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quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

Update: a cadela Luna

Agendámos grooming (para vocês verem ao que eu cheguei) para a minha cadela. 

Recebemos sms de confirmação a dizer que a Sónia nos esperava na loja às x horas para o banho e a tosquia higiénica da Luna. 

Reação em uníssono e imediata minha e do Rui ao lermos a sms:

"Ohhh, 'tadinha da Sónia!"


É muito calminha, obrigada. 

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Updates #a minha tia

 Mesmo jogo que contei aqui (link). Tem escrito no post it na testa "João Baião" e já perguntou se era um apresentador de televisão e já lhe respondemos que sim. "Goucha"? Não. "Júlio Isidro"? Não. "Vasco Palmeirim"? Não. "Cláudio Ramos?" Não. 

Corre os nomes todos, menos o certo e faz um sorriso de eureka: "É o Hélder Reis! É o Hélder Reis!"

Ninguém sabe quem é o Hélder Reis e responde muito admirada, como se o dado fosse de cultura geral:

"Por amor de Deus: é o melhor amigo do Goucha"

Não acertou no Baião mas sabe tudo sobre... o Hélder Reis!

Está óptima, obrigada!

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

Foram dias e dias. E meses e anos no mar. Percorrendo uma estrada de estrelas. A stalkar.

Há um episódio de Modern Family em que a DeDee, ex-mulher de Jay, morre. 

DeDee não é uma personagem muito querida, até porque Gloria, a jovem e sexy mulher actual de Jay, sente-se ameaçada pela mãe dos filhos mais velhos do marido e, na verdade, a Gloria é a personagem estrela de toda a série. 

Ora, neste episódio específico, e depois de muitas peripécias ao longo de várias temporadas, a DeDee morre. Quina. Kaput. 

E antes de morrer a Dedde manda fazer uma figurinha dela em pvc que oferece aos netos para que não se esqueçam dela. Acontece que, durante todo o episódio, a figurinha da agora falecida é esquecida, pousada, encafuada em vários sítios inusitados, sendo que, inadvertidamente, Gloria apanha vários cagaços ao cruzar-se com a bonequinha de plástico da ex-rival que está, literalmente, em todo o lado.

Sou suspeita- que adoro a trama de Modern Family- mas o episódio divertiu-me, à época, horrores. 

Até que o esqueci mas só até este Natal, em que os meus sogros vieram passar as festas connosco. Porque... a minha sogra decidiu fazer-se acompanhar da sua própria DeDee. 

No primeiro dia, ao pequeno almoço, esqueceu-se dela na consola da entrada e eu, acabada de sair da cama, bati com os olhos na senhora, ali, pousada, a fitar-me. Sorri, intrigada sobe o que raio fazia aquela figura ali.

No segundo dia, já me tinha esquecido da senhora, quando sentada à mesa de jantar, viro-me para trás para apanhar um saca-rolhas, e ali está ela em cima da estante, armada em Mona Lisa a micar-me. 

Fingi não ter reparado, não tossi, não mugi, não perguntei nada. Aquele mistério haveria de se desvendar. 

E, durante quinze dias, entre fases em que a minha sogra via reels e rezava em simultâneo porque o multitasking a assiste, a porra da senhora estava em todo o lado: na cozinha, na sala, na casa de banho social, na minha casa de banho, no bolso da minha sogra, na mala da minha sogra, no parapeito da janela da sala, em cima da escrivaninha, no quarto da Ana, quase que podia jurar que a cheguei a ver dentro do microondas. Everywhere. A fitar-me, a micar-me, a stalkar-me. 

Acabaram as férias de Natal e a minha sogra voltou para a terra. 

Não sei como vos dizer que sinto um certo vazio face ao seu desaparecimento. Mas depois lembro-me que ela era exactamente assim:


Não é medo: é respeito. 

Mentira: é medo mesmo, caredo!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Updates #Mámen

 


Continua a viver comigo e a resistir, de forma estóica, aos mil acidentes domésticos que lhe provoco. Tipo no primeiro dia do ano, o dia em que lhe pedi ajuda para me ligar o carregador do computador à tomada e quando veio ao de cima deu uma cabeçada épica na poleia do candeeiro de parede e quando vimos estava com a testa com um lenho que não parava de deitar sangue. "Queres ir ao hospital? Desculpa! Desculpa!"- eu aflita. 
"Estou casado contigo há quase 20 anos: achas que não tenho sempre pontos de colar na caixa de primeiros socorros?"

