Uma das coisas giras de se estar grávida é que, mesmo que tenhas cara de mula como eu tenho, de repente toda a gente passa a olhar para ti de forma ternurenta e delicada, a dirigir-te palavras de simpatia, a meter conversa contigo por dá cá aquela palha e- medo!- quem sabe a querer ser tua amiga. Já não sentia isto desde os Verões da minha infância quando ia à praia e tinha as forminhas mais giras para se fazer castelos de areia ou quando na puberdade participei num programa de televisão e as câmaras foram filmar-me à escola. Toooda a gente queria ser minha amiga, caramba!
Ontem estava sentada numa esplanada a fim da tarde e a senhora sentada na mesa do lado meteu conversa comigo. Com o pretexto habitual: a gravidez.
Primeira pergunta assim logo de chofre: "Vai contratar uma doula?"
Uma quê? Diz que uma doula é coisa chique, um retorno às origens, uma figura de suporte emocional e que ajuda na preparação para o parto. "Ah, uma parteira?!"- perguntei eu. Respondeu-me logo que não, que as doulas não fazem procedimentos médicos, que ajudam durante a gravidez com apoio e informação e no parto e pós-parto com suporte emocional. "Ah, eu tenho a minha mãe e a minha tia, não obrigada!"
A senhora deveria ter uma missão parecida com as Testemunhas de Jeová mas no que concerne à propagação das filosofias new-age para grávidas. Continuou.
"Ah, e o parto? Já ponderou fazê-lo em casa?". Gargalhada de mámen: "Minha senhora, corríamos a risco de eu ter uma paragem cardíaca e, ainda por cima, da vizinha de baixo chamar a GNR se passasse da meia-noite, que já não é hora para se fazer chinfrim. Sabe, ainda que lhe passassem essas ideias pela cabeça ela não poderia pois está a ter uma gravidez de alto risco."
"Ah, coitada!"- continuou. "Mas isso não a vai impedir de ter parto natural, pois não?". Já a perder a paciência, respondi-lhe que sim, que impediria e que estava de cesariana marcada. "Oh que pena, sabe, não é a mesma coisa: parir é dor. Os antigos é que sabiam, era tudo a natural e assim é que deveria continuar a ser". E suspirou.
A esta altura eu já estava com as narinas dilatadas e como o destino é um cabrão, a mulher entorna o café em cima da camisa de seda.
"Ah, que maçada! Vou ter que pôr a camisa na lavandaria, bolas!"- queixou-se, enquanto limpava a nódoa com um paninho com água quente que tinha pedido à empregada.
"Na lavandaria?"- perguntei-lhe eu, com ar escandalizado. "Então não tem um tanque onde possa lavar com sabão azul e branco a camisa, à mão?"
"Um tanque? À mão? Onde é que já se viu isso nos dias de correm?"- respondeu-me, com espanto.
"Tss, tsss. Que pena! Sabe, os antigos é que sabiam..."
Afinal ainda sou mula. E aposto que aquela não volta a querer ser amiga de mais nenhuma grávida.