quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

O Mundo divide-se...

 

...entre quem arruma os livros por ordem alfabética de autores e os outros

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Andorinha

 Em 2021 senti-me profundamente triste. E aflita. E impotente E devastada. Tive terror em perder a minha tia e perdi o meu tio num momento de terror. Confortei a minha prima. Alimentei o meu outro tio. Percebi definitivamente que nunca mais retomarei relações com a minha outra prima Tomei conta de muita gente e pouca de mim. Fui promovida na pior altura para o ser. Trabalhei horrores. Tive muitas mudanças no trabalho até que apareceu a Ana Lúcia para me serenar. Serenou. Ajudei a organizar uma manifestação pela vida independente. Gritei num megafone. Fiz uma vigília e dormi à porta da Assembleia da República. Reforcei a certeza de que o meu casamento é para sempre e que há amores para a vida toda (até podem não haver casamentos, mas amor há!). Perdi a Joana. Dei centenas de horas de formação. Vi a Monalisa. Tive o melhor jantar do ano aos pés da Torre Eiffel. Vi, finalmente, toda a Casa de Papel. Tive pouco com amigos. Voltei a organizar campos de férias. Diverti-me tanto na Isla Mágica. Fui vacinada. Falhei nos exames de rotina da mama mas compenso em breve. Passei o dia da mãe com a minha mãe sem máscara e viseira. E com a Ana. As três na Lx Factory. Vi um espectáculo de flamenco ao vivo. E comemos tantas tapas, os três felizes em Sevilha. Comovi-me na Eurodisney. Namorei muito no Verão com tinto de Verano e Manchego. No meu aniversário um conjunto de bandalhos bons juntou-se no mato para me cantar os parabens. Foi tão importante para mim. Comi marisco em São Martinho do Porto. Fui feliz em Elvas com a Inês e o Bruno. Recebi os meus sogros em tranquilidade. Li pouco. Fui a Itália em trabalho e conheci gente incrível A Ana fez a sua primeira comunhão. A minha mãe esteve sempre por perto e isso é tudo para mim. Fui feliz com a Eillen a cantar a banda sonora da Tieta. Fiz yoga no Moinho de Maneio. A Ana cresceu, cada vez mais pessoa inteira e boa. Aprendi a jogar Rummy. Permiti-me a falhar e abracei a vulnerabilidade com auto-compaixão. Em 2021 fui uma andorinha sempre em vôo numa constante tentativa de regresso a casa.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

Dores (maternais) de crescimento

 A gente anota o primeiro dia em que se sentam, em que lhes nasce o primeiro dente e depois em que lhes cai também, em que dão os primeiros passos, do primeiro dia de creche e depois, todos os anos, de escola. A gente anota a primeira palavra dita e a primeira escrita, o primeiro desenho de figura humana e o inaugurar de tantos estadios.

Há sempre o encanto desmesurado nos inícios, nos princípios, nos começos, nas primeiras vezes.
Mas são muitos os dias que são os últimos dias em que fecham ciclos.

Este foi, provavelmente, o último dia em que a Ana assomou à janela para esperar o Pai Natal.
Há uma beleza nostálgica no fim de ciclos. Foi incrivelmente bom viver a magia do velho de barbas nove anos com ela: ser o pai, acompanhá-la a escrever-lhe, ir de mãos dadas com ela aos CTT por as cartas, ano após ano, tocar o sino escondido da na cozinha, segui-la na correria de tentar vislumbrá-lo, ouvi-la a jurar que o viu no céu porque só os olhos das crianças vêem o invisível.

De janela aberta anoto aqui a luz do balão para sinalizar o spot, a caixa de take away com bolachas e cenouras porque há covid e ele tem que levar o repasto porque já não se come ao postigo e o sorriso de quem desconfia que não é real mas que escolhe em acreditar.

A magia não fechará a janela, mesmo que tenha sido esta a última vez.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Com força e baixinho

 


Quando o avô morreu eu entrei na sala e tu choravas baixinho. Quando me viste choraste mais, com mais força, mas simultaneamente mais baixinho, e tapaste o rosto com aos mãos como se tivesses vergonha da fragilidade, embaraço da vulnerabilidade. Tinhas sido sempre crescida, durante toda a minha vida, era a primeira vez que te via pequenina, com as mãos a tapar os olhos verde azeitona, verde louro, verde teus avó, como uma criança que esconde a cara com o bibe quando fica assustada e tem medo do Mundo.

Eu também tive medo, avó, desse Mundo que veio depois do avô e que nunca mais foi o mesmo e também chorei baixinho e com força, acho que foi contigo que aprendi a chorar sem histerias, baixinho e com força, como quando tinha muitas dores e, já adultas - as duas- tu vinhas para a minha cama e te deitavas ao meu lado a embalar-me para me adormeceres a dor.

Naquele dia o avô morreu e tu não quiseste ir ao velório, nem ao funeral e ninguém percebeu porquê. Ficaste em casa a fazer comida, e tu mal conseguias fazer comida, a mão que me embalava tinha sido silenciada pelo AVC, continuava porém a fazer comida e a embalar-me, no Minho as mulheres alimentam os vivos que choram os mortos.