Está benzinho, obrigada. 

domingo, 5 de janeiro de 2025

Updates # a minha mãe

Ontem a minha tia celebrou mais um aniversário e o jantar foi cá em casa. 

No final da noite, decidimos jogar um jogo que gostamos muito: cada um escreve um nome de um personagem famoso num post it e cola na testa da pessoa sentada ao seu lado. 

Depois, um a um, vamos fazendo perguntas fechadas (ou seja, cuja resposta possa ser apenas "sim" ou "não") até descobrirmos "quem somos".

Primeira rodada, antes mesmo do jogo começar, a minha mãe agarra muito discretamente no telemóvel, como quem vai ver se caiu alguma mensagem, ouve-se um click do obturador da câmara, pousa o telemóvel, com a maior cara de pau. 

Eu, que a topo a léguas, percebo tudo: tirou uma selfie para descobrir o nome que tinha escrito no post it na testa para ganhar logo à primeira, e todos a admirarmos pela profunda perspicácia. 

Está igualzinha, obrigada. 

quinta-feira, 28 de abril de 2022

Consulta de cessação tabágica da minha mãe

 

A consulta era às três da tarde.
Mandaram-na estar aqui meia hora antes.
Passaram duas horas e meia, são cinco da tarde e ainda não a chamaram.

Eu já apostei com ela que há câmaras ocultas e estão a pôr à prova a capacidade dela não puxar de um cigarrinho...

segunda-feira, 11 de abril de 2022

Fátima

 

Tenho uma relação atribulada com a religião.
Cheguei, aos 41, a um compromisso: tudo o que nos faz sentir bem, acrescenta. Haja ou não racionalidade ou ciência, factos ou evidências: a fé é que nos salva sempre. E a fé pode ter diferentes metamorfoses: podemos ter fé no universo, num Deus, em várias entidades ou nas fadas e nos unicórnios, como a Ana. E tudo é válido, tudo é certo, desde que nos faça sentir bem, desde que nos faça sentir melhor.

A última vez que vim a Fátima com o meu avô, num Citroen AX a cair de podre, com o Rui a fazer a transferência dele para a cadeira de rodas praticamente de bruços, o meu avô chorou como se fosse um menino pequeno. Que era a última vez que cá viria e que, por isso, se queria demorar. Queria ter um lenço e dizer adeus à imagem de Nossa Senhora de Fátima. Queria cantar baixinho, e já sem força nos músculos oro-faciais, o avé Maria. "Ai que parvoíce, avô: claro que voltamos! Que disparate!". Era o que eu desejava, que o tempo de vida do meu avô fosse infinito e que pudessemos voltar sempre. Todas as vezes que nos apetecesse, comigo mais velha, num carro menos rasca, com mais conforto. Mas ambos sabíamos que aquela seria mesmo a última vez e, por isso, dessa vez demorámos todo o tempo do mundo, queimámos velas e ficámos muito tempo a vê-las arder, acenámos com um lenço branco ao passar da imagem e cantámos juntos e baixinho que "apareceu brilhando, a virgem Maria".

Não sei se apareceu ou não. Ao meu avô fez bem, acrescentou.

Quando aqui volto, desde então, venho sempre- sem excepção - ao encontro do meu avô.
Hoje vim agradecer bênçãos: a minha mãe, o novo desafio. Numa semana subi do Inferno ao Céu e não sei que intervenção divina foi esta mas tenho que agradecer: à virgem, ao meu avô, aos meus mortos que mantêm a sua energia sobre mim e me protegem. É esta a minha fé.

A Ana agradeceu a saúde da minha mãe, as boas notas e pediu proteção para os avós dos Açores.
Serena-me saber que ela tem fé e acredita que não está tudo sobre o controlo dela, que há alguma ordem no Universo e que coisas boas podem acontecer a pessoas boas.

Que ela aqui encontre, sempre, de quem vier ao encontro como eu hoje, mais uma vez, nas minhas preces, encontrei o meu avô e tive a certeza de que aquela não foi, nem nunca poderia ser, a última vez que ele aqui viria.

Ele está sempre aqui.

sábado, 19 de março de 2022

Como vive uma criança sem pai?

