Há dois meses eu acreditava que os melhores cheiros do Mundo eram o da canela, o da erva acabada de cortar, chá verde com menta, o do pão acabado de cozer em forno de lenha, o da maresia em dias de maré alta, o cheiro da terra molhada após as primeiras chuvas depois do Verão, mexidos acabados de fazer na véspera de Natal, o cheiro das páginas dos livros novinhos em folha prontos a serem estreados no início de um ano lectivo, colónia fresca na pele barbeada do meu avô.
Há dois meses atrás eu acreditava que os melhores sabores eram o de água fresca, fruta quente roubada directamente da árvores do quintal dos vizinhos, amoras acabadas de colher, salada de pimentos assada a acompanhar peixe regado com molho à espanhola, uma bola de Berlim comida no areal, pão com manteiga aquecido no bico do fogão,o do sal que fica na pele após um mergulho no mar, uma colher de leite condensado num assalto ao frigorífico durante uma insónia.
Há dois meses atrás eu acreditava que não havia som mais bonito que a da chuva a bater nas vidraças, o do piano do Jorge Palma, o da trovoada enquanto estamos deitados na cama, o da gaita de beiços do amolador de facas, o das gargalhadas em coro com amigos da nossa vida, o da pronúncia minhota, o da madeira a crepitar na lareira e o do mar a bater com força nas rochas.
Há dois meses atrás não havia, para mim, toque mais prazenteiro que o de uma camisa de seda no peito desnudado, o da água do chuveiro a bater-me com força na pele após um dia cansativo, o da língua de quem se ama a mordiscar-nos a parte de trás da orelha, cafuné bem feito numa noite de Inverno, o da pele das pernas depiladas a tocar nos lençóis lavados e esticados numa cama onde nos acabámos de deitar.
Há dois meses atrás as imagens mais bonitas eram a luz de Lisboa quando se chega de cacilheiro, os olhos verde azeitona da minha avó, as fotografias do passado nos álbuns, o do céu numa noite de lua cheia, o de o relógio de corda da casa dos meus avós, as pestanas de mámen, um gato a dormitar em cima do telhado, a baía de Cascais quando se desce a pé da Cidadela, o horizonte no Cabo da Roca, o musgo nos muros de Sintra.
Há dois meses atrás tu vieste mudar tudo isto. Há dois meses atrás percebi que não há melhor cheiro que o da tua pele acabada de tomar banho. Não há sabor melhor que o da tua bochecha acabada de beijar de mansinho. Não há som mais harmonioso que o do teu respirar fundo e tranquilo quando me adormeces ao colo. Não há sensação táctil mais prazenteira que o toque do teu cabelo, fino e suave, cor de mel. Nem imagem mais bonita que a do teu rosto, desde o dia em que o teu Mundo começou em mim.
Há dois meses atrás descobriste as melhores sinestesias da minha vida. E o ponto g do meu amor.