesquecível. 

Mas veio a pandemia e lá se foram os planos. 

Eu tenho muita resistência à frustração (aliás, frustro pouco porque nunca dou nada por certo e garantido: sou das que nunca compra bilhete de ida e volta) e não planeei mais nada. Logo se vê. 

Então ele propôs-me, até ao final do ano, darmos um giro quadripolar, uma espécie de volta a portugal de bólide e mostrarmos todos os distritos do país à miúda, uma road trip como adoramos, com improviso e aventura mas em Portugal. Começaríamos em força agora no Verão a cumprir 14 distritos do total de 18 (a esta hora, de certeza que estão a dizer baixinho o nome de todos).

Pensei que era fixe a título de prémio de consolação mas, afinal, a ideia pareceu-me cada vez mais emocionante. 

No instagram do Quadripolaridades criei umas stories com o esqueleto do percurso que planeávamos percorrer e fomos pedindo e anotando as centenas (foram mesmo centenas) de sugestões que as pessoas que vivem ou conhecem bem cada sítio por onde iríamos passar nos iam dando. Ou seja, a excitação começou ainda antes de apertarmos os cintos. 

Planear uma viagem é sonhar no plural. Eu recolhi todas recomendações, ele anotou e organizou e a Ana projectou tudo no mapa, que lhe comprámos na Bertrand. Mapa em papel: a loucura. Eu ouvi pessoas, ele estruturou os dias, ela tornou tudo realidade.

E, logo após o meu aniversário partimos. Foram um quase 2000 Km percorridos, muitos dias na estrada, muitas aventuras, muitas stories, diretos e posts de partilha no instagram e agora, na recta final da road trip e já a curtir o descanso dos guerreiros, arranjo tempo para deixar aqui tudo registado. Para quem quiser aproveitar algumas das dicas mas, sobretudo, para que eu não me esqueça. 

Para a Ana construímos um diário de bordo com o roteiro detalhado, as histórias todas, com aguarelas dos sítios pintadas pelo pai e cartas escritas à mão por mim. Acho que lhe oferecemos um pequeno tesouro que resume a herança maior que lhe queremos deixar: mundo vivido. 

Apertem os cintos: a saga quadripolar #deusétuga vai começar. 

[É escusado dizer que custeámos esta viagem porque, como sempre, a nossa opinião não está à venda. Assim sendo, estamos à vontade para dizer o que gostámos e o que nem por isso, sítios mesmo imperdíveis e outros que benza-a-Deus. Agora não é uma realidade absoluta: é a nossa opinião. Mas, como sempre, é uma opinião livre. ]

domingo, 9 de agosto de 2020

Aos 9 de Agosto de 2020, à Ana por ocasião do seu 8º aniversário

Sabes, Ana, este era um aniversário que eu ansiava. Oito anos é uma idade importante para mim e não é pelos melhores motivos. Mas sabes que te conto sempre a verdade do Mundo, mesmo que a verdade doa. Tinha 8 anos quando eles se separaram. Sei que não me ouves falar do meu pai mas eu gostava muito dele antes de desgostar isto tudo que desgosto. É estranho desgostarmos de um pai, não é? Percebo-te bem na medida em que tens o melhor e mais dedicado pai do Mundo. Dizia-te eu que tenho gravados os meus 8 anos como o ano em que os meus pais se separaram mas, na verdade, o que conta é que esse foi o ano em que me senti desamada pela primeira vez. Talvez por isso ansiava que chegassem os teus 8 anos, felizes e tranquilos, seguros e, especialmente, amados, cuidados e queridos incondicionalmente, por todos. Como se pudesse, através de ti, dar colo à menina de 8 anos que fui, dar-lhe beijinhos nas esfoladelas da alma, apagar o desamor sentido à estreia. A psicologia explica e um dia posso-te explicar tudo, vantagem de quem tem pais psicólogos, né? Crescer dói sempre, filha. Porque implica escolher e aceitar escolhas circunstanciais que a vida nos atira sem que peçamos. E todas as escolhas implicam um ganho do que se escolheu mas também uma perda do que se deixou por escolher. Aceitar e viver bem com isto é o maior desafio da nossa existência. Assim que perceberes que é assim que funciona tudo será mais fácil. Não te posso spoilar a vida, Ana, porque isto é absolutamente imprevisível e dinâmico. Essa também é a parte que tem graça. Desejo que cresças forte e segura. Não segura de ideias, que elas evoluem. Nem de dogmas ou convicções. Nem sequer de quem tu és porque vamos sendo diferentes pessoas ao longo da vida. Mas segura incondicionalmente de que és amada por nós e que nunca sairemos de perto de ti. Nunca será o último aniversário que, por nossa escolha, passaremos contigo. Como foi o meu oitavo, o último em que desconheci o desamor. Não aches que isto não é um final feliz porque sou tua mãe e tu consertaste, célula a célula da minha vida, a forma como vivo o amor. Como amo e sou amada. Eu ensino-te a verdade do Mundo mas tu retribuis-me com toda a verdade sobre o amor.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

"Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco, e depois morre"




“Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco, e depois morre” - in “as velas ardem até ao fim”. 
 Nos últimos meses aprendi tanto, cresci tanto, aprendi tanto sobre mim e sobre o Mundo, abriram-se tantas luzes, desfizeram-se tantos nós. Tem sido um processo tranquilo e sereno ao contrário de todas as outras vezes em que cresci à força, puxada por episódios marcantes específicos: a separação dos meus pais, a morte dos meus avós, o nascimento de Ana, a morte do meu tio. 

 Desta vez é diferente, é de dentro que o crescimento vem, não é nada externo, consigo projectar-me,pensar mais fundo como quem inspira, sentir melhor. 

 Faço quarenta anos dentro de dois meses, o equador da vida e já não me sinto a envelhecer, como se fosse uma coisa pesada e fatídica, sinto-me só finalmente a crescer sem ser à bruta, à força, com estaladas da vida e abanões do destino. Crescer como cresce uma planta já depois de ter caule e folhas e flores, crescer para os lados, tornar-me mais robusta e forte, melhor. Uma pessoa compreende o Mundo, pouco a pouco. Pouco a pouco, é mesmo assim. Para compreender tudo bem. Tudo certo e melhor.

 E depois poder, enfim, morrer como quem (se) apaga (n)uma estrela.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

segunda-feira, 6 de abril de 2020

O mundo divide-se entre...

... quem organiza os livros na estante por tamanho dos livros e quem organiza por ordem alfabética de autores.

sábado, 28 de março de 2020

sexta-feira, 20 de março de 2020

quarta-feira, 11 de março de 2020

terça-feira, 3 de março de 2020

segunda-feira, 2 de março de 2020

Confessem lá sobre as saudades que vocês tinham de uma quadripolarização




"Oi!
Ouvi dizer que te faltava a Ucrânia, portanto aqui tens a praça central de Kiev! A panorama ficou um bocado tremida porque isto foi na manhã depois de descobrir o vodka ucraniano...

De bónus, tens Prypiat, do alto de um prédio de 16 andares (bem contados, que subi a pé), com o sarcófago de Chernobyl a ver-se ao fundo! Tive de pedir o papel ao guia e deixá-lo na zona de exclusão, não fosse estar contaminado. xD

Beijinhos quadripolares radioactivos

Ana C."


Querida Ana: finalmente o teu email publicado e a Ucrânia quadripolarizada. Yeahhh!

[Conheçam todos os países já quadripolarizados aqui.]