 

Como vive uma criança sem pai? Pergunto-me muitas vezes, olhando para os outros que conheço sem pai, mas olhando especialmente para dentro.
Eu tinha um pai. Era divertido, presente, falador e extrovertido, brincalhão mas, acima de tudo, era o meu. Um dia ele foi embora e eu fiquei com um espaço vazio para sempre.
Cresce-se sem pai. Sobrevive-se sem pai. Aprende-se sem pai. Até se pode ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo.
Mas cresce-se a pensar que não se é importante o suficiente para o pai ter escolhido ficar. Sobrevive-se a pensar que um dia talvez se consiga compreender o porquê, se consiga explicar como aconteceu, entender razões, não ser culpa nossa que os adultos confundissem conjugalidade com parentalidade, atirar as culpas para quem escolheu não nos escolher; sobrevive-se a tentar preencher esse espaço vazio com outras figuras de referência, a mãe que também é pai mas que nunca consegue ser, coitada, é um puzzle e o formato dela não encaixa naquele buraco, o avô que até é homem mas que nunca consegue ser pai por ternura a mais, gap geracional, os avôs nunca conseguem ser os mais fortes. E aprende-se que esse espaço vazio nunca se preenche porque é uma amputação no crescimento e tudo o resto são próteses para a alma, e a alma aprende a andar mas o campeonato é outro, não é a mesma velocidade, a mesma estrutura emocional, não é a mesma certeza de amor inabalável. Não se cura. Não se preenche. Não se substitui.
Aprende-se a ser feliz sem pai. Estou aqui a comprová-lo. Sou uma pessoa feliz, contente com quem é e com o modo como a vida vai correndo.
Quando os vejo - Rui e Ana- percebo o bom que deve ser esse amor que vocês falam, os posts com as fotografias dos vossos pais no dia do Pai, essa estrutura firme e rochosa do amor entre pais e filhos (ah, e filhas ..) e fico com pena.
Não apenas de não viver isso igual mas com muita pena do meu pai ter escolhido que não queria viver isso comigo. Não foi só ele que perdeu. Fomos os dois.
Mas eu ganhei a minha mãe que também foi pai, o meu avô, os meus tios. E agora o Rui. Foram todos eles que me ensinaram a ser feliz, querida, amada, importada e importante mesmo sem pai. O amor regenera.
Obrigada.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2022

"Sonhos que sonhei: onde estão?" Aqui.

Em Agosto quando fomos à Eurodisney a Ana atirou uma moeda para o poço de desejos na caverna dos piratas. Eu ouvi ela a desejar baixinho, de olhos fechados, enquanto a atirava: quero voltar aqui com toda a minha família.


A minha mãe e a minha tia fazem tudo pela Ana desde o dia em que ela nasceu. Apanham-na na escola, levam-na a lanchar, ficam com ela até regressarmos de Lisboa e chegamos sempre antes de jantar, às vezes dao-lhe elas o jantar e adiantam o banho, vão às compras com ela, a passear, a fazer aventuras na natureza (aqui é a minha mãe!), Se ficamos até tarde em projetos pós laborais, reuniões, formações, lá estão elas sempre a dar suporte. E isto tudo sem nunca se queixarem, felizes por estarem com a Ana, gratas por a poderem acompanhar. E nas férias ainda ma raptam para praia, campismo, piscina e dão-lhe os melhores Verões da infância.


Partilham o dia-a-dia, todos os dias, desde há dez anos, com a Ana. Era normal que a Ana quisesse retribuir. Porque se trata de gratidão, este desejo da Ana.


Há seis meses que fazemos mealheiro: a Ana guardou todas as notas e moedas do Pão por Deus, do Natal, da venda dos seus macramés aos amigos e vizinhos, da venda no OLX de livros, brinquedos e roupa usados, eu das formações que dei fora de horas, o Rui das aguarelas que tem pintado timidamente.


Neste fim-de-semana o sonho da Ana tornou-se magicamente real.


A lâmpada do Aladino funciona mesmo. Fomos mesmo, mesmo felizes.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada

 A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada.

Fiquei a consumir-me desde então porque não lhe tinha escrito nada. Não gosto de estar em falta com a minha mãe.