E nunca mais abriste a porta do teu quarto e do avô, já não havia vocês os dois, só a porta fechada, como o Mundo fechado ficou e talvez, por isso mesmo, tu tapavas o rosto como uma criança com medo tapa a cara com a fralda do bibe. Três anos depois adormeceste na sala, olhos verde louro fechados, nunca mais tinhas entrado no quarto, fizeste comida até à última refeição, a mão com o AVC, e dessa vez não acordaste, assim com força e baixinho partiste, talvez para ires fazer comida para o avô que te esperava, botas de borracha e sorriso com dentes tortos.

E eu fiquei, e deixaste-me a Ana na barriga, segredo que só descobri dias depois, para poder ter quem embalar, para me abrir as portas do teu quarto e do Mundo, para usar bibes sem tapar o rosto, para poder continuar a chamar Ana como te chamava a ti, vó Ana, para me deitar ao seu lado hoje, ela já dorme, e embalá-la, com força e baixinho, para ver se adormeço a saudade que, agora crescida, trago em mim.

Amanha faço comida eu.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

O Mundo divide-se...

... entre as pessoas que, mal espreita o Outono, ainda andam de chinelos e as que passam logo a andar de calçado fechado/botas

terça-feira, 28 de setembro de 2021

Gostava de morrer velha.




Gostava de morrer velha. Velha, velhinha. Ainda melhor, gostava de morrer velha e de velhice. Como se a vida quisesse pedir a conta final e fechar a despesa, satisfeita e de papo cheio, pronta a levantar o rabo da mesa e sair de mansinho, olhos fechados, memórias arrumadas, papo cheio, sensação de fecho da loja.

Contas feitas, fecharia os olhos, papudos e enrugados, com aquele esverdeado que todos os olhos dos velhos ficam, verde árvore para se poder regressar à terra com a copa a tocar no céu e largariam a VT, acho que se diz assim nos programas de televisão, com os momentos mais felizes que acumulei.

Nesse pequeno trecho, de uma vida longa, apareceriam os burros do @moinhodomaneio, as ondas do mar negro do cabelo da Anabela sem mariquice nem nhonhozice a darem-nos as boas vindas de verdade, o ribeiro que desbravamos com a canoa azul e gargalhadas amarelas de sol, os saltos da minha filha no trampolim e os risos a chegarem bem alto no espaço, caudas de sereia na piscina, agora a Eillen e eu a gargalharmos, à ceia, enquanto cantamos a banda sonora da Tieta do Roque Santeiro depois de jogarmos Remmy a beber chá de caramelo e a comer broas de mel e estas manhãs preguiçosas em que quero sair para o pequeno almoço e a Ana dorme no meio de nós, as persianas de madeira azul a rebentarem para nós deixarmos entrar o sol e a vida que é vivida no presente, que deve ser vivida como um presente. Uma cauda de sereia a secar à porta, no fim.

Queria morrer velhinha agarrada ao papel colorido da vida que desembrulhei, contemplando o passado que foi um presente, mete-lo debaixo do braço e dizer adeus, estava tudo óptimo, obrigada, sim?

domingo, 26 de setembro de 2021

O Mundo divide-se...

 ...... entre as pessoas que acordam com o humor certo e não querem conversa de manhã e as outras.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Apartas o cabelo ao meio

"Apartas o cabelo ao meio, agarras um pedaço de cada vez e penteias devagar. Depois das duas partes penteadas, juntas tudo e penteias por inteiro, de uma só vez". Sempre que me vejo em frente do espelho da casa de banho, a pentear o cabelo, sempre sem excepção, oiço a voz da minha avó nesta ladainha: "apartas o cabelo ao meio...".

Eu era adolescente e as hormonas tinham tomado conta do meu cabelo, outrora liso, agora cheio de jeitos e rebelde, muito fino e muito basto, sempre a enriçar e a fazer nós. Às vezes pensava em cortá-lo para me poupar ao trabalho de o desembaraçar todas as manhãs, enervava-me, irritava-me, apetecia-me escová-lo à bruta, partir os nós e o cabelo com ele mas depois a voz, paciente, da minha avó: " apartas o cabelo ao meio...".

A minha avó sempre me pediu que não cortasse o cabelo e sempre que eu desesperava em frente do espelho vinha por trás e tirava-me a escova da mão impaciente e começava a pentear-me: "apartas o cabelo ao meio".

Um dia, era eu universitária e numa manhã de bad hair matinal a minha avó penteava-me, sem pressa e dizia-me a ladainha "apartas o cabelo ao meio..." e eu sorri e atirei "esse conselho dos cabelos aplica-se a todos os problemas, 'vó: temos sempre que os apartar e desembaraçar aos poucos, pedaço a pedaço e depois, com tudo com menos nós e embaraços, dar uma escovadela final, né?" E a minha avó riu e disse "nos cabelos e na bida, tem que ser sempre assim: apartar sempre ao meio, agarrar um pedaço de cada vez e desembaraçar cada pedaço para depois juntar tudo e passar uma escovadela no fim e ficar tudo certinho".

Tenho saudades das mãos da minha avó na escova, da escova no cabelo, da expressão "apartar" e da vida ser dita com "b" de bela e de boa. E talvez seja por isso que eu nunca corto o cabelo: para nunca me esquecer como se resolvem os problemas na vida ou talvez apenas para, sempre que me olho ao espelho, nunca deixar de ouvir a voz da minha avó pela manhã. 
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