Aprendi a fazer malha tinha para aí 10 anos. Os meus pais tinham-se separado e a minha mãe comprava novelos e novelos de lã e tricotava desenfreadamente à velocidade da luz, chegando a fazer uma camisola de um dia para o outro.
Acho, agora, que o fazia para sentir que conseguia construir algo, levar uma tarefa com sucesso do princípio ao fim, ver um projecto real e concreto, exibido numa miúda catita, como se eu e as camisolas fossem a sua única compensação, criações bem sucedidas, face á frustração de uma relação recém terminada.
E, na tentativa de acompanhar a minha mãe, na sua ânsia de criar e face à impossibilidade que o nosso fosso etário me deixava para a acompanhar no seu período de tristeza, decidi aprender a fazer malha.
Compradas as agulhas, os novelos, a tarefa não era difícil: enrolava os dedos na agulha, puxava o fio enrolado em torno do pescoço e voilá, lá fazia laçada atrás de laçada. A minha mãe ajudava-me sempre a fazer o cós e a terminar a gola e os punhos, mas o corpo da camisola eu conseguia fazer seguidinho, ininterruptamente.
E embora as camisolas fossem em pequena escala (serviam ás bonecas) eu acompanhava a minha mãe e sentia-me entretida e feliz em criar e em ver os resultados do meu trabalho.
Constato, agora, que nunca cheguei a aprender a começar o cós nem a terminar as golas e os punhos. Talvez para compensar a forma como crio relações em que faço, exactamente, ao contrário: óptima a começar, péssima a continuar e a alimentar e ainda melhor a finalizar.
A Psicologia explicará.