Estava doente nesse dia. Uma infecção urinária que não passa. Mas fui deixar a Ana à escola e passei no supermercado para comprar coisas para fazer o jantar para a família, na minha casa. E depois fui à fábrica de bolos e comprei o melhor bolo de amêndoa e chantilly do mundo, com raspas de chocolate por cima. E passei no shopping para lhe comprar um presente. No espaço de uma hora, sempre a correr. Trabalhei toda a manhã e tinha febre. Na minha hora de almoço dei uma geral na casa, para que ao jantar estivesse tudo apresentável. Arrastei-me a fazer isto. E voltei a trabalhar até ao fim da tarde. Acabei o trabalho e pus a mesa bonita. Fiz bacalhau espiritual, leite creme e preparei todo o jantar. Encomendei picanha e fomos buscá-la ao restaurante.

Chegou a minha mãe com a Ana e a seguir toda a família. Foi um jantar tão bom, que quase me esqueci da febre, da infecção urinária e do cansaço extremo.

Depois ao deitar-me percebi que não lhe tinha escrito nada bonito. A minha mãe gosta de palavras bonitas, eu bem sei. E merece todas as do Mundo, porque é a mulher mais valente e inteira que eu conheço.
A minha mãe fez anos e eu não lhe escrevi nada. Na sala ainda há restos do seu aniversário, incluindo o quadro de luz que a Ana lhe preparou.

A minha mãe gosta de palavras bonitas mas ensinou-me que as palavras valem pouco quando não são acompanhadas por gestos de bem querer. Acho que estarei perdoada.
Eu tenho a minha mãe e a Ana tem-me a mim: todo o amor entre mães e filhas é por aglutinação. Não poderia ter melhor. Acho que mereço esta mãe, a minha mãe, apesar de não ter escrito palavras mas lhe ter dedicado todo o meu dia, mesmo sem estar ao seu lado.

Amar é sempre cuidar e querer bem.

Talvez as palavras estejam sobrevalorizadas.

Fico a dever-te um poema, mãe mas tenho troco, gorgeta e juros no amor infinito que sinto por ti. No bem querer.

Parabéns. Também a mim que te tenho só para mim.

terça-feira, 4 de janeiro de 2022

Parabéns tia Cinda!

 É por sua causa que começamos o ano sempre em festa. Foi a última dia meus tios a nascer mas foi sempre a primeira tia a chegar em todos os momentos da minha vida. É aparentemente serena mas interiormente ansiosa mas tem o condão de fazer com que nós achemos que tem sempre tudo sobre controlo. Na verdade, tem.

É como uma segunda mãe para mim e sempre que imagino como deve ser ter uma irmã tenho como referência a relação dela com a minha mãe. É uma segunda avó para a Ana, que não podia ser mais cúmplice dela, mais compatível, mais tudo. É a Titocas da Ana, a minha tia Cinda.

É doutorada em comida pré feita nos corredores dos hipermercados mas é a melhor costureira do Mundo. Quando era pequena preparava-me sempre banhos de espuma com gel da Avon e deixava-me ficar na banheira até ter as mãos engelhadas. Deixava-me comer delícias do mar directamente do congelador e fazia a melhor salada russa do Mundo, inundada de maionese. Na adolescência encobriu-me namoros e curtes em Monte Gordo e tem o condão do chantilly dela nunca falhar. Deu-me a minha prima, aos nove anos e meio, que foi a melhor coisa que me podia ter dado.

Adora dióspiros, lia livros de cordel quando éramos as duas miúdas, afinal só temos 18 anos de diferença, desenhava-me umas bonecas que eu adorava mas que deixariam Picasso às voltas na tumba, dava-me sempre a mão quando dormíamos juntas, até eu adormecer. Mesmo que ficasse com as mãos dormentes.
Na verdade nunca deixou de dar.

Há um ano não lhe pudemos cantar os parabéns e tivemos medo de nunca mais o podermos fazer.
Mas este ano, aos sessenta acabadinhos de estrear, cá está forte, gira e plena. Ela diz que teve sorte mas a sorte foi toda nossa!

