Tirei a manhã para mim. Tinha escrito que não fosse a necessidade de domar de vez o meu cabelo, encontrar um novo emprego que me faça feliz, comprar uma máquina fotográfica nova e andar de balão arriscaria a dizer que a vida, até, não me corre nada, mas mesmo nada mal.Comecei pelo mais fácil: fui fazer um alisamento marroquino.
Dei por mim em silencio durante três longas horas e meia enquanto, madeixa a madeixa, me impregnavam um químico no cabelo e depois, novamente, madeixa a madeixa, me pranchavam o mesmo. A vida ali, em perspectiva, no espelho de um cabeleireiro kitch.
Sou uma mulher. Na primeira manhâ dos meus 33 anos percebi que não me posso esconder. Posso ter cara de miúda, humor duvidoso de adolescente mas a vida fez de mim uma mulher. Cresci à força de não pensar muito nesse crescimento. O tempo, efectivamente, passou. Não sou uma senhora, ser uma senhora deve ser muito chato, mas sou uma mulher. Gosto do que vejo reflectivo no espelho, da pessoa em que me tornei.
A minha vida já foi como o meu cabelo: eriçava-se muito facilmente. Por mais que a penteasse com as mãos, por mais que insistisse com escovas diversas, a estúpida criava nós nas pontas e, depois, de repente, já estava todo embaraçada, às vezes, um ninho de ratos.
Durante muito tempo, na vida como nos cabelos, fui resistente a cortar os nós, tinha medo do cabelo mais curto, de outra moldura para o rosto, de perder a minha identidade, de mudar tanto que depois não me reconhecesse no espelho. Nessas alturas, agarrava na prancha, altas temperaturas e fazia o tratamento de choque, alisava a minha vida, como o meu cabelo, à força e à velocidade da energia. Do calor.
Aos 33 anos, aceito cortar as pontas, sem grandes lamentos. Corto tudo o que pode provocar nós e dificuldade em desembaraçar. Anseio pelo ar saudável, pescoço mais fresco, sentimento de leveza.
Aos 33 anos sei o que quero da vida, sem grandes tentativas nem erros, atitudes assertivas e sem medo do compromisso, do irreversível, pelo menos a médio prazo. O alisamento marroquino dura mais ou menos 4 meses. E o cabelo, como a vida, está, exactamente, da forma que eu quero e gosto.
Estou mesmo contente. É que o cabelo é uma coisa muito importante para uma mulher.
8 comentários:
Oh Pólo, um dia hei-de ler um livro teu com os teus desabafos! Olha que este blogue dava um bem giro e que eu compraria! :)
! :D Queremos ver !
Gostei da analogia! :P
Kiss grande!
Gostei muito, Pólo!
Quero ver esse extreme makeover! :)
Amanhã vais ao lançamento do livro da Catarina? Eu vou!
Bela metáfora. Por vezes, a vida é mesmo como o cabelo. Ou como os sapatos de uma mulher.
O cabelo é das coisas mais importantes para uma mulher! Pode parecer estúpido, mas se o meu cabelo não estiver bem, fico sempre ali com algo a incomodar-me durante o dia e acredita que as coisas não correm tão bem. Parvoíces de uma Bomboca.
Com três horas de alisamento progressivo, dá mesmo para pensar na vida!!!
Belo!
Please please pleaseeee write a book :)
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