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Papoilas e amor




Neste Carnaval ensinei a Ana a desenhar uma macaca no chão usando apensas uma pedra pontiaguda, expliquei-lhe o que era ironia e treinámos mais de meia hora o jogo que eu inventei para treinar ironia e que se chama #sóquenão, ensinei-lhe o que é uma duna e a magia de subir até ao topo duma e descer a rebolar e cantámos juntas a música do Reininho, ensinei -lhe o jogo da mamã dá licença, ensinei-lhe o sabor da erva azeda e não gostou tal como eu não gosto, ensinei-lhe que borboletas podem ser confundidas com fadas que nos protegem e, sem ela saber, ensinei-lhe que as mentiras de mãe um dia serão compreendidas e perdoadas, ensinei-lhe o que era um narciso do rio, juncos e lampreias e que os mosquitos são o animal mais chato do Mundo, ensinei-lhe a diferença entre um pato e um ganso e que com uma cana ou um pau as caminhadas se fazem melhor, ensinei-lhe a beleza de um ramo de papoilas e a secá-las no meio de folhas de um livro pesado e que temos que voltar a fazer um herbário, ensinei-lhe que os gansos voam sempre em bando e que as teias de aranha são a construção mais complexa do mundo, ensinei-lhe o sabor da bolacha americana e o cheiro da Vagueira, ensinei-lhe que para jogar uno convém arrumarmos o baralho todo por cores e qual a forma das lagartas antes de virarem borboletas, ensinei-lhe o sabor do orvalho roubado à pele de uma folha e a dor das urtigas nos dedos, ensinei-lhe que ler ao sol numa varanda virada para o lago é catártico e que as viagens de carro passam mais depressa se formos a cantar, ensinei-lhe o que é uma casa de um guarda florestal e que dormir no meio dos pais é a memória mais quente e íntima de toda a infância. 

Ensinei-lhe pouco, neste Carnaval, comparado com o que ela me ensinou que foi e é sempre tudo sobre o amor.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Deus é sereia

Quando chegámos à Fuzeta olhaste para a areia com os olhos muito esbugalhados: taaaaantas conchas, mãe! 

Eu sorri e convidei-te a descalçares-te e começaste a explicar-me que as sereias só visitam as praias com areias cheias de conchas. Que são estas conchas as jóias que as sereias já não querem usar e assim as disponibilizam aos humanos. E a cada concha que apanhavas havia uma expressão de espanto: olha esta toda riscada, olha esta com tantas cores de arco-íris por dentro, olha este búzio que enroladinho. 

O gáudio de te ver durante mais de uma hora a maravilhares-te com pedaços do mar da cor dos teus olhos. 

E quando o sol começou a mergulhar no horizonte sentaste-te, cansada e em silêncio, e encostaste-te a mim, sentadas à chinês no areal. E eu levantei-me, enfim, e enquanto virava as costas para irmos beber um chocolate quente ali no borda d’água e tu um chá de limão e aquecermo-nos, comecei a ouvir um barulho repentino da maré a encher, a água a subir inesperadamente, o mar há um minuto parado e quieto, agora, de repente, a manifestar-se. 

Olhei para trás e estavas estarrecida: “mãe, shiiiiuuu! Ouve as sereias a abanarem as caudas debaixo do mar e a dizerem-nos adeus!” 

E depois um sussurro: “adeus, sereias! Adeus!” 

E ensinaste-me neste fim de tarde, Ana, tudo o que é importante saber sobre fé e amor, crença e sonho. Deus pode ter cabelos de algas e cauda de sereia. 

Obrigada por trazeres até mim esse segredo sem filtros, como esta fotografia, como tu, querida Ana, meu grande amor.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

A primeira quadripolarização do come back





"Olá Pólo Norte. 

Tirei esta foto em Maio, no Quirguistão, no dia em que dormi com uma família nómada, num yurt. Não cheguei a enviar porque o blogue estava sem actividade, mas agora que voltou (felicidade!), vamos dar continuidade a esta cruzada quadripolar! Continue desse lado, que nós, deste, lemos e agradecemos. 

 Beijinhos"

Obrigada, Matilde! Grande beijinho.

Conheça todos os países já quadripolarizados aqui.

O Mundo divide-se ...