Parabéns, minha tia!

sábado, 18 de dezembro de 2021

Electra



Os avós tinham chegado dos Açores, depois de uma distância de dois anos. A avó fala com ela muitas vezes por semana- num esforço que me enternece- para alimentar a relação, para acompanhar o crescimento da neta. Faço questão da Ana ligar de volta, contar sobre os seus dias, alegrias e inquietações. Sei a importância que os avós podem ter na vida dos netos, os meus continuam, depois de mortos, a orientar-me o caminho.
A minha mãe é a maior: ninguém a bate, ninguém está à sua altura nesta tarefa. A Ana diz sempre que é a avó aventureira e isso diz tudo sobre a relação delas, cheias de aventuras e afectos, riscos e segurança.
O meu pai não conhece a Ana, por desamor, incapacidade de se vincular.
Mas estes avós vivem longe, o caminho não se faz por estrada nem cacilheiro nem comboio nem bicicleta.
A avó liga várias vezes por semana, dizia eu, mas o avô nem por isso. Talvez por essa razão, estávamos curiosos para perceber como iriam interagir, a Ana e este avô distante e menos presente.
A meio da semana a avó perguntou insegura: "Gostas mais de mim ou do avô?" A Ana, colocada injustamente naquela posição frágil, não hesitou: "Do avô." E rematou " tens que perceber que estou a descobrir como é ter um avô e é alegre e divertido!".
Depois, foram até à feira de Natal e a Ana agarrou as mãos de dois dos homens da sua vida e pediu que atirassem ao alvo para lhe conseguirem um peluche gigante. Vibrou, torceu e no fim não ganhou o peluche.
A pontaria era má mas eles não sonham como é certeiro o sentido de orientação que estão a deixar na Ana, amada, querida, importada. A vinculação, o sentido de pertença e até a cena freudiana são mais valiosos que qualquer peluche gigante. E nunca ganham pó, por mais tempo que passe.
Ganha-se sempre no jogo do amor.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

Com força e baixinho

 


Quando o avô morreu eu entrei na sala e tu choravas baixinho. Quando me viste choraste mais, com mais força, mas simultaneamente mais baixinho, e tapaste o rosto com aos mãos como se tivesses vergonha da fragilidade, embaraço da vulnerabilidade. Tinhas sido sempre crescida, durante toda a minha vida, era a primeira vez que te via pequenina, com as mãos a tapar os olhos verde azeitona, verde louro, verde teus avó, como uma criança que esconde a cara com o bibe quando fica assustada e tem medo do Mundo.

Eu também tive medo, avó, desse Mundo que veio depois do avô e que nunca mais foi o mesmo e também chorei baixinho e com força, acho que foi contigo que aprendi a chorar sem histerias, baixinho e com força, como quando tinha muitas dores e, já adultas - as duas- tu vinhas para a minha cama e te deitavas ao meu lado a embalar-me para me adormeceres a dor.

Naquele dia o avô morreu e tu não quiseste ir ao velório, nem ao funeral e ninguém percebeu porquê. Ficaste em casa a fazer comida, e tu mal conseguias fazer comida, a mão que me embalava tinha sido silenciada pelo AVC, continuava porém a fazer comida e a embalar-me, no Minho as mulheres alimentam os vivos que choram os mortos.

E nunca mais abriste a porta do teu quarto e do avô, já não havia vocês os dois, só a porta fechada, como o Mundo fechado ficou e talvez, por isso mesmo, tu tapavas o rosto como uma criança com medo tapa a cara com a fralda do bibe. Três anos depois adormeceste na sala, olhos verde louro fechados, nunca mais tinhas entrado no quarto, fizeste comida até à última refeição, a mão com o AVC, e dessa vez não acordaste, assim com força e baixinho partiste, talvez para ires fazer comida para o avô que te esperava, botas de borracha e sorriso com dentes tortos.

E eu fiquei, e deixaste-me a Ana na barriga, segredo que só descobri dias depois, para poder ter quem embalar, para me abrir as portas do teu quarto e do Mundo, para usar bibes sem tapar o rosto, para poder continuar a chamar Ana como te chamava a ti, vó Ana, para me deitar ao seu lado hoje, ela já dorme, e embalá-la, com força e baixinho, para ver se adormeço a saudade que, agora crescida, trago em mim.

Amanha faço comida eu.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Apartas o cabelo ao meio

"Apartas o cabelo ao meio, agarras um pedaço de cada vez e penteias devagar. Depois das duas partes penteadas, juntas tudo e penteias por inteiro, de uma só vez". Sempre que me vejo em frente do espelho da casa de banho, a pentear o cabelo, sempre sem excepção, oiço a voz da minha avó nesta ladainha: "apartas o cabelo ao meio...".

Eu era adolescente e as hormonas tinham tomado conta do meu cabelo, outrora liso, agora cheio de jeitos e rebelde, muito fino e muito basto, sempre a enriçar e a fazer nós. Às vezes pensava em cortá-lo para me poupar ao trabalho de o desembaraçar todas as manhãs, enervava-me, irritava-me, apetecia-me escová-lo à bruta, partir os nós e o cabelo com ele mas depois a voz, paciente, da minha avó: " apartas o cabelo ao meio...".

A minha avó sempre me pediu que não cortasse o cabelo e sempre que eu desesperava em frente do espelho vinha por trás e tirava-me a escova da mão impaciente e começava a pentear-me: "apartas o cabelo ao meio".

Um dia, era eu universitária e numa manhã de bad hair matinal a minha avó penteava-me, sem pressa e dizia-me a ladainha "apartas o cabelo ao meio..." e eu sorri e atirei "esse conselho dos cabelos aplica-se a todos os problemas, 'vó: temos sempre que os apartar e desembaraçar aos poucos, pedaço a pedaço e depois, com tudo com menos nós e embaraços, dar uma escovadela final, né?" E a minha avó riu e disse "nos cabelos e na bida, tem que ser sempre assim: apartar sempre ao meio, agarrar um pedaço de cada vez e desembaraçar cada pedaço para depois juntar tudo e passar uma escovadela no fim e ficar tudo certinho".

Tenho saudades das mãos da minha avó na escova, da escova no cabelo, da expressão "apartar" e da vida ser dita com "b" de bela e de boa. E talvez seja por isso que eu nunca corto o cabelo: para nunca me esquecer como se resolvem os problemas na vida ou talvez apenas para, sempre que me olho ao espelho, nunca deixar de ouvir a voz da minha avó pela manhã. 

sexta-feira, 14 de agosto de 2020

Férias nas Caldas # III acto

“Tu explicas-me sempre as coisas, mãe! Explica-me porquê? Tu dizes sempre que “não” não é resposta. Então porquê?!” 

Porque não, Ana. 


“Mas porque é que não podemos levar chupas de pilinhas de presente para a avó e a tia? Porquê?” ...

quinta-feira, 26 de março de 2020

O meu nome é Pólo Norte e sou vítima de cozinho-bullying

Mámen e Ana voluntariam-se, muito diligentes e solícitos, para fazer o jantar (idiotas!).

Ouço-os aos risinhos na cozinha.

Abeiro-me e a Ana pergunta-me, muito séria: "Sabes qual foi o último filme de terror que eu e o pai vimos, mamã?"

Aceno que não.

Responde-me com ar de gozo: "Chovem almôndegas!"



Estão há vinte minutos a rirem-se da minha cara.

terça-feira, 24 de março de 2020

Quem não tem cão, caça com unicórnio

Mamen não sabe onde meteu a embalagem e começa à procura de uma máscara para sair à rua. 

 Sugestão da Ana, muito séria e solicita : “se não encontrares podes usar a minha máscara de unicórnio..."


Relembro:




domingo, 18 de agosto de 2019

Road trip - dia 3 e 4 (Sevilha)



De Sevilha muitas aprendizagens pela primeira vez: aprender que os adultos também precisam de colo e o importante que foi dormirmos os três naquela noite em que recebemos a notícia triste da partida da tia Ascensão, aprender que a tristeza pode ficar aninhada a um canto da alma e a vida prosseguir e sem culpas, sem cobranças sem remorsos porque a vida é de quem a vive, aprender que poucas coisas fazem mais feliz uma criança que lhe permitirmos experimentar ser quem quer ser mesmo que para isso baste um vestido às bolas, um leque e uns sapatos de salto, aprender que a fantasia não pode ficar refém do Carnaval e que o jogo simbólico é das aquisições mais mágicas da infância, aprender que basta passar uma fronteira para ser normal partilhar comida do mesmo prato e que as tapas não são apenas comida mas especialmente amor partilhado, aprender que remar de barco parece fácil mas que só lhe sobrevivemos com bom ritmo, inteligência, estratégia e trabalho em equipa como afinal acontece com quase tudo na vida, aprender que viajar em família só tem sentido se respeitarmos os gostos, vontades, desejos, ritmos e características de cada um e que ceder para ver o outro feliz não é chato mas apenas uma oportunidade de dele ficarmos mais próximo, aprender que as melhores viagens não têm horários nem rotinas e que férias são para se irem vivendo devagarinho e sem planos, enganando-nos no caminho para nos surpreendermos com a surpresa do desconhecido e do jamais planeado. 