... entre as pessoas que acham que as piores reuniões da vida são as de pais nas escolas das crias e as que acham que são as de condomínio com os vizinhos de prédio.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

O amor é uma caixa de velocidades

Há uma musica do Jorge Palma que se chama “otimista céptico”. É nela que penso quando alguém mostra admiração pelo facto de estarmos juntos há 20 anos, casados há 13 - completamos hoje- e nos pergunta se há alguma fórmula para isto durar. Acho que a resposta está no nome da musica ou talvez ao contrário, cada um de nós vive assim a relação com um optimismo céptico ou com um cepticismo optimista, ambos se complementam, como nós.


Tu claramente és um optimista céptico: sempre achaste que isto ia ser para sempre, disseste-o junto do padre Cruz com o corpo e a alma mas sabes das dificuldades que a vida traz e conduzes tudo isto com cautela e atenção, prudência e em estado de alerta. É como uma metáfora com aquela ideia de que as pessoas têm acidentes de carro não quando acabam de tirar a carta de condução, inexperientes e maçaricos, mas um ou dois anos depois, quando já estão confiançudos e conduzem à vontade, acreditando que nem todas as regras de trânsito são para ser cumpridas e que semáforos de controlo de velocidade não são para serem respeitados. 


Conduzes isto sempre com a humildade de quem sabe que as estradas e as condições do tempo e de visibilidade nunca são iguais e é sempre novo, desconhecido, passivo de haver acidentes. E que tens que fazer a tua parte nunca desprezando que nesta estrada temos sempre que contar com a condução do outro e que são duas faixas na mesma auto-estrada e não uma faixa em cada sentido, e que devemos manter a mesma velocidade, mesmo que isso implique abrandar ou avançar, isto não é uma corrida de fórmula um, é uma road trip de endurance.


Já eu sou uma céptica optimista. Só quem é filho de pais separados compreenderá. Sempre acreditei que não ia dar certo mas sempre desejei muito que desse. Nunca dei como garantida esta relação mas sempre acreditei nela o suficiente para embarcar na viagem, colocar o cinto de segurança, ajustar bancos e espelhos e benzer-me a Sto. Cristóvão, o padroeiro dos viajantes, porque muitas vezes trata-se de fé, de crença, de superstição, esta coisa do amor. Terço no espelho retrovisor, se preciso for. 


O amor é uma caixa de velocidades e duas pessoas que, não importa o destino, só querem viajar juntas.

sábado, 24 de agosto de 2019

Só há uma forma de amar: cuidando (Grazalema)




Só há uma forma de amar: cuidando.

 Cuidando que o outro se sente confortável, satisfeito, em paz e feliz. Cuidando que se chega ao pequenino hotel num vale tão querido no meio das montanhas e se diz à mãe: “vai tomar um banho que eu vou-te preparar uma surpresa”.

 E se arromba o saco das compras do supermercado e se dispõe alimento a alimento na mesa, tudo simples e sem qualquer requinte. E se vai buscar uma cadeira extra e as cartas do UNO para todos nos sentarmos e jogarmos uma partida a seguir ao jantar. E se entra na casa de banho e se pergunta alto: “mãe?! Como se diz em espanhol podia-me emprestar copos?!” E se segue para a recepção, repetindo baixinho a frase em portinhol, para não se esquecer.

 E depois a mãe sai do banho, seca-se e veste-se e dá com ela a preparar o melhor jantar dos últimos tempos, era só atum, gaspacho de pacote e tinto de verano de garrafa, pão e presunto mas depois também estava calor e o sol a pôr-se nas montanhas ali à frente, o tempo parado, e no telemóvel dele a música a tocar e a minha filha de sete anos a trautear o refrão.

 Só há uma forma de amar: cuidando.

 A Ana sabe-o melhor que ninguém e eu sei que o sabe, mesmo que inconscientemente, mesmo que por mero instinto, tive a certeza no meio da serra de Grazalema, este Verão.

E juntei-me a eles no refrão. 

 “Gracias a la vida” era, tão oportunamente, a canção.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...