 De Sevilha aprendemos que os três somos os melhores companheiros de viagem uns dos outros, a dizer “olé” acentuando na tónica certa e que abanicos de 3 euros podem fazer-nos ainda mais felizes.

Óle.

domingo, 21 de julho de 2019

Tenho que dar um nome à minha bicla



Pedalei com mais força e deixei a Ana para trás, certa que o pai lhe deitava um olho. 

Deixei de os ouvir, ganhei balanço, passei por cima de calhaus grandes e achei que ia cair umas duas ou três vezes. Não parei. A regra foi-me ensinada no Alcoitão, de cada vez que fazia uma cirurgia ortopédica e lá ficava para reabilitação para reaprender a andar: ganha-se balanço e segue-se em frente, nunca se pára com medo de cair, é a coragem do balanço e a determinação de avançar que faz que não se caia. 

Se se cair, paciência, a voz da Dra. Beatriz : “se cair, levanta-se, ora essa. Levanta-se, ganha balanço e põe-se a andar”. 

De repente, fecho os olhos e continuo a pedalar: o vento na minha cara, a velocidade do ar contra o meu corpo a furar o espaço e a memória do meu avô que punha molas nas “perneiras” das calças para elas não se emaranharem na corrente da bicicleta velha e eu atrás à boleia, com a mochila às costas a caminho do liceu. 

O meu avô nunca me deixava ao portão, achava que eu tinha vergonha de ir na boleia da bicicleta velha guiada por um velho com molas a prenderem as calças e houve uma altura em que era capaz de ter, naquela altura em que todas as adolescentes querem ser cool, mas depois eu cresci e um dia, já no secundário, perguntei-lhe se me deixava mesmo ao portão, ele parou e olhou para trás “não tens vergonha que os teus amigos gozem contigo?” E eu disse que não, que tinha orgulho que ele me levasse na sua bicicleta porque me queria poupar as pernas e os pés fracos e sempre cansados mais o peso da mochila e o meu avô fez como eu no Alcoitao e tomou balanço e avançou, pedalando com muita força, e eu fechei os olhos e senti-me como hoje, e se caísse tudo bem, ele estava lá para me levantar. 

Hoje não está mas eu já não tenho medo e sei que se sacode as mãos, ganha-se balanço e avança-se. 

Nunca há outra opção senão avançar.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

21 de Junho: solestício de Verão



Ando a escrever um livro para a Ana, avô. ´

Já vai com muitas páginas e conta as histórias da nossa família para ela um dia ter certeza de que sangue e fibra é feita, de onde vem (de onde “bem”), que histórias a trouxeram até ao meu ventre, que adn moldou o seu carácter, espírito, coração.

 Reparei que muitas pessoas de cujas histórias lhe relato chegaram até mim em farrapos de momentos e cujas histórias de vida lhe resumo num parágrafo, dois se tanto. A tia Isaura que morreu com uma apendicite e que foi enterrada vestida de noiva de véu e flor de laranjeira depois do namorado confirmar que morria virgem e imaculada. A tia Maria que escondeu uma gravidez concebida no meio do milho e que foi mãe solteira para vergonha de toda a gente, sem nunca mais ter conhecido outro homem que não o cretino pai da filha que nunca a perfilhou. A tua mãe, minha bisavó Ana, que morreu queimada porque teve uma crise de epilepsia enquanto se aquecia à lareira. 

Decoramos e transmitimos de geração em geração as pessoas assim: por acontecimentos invulgares ou excepcionais, por feitos não normativos. Nunca resultam em mais de um parágrafo. 

No entanto, a ti avô, dedico várias páginas deste livro e tu eras tão normativo e previsível, tão certinho e normal e ainda assim o homem mais importante da minha história, luz e calor, referência securizante e óbvia, solstício de Verão na minha vida. 

A tua vida e o verão com que iluminou as nossas davam um livro cheio de amor, ternura, dedicação e bondade. Hoje fazes 89 anos. 

Continuas a fazer enquanto não fores apenas um parágrafo resumido na história dos teus descendentes futuros. F

azes 89 anos porque não és passado em mim, nunca me passarás, querido avô, presente de presença e presente de prenda, presente ao quadrado para sempre em mim. 

Parabéns